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Crônica Romance

A escolha de Bela

Eu tinha 11 anos. Ela, talvez, um ou dois a mais. Chamava-se Bela, não como parte de um nome maior ou um apelido para combinar com a sua formosura, era nome próprio mesmo. Bela morava numa casa enorme, vizinha à Maçonaria, na rua Alice Barros Figueiredo. Lembro que eu fazia de tudo para vê-la ou falar com ela. Os fundos da grande casa davam para um dos caminhos que nos levavam ao Rio do Ouro. Quando a minha mãe ia lavar roupas a família em peso passava por lá. Eu ia outras vezes, sozinho, e chamava o nome dela, “Bela, Bela”, cuidadoso, baixinho, quase sussurrando, com medo de que outra pessoa além dela ouvisse e isso lhe criasse um problema. Demorava, mas ela aparecia. Para mim, sempre mais bonita que o próprio nome.

A gente se falava por uma greta no portão de madeira. Às vezes ela reclamava porque estava trabalhando e eu a atrapalhava, mas na maioria das vezes ela sorria, com seus grandes dentes brancos, e dizia que gostava de mim. Não sei porque e nem qual, mas tenho a memória de um cheiro bom, que eu sempre sentia quando ela chegava perto. Talvez fosse das folhas dos arbustos que ladeavam o caminho para o Rio do Ouro ou do pé de romã que tinha no quintal da casa em que Bela morava.

Como muitos de nós que habitavam aquelas redondezas, ela era pobre, talvez um pouco mais que a maioria. Aquela casa onde vivia não era a casa dela, ela trabalhava lá. Fazia serviços domésticos para uma família de “ricos”. Não consigo agora lembrar o nome do patrão dela. Recordo apenas que era um homem elegante, alto, que chegava carregando uma pasta. Era advogado, se não confundo. Não parecia ser mau, mesmo assim eu e Bela tínhamos verdadeiro pavor de que ele, ou outra pessoa da casa, nos flagrasse sussurrando no portão dos fundos ou trocando sorrisos e beijos, jogados de longe, quando ela aparecia na janela ou na varanda.

Normalmente, isso acontecia quando eu estava sentado no passeio, do outro lado da rua, com outros garotos. A casa em que Bela morava ficava bem em frente à casa de Zé Popô e era por ali que eu me postava para flertar com a minha primeira paixão. Ou então era quando a gente estava jogando bola na rua, eu, Gabriel, João, Zelão, Di, Hélio, Paulinho… e ela passava. Indo comprar pão ou cumprir outro mandado qualquer da família.

Os meninos a perturbavam. Ela passava tímida e eles cantavam: “Dez tostões de soda, dez tostões de anil, meia coronha está no Brasil”. Referiam-se a uma calça, talvez a única que Bela tinha, cujas pernas não lhe chegavam ao tornozelo, por isso chamada, não sei por que, de meia coronha. Eu ficava muito aborrecido, mas engolia minha indignação calado. Para que não soubessem da minha paixão, também por um certo espírito de corpo entre os “machinhos” ou simplesmente por medo de algum deles me chamar para brigar. Nunca dizíamos desafiar ou outra coisa que não “chamar para brigar”.

Não sei quanto tempo eu e Bela, “namoramos”, sem um beijo de verdade sequer, apenas com olhares, sussurros, beijos jogados de longe, naquele gesto de levar a mão aos lábios, colher o beijo e depois simular seu lançamento na direção da outra pessoa, repetido por crianças e adultos bem velhos até hoje. O suficiente para me causar falta de ar, quando eu a via mais de perto, ou me deixar de pernas bambas, quando ela atendia aos meus chamados no portão do quintal. Eu não sabia que estava apaixonado, apaixonado mesmo, e nunca havia dito isso a ninguém, talvez não soubesse usar essa palavra, mas estava.

Mesmo que os meninos da rua não fossem cavalheiros com ela todo o tempo e fizessem gozação com o comprimento das suas calças, Bela atraía outros olhares que não apenas os meus, por causa de sua beleza e charme. Mesmo tendo 12 ou 13 anos na época, quando penso nela, agora, a vejo adulta, com pernas bonitas, à mostra dos joelhos para baixo, quando ela estava com um de seus vestidos estampados, ou do tornozelo para baixo, quando ela vestia a calça objeto da pilhéria dos moleques da rua. E lembro que ela tinha seios grandes, que nunca vi nus, mas não conseguia evitar de reparar no volume que faziam sob o vestido ou uma de suas blusas de malha.

