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Ou: Porque acho que Guilherme poderia ceder e entrar para a história de outro jeito

I – O governo petista fez a coisa certa desde o começo

Sou ligado a Vitória da Conquista por dois cordões umbilicais. Na hoje também chamada de Suíça brasileira, outrora conhecida como a trincheira da democracia na Bahia, nasceram meu filho em 1987 e minha filha em 1995. Na cidade mantenho outros laços afetivos, sociais, profissionais, econômicos e, justificando este artigo, políticos. Voto em Conquista desde 1986, época da memorável campanha que elegeu Waldir Pires governador da Bahia. Desde então, a cada eleição, de onde quer que eu esteja, retorno à cidade para votar. Aliás, sempre fiz questão de estar na cidade algum tempo antes do dia da eleição e faço toda a campanha que posso pelos meus candidatos.

Do PT de Conquista já pedi votos e votei em Wilton, Waldenor, Hélio Ribeiro, Alexandre Pereira, José Raimundo… O atual prefeito, Guilherme Menezes teve meu voto e meu apoio em todas as vezes que concorreu a prefeito. Em 1996, comprei a briga da candidatura de Guilherme e me associei ao projeto mantendo-me em uma posição estratégica, onde optei por ficar, abrindo mão de um bom contrato profissional com a campanha. Nunca me arrependi, embora mais tarde tenha sido “punido” pelo empregador por causa dos “laços muito próximos com Guilherme”. Também por isso e por generosidade do prefeito, cheguei a compor o primeiro governo por 20 dias, em 1997. Não fiquei por não suportar um clima competitivo na Coordenação de Comunicação, para onde tinha sido convidado.

Fui testemunha, como milhares de conquistenses com mais de 20 anos de idade, das transformações por que passou o município com a chegada do PT ao poder, especialmente o trabalho feito na Saúde pelo competente e corajoso Jorge Solla. Vi os avanços na Educação e sei que a máquina administrativa passou a funcionar melhor e de forma mais organizada, propiciando economia e utilização mais racional dos recursos. Pode-se contestar o estilo inicial, as práticas políticas adotadas, mas seria cegueira desconhecer o excelente trabalho começado por Guilherme Menezes, feito por ele em seis anos e em mais seis de José Raimundo.

Tampouco atribuiria o estágio alcançado por Vitória da Conquista somente à ação do PT conquistense e/ou à genialidade de Guilherme, José Raimundo e seus auxiliares desde 1997. Houve uma distinção de tratamento por parte do Governo Federal que deve ser levada em conta e em alta conta. Gigantesca foi a diferença de tratamento recebido por Guilherme prefeito do tratamento recebido pelo seu antecessor, José Pedral Sampaio. Mesmo sob Fernando Henrique Cardoso, as regras de distribuição dos recursos federais para os municípios e as condições de financiamento mudaram muito, notadamente nas áreas Social, da Educação e da Saúde, tornando, em um primeiro momento, menos difícil administrar o município e, mais tarde, deixando tudo mais fácil.

II – Guilherme conduziu um governo com muitos méritos

Só um doido diria que o governo de Pedral de 1993 a 1997 foi tão ruim apenas porque não havia a mesma generosidade do Governo Federal e os recursos não foram disponíveis. Os erros do governo pedralista, o último, ressalte-se, foram muito grandes e suficientes para a hecatombe que se seguiu. Do mesmo modo eu jamais diria que Guilherme só fez aqueles excelentes seis primeiros anos porque havia as condições mencionadas. Os principais trunfos do governo petista-peessedebista de 1997 a 2000 foram: a inversão de prioridades; a seriedade na reorganização da administração; uma lista enorme de erros que serviram de referência para os acertos e, claro, a visão do prefeito e a capacidade de sua equipe, esta incontestável, acima da média a que Vitória da Conquista estava historicamente acostumada.

