Arte

De Elomar e Caetano. (Um artigo, que chamo de ensaio por ser um ensaio mesmo, para ser contestado)

Adorei ler em A Tarde artigo de Caetano Veloso em que confessa ter se inspirado em Elomar (Figueira Mello) para compor “Beleza Pura”. Não sou conquistense, mas Vitória da Conquista é a terra que me deu os melhores anos da minha vida e os melhores presentes de toda ela, que são meu filhos, e sou dos que glorificam o magnífico trabalho de Elomar, o mais genial dos conquistenses conhecidos. Gosto do sentimento de pertencimento que Elomar faz questão de expressar, ao valorizar o sertão do Sudoeste, perto da Tromba, do Rio Gavião, da Lagoa dos Patos, e ter preferido habitar para sempre aquela região, Conquista no centro. Elomar é gênio e genuíno.

Eu ouvira antes, há muitos anos, que ele não era “um cara simples”, pois, argumentavam, apesar daquelas vestes de fazendeiro/vaqueiro, camisa com os últimos botões abertos, ele se deslocava em uma poderosa e provavelmente luxuosa caminhonete cabine dupla, do ano, e preferiria, em ambientes privilegiados, whisky escocês a cachaça de Itarantim. Quase me convenci, mas percebi a tempo que aquilo era um equívoco.

Para ser simples, não é preciso aparentar ser simplório. E nem Elomar, ou qualquer outro artista, tem a obrigação de ser simples, naquele sentido de andar a pé, abraçar todo mundo na rua, tocar de graça em “budegas” de esquina ou entre as barracas da feira – isso é coisa de políticos, idealmente os populistas e demagógicos. Sei hoje que as “percatas” de couro, a pinga e o cigarro de palha que outrora Elomar fazia uso (soube que já não fuma há mais de 20 anos. Não sei se ainda bebe), não compunham um estilo de uma celebridade excêntrica querendo chamar a atenção, nem o seu enraizamento lá para as bandas do Rio Gavião seria um charme programado para fazer tipo na sua confrontação com a mídia.

Alguns que dizem conhecer Elomar de perto (hoje muito mais gente que há 15 anos) afirmam que ele é assim mesmo, e eu acredito. Certo de que tudo era um aposta sincera, uma profissão de fé. Na sua natureza de gênio penso que Elomar age como um evangelista mas não um pregador de multidões. Tem a mensagem e a oferece, mas não a embala com atributos da moda, com a aparência sedutora do marketing, embora ele tenha se dobrado um tantinho que seja a essa ferramenta que o mercado impõe e que ele, ao que eu saiba, odiava lá atrás.

Como um apóstolo da música na sua pregação sincera, Elomar deve ter descoberto que não poderia espalhar sozinho as boas novas que nascem da arte maravilhosa que produz, apesar do poder da sua mensagem e, ainda que continue avesso à mídia como ferramenta mercantil ou como escada para construção/elevação da pseudo-arte, pois acredita que o artista não deve estar em evidência, apenas a arte verdadeira deve ser reverenciada, o Bode (chamado assim carinhosamente, como o Orelana de Henfil, criado em sua homenagem) acertou-se com uma competente agência de comunicação e de promoção de cultura para poder compartilhar ainda mais a arte que dá à luz.

Decerto que a genialidade e a riqueza de sua obra não precisariam de marketing, de mídia, nem de qualquer artimanha comercial, mas a parceria de Elomar com Rossane (e outros) merece a minha admiração e meus agradecimentos. O histórico de trabalho da produtora em associação com o cantador da Casa dos Carneiros evidencia que os dois saíram ganhando. Elomar por ter encontrado caminhos por onde levar a sua arte a mais gente (e creio, podendo ser questionado, ser este um dos sentidos de fazer arte: oferecê-la ao mundo, em favor da sua evolução, para o bem da humanidade). Rossane porque tem a chance de trabalhar com uma figura excepcional, absorvendo de sua experiência de vida, sabedoria e arte. E os demais, de longe ou de perto do Gavião, que passam a ter acesso mais rápido e mais frequente à obra cada vez mais fascinante do malungo, cantador, poeta, pregador, maestro Elomar.

O artigo de Caetano Veloso, ainda que publicado num jornal de circulação restrita à Bahia – e ainda assim de pouca penetração considerando o público que o lê (em Conquista não se vendem mais que 200 jornais) – ajuda a repercutir ainda mais o valor do grande compositor que é Elomar, coisa que ele, certamente, não pediu e não pediria. Afirmam que Elomar continua tão resistente à mídia quanto antes, talvez hoje repudiando-a um pouco mais por causa da sobreposição do interesse comercial, do efêmero, sobre o humano, porém é notório que, se ele não aceita, não rejeita – posto que espontâneas – as brechas que se abrem em órgãos tradicionais da imprensa ou o exuberante tamanho dos espaços que ocupa na internet, com dezenas de canais no YouTube, por exemplo.

Antes de terminar essa tentativa de escrever uma crônica “alto nível”, com o intuito de elogiar Elomar (sem que ele precise, claro) e Caetano Veloso, relembro um episódio de desgaste entre Elomar e a imprensa. E aqui não tão grande imprensa, embora grandes os personagens envolvidos. Em 1985, em Vitória da Conquista, o cantador deu uma entrevista à repórter Regina Bortollo, publicada na revista Panorama da Bahia, já extinta, na qual teria feito um elogio ao político Paulo Maluf, execrado pelas boas cabeças do País e nome concorrente com Tancredo Neves a presidente da República, no colégio eleitoral. Elomar, querido e admirado pelos mesmos que tinham ojeriza a Maluf, deve ter sido questionado, assustou-se com a repercussão, atiçada pelo radialista Herzém Gusmão, na sua Resenha Geral, e para a rádio foi, negar qualquer predileção dele por Maluf. Então, mantendo-se respeitoso à jornalista Regina, tratou de confirmar a sua alergia à mídia, justificando porque não gostava de falar à imprensa.

