Cidades

De Waldir a Pinheiro. Nisso não há trauma.

Eu preferia Waldir. Queria que ele voltasse a Brasília como senador, para encerrar à altura uma carreira política que sempre nos encheu de orgulho.  Waldir Pires é o mais antigo político baiano em atividade e deveria ser o mais respeitado. Waldir conhece a Bahia como poucos e como poucos é conhecido na Bahia. Sua trajetória começou em 1951, nomeado secretário no governo Régis Pacheco por indicação do jornalista e deputado Nelson Carneiro.

Eu fui o último jornalista a conversar com o ex-governador Régis Pacheco*. Em 1986 fiz algumas entrevistas com ele em seu apartamento da Graça e também no Hospital Espanhol, onde o ex-governador esteve internado antes de falecer. Régis me disse que ele não escolhera Waldir para a equipe, mas Nelson Carneiro, que declinou pois estava se mudado para o Rio de Janeiro, indicando para o seu lugar o jovem Waldir Pires, de apenas 24 anos.

A fala do ex-governador Régis Pacheco foi mais ou menos assim (recorro apenas à memória): “Eu não escolhi Waldir Pires para o meu governo, escolhi Nelson Carneiro, que já era um nome muito importante da política brasileira, mas Nelson havia decidido ficar no Rio de Janeiro, então ele indicou Waldir para o seu lugar. Waldir era um rapaz muito novo, que logo eu vi se tratar de pessoa competente e séria”.

QUASE GOVERNADOR AOS 35

Em 1962, Waldir foi candidato ao governo da Bahia pela primeira vez. Perdeu para Lomanto Júnior por uma diferença de 3%.  Já havia sido deputado estadual e deputado federal e logo depois, quando dava aulas de Direito na Universidade de Brasília, seria convidado pelo presidente João Goulart para o cargo de Consultor Geral da República. Quando ocorreu o golpe militar que depôs Jango, em 1964, Waldir foi um dos últimos a deixar o Palácio do Planalto. Teve que sair o Brasil no início de abril, partindo para um exílio que começou no Uruguai e terminou na França.

Waldir voltou ao Brasil em 1970 e se fixou no Rio de Janeiro, sem poder fazer política, mas em 1982 a Bahia voltou a vê-lo em atividade, muitas vezes discursando em pé sobre um banco de madeira numa feira-livre, ou sobre picapes emprestadas. Quando Waldir falava a praça silenciava e o ouvia com paixão. Sua primeira candidatura na volta à política foi para o Senado, apoiando Roberto Santos ao governo do estado. Me lembro de um comício na praça da Matriz em Jacobina, onde estava também Tancredo Neves. Waldir abriu a mão direita no ar e fez um belíssimo discurso usando os dedos da mão como referência para falar de igualdade, justiça e democracia.

Perdeu a sua primeira eleição para o Senado. Por uma razão muito simples, o voto era vinculado, o chamado voto “camarão” um dos muitos casuísmos impostos pela ditadura aos brasileiros. Quem votasse no governador teria que votar em todos os candidatos da chapa – de governador a vereador – do mesmo partido. Como João Durval, apoiado por Antonio Carlos Magalhães, estava muito forte, herdeiro da comoção pela morte de Clériston Andrade, foram beneficiados os que vinham na mesma chapa. O senador eleito foi Luis Viana Filho.

Um parênteses: na eleição de 1982, a primeira em que votei e a única geral do Brasil de minha geração, me lembro de um ato da maior decência do jornal A Tarde – algo que nunca mais se repetiu por aqui: o jornal fez editorial de primeira página explicitando suas razões para apoiar Roberto Santos, em vez de João Durval. Isso ainda se faz, por exemplo, nos Estados Unidos, a cada eleição. Aqui a mídia subestima o eleitor, disfarça preferências e, dissimulada, apoia um candidato tentando destruir o outro, de forma, muitas vezes, sub-reptícia.

A BAHIA COM WALDIR

Mas a Bahia que ouviu Waldir em 1982 o aclamaria governador em 1986, na eleição mais emocionante da história no estado. O candidato carlista foi massacrado com mais de 1,5 milhão de votos de frente.

Em 1989, no meio do mandato Waldir foi convocado pelo PMDB de Ulysses Guimarães, com apelos do próprio, para ser candidato a vice-presidente da República. Deixou o governo da Bahia com Nilo Coelho, que demonstrou, no decorrer do tempo, inaptidão para a gestão e completa ingratidão com Waldir e com a Bahia. Um governo desastroso se seguiu. Dono da mídia estadual e figura nacional proeminente, Antonio Carlos Magalhães conseguiu forjar o marketing da desistência,  criando o estigma de que Waldir abandonara o governo. A pecha, criada para prejudicar a trajetória desse grande político brasileiro, no entanto, não atrapalharia a sua eleição para a Câmara dos Deputados como a maior votação da história da Bahia, em 1990. Waldir era PDT, mas deixou o partido quando aquele se aliou a Collor.