Com a saída de Guilherme para concorrer à Câmara Federal, em 2002, vazou a preocupação de como seria a continuidade do projeto que vinha sendo muito bem executado. Pelo que sei, o próprio José Raimundo (notável professor, PhD, pessoa querida da cidade, respeitada pela sua tarimba na área que domina, a Educação e pela competência como mestre em sala de aula, embora um zagueiro de mediano para baixo) achava que aquela poderia não ser a sua praia – ou o seu momento. Entrara na chapa para apaziguar o PT, depois que o grupo do também professor Wilton Cunha, que detinha significativa parcela do partido, colocou o nome do próprio para disputar a indicação de vice, frontalmente contra a vontade de Guilherme, que queria ter como companheira de chapa, a arquiteta Márcia Pinheiro, uma das profissionais mais competentes que passaram pela administração municipal, mas uma neo-petista.

(O PT fez questão de uma chapa puro-sangue e chegou a ter seis nomes disputando a vice em 2000, por causa da experiência ruim que teve ao sair com a chapa mista, eleita em 1996, tendo Clóvis Assis, do PSDB, na vice. Brigaram feio, Assis chegou a perder o gabinete e os petistas o viam como um Judas sem beijo).

III – José Raimundo dividiu o projeto petista em dois tempos

Pois bem, José Raimundo Fontes, um soldado partidário, fundador do PT e um apaixonado pelas lutas do partido, tornou-se o vice em 2000 e o prefeito em 2002, quando deu continuidade sem sobressaltos e sem invencionices, ao bom trabalho que o seu antecessor tinha feito. Foram dois anos que serviram para Vitória da Conquista conhecer um José Raimundo que talvez só ele soubesse que existia: bom administrador, político acessível e liderança integrada às expectativas da população. Essas características o levaram a vencer, de virada, o ex-deputado Coriolano Sales, que, segundo consta (até hoje duvido daqueles prognósticos) começou a campanha com mais de 30 pontos percentuais acima do candidato do PT nas pesquisas.

Ao eleger José Raimundo, Conquista disse três coisas bem claras: não permitiria a volta do grupo que dominara a política municipal por 20 anos; aprovava o projeto do PT que mudara a cidade oferecendo ainda um horizonte de modificações positivas; e estava disposta a ver o professor de História que virara um de suas mais interessantes lideranças fazer, no governo que seria dele, digamos, alguma coisa nova. E José Raimundo fez.

Sem abandonar as premissas caras ao PT de prioridade à área social e de ampliação dos bem sucedidos projetos na Educação e na Saúde, o governo de José Raimundo (agora com Gilzete Moreira, do PSB, de vice) visualizou uma cidade com sua infra-estrutura urbana melhorada e ampliada. No embalo da obra de transformação do trecho da Rio-Bahia que cortava a cidade na avenida Presidente Dutra (que quase lhe custa o mandato) o prefeito petista colocou o trator para trabalhar, deu ao município – além das ações sociais, de inclusão, de respeito à dignidade da pessoa e fortalecimento dos movimentos sociais – uma sinalização de que o anseio por obras de melhoria viária, de valorização urbana e incremento de infraestrutura iriam acontecer. E aconteceram.

José Raimundo teve seu status político elevado a “excelente prefeito”. Seu desempenho lhe garantiu uma eleição tranquila como deputado estadual. Antes, foi fundamental na eleição de Guilherme ao terceiro mandato. Infelizmente, a administração de Guilherme iniciada em 2008 não poderia mais ser comparada ao governo ruim de José Pedral Sampaio (é importante separar os governos de Pedral, o primeiro – 1963/1964 – foi neutro, até porque interrompido, o segundo – 1983/1989 – foi excelente e o terceiro foi uma tragédia para Conquista e para o próprio Pedral, do ponto de vista político). Nem poderia ser o terceiro mandato de Guilherme comparado com os seus dois anteriores. Ele não era mais referência para si mesmo, como administrador, a referência passou a ser José Raimundo Fontes. E o município manifestou isso.

IV – Conquista expressou desejo pela alternância ainda que no mesmo campo partidário

Até o mês de junho, talvez julho deste ano, era impossível esconder o mal estar causado no PT pelo fato de que Vitória da Conquista, mais a cidade que a zona rural, expressava sua vontade de ter José Raimundo de volta, o que seria bom para todo mundo. Menos para Guilherme, talvez. Num exercício de especulação: não haverá eleição parlamentar no ano que vem e Guilherme teria que esperar José Raimundo ser eleito e convidá-lo a participar do governo. Esperar ficou fora de cogitação. E o atual prefeito firmou-se como o nome para a própria sucessão, calou os dois companheiros José Raimundo e Waldenor Pereira, e outros tantos, até que o partido juntou-se para referendar a sua pré-candidatura.

