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Biografia Crônica Partidos

Caiu do cavalo duas vezes, mas, aos 85 anos, é uma figura da história.

Falei hoje com José Pedral, ex-prefeito de Vitória da Conquista e outrora uma das mais importantes figuras da política baiana. Pedral está em Salvador, na casa do filho, Paulo, convalescendo de uma cirurgia na carótida. Falava como se estivesse gripado, mas com a voz ainda firme, apesar da idade e da cirurgia. Liguei porque pensava que hoje era 12 de setembro, dia em que ele aniversaria, “como Juscelino” – ele lembrou.

José Fernandes Pedral Sampaio completou ontem 85 anos de idade. Disse que vai viver mais quinze, até completar 100 anos. O histórico familiar lhe dá essa confiança. Seu pai viveu mais de 90 anos e perto dessa idade ainda montava a cavalo. Não sei se Pedral também monta a cavalo, mas me lembro de uma vez em que ele quase cai de um, literalmente.

No seu terceiro e último mandato na prefeitura de Vitória da Conquista Pedral vivia às voltas com uma oposição duríssima, salários e pagamentos atrasados, coleta de lixo deficiente, ameaças de CPI na Câmara, pouco dinheiro, muita dívida, pouquíssimas obras. Diferente de seu governo anterior, de 1983 a 1989, quando construiu a maioria dos equipamentos urbanos e a infra-estrutura que permitiu a Conquista chegar ao que é hoje,  aquele estava sendo uma lástima.

Alvo de uma crescente rejeição, Pedral não se dava por vencido e tentava por todos os lados uma reação. Já havia sido deixado de lado por ACM – a quem se aliara rasgando uma bela trajetória de resistência – e pagava as pesadas dívidas contraídas num tempo em que os recursos da União não chegavam, como atualmente, para fazer obras ou prestar serviços como saúde e educação*1. Os convênios eram parcos e o apoio político-administrativo do governo do Estado era quase zero. ACM fizera Pedral dobrar os joelhos, tirando-o do esquerdista PSB e trazendo-o para as hostes da antiga Arena, outrora tão combatida, mas tudo o que fez por Conquista foi entregar uma obra que se arrastava há anos, de ampliação do abastecimento de água da cidade.

Com tanta dificuldade e preocupado em não entrar para a história como um prefeito ruim, Pedral se valia de toda oportunidade para criar fato. Um deles foi chamar a imprensa para conhecer uma “genuína árvore de Pau-Brasil”, localizada em área do município já no limite com Itambé. Era uma árvore gigante e toda a equipe de governo de Pedral estava lá com ele, digamos que inaugurando a árvore rara.

Naquele mesmo dia a autenticidade do Pau-Brasil foi questionada, mas a árvore foi marcada, fotografada e saímos de lá com a informação de que o Município tombaria a área. Havia uma intenção verdadeira naquilo, via-se em José Pedral um entusiasmo juvenil com a “descoberta”. E talvez esse entusiasmo juvenil o tenha inspirado a montar em um cavalo que apareceu por lá. Mas, logo tomaria um susto.

Como era um terreno em declive, cheio de buracos e trechos irregulares, quando o animal deu uma pisada em falso e pendeu para um lado o velho e bom Pedral – não tão velho então, mas nos seus 70 anos – por pouco não se estatelou no chão. Foi amparado pela providencial ajuda de um bem disposto Nilton Júnior, seu secretário de comunicação de então, que ainda não sentia os efeitos das dezenas de cigarro que fumava diariamente.

A descoberta do Pau-Brasil não rendeu grande coisa na mídia. Nem a quase queda de Pedral. Tampouco a área foi tombada. Também não lembro se a autenticidade da árvore gigante foi comprovada. E o governo de José Pedral naquele mandato de 1993 a 1997 agonizou até perto da morte.

