Biografia

Que conste que falei sobre Ronaldo e aposentadorias.

No Brasil, milhões de pessoas lutam por uma aposentadoria decente; uma imensidão de trabalhadores chega a uma idade avançada sem poder parar de trabalhar, outros tantos, incontáveis, trabalham a vida inteira e quando param passam a contar com minguados reais que só dão para remédios, comida parca e nenhum lazer. São Joões, Josés, Antônios, Pedros e Ronaldos de todo o país que hoje compartilham de um lamento nacional: o maior centro-avante da história do futebol vai parar de jogar.

Depois de 18 anos de carreira, ao 34 anos de idade, Ronaldo Nazário, o antigo Ronaldinho, o Fenômeno, anunciou nesta segunda-feira que não vai mais jogar futebol profissionalmente. Como se dizia antigamente, vai pendurar as chuteiras. Convenhamos, é uma notícia ruim, que faz muita gente chorar. O próprio Ronaldo disse que chorou como um neném nos últimos dias, enquanto maturava a decisão.

Ao desligar-se profissionalmente da atividade que desenvolveu tão bem, Ronaldo diz estar buscando paz, tranquilidade. Como não vinha conseguindo um bom desempenho em campo, o atleta tornara-se vítima da irracionalidade de torcedores do seu clube, o Corinthians, que, em demonstrações de furor, vinham ameaçando o craque e seus companheiros de time, assustando sua família .

Certamente isso apressou a decisão de Ronaldo, mas, como ele mesmo já disse: o corpo não está mais respondendo à vontade. Não é para menos. Apesar de jovem cronologicamente, o corpo de craque teve que superar lesões gravíssimas durante a sua carreira. Em mais de uma oportunidade pareceu que ele não voltaria aos gramados, porém, fenomenal, ele ficava em pé e continuava a fazer gols e a seduzir platéias do mundo todo. Entre os problemas que o afetam, Ronaldo falou também em hipotireoidismo – uma doença em que a tireóide produz menos hormônios do que o necessário, levando a pessoa a engordar, sentir-se cansada e até à depressão.

Quando Pelé, o maior de todos os jogadores de futebol, anunciou a sua aposentadoria, também tinha 34 anos. Era ídolo, como ainda é, e poderia continuar jogando se quisesse. Quis. Aceitou uma proposta do Cosmos, dos Estados Unidos, e foi ensinar americano a jogar bola. Para Ronaldo essa hipótese também existe. Não apostem que ele não volte em algum tempo, para jogar – quem sabe – em algum clube do exterior onde sua paz não seja ameaçada. Ele tem o direito que tiveram Pelé e tantos outros (como Schumacher na F1) – de voltar, se quiser.

Ronaldo sai de campo. Adeus ou tchau?

Por enquanto, ele vai usufruir de uma belíssima fortuna. Não poderá se queixar da aposentadoria. Li por aí que Ronaldo amealhou nada desprezíveis R$ 600 milhões em sua carreira. Pode chorar pela saudade que sentirá de estádios cheios com a torcida gritando seu nome; pode chorar porque não mais ganhará o abraço e os beijos dos seus companheiros de time, naquele momento de paixão em que os homens se despem de seus rigores machistas: a comemoração do gol; pode chorar porque, embora deixe o futebol na condição de ídolo nacional – e internacional, pois é idolatrado na Espanha, por exemplo –, com uma história bonita de se contar, não conseguiu dar à torcida do Corinthians, seu último clube na carreira, aquilo que ele tanto quis e que a sua simples presença no time prometia. E também chora porque embora esteja deixando de jogar profissionalmente porque assim quer, sente-se meio que escorraçado pela injustiça e ingratidão de uma parcela da torcida.

Mas, Ronaldo não chora pelo que será a sua vida e da sua família depois que deixar a profissão. Claro que ele fez por merecer tudo o que tem e talvez merecesse ainda mais, mas não posso evitar de dizer: isto sim é que é aposentadoria. Algo que nem sequer sonha a gigantesca maioria dos brasileiros, desses que já pagaram várias vezes 40 reais para ver um jogo no Pacaembu e que ainda estão pagando a camisa 9 do Corinthians comprada em 10 parcelas no cartão de crédito.

E este também é um momento para pensar nisso. Choremos porque não teremos mais em campo aquele que foi o maior centro-avante do futebol mundial; não teremos novos gols do Fenômeno para comemorar. O maior artilheiro das copas do mundo para de jogar oficialmente. Não é um dia de festa, naturalmente. Mas, que nossas lágrimas na despedida do craque não turvem nossa visão da realidade de milhões de trabalhadores brasileiros que dão duro a vida toda por um salário de causar vergonha e por uma aposentadoria – quando conseguem – que, antes de aliviar, torna suas vidas ainda mais duras.

O Brasil está inebriado pelos resultados do governo Lula. Fazemos festa pelo estágio que alcançamos. A economia está tão bem que até os craques voltam da Europa para jogar no Brasil: os clubes podem pagar. Mas, isso tudo ainda é muito pouco. Choremos na despedida de Ronaldo, mas não nos esqueçamos que o salário mínimo (previsto) deste país torcedor é de apenas 545 reais.  E mais da metade dos aposentados brasileiros vai ganhar apenas isso a partir deste mês.

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