Claro que é legítimo a Guilherme Menezes pleitear ser candidato cinco vezes e eleger-se prefeito quatro, um recorde na história de Vitória da Conquista. É mais que legítimo dentro do seu partido, o PT, mas também é aqui fora. Ele é honesto, trabalhador e foi o cara que começou a revolução que mudou o município e a vida da população para melhor. Guindado no sucesso do PT em nível federal, sim; tendo sido seu governo extremamente ajudado pelo governo Lula, sim, mas ele teve o mérito de dar régua e compasso para a jornada que começou em 1997. Ok. Mas, opino pelo direito inalienável de fazê-lo: a insistência de Guilherme assume contornos, aparência, semelhança, quase nenhuma coincidência, de um projeto pessoal. E eu acho que Conquista percebe isso. E não gosta.

A mudança de estilo de governar, ainda que tímida, transformando-se, de repente em obreiro, o homem do asfalto, demonstra o quanto Guilherme Menezes corre atrás do prejuízo para não ser suplantado pelo tempo e não perder o bonde que levará a sua pessoa, o seu nome, para a história, como recordista de mandatos de prefeito e – muito provável que isso aconteça, pelo acúmulo de anos à frente da prefeitura – como o administrador que mais obras e realizações entregou à população. Difícil não querer continuar, entendendo que é mais ou menos fácil vencer a eleição e ficar no poder, mesmo para um político que não gosta de aparecer, dito tímido e desprovido de vaidade.

Mas eu,  conquistense que tomou o gentílico por empréstimo, porém apaixonado pela terra que me deu o melhor que tenho, eleitor da seção 019, 41ª Zona, no uso do direito de expressão consagrado na Constituição Brasileira, digo que Vitória da Conquista merece uma alternativa, uma renovação. Certo, José Raimundo seria continuidade, mas ainda assim uma alternância, a despeito de no mesmo campo partidário. Havia um sinal de que a população queria ver o deputado de volta ao cargo de prefeito, imaginando, certamente, uma ampliação do trabalho que fez e que não parece ter conseguido Guilherme dar seguimento, ainda.

V – Os números avisam: é preciso ouvir Conquista

Aceito a contestação se me dizem que o governo de Guilherme não tem sido desprezado pela população, visto que as pesquisas de opinião pública lhe dão mais de 40% de aprovação (não me venham com essa de que “regular” é aprovação, porque quem acha um governo regular é porque não está satisfeito, as opções para dizer o contrário disso, na pesquisa, são as respostas “bom” e “ótimo”). Esses bons números acontecem porque o povo de Conquista é justo e Guilherme Menezes e o PT são avaliados pelo conjunto da obra. Não houve nada que tirasse os méritos do projeto que eles começaram em 1997. Porém, a mesma pesquisa que aprova o governo (mas não traz/separa a avaliação da atuação do dirigente em si, da pessoa Guilherme à frente da administração) diz que o prefeito, como candidato, não vence no primeiro turno, pois teria, quando o levantamento foi feito, 30% das intenções de voto, enquanto que o segundo, o radialista Herzém Gusmão, teria 25% e o terceiro, o deputado Jean Fabrício, 10%, o restante atribuído a outros nomes com pontuações menores e aos indecisos, menos de 10%.

O recado já foi dado. E há alternativas a Guilherme. Uma delas nasce dentro do próprio projeto político e administrativo que está em vigor desde 1996/1997. Há que se ver isso colocando à frente o interesse do município, não as idiossincrasias partidárias ou desejos particulares e pessoais. Uma enorme parcela da população espera que os nomes que se propõem chegar ao governo, para o lugar que Guilherme ocupa (mas não é dele) acertem o discurso, definam suas posturas e sintonizem seus planos de ação e estratégias políticas com os anseios dos eleitores, que, friso sem medo de errar, não condenam Guilherme Menezes, muito menos o PT, mas querem ter o direito de começar em 2013 de outro jeito. Sério, ativo, competente, mas outro jeito.