Em 1994, Waldir tentou outra vez uma vaga no Senado. Concorreu com ACM, que foi o mais votado. Na disputa pela segunda vaga, ficou o registro de fraude que deu a vaga a Waldeck Ornelas.

Waldir foi para o PT em 1998, depois de ter sido o deputado federal mais votado da Bahia pelo PSDB, partido do qual veio a discordar pelas relações mantidas com o PFL e o carlismo. A ida de Waldir Pires para o Partido dos Trabalhadores, respeite-se a verdade, foi fundamental para restabelecer a sua importância para a política baiana e nacional.

À FRENTE COM LULA

Lula o chamou para o governo. Uma pasta da maior importância – a recém-criada Corregedoria Geral da União, responsável pela fiscalização e transparência no uso de recursos federais pelas prefeituras, um trabalho que ganhou prosseguimento com Jorge Hagge. Depois, Waldir foi ministro da Defesa. Honrado entrou e honrado saiu, embora sob uma saraivada de criticas à época da crise na aviação brasileira, alem de ter sido alvo da descortesia do PMDB de Nelson Jobim, incluindo bravatas do próprio, que assumiu em seu lugar.

Do episódio Waldir saiu abraçado pela Bahia. Foi recebido no aeroporto com carinho, homenageado em solenidades, desagravado em jantares e esperou até este ano, quando foi instado por um grupo do PT a aceitar uma pré-candidatura ao Senado.  Aos 83 anos, Waldir enfrentaria, provavelmente, a sua última jornada na política, em termos de disputa. E seria eleito, certamente. Um privilégio para a Bahia, um ato de justiça com um dos nomes mais importantes da política baiana e brasileira, um dos políticos mais honrados do Brasil.

Mas, a política é a política e não se faz de homenagens, mas de pragmatismo. Felizmente, a alternativa a Waldir era Walter Pinheiro e a Bahia também teria um grande nome em quem votar se a decisão do PT fosse por ele, como foi. Pinheiro é um cara sério e trabalhador, cristão e progressista, humilde e ao mesmo tempo cioso do seu valor político.

Eu preferia Waldir. Não Waldir a Pinheiro, mas Waldir a Cesar Borges no início e depois Waldir por Waldir mesmo, não uma contenda, uma indisposição com Walter Pinheiro. Espero que assim tenha sido com todos os que querem a reeleição de Jaques Wagner e, digamos, estão no campo mais avançado da política nacional.

Espero que cessem as sugestões de compensação a Waldir Pires. Deputado estadual, suplente  de senador (a pior de todas as sugestões), deputado federal… nada disso. Uma biografia como a de Waldir Pires não pede comiseração. Waldir já foi eleito uma referência da dignidade na política. E assim foi, quando do pleito interno do PT em que foi preterido. Não recuou. Quis a disputa, creio que não pela disputa em si, mas pelo que há de honrado em oferecer o seu nome como opção e dar a muitos a oportunidade de manifestar o direito de se opor ao padrão.

DEMOCRATA ATÉ O FIM

Desistindo, Waldir não saberia o quanto a sua candidatura era querida, mesmo em um fórum restrito como uma plenária de delegados e não da militância. Se desistisse, perderia a vaga, como perdeu, mas por assumir-se incapaz de conquistá-la. Desta vez não perdeu porque era voto camarão e nem foi roubado. Perdeu porque pertence a (e valoriza) uma legenda partidária que tende a decidir tudo a partir da vontade coletiva, ainda que uma das partes perca.

Não vi Waldir rejeitado. O PT não faria isso com ele. Pinheiro não faria. Jaques Wagner tampouco. Foi Waldir quem quis a eleição interna, quis a prévia, repetiu-se democrático ao aceitar ir até o fim da disputa e foi decente e partidário ao manifestar seu apoio incondicional à candidatura de Pinheiro, no domingo em que viu mais uma vez a vaga do Senado se afastar da sua rica e honrada história.  Um domingo em que Waldir Pires reforçou a sua biografia como aquele que fez com que o PT fosse PT: a disputa validou o conceito de partido democrático, como lhe cabe.

Eu votarei no candidato a senador Walter Pinheiro, que superou Waldir Pires em disputa interna do PT e que é o melhor dos candidatos da Bahia ao Senado. Eu voto nos bons.

* Das fitas com as gravações com o ex-governador Régis Pacheco restou-me uma que doei ao Museu Regional (Padre Palmeira?), da Uesb. O fiz há alguns anos em uma solenidade em homenagem ao ex-governador. A fita cassete foi tocada e algumas pessoas, como Dílson Ribeiro e Humberto Flores, choraram ao ouvir a voz de Régis contando o que viu do alto da serra do Periperi, na sua chegada a Vitória da Conquista, pela primeira vez. Eu espero, sinceramente, que esta fita, de inestimável valor, ainda esteja guardada no museu ou que tenha sido digitalizada. Espero mesmo.

ESTE ARTIGO FOI PUBLICADO ORIGINALMENTE EM http://notasdabahia.com/

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