Por fim, de volta a Caetano Veloso, de quem gosto pela poesia e pela atividade cerebral intensa – manifestada e expressada em ensaios, livros, entrevistas polêmicas e, mais que tudo, na sua música – e de quem guardo um momento carinhoso de quando ele esteve em Vitória da Conquista (pela única vez) e recebeu-me com um abraço à entrada do Livramento Palace, uma boa conversa no saguão do hotel, finalizando com uma demorada, divertida e nunca publicada entrevista após o show no parque de exposições. Por ser também um gênio reconhecido internacionalmente, como Elomar – embora de postura diante da mídia muito diferente da adotada pelo maestro conquistense, que não se expõe a holofotes e não polemiza publicamente sobre quase qualquer coisa – Caetano dá, ainda que desnecessário seja, um aval de qualidade ao trabalho do menestrel baiano. Algo que, se para Elomar não precisava, serve para um tanto de gente – que ainda não ouviu as canções em sertanês do cancioneiro elomariano ou não assistiu às suas cantatas, óperas e encenações levadas ao palco da Casa dos Carneiros, no Domus Operae de Elomar – ficar sabendo que na Bahia há um artista especial, diferenciado, ainda um tanto estranho, posto que não padronizado à estética “mundernista” e midiática, produzindo arte com a sensibilidade dos soprados por Deus.

E se Caetano reparar direito vai ver que há mais de Elomar em sua obra do que em Beleza Pura.

(Não é da fase de antífonas e das composições para suas óperas, mas foi a música de Elomar que primeiro me marcou. Um hino de amor à sua terra e à história de seus ascendentes: Canto de Guerreiro Mongoió)

Ah, a música de Elomar a que Caetano Veloso se refere, é O Violeiro, com seus versos: Apois pro cantadô e violero/Só hái treis coisa nesse mundo vão/Amô, furria, viola, nunca dinhêro/Viola, furria, amô, dinhêro não.— Vai grafado como eu ouvi o menestrel cantar.

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11 respostas »

  1. Não sou baiana, não te conheço pessoalmente, conheci-o por acaso numa dessas salas de bate papo da vida a alguns anos atrás, no início achei-o meio esnobe, perdi contato contigo depois de algum tempo, agora retomado por acaso novamente, venho acompanhando seus artigos aqui postados, acho que em outras vidas devo ter vivido aí no nordeste, pois tudo que diz respeito a esta terra me fascina, quero dizer que tenho orgulho de ter te conhecido, mesmo que impessoalmente, parabéns por esta matéria, é uma aula para aqueles que querem conhecer um pouco mais desta terrinha tão boa….Abraços

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    • Oi, Flávia, como faço para postar este seu comentário em que lembra uma minha eventual arrogância? Rs. Poxa… nunca quis sê-lo, mas imagino que todos nós cometemos esse deslize em alguns momentos e eu, talvez, mais de uma vez. Desapercebido, eu posso ter me comportado a lhe dar razão. Mas, o que posso agora? Me desculpar e dizer que fiquei muito, muito feliz com a sua visita e com seu comentário. Abraço.

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      • Oi, não pensei que fosse responder, fiquei feliz, não sei porque o nome saiu Flávia, me chamo Maria Emilia, cheguei a esta matéria através do facebook, na época em questão meu nick name era M@rt@ SP, isso não muda em nada o que escrevi….Um abraço

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  2. Para ser simples, não é preciso aparentar ser simplório. E nem Elomar, ou qualquer outro artista, tem a obrigação de ser simples, naquele sentido de andar a pé, abraçar todo mundo na rua, tocar de graça em “budegas” de esquina ou entre as barracas da feira – isso é coisa de políticos, idealmente os populistas e demagógicos.
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    Pra variar, uma interessante, lúcida e instigadora observação. Só podia vir de você mesmo, Giorlando. Assino embaixo, no que diz sobre Elomar, artistas, políticos, demagogos e o que mais a natureza humana comporta.

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    • Eu deveria escrever mais nestes meus blogs, sobre qualquer coisa, porque a generosidade dos amigos sempre me contempla com mais afagos do que mereço e essa é uma terapia impagável. Fredinho, você é dos bons, dos melhores, corrijo, e sua observação me deixa honrado. Valeu, mesmo. Abraço forte.

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  3. Um certo orgulho regional me deixa exaltado neste artigo. Elomar é um tesouro escondido, guardado em sua simplicidade tão bem definida aqui. Caetano tem de Elomar alguma influência alhures; mas a nobreza do maestro conquistense é inatingível. Ainda assim creio que o reconhecimento de Caetano é repleto de dignidade.

    Com respeito ao seu artigo, Giorlando, é um maravilhoso presente para quem aprecia seu blog. Muito obrigado!

    P.S. Também me deixou muito feliz o trabalho da amiga Rossane Nascimento em torno da arte de Elomar. Uma bênção, sem dúvida, para nossa Conquista.

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    • Eu poderia escrever aqui um monte para falar da minha alegria de tê-lo entre os leitores do meu bissexto blog (e escrever demais não me custa, rs), mas tudo se resume a um agradecimento, emocionado. Obrigado, repórter e pastor Aécio, meu amigo. Concordo sobre Elomar e sobre a nossa querida colega Rossane em semelhante medida. Abraço.

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