Os dentes que já mencionei eram brancos e pareciam grandes; não era dentuça, os dentes é que pareciam grandes. A boca era linda. Lábios cheios e avermelhados. Sim, agora eu me lembro: eu a beijei. De leve, mas demorado, quando ela abriu o portão dos fundos da casa uma vez. Macios os lábios, que ficaram fechados naqueles instantes em que tocaram os meus. Eu não fechei os olhos e ao olhar o seu rosto tão de perto, vi que ela tinha sardas, pequenas manchinhas abaixo dos olhos. Por que eu esqueci por tanto tempo daquele beijo? Talvez porque a minha memória, acostumada com as experiências deste meio século de vida, tenha ficado exigente e não tenha considerado que um toque de lábios, com a boca fechada, sem línguas se enroscando em frêmito, também é um beijo. E, no caso do nosso, um beijo de amor.

Um amor que ficou inseguro, pois outros meninos paqueravam Bela. Era ela tão bonita, em seus vestidos de chita floridos ou desfilando com a sua calça curta, que mais de um queria ser seu namorado. E se ela topasse ficar com um deles? Como, apesar do romantismo de nossos quase-encontros, a gente não namorava firme, não se beijava, não tinha contatos que não os do quintal, separados pelo portão, ou da varanda, separados pela largura de uma rua, eu não sabia se ela ainda ia me querer depois de tanto assédio de outros meninos, alguns mais bonitos que eu, eu achava.

E como medo da resposta, eu passei a evitá-la, fugia de Bela. Pensava que quando eu a visse, ela iria, fatalmente, me comunicar que já estava namorando outro menino, porque eu não era bonito ou forte ou rico o suficiente para ela. Rico? Sim, os garotos pobres, como eu, achavam que uma menina bonita, mesmo que fosse pobre também, sempre iria preferir um garoto rico a eles, afinal, tratava-se de assegurar um futuro melhor, ainda que todos fossem muito novos. Naquele tempo ainda era o casamento a mais firme aposta das mulheres para ter algum conforto – e respeito.

Entre os garotos que moravam perto da minha casa eu sabia de dois que paqueravam Bela e já tinham dito isso a ela. Um era Fernando, chamado de Teirão, meu vizinho, filho do dono de uma loja de calçados que vendia sapatos e sandálias trazidos de São Paulo ou feitos numa fábrica própria, e Iolito, o Lito, filho do dono de uma relojoaria. Eu era filho, com muita honra, de um pedreiro. De vez em quando eu flagrava os meus dois amigos discutindo, porque um dizia que Bela já havia se decidido por ele, o outro contestava e fazia propaganda de um “namoro certo”. Namoro certo daquele tempo equivale hoje a estar em “um relacionamento firme” do Facebook. Não era mais somente a paquera, de então, nem o “só ficar”, de hoje. E eu os ouvia e ficava me remoendo por dentro, apaixonado, com saudade, mas sem coragem de perguntar a ela, sem coragem, sequer, de aparecer. Todos os complexos de inferioridade, crise de autoestima e carência afetiva que vocês vêm em mim hoje eu já tinha. Deve ter sido quando desenvolvi a minha atual insegurança emocional, daí porque passei a evitar Bela.

Até que um dia os dois amigos decidiram que pediriam que a própria Bela dissesse com quem estava “namorando” ou com quem queria ficar. E me incluíram entre os candidatos, pois, tomado de súbita coragem quando soube do desafio, eu afirmei que ela gostava era de mim. Chegaria, finalmente, o dia em que Bela me diria se a paixão que eu imaginava que ela sentia era tão verdadeira quanto a que eu sentia por ela, embora não soubesse que o nome daquilo era paixão.