O líder que fora preso e cassado pela ditadura, que ajudou a fundar o MDB quando este aglutinava quase toda esquerda brasileira, que foi figura de proa do PMDB baiano, que ajudou a forjar a imagem de uma Vitória da Conquista resistente e forte, chamada de “trincheira da democracia baiana”, encerrou o seu último mandato político amargando dupla derrota. Seu candidato Vonca ficou em terceiro lugar na eleição de 1996 (vencida por Guilherme Menezes, do PT) e o seu pupilo preferido, Murilo Mármore, ficou em segundo, mas brigado com Pedral e apoiado por ACM, que confirmava naquela eleição que seu objetivo era mesmo destruir Pedral, vingar-se, talvez, de anos seguidos de derrotas e oposição.

ACM deu o empurrão que faltava para Pedral cair do cavalo. E nem Nilton Júnior pôde evitar. Não pelos cigarros que fumara, mas, entre outras razões, porque nem secretário era mais. Naquela eleição nem J. Pedral salvaria Pedral Sampaio*2. Uma pena.

Mas, hoje, o tempo é outro. José Pedral é figura da história. Claro que uma geração de mais novos só lembra dele ou comenta sobre ele quando é para brincar sobre o “bigode de Pedral” – um dos poucos erros de cálculo do engenheiro que fez grande parte da Conquista que o PT alarga e amplia hoje -, mas, quem quiser contar a história real da melhor cidade baiana (mesmo sem o litoral) terá que repetir muitas vezes o nome do construtor que vai viver pelo menos 100 anos, como ele mesmo conta.

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*1 Era um tempo sem SUS, sem Fundeb e sem as pesadas transferências de hoje. Para construir uma feira coberta, por exemplo, o município era obrigado a recorrer a financiamentos).

*2 Pedral fez sua carreira política assinando como J. Pedral e assim foi construída a sua imagem em Conquista, na Bahia e no Brasil. Assim ele era tratado e idolatrado pelos conquistenses que o acompanhavam desde 1958, quando se candidatou pela primeira vez – e perdeu. Mas, em 1987, com Waldir Pires governador e Pedral seu secretário de Transportes e Comunicações, consultores de política e publicitários (não se falava em marqueteiro, então) começaram a criar outra marca, visando uma candidatura a governador. “Nascia” o Pedral Sampaio, como os jornais passaram a tratar o político conquistense. O resto quem acompanhou sabe o que aconteceu: Pedral acabou sendo engolido pelas articulações dentro do próprio governo. Waldir Pires o preteriu em favor de Sérgio Gaudenzi e Nilo Coelho, que assumiria o governo com a saída de Waldir acabou sendo ele mesmo o candidato à reeleição (com Pedral já fora da secretaria) em 1990.

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Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 56 anos de idade, 40 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

3 comentários em “Caiu do cavalo duas vezes, mas, aos 85 anos, é uma figura da história.

  1. A referida feira coberta é aquela que, durante os anos 90, era chamada de feira do Ceasa? Saberia contar a história de sua construção? Alguém foi contra? Como o lugar foi decidido? Quanto tempo a dívida contraída demorou para ser quitada?

    • Oxe, meu filho, está querendo quebrar minha cabeça? Risos. No governo de Pedral entre os anos de 1983 e 1989 ele construiu duas feiras cobertas, a do Ceasa, como conhecemos, e a do Bairro Brasil. Aquela área do Ceasa era conhecida como “As Mamoneiras”, havia ali algumas casas que foram desapropriadas. Não houve problema na época. Creio que o financiamento só terminou de ser pago no outro governo de Pedral, atravessando o de Murilo Mármore. Essa informação eu vou levantar, porque é provável que a dívida tenha chegado até o primeiro mandato de Guilherme Menezes como prefeito. Beijo, filhão, obrigado por me prestigiar com sua leitura e com seu comentário.

  2. Pingback: Silêncio na data em que Pedral faria 90 anos. Saudade de curta duração? | Blog de Giorlando Lima

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