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Crônica

A mulher sob o relógio

Seria preciso um segundo relógio, maior, mais preciso, para poder contar o número de vezes que ela olha para o relógio. Porque não são poucas as vezes. Na mesa, na hora do almoço, enquanto mastiga, olha para o relógio quase o mesmo número de vezes que pisca os olhos (lindos olhos, cujo brilho intenso meio que atravessam a pele fina que lhes reveste, chamada por alguns de pálpebras e que para mim são as cortinas que cobrem e descobrem a luz que me guia…).

Agora, outra vez, a vejo olhar repetidamente o relógio, enquanto, em frente ao espelho que lhe reflete a beleza madura e tranquila, bochecha um líquido, provavelmente menta para refrescar o hálito (talvez isso aumente o frescor e lhe dê segurança ao falar com o mundo, mas, aquele que a ama sabe o quanto seu hálito é suave e morno, quando, sua alma em flor, sorri ou canta…).

Tem a hora que o relógio perde para o violão como instrumento de sua ansiedade. Mesmo assim, os acordes não poucas vezes são interrompidos e, pacientemente, esperam ela olhar os números grandes de seu relógio esportivo. Curtos momentos em que a música soa algo triste. Porque se aquele que a ama não se enciúma do relógio, o violão este é de um ciúme gigantesco (compreensível, o modo como ela o abraça e toca suas sensíveis cordas justifica esse apego…).

Tempo, tempo, tempo, tempo

Nem sempre é o mesmo relógio, assim como são diferentes as horas e ainda mais imprevisível é ela – embora eu saiba que ela sempre vai querer saber se está na hora ou se eu me atrasei.

E se o sono dela atrasa (improvável, improvável), mais atrasa pela ansiedade que o quer apressar, marcada pelas seguidas espiadelas ao instrumento que lhe circunda o pulso. Ponteiros, números, suaves tique-taques, luzes coloridas, algarismos romanos, números pequenos, segundos velozes, tempo curto. De manhã ainda tem alguns minutos para se espreguiçar na cama, deitar sua cabeça em meu ombro, misturar as pernas e… pronto! O inesquecível relógio avisa, chama, alarma, alerta, interrompe e reafirma seu poder sobre ela, sobre todos, na condição de representante do tempo, senhor de tudo… E eis que tudo já está atrasado, os minutos preciosos se esvaem, a hora de ir se aproxima, chega, passa e ela já foi.

O consolo é que o mesmo tempo que a faz ir, vai fazer ela voltar. Olhará para o pulso, ou para a parede, ou estará atenta ao soar do relógio da torre da igreja e saberá que precisa correr, pois é curto o horário do almoço…

De dia e de noite eu a vejo preocupada com as horas, com o tempo curto, com a agenda, com os compromissos e com o medo de perder a hora. Sim, isso mexe comigo, embora nem sempre. Mas não reclamo, quase nunca. Sei que se a mulher amada está sob o relógio, terei a minha hora de estar sob ela, fitando seus olhos brilhantes e, agora eu, marcando meu tempo, pelas batidas de seu coração…

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Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 56 anos de idade, 40 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

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