Arte

Mais pessoas que vi de perto – sem fotos.

Foram-se, com a sacola da C&A

Deve ter uns 75 anos. Chapéu Panamá, novinho, na cabeça. Pelo IBGE seria um homem pardo. Passa o guardanapo molhado nos lábios (tem na mesa um pequeno copo, shot, cheio de água mineral com gás). Levanta a cabeça de cabelos alvos como a neve. Olha para o salão, com uma notada ansiedade. Tira os óculos, coça os olhos, torna a erguer a cabeça e a movimentá-la como periscópio procurando alguma coisa ou alguém naquele mar de livros. Paga a conta, o garçom limpa a mesa, deixando somente o copinho com água de molhar os beiços, como diriam. Nem percebi quando saiu. Instantes depois, vejo-o lá embaixo, próximo a uma das estantes de literatura estrangeira. Ouve uma mulher, mais ou menos de sua idade. Ela gesticula muito, parece reclamar. Ele abre a sacola da C&A, mostra algo e parece se justificar. Ela diminui o ritmo dos gestos e começa a sorrir. Agora, um segundo homem, que já estava ali, também de cabelos bem grisalhos como os dois, põe a mão no seu ombro. Deve ter dito: “Você está perdoado”.

Andam para a porta. O amigo com a mão ainda no ombro dele, quase um abraço. Ele com a mão na mão dela. Para onde vão? Voltarão?­­

Oxigênio

É uma mulher bonita, vê-se. Pela branca, mas não por isso. As pernas cruzadas, elegantemente, como convém, diriam os que vieram antes de mim à vida. Reparo nos joelhos. Aprendi a reparar em joelhos, um amor que tive os tem, se não estou enganado, redondamente lindos. A máscara cirúrgica e os cabelos loiros ralos levam a crer que está em tratamento contra um câncer. Lê Virgínia Woolf. Não demonstra ter medo, nem de Virgínia nem do que passa. Mastiga o tempo todo, assim percebo. Do meu canto e na minha ignorância especulo: chicletes, talvez. Ou o incômodo da máscara. Ou está mastigando o ar, comendo o oxigênio, aproveitando e saboreando ao máximo a vida que volta a sentir, que os cabelos  crescendo mostram que lhe renasce. Quando tira os olhos do livro os abre tanto que imitam faróis. Sei, porque estou a dois metros dela e posso ver. Eu e  – se o quiserem – também essas tantas pessoas que quase habitam o shopping, que se escondem atrás de colunas, nas dobras, nas esquinas ou na falta de fé e excesso de medo, coisa que não dá para notar nela.

Ela está sentada, sua beleza não é ostensiva mas não é discreta, lê um livro, de pernas cruzadas, enfeitadas por joelhos lindos. Os olhos brilham. Mastiga chicletes ou o ar. Está viva, vê-se. E em pleno carnaval, ou por ser ele mesmo, usa uma máscara. Deve estar em festa.

Arrastando as sandálias

Eu reparei que ele está vestido em um paletó conservador, mas elegante; fora de moda, mas bonito. Bochechas vermelhas. Imagino que seja do sul, descendência germânica. Bigodes. Não usa óculos este. Lê a Placar, uma revista brasileira de esportes, de futebol, na verdade. Começo a viajar nos seus gestos. Não estou aqui para isso, mas me apraz prestar atenção nos outros (sei que também olham para mim). Acaba de cofiar o bigode. Vira a página. Imagino que gostou do que leu: balança a cabeça para cima e para baixo duas vezes. Olha para a frente em seguida, como se a pedir autorização a não se sabe quem, para prosseguir nas suas leituras. Da página lida agorinha não gostou: passou a mão na cabeça, cenho franzido.

Óbvio, leitor, você está certo, é o contrário. Ou nada disso. O que é mesmo? Uma figura um pouco diferente. Em um ambiente cheio de gente arrumada, trajada com aprumo, mulheres vestidas para o elogio, com suas bolsas com letras douradas impressas e seus cabelos tingidos de loiro, ele e eu não nos destacamos. Eu menos. Visto uma camisa barata de tecido, faltando o último botão de baixo, calçando meu sapato velho comprado no Iguatemi de Campinas por recomendação da minha filha, calça jeans adquirida em Conquista, em 2004, com duas riatas quebradas e tão desbotada quanto eu, e ele com seu paletó com cara de caro e elegância antiga, camisa pólo azul por baixo, calça jeans folgada e sandálias Rider nos pés vermelhos, como as bochechas. Agora ele se levanta. Arruma as revistas sobre a mesinha à sua frente: Elle, Placar, Superinteressante, Bravo e Casa (escrito “casa” bem grande no alto da capa). Penso que se vai, mas ele não sai, muda de lado, de poltrona, como se quisesse ver ou ser visto de outro ângulo. A revista Casa está lacrada. Leva aos dentes e rasga, libera. Folheia. Olha para mim, mas não me vê. Nem desconfia que reparo nele. Ele só estava cumprindo um roteiro. Rapidamente volta a enfiar os olhos na revista.

Eu aperto pela quinta vez o botão “Chama Garçom” do Café “Feito a Grão”, da Livraria Saraiva do Iguatemi. Ele lê. Sexta vez. Ele passa o dedo na língua, molha, vira a página. Na oitava vez que eu chamo o garçom para pedir 1. Cerveja, 2. Caneta para anotar o que vejo e desejo registrar no blog, ele (o garçom) não vem. Saio dali e desço ao setor de papelaria para comprar uma Pentel RSVP e uma caderneta para anotações Zequenz, aquela que enrola 360 graus sem estragar. Volto o mais rápido que posso. Mas, ele já foi. E levou as revistas. Tenho a impressão de ouvir o som das suas sandálias arrastando pelo shopping. “Schlap, schlap, schlap”. Me restam o garçom pedindo desculpas e as mulheres loiras com suas bolsas originais e falsas, às vezes os dois tipos no mesmo braço. Mas, êpa! Na mesa 13, onde eu estava antes, um jovem negro lindo beija uma linda menina negra. Depois sorriem certos de que o mundo é só deles. Penso em escrever sobre a cena que achei bonita e inspiradora, mas a minha mão doi por causa das anotações. Paro por aqui.

TERMO DE ABERTURA: Este caderno é dedicado ao registro de impressões sobre pessoas, o dia a dia, coisas do mundo. Aberto em 15/02/2012, 17:14, livraria Saraiva, Iguatemi, Salvador, Bahia, Caneta Pentel RSVP.

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