Igreja da Conceição, Jacobina. Em seu degraus vivi um momento inesquescivel

Numa tarde, quando não tínhamos aula, sentamos os três na escadaria da Igreja da Conceição e ficamos a esperar Bela passar. Sabíamos que ela tinha ido à venda de Seo Noel e passaria ali na volta. Combinamos que caberia a Fernando fazer a pergunta. Ele era o mais desenvolto dos três. Contava vantagem e vivia listando nomes de meninas com quem já havia namorado. E se achava muito bonito. Lito era mais contido. Era forte e gostava de sorrir, mas não contava vantagem, achava que Bela ficaria com ele porque era um menino sério. Já eu estava com a cabeça raspada, máquina zero, por causa de piolhos. Tive que cortar o cabelo naquele dia, logo naquele dia!, em que os meninos marcaram o desafio. Meu pai que passou a máquina na minha cabeça, de manhã cedo, depois lavou com água e areia, “para matar as lêndeas que ficaram”. Claro que eu ia perder, Bela escolheria um dos outros dois. Eles tinham muitas vantagens sobre mim e agora eu era o mais feio deles. Careca!

Bela vem devagar, traz em uma das mãos uma sacola com frutas. Para diante de nós e já vai falando: “Vocês estão me esperando para saber com quem eu quero namorar, não é?” Fernando diz que sim, que nós três queremos uma resposta. Mas a pergunta que ele faz é diferente da que esperávamos: “Qual de nós você acha mais bonito?”. Sacrista! Ele perguntou assim já pensando em me tirar do páreo. “Ora, ela vai dizer que o mais feio sou eu”, pensei, com raiva e exagerada humildade. Lito riu, um sorrisão de quem confiava nos dentes que tinha. Eu devo ter resmungado um “oxe”.

Bela tinha que continuar seu caminho, levar a encomenda dos patrões, portanto tudo não deve ter demorado mais que alguns poucos minutos, mas ainda hoje penso que foram horas intermináveis de indecisão dela. Ainda agora minhas mãos suam e meus joelhos relembram o medo que eu senti na hora. Mas, covarde ou não, careca ou não, aquela era a minha chance de saber se o interesse que Bela demonstrara por tanto tempo era verdadeiro.

(Até eu estaria rindo se fosse outro que estivesse aqui a falar de paixões aos 11 anos de idade. Pode até não ter sido, mas a sensação de falta de ar, a fraqueza nas pernas, as mãos suando, a enorme vontade de estar o tempo todo com ela, eu vim saber, mais tarde, que os adultos chamam de paixão. E era o que eu sentia).

E, finalmente, ela respondeu, olhando para mim, com a minha cabeça raspada: “Ele é o mais bonito”. “Vixe”, acho que exclamou Lito. “Tá doida”, deve ter saído da boca de Teirão. “Ufa”, disse meu coração, começando a bater mais devagar após aquela eternidade de dúvida e expectativa. “Pronto”, disse ela, “vou embora. Meu namorado é Giorlando”.

E eu fui com ela pela rua. Peguei a sua mão. Lembro que, da janela do sobrado onde morava, Gabriel assoviou a musiquinha infame das calças curtas. Mas agora ela estava de vestido. E com o namorado. Brusco, virei e dei dedo – aquele gesto que consiste em separar, ereto, o dedo médio dos demais e mostrar à outra pessoa. Coragem para Bela ver. Por dentro, o medo de tomar uma surra de Gabriel depois começou a se misturar com a incompreensível felicidade que senti desde aquele “Ele é o mais bonito”, dito na frente da igreja.

Esta lembrança se mantém em mim quase inteira. Foi um dia memorável. Como disse, chego a sentir as mesmas sensações agora. Pena que não sei onde está Bela. O que faz, com quem… Lembro-me que a vi anos mais tarde, nós dois no início da fase adulta. Não tão bela quanto a adolescente por quem me apaixonei e com quem vivi aquelas sensações tão doces e tão intensas que muitos anos se passaram até que fossem superadas. A paixão havia passado. Minha vida mudara para melhor; a dela, pareceu-me, muito pouco. Recordo que a olhei com ternura, e vi que seus olhos ainda eram bonitos, mas brilhavam menos, havia alguma amargura em seu olhar. E ela procurou me evitar, desconversou. E se foi para nunca mais.

Confesso que gostaria muito de ver Bela de novo. Ou uma outra Bela, desde que ela more em uma casa cujo quintal dê para um caminho que leve ao Rio do Ouro. Quero aquele cheiro de volta. Gostaria de uma paixão de infância. Ou só de uma infância.

— A foto da igreja da Conceição eu obtive de http://www.flickr.com/photos/roberiocordeiro/ Espero que Robério não fique aborrecido. E espero que vocês visitem o site e gostem, como eu, das fotos dele. 

