Aguirre e a cólera dos deuses. Ou a guerra santa da imprensa

quinta-feira, 10 fevereiro 2011 § Deixe um comentário

É comum ouvir “pessoas comuns” afirmarem que jornalistas se sentem os reis da cocada preta. Dizem as más línguas que se jornalista pudesse se fazer de polícia sairia por aí prendendo gente por desacato à autoridade. Há muitos jornalistas (muitos mesmo) que não suportam ser contrariados e, embora não se fale mais isso com a freqüência de antes, a maioria ainda acha que é o quarto poder.

As reações à demissão do competente jornalista Aguirre Peixoto ajuda a ver que ainda há jornalistas que se sentem e agem como se fossem a ouvidoria da humanidade; continua em voga para muita gente que a categoria que faz a imprensa é imune às regras que são comuns a outros mortais. Com ou contra a virtuosa imprensa, leia-se jornalistas – não pode.

Não conheço pessoalmente o jornalista Aguirre Peixoto, mas acompanhei seu trabalho e acho que, se fossem minhas aquelas pautas, as faria do mesmo jeito, embora sem aquele brilhante texto. Sou dos que creem que a empresa o demitiu injustamente, porque quase sempre é assim: o interesse do patrão se sobrepondo rudemente ao interesse e às necessidades pessoais do empregado.

Muitos já foram demitidos de A Tarde e de outras empresas. Algumas dessas demissões carregadas de injustiça e até crueldade. Conheço casos recentes e antigos, mas poucos permitiram qualquer teoria conspiratória e nem os atingidos se consideraram Davis precisando derrubar Golias.  Pois é isso o que está me parecendo a reação, especialmente de jornalistas e intelectuais da capital, contra o jornal que, durante muitos anos, foi a única alternativa de confronto a um esquema em que um único político era dono ou controlava todos os meios de comunicação da Bahia.

História de A Tarde é atenuante

A Tarde fez enfrentamentos dos quais devem se lembrar – mesmo que não reconheçam – os mais empedernidos entre aqueles que, eventualmente, hoje combatam o jornal/a empresa pela afronta cometida contra a categoria, ao demitir Aguirre. A história de A Tarde é atenuante. A Tarde não é apenas um patrimônio da nossa cultura e da história da imprensa baiana, é um suporte para o combalido mercado e é – e será durante muito tempo – abrigo para novos jornalistas e fonte de emprego e renda para muitos profissionais.

Li o artigo de Armando Avena que tratou do episódio em termos parecidos com o que fiz no parágrafo anterior e, por sensatez e no exercício do meu direito de manifestação, concordo em essência com ele. Insisto que não concordaria jamais com a demissão de Aguirre nos termos e pela razão tornada pública, ou seja, sem qualquer razão justificável, ao contrário, por um motivo condenável.

Não conheço Bocayuva, nunca vi Renato Simões além de fotos e imagino que para o atual Sylvio Simões o jornal, diante das vicissitudes que enfrenta, tenha se tornado maior que o jornalismo que um dia ele defendeu como jornalista e homem chegado à esquerda. Não defendo os donos de A Tarde e acho espúrio o que fizeram – o seria quem quer que fosse o demitido e em qualquer empresa – e, embora possa não parecer, eu defenderia Aguirre se de mim ele precisasse. Só acho que tudo isso, ainda que grave pelo que comporta de política e ética, está tendo uma reação desproporcional.

Demissão de Aguirre…

… defendida por Sylvio Simões…

… coloca credibilidade do centenário A Tarde no front.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Debate importante, episódio pontual

Ok. O sindicato ganhou uma chance de reviver o romantismo das negociações e de se rever importante como defensor da categoria e dos princípios do bom jornalismo; os jornalistas ganham uma oportunidade de obrigar a empresa a rever este e outros pontos de sua relação e nós outros, abrigados e alimentados pelas chamadas redes sociais, notadamente o Twitter, somos beneficiados por um bom debate e passamos a conhecer mais dessa poderosa mídia, das relações que a regem e de personagens de quem antes não sabíamos quase nada.

Mas, para mim, vendo de longe, apenas pelo que é permitido aos comuns do mundo aqui de fora saberem, o episódio é pontual e há, também, muito oportunismo – inclusive meu. Parece que todo jornalista “correto”, intelectuais, esquerdistas e nem tanto, aproveitam para protestar, questionando com virulência a credibilidade de A Tarde, que “cedeu à força das empresas da construção civil”, comentadas, batidas e tratadas por outros articulistas, como um monstro voraz que avança sobre a cidade sem respeito ao meio ambiente, aos seres humanos e à primária expressão da verdade contida, por exemplo, em matérias escritas por Aguirre Peixoto.

