Bahia

Um desabafo desorganizado. Salvador.

Em 2010, quando eu voltei de uma viagem que tive a sorte de fazer a Londres, reparei em Salvador, fiquei triste, decepcionado e envergonhado. Naquilo que poderia ser comparado com a cidade inglesa, nós estávamos há séculos atrasados. Me envergonhei porque vi que muitas das mazelas desta nossa capital são causadas pelas pessoas que a habitam, pela cultura do “eu não tenho nada com isso e quem quiser que limpe ou conserte”. E muito por causa disso, Salvador tem sido considerada uma cidade enfeiada, nos últimos tempos. Há um abandono visível e impactante.

Mas não é culpa só dos governantes. Há uma frase antiga que diz: cada povo tem o governo que merece. A apatia da população estimula a leniência e a corrupção dos politicos, dos administradores públicos. E eu tenho vergonha.

Tenho vergonha do lixo, dos buracos, das milhares de pessoas dormindo sob viadutos e marquises ou encostadas a muros sujos e fedorentos. Do cheiro de mijo nas ruas e nos becos – e de saber que a cidade é cheia de sanitários públicos bonitinhos que só servem para expor cartazes de propaganda de empresas amigas do prefeito (vejam: http://migre.me/6h3kw). Tenho vergonha de saber que o dinheiro da população vai para o ralo, enquanto políticos enriquecem.

Tenho vergonha de saber que uma pessoa chega aqui e, como a população, não tem um transporte público decente, e que as coisas nesta terra não são fáceis para quem precisa, na Saúde, por exemplo. Tenho vergonha do comportamento de milhares, talvez milhões, de pessoas que moram aqui e jogam lixo em qualquer lugar; que depredam equipamentos coletivos; que destroem o patrimônio público (cultural  e histórico ou não); de gente que não consegue entender que eu não sou obrigado a ouvir no ônibus ou no boteco da rua a mesma música que ela quer ouvir (como eu não posso ter a empáfia, a arrogância, de achar que posso impor a ela música erudita, jazz, MPB, etc. porque “é culta” – cultura não é isso e gosto tem que ser respeitado).

Tenho vergonha de ver uma obra de metrô se arrastando por mais de uma década e ninguém fazer nada para punir quem comeu o cimento que a terminaria. Me envergonho de ter um Pelourinho fudido, cheio de sujeira, riscos e estragos, em um estado de um governante muito amigo da presidente da República, a mesma que lançou um tal de PAC Cidades Históricas que aqui não virou nada ainda.

Tenho vergonha da educação que se oferece nas escolas desta cidade, notadamente na periferia, no subúrbio, sempre desrespeitado e só valorizado quando se trata de buscar os votos para eleger os demagogos. Me envergonho de ver os nossos meninos e meninas achando que a coisa mais linda é encher a cara, ou fumar crack, como me deprime saber que são explorados sexualmente (quase sempre na marra ou enganados torpemente) por estrangeiros que chegam aqui enrolando a língua e enrolando a muita gente que sequer presta atenção em quem/o que são esses turistas especiais.

Me envergonho do preconceito e do racismo que ajudam a empurrar cada vez mais gente para os becos escuros da marginalidade, da prostituição, do crime. E tenho vergonha da violência, dos roubos, dos assaltos. Minha filha já foi assaltada, aos 14 anos. Sei que isso é terrível, mas sei também que já foi pior e que há outros lugares onde é ainda pior. Porém, sei que isso não é Salvador.

Salvador é mais. Todo mundo pode ser assaltado em qualquer lugar: Londres, Paris, Nova Iorque, São Paulo, Feira de Santana, Caxias do Sul, Barbacena… É um risco dos tempos, do crescimento da população urbana, da falta de investimentos sociais, da falta de um sistema eficiente de segurança. Mas, Salvador não é isso. Isso não é cartão postal de Salvador, como não o são, apenas, o Farol da Barra, as praias, as dunas, o Centro Histórico, o elevador, etc.

A nossa maior referência é o povo, trabalhador, corajoso, bonito. De onde, infelizmente, como no mundo todo, na humanidade toda, saem os que roubam e assaltam. Ainda uma ínfima parte de uma diminuta minoria, que por ser tão reduzida é até difícil de achar, de identificar. O resto é sorte.

A violência urbana, os roubos e assaltos, acontecem na vida de uma pessoa, individualmente, por amostragem. Mas se fala tanto nisso e isso tanto acontece, que Salvador está começando a parecer muito mais com isso do que com outra coisa qualquer. E ainda há os buracos, a sujeira e o abandono. É uma merda. Tem que melhorar a segurança pública, a organização da cidade, o trânsito e o transporte coletivo. Isso é certo e premente, mas Salvador não é isso. Não só isso. Vamos continuar lutando para que não seja isso.

Fora João! Acode Wagner! Acorda povo!

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2 respostas »

    • Olá, Alva, que bom que voltou aqui. Mas, posso dizer que se Vitória da Conquista está distante de Salvador nos requisitos que fazem da nossa capital um dos lugares mais belos e desejados do mundo, também está longe de sofrer com os mesmos problemas. Você está em um lugar muito mais “andável e limpo”. Creia. Abraço.

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