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Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 56 anos de idade, 40 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

12 comentários em “A escolha de Bela

  1. Tereza Vasconcelos

    Realmente, devo confessar que os amores de infância são inesquecíveis, assim como a pureza dos sonhos de uma criança…Tempo bom, fase gostosa!!!Vontade de voltar no tempo.Que pena!Não sei voltar!
    Parabéns pelo texto, singelo e brilhante- a tua cara!!!
    bjocas

    • Oi, Tetê. Que bom receber sua visita e ganhar um comentário. E que bom que não sabemos voltar à infância; senão, o que fazer com tudo o que ganhamos e aprendemos ao amadurecer? Obrigado por gostar do meu texto, me envaidece. Obrigado. Fique com meu beijo carinhoso.

  2. Que sortudo que você é! Quantos não têm tão feliz lembrança para quando se sentirem feios, pobres e carecas. Então, empunhe com segurança a “escolha de Bela” toda vez que os acontecimentos da vida tentarem te diminuir. Mostre novamente o dedo e diga “eu sou o cara, ela me escolheu”. Felicidades aos dois, pois já adoro Bela.

    • Que legal sua visita. Gostaria de seguir o conselho. Mas, de verdade, creio que cada escolha tem uma história, uma alegria, uma dor e só se resolve em si mesma. O amor da adolescência é uma boa memória, mas está muito longe para que possa me salvar das dores de amores que ainda me perseguirão nesta vida. As que passaram, já vão tarde. Bela não se repete e nem eu. Mesmo assim, entendi o que você quis dizer. E sei o quanto vale. Obrigado. Cláudia. Vou escrever mais para que você, e outros amigos, voltem sempre. Felicidade para você também.

  3. Giorlando eu me vi incluso na sua historia. Senti até o cheiro de nossa Jacobina.
    Kra vc me emocionou, voltei no tempo. Ah… Lito é meu primo.
    Parabéns.

    • João, que bom que você gostou. Jacobina nos causa, também na lembrança, sensações maravilhosas. Eu espero que Lito não zangue se ler isso. Rs. Não o vejo há mais de 30 anos. Um forte abraço, obrigado pela visita.

  4. Que texto lindo! Misturei gargalhadas e emoções ao imaginar você, Bela e todos os detalhes desta linda passagem de sua vida.

    • Oi, Keila! Lembro bem do que eu sentia quando via aquela menina. Uma amiga me disse que eu guardei isso para me proteger de decepções no futuro. Talvez ainda funcione. E eu agradeço a Bela por ter existido e ter-me dado essas sensações. Muito obrigado pela visita e pelo comentário. Tentarei fazer com que você volte aqui mais vezes.

  5. Oi Giorlando, adorei! Revivi os bons tempos que vivemos quando crianças, estudávamos na mesma escola no Clube dos Artistas. Não conheci Bela, mas conheci Lito e Fernando quem não conheceu? Todo metido, se achava, mas gostava dele, inclusive eh meu primo. Que bom que você viveu esse amor e guarda até hoje na lembrança.
    Como lembro da venda do sr. Noel! Bons tempos!
    Visitarei sempre seu Blog.
    Bjos…

    • Gardênia, juro que não me lembrava de que fomos colegas no 3º ano. Isso foi em 1970, 42 anos atrás. Eu achei que tínhamos dividido sala no Deocleciano. Então você se lembra de Geraldo, o cigano, que cantava “Receba as flores que te dou…” Rs. Obrigado pela visita. No blog tem mais uma ou duas histórias com Jacobina e a infância. Ache-as e me diga se gostou. Um forte abraço.

  6. Vivi esse texto como se fosse meu, como se fosse eu. Como se eu fosse bela. Como se fosse Bela. De calças coronhas, sempre. Apaixonada, sempre. Senti os calafrios, os suores, as angustias todas. Cambaleei na agonia da espera. Quis vomitar o coração. Todas as paixões são iguais? Não sei, mas cá pra mim, todas as paixões são de infância.

    • Tudo o mais é agradecer. Não apenas porque você veio aqui e leu e comemtou e elogiou, mas porque é você – e sua literatura e sua beleza expostas em arte-escrita da melhor qualidade. Uma das virtudes de manter o blog é criar caminhos, atalhos para chegar perto e conhecer gente como você e marianamiranda.wordpress.com, sensibilidade e coragem, beleza. Aprendizado. Obrigado.

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