Biografia

As lembranças nos salvam de ser afogados pela solidão

Na minha adolescência eu tinha muitos amigos legais. Alguns eu nunca mais vi ou soube deles. Um era João. Três coisas muitos marcantes fazem dele uma das pessoas de quem mais me lembro. E sinto saudade.

Ele namorava uma bela garota – de quem não lembro o nome – que morava na rua São Salvador, ao lado da casa de outro grande amigo meu, Gilberto, o Bibi, em frente à oficina de J. Aquino. (Tudo em Jacobina, Bahia). À noite ele ia namorar e eu, menino pequeno de 12 anos que adorava andar de bicicleta, ia na garupa. Ele ficava na calçada da casa da namorada e eu ia dar volta na Monark dele (ou era Caloi? Só sei que era do tipo BMX). Meus pais não podiam me comprar uma bicicleta e eu só andava nas dos amigos. João deixava eu usar a dele como se fosse minha. Inesquecível.

Nessas idas com ele, acabei conhecendo uma menina, Marlene, que aceitou namorar comigo (tinha que pedir em namoro e esperar a resposta, que podia demorar) e que meu deu o primeiro beijo na boca, por iniciativa dela. Eca! Foi um susto e uma “nojeira” no começo: língua, dentes, saliva… depois, a sensação maravilhosa que me fez repetir aquele “ato” pelo menos umas 75 mil vezes em minha vida.

E, por último e muito mais importante, me lembrei hoje que o João que me proporcionou a enorme alegria de andar de bicicleta, que me apresentou a menina do primeiro beijo, também me salvou a vida.

Minha cidade natal, Jacobina, era cortada por dois rios, o Rio do Ouro e o Itapicuru-Mirim. Era, porque as barragens e a poluição – da mineração, dos esgotos e do lixo da cidade – os transforamaram em filetes de água fedorentos.

O Rio do Ouro era lindo. Envolto pelas belas serras de Jacobina, com muitas pedras e uma água dourada, aqui e ali escurecida. Meninos, íamos nadar no rio, sem que nossos pais sequer soubessem, embora imaginassem. Brincávamos de Tarzan pulando na água de galhos de árvores e das pedras “gigantes”. Eu, João e outros dois garotos nos divertíamos muito num dos poços formados pelas pedras quando eu comecei a me afogar, puxado por um “redemoinho”, como se diz. O ar me faltava na medida em que o desespero me tomava. João era mais velho que eu uns 4 anos, era forte e sabia nadar. E me trouxe de volta à superfície, salvo.

João é um dos muitos amigos que me salvaram. Vivo necessitando ser salvo. João sumiu. Tem dias em que eu sinto que todos os amigos sumiram. Como hoje. Aí, embora seja um pré-candidato ao Alzheimer e viva sofrendo com lapsos de memórias, recorro às minhas parcas, mas fortes, lembranças para sair do poço úmido e escuro onde pareço estar me afogando sempre que me sinto só.

(Update: uma música “Eu tenho andado tão sozinho ultimamente, nem que vejo à minha frente nada que em dê prazer…”, cantada por Gilson, me lembra outro grande amigo – José Dias Pires Neto, o Zezinho, com seu violão e sua generosidade. Um dia a gente pensou que só se matando se livraria da vergonha por causa de um grande estrago no Ford Corcel GT 1977 do tio dele – que eu bati. Amigos fazem falta.)

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2 respostas »

  1. Que bom poder ler suas lembranças. Se fosse contar as minhas, ave Maria… Lembro-me muito bem de Bibi irmão de Zuleide, quem eh João? E Zezinho? Esses sem uma referência não consigo lembrar.
    Adorei! De uma certa forma voltamos ao passado, não tão distante. Rsrsrsrs

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    • João morava na Alice Barros e foi embora alguns anos depois. Zezinho era filho de Seu Sandrini, que trabalhava no Banco do Brasil, e de D. Elvira Pires, filha de Zuca Pires, moravam naquela rua que começa na Matriz e vai dar na Aurora. João e Zezinho foram grandes amigos.

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