(No próximo artigo de política ousarei analisar a postura do PCdoB diante do governo e o que representaria a candidatura do deputado Jean Fabrício para a cidade. Mas adianto que, em minha opinião, o partido, que poderia clarear as coisas, está confundindo o eleitor. É contraditório permanecer no governo que tem à frente o prefeito que o partido acha que não deve continuar. Ou deve? Se sim, para que pré-candidato? A postura tem semelhança à do PMDB em 2009 em relação ao governo Wagner – e todo mundo lembra as conseqüências para o PMDB.)

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7 comentários em “Um bom projeto não tem que ter o mesmo governante sempre

  1. Esse artigo, é ótimo, gostei de ler e acredito que pode dar uma clareada na mente dos Petistas e Guilhermistas de Vitória da Conquista, que inteligentes como são, mesmo que Guilherme não ceda, no momento certo, tire Conquista do estacionamento. Meu voto desde o primeiro, sempre foi de Guilherme Menezes. Mas, entendo que não posso mais permitir mesmice ou regressão da minha cidade. Muito bem, Já estava na hora de trazer algo do tipo, para nós. Como deixou um provocação, já estou esperando o artigo com a análise da postura do PcdoB. Rs

    • Oi, Alva. Obrigado por vir aqui, ler e comentar. Também aprecio seu blog. Não vejo hipótese de Guilherme ceder, como não vejo petistas e guilhermista “clareados” com este artigo. Ficarão é aborrecidos. Também voto em Guilherme há 20 anos, mas não quero votar mais, acho que, talvez sem perceber, ele dá contornos de personalismo ao pretender obter mais quatro anos de mandato de prefeito. O PCdoB, temo, vai ficar pelo caminho, infelizmente.

  2. Não posso aceitar como parâmetro, uma pesquisa onde Guilherme Menezes teria 30%, Hérzem Gusmão 25%¨e Jean Fabrício 10%, o colega jornalista, deveria adicionar em seu artigo, uma observação do erro crasso dessa pesquisa, que aponta José Raimundo com 6%. Entendo que essa pesquisa que radiografou em parte uma pesquisa feita pelo HOJE In Data, digo tentou seguir a nossa metodologia, pecando na amostra, pois pesquisou 1.706 pessoas, e a nossa pesquisou 2056 porém, seguiu rigorosamente o quantitativo do colégio eleitoral da cidade, obedecendo também a distribuição geográfica, apenas para sua analise os resultados foram estes: Guilherme Menezes 36%, Hérzem Gusmão 25% e Jean Fabrício, 10% e em nossa pesquisa, não houve a alternativa de Zé Raimundo, logo, é melhor concluir que na pesquisa ora analisada pelo jornalista e que lastreou o excelente artigo, principalmente pelo conjunto da obra, o nosso ex-prefeito Zé Raimundo, é o BODE, que serve tanto para explicar, quanto para confundir. Afinal por quê Zé Raimundo está na pesquisa se ele declarou há mais de 70 dias, que não seria candidato nem por hipótese?

    • Para responder a seu comentário, eu teria que ver a pesquisa feita pelo Hoje InData. Não há pecado em ouvir 1.706 pessoas, menos disso já daria um quadro do momento, com boa claridade. Sua pesquisa, em que Guilherme Menezes tem apenas 1 p.p. a mais que os dois rivais mais próximos, sem José Raimundo no levantamento, demonstra ainda mais claramente os sinais dados por Vitória da Conquista, sobre os quais comento. Não questionaria a pesquisa “adversária”. Não questiono qualquer pesquisa ou publicação, questiono o desejo particular e pessoal de impor a Vitória da Conquista um governo prolongado de uma única pessoa. O que você acha disso, sendo o mais imparcial possível?

  3. Eu devia ter passado aqui antes!!! Ótimo te conhecer!!

    • Também acho que você deveria ter passado aqui antes e eu deveria ter ido beber nos seus blogs antes ainda. Obrigado, escritora de mão cheia, por vir aqui. Anraço.

  4. Pingback: Política conquistense: Guilherme diz que acordo com PCdoB é mais fácil do que com PSB « NOTAS DA BAHIA

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