Se não bastasse ter sido mesmo feio e, digamos, tirânico o gesto da direção de A Tarde, protestar agora é cool, cult e dá cor e tom progressistas às manifestações solidárias, especialmente na grande rede. Quem for ler os protestos vai pensar que há apenas uma alternativa à recontratação do jornalista: acabar com o “império do mal” em que se transformou A Tarde, “apenas o segundo lugar no IVC”, “que vem perdendo anunciantes e receitas”, “que tem três sócios divergindo”, “que representa o pensamento conservador de uma família burguesa da Bahia”, etc. e que por isso, desesperado, cedeu ao charme da Salomé que seria o mercado da construção civil de Salvador – ou algumas empresas deste – e entregou na bandeja a cabeça do jornalista.

Não precisaria mesmo de maior motivo para ressuscitar o sindicalismo de protesto e fazer aflorar nos bons e jovens jornalistas da redação o instinto de defesa da liberdade de expressão e da boa imprensa – além de prevenir contra o corte de suas próprias cabeças no futuro, posto que parece ter passado a ser a regra naquele jornal a limitação do trabalho do jornalista em suas apurações, para que não contrarie os anunciantes e os donos. Pelo menos é o que posso entender do que está escrito por aí.

Toda a manifestação dos jornalistas é legítima. A solidariedade a Aguirre, naquilo que contiver de sinceridade e não apenas fachada e oportunismo, é mais que justa e obrigatória aos de bom-senso. Como é sensato e politicamente certo reclamar da punição excessiva a um profissional que apenas fez o seu trabalho de contar os fatos expondo a verdade contida neles. Mas, A Tarde nunca foi, não é e certamente não será somente isso. O próprio Aguirre sabe disso. E, se não souber ou não acreditar, como voltará ao emprego se for essa a reivindicação sindical, dos colegas e sua própria? Que pautas aceitará fazer? E o jornal, a empresa, em sendo verdade que não concordou com o produzido, vai lhe ditar como fazer nas próximas vezes para evitar que a tragédia se repita?

A questão é: como será no futuro?

Os dois lados vão abrir mão da arrogância? Os donos do jornal entenderão que jornalismo é apuração, denúncia e posicionamento critico e não balcão de negócios? E os jornalistas que fizeram uma carta aberta vão entender que não são os donos da verdade sempre e que atacar a Tribuna da Bahia em seu documento, como fizeram, é tão vil quanto os donos de A Tarde fizeram com Aguirre? Ou acham que o Correio da Bahia – hoje muito melhor em estilo, design e até conteúdo que A Tarde –, a Rede Bahia de Comunicação e as empresas de rádio comportam todo esse contingente de jornalistas do mercado da capital se a pequena e lutadora Tribuna e o histórico e ainda vigoroso A Tarde sucumbirem à caça às bruxas? Ser valente é bonito, ser corajoso é bom, ser sensato é compulsório.

Concordo com a jornalista Cíntia Kelly, que afirmou em seu twitter que não se trata apenas de uma discussão sobre a demissão de um repórter, mas do futuro do jornalismo que se pretende fazer. Vale não apenas para A Tarde. O modo de encarar denúncias pela imprensa na Bahia, mais notadamente aqui em Salvador, parece depender da “credibilidade” do denunciante; e há denúncias e denunciados com privilégios diferentes. Há mais sobre o que pensar, investigar, questionar, falar e escrever da área governamental, política, empresarial, policial, social, esportiva, etc.

Para mim, na condição de cidadão leitor-ouvinte-espectador, tem faltado coerência, constância e profundidade na cobertura e tratamento da mídia aos problemas do nosso estado e da nossa capital. Isso é mais que a demissão de um bom, simpático e competente jornalista de boa família e mais que a prisão de um picareta estelionatário que mexe na mesma seara, embora por motivação diferente e, esta sim, condenável. Talvez seja a hora de rever os motivos que acendem a nossa indignação, que provocam a ira de profissionais que, aqui e ali, se sentem deuses.

E encerro aqui, sabendo que muitos se voltarão contra mim. Aguardo os duros adjetivos e as comparações que me coloquem no meu devido lugar ou, quem sabe, ser condenado por desacato à autoridade. Mas, é o que penso e deu vontade de escrever. Puro oportunismo, mas, por que eu, logo eu, um polemista, me calaria?

——

* Escrevi como cidadão e blogueiro. Não reivindico igualdade com os bons jornalistas, embora esteja labutando nesta área há longos 33 anos, no espaço que me coube. O blog publicará todos os comentários, se ocorrerem, desde que não atinjam a honra de qualquer pessoa, principalmente a minha, óbvio. Se réplicas apontarem falhas no meu raciocínio ou mostrarem que eu cometo erro de julgamento ou coisa que o valha, não me constrangerei em fazer correções e assumir os erros comprovados. Pretendo ser um cidadão correto e um ser humano em evolução sempre. Obrigado.

About these ads

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

O que é isso?

Você está lendo no momento Aguirre e a cólera dos deuses. Ou a guerra santa da imprensa no Blog de Giorlando Lima.

Meta

%d blogueiros gostam disto: