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Menino, moreno, mulato, de cor… boiadeiro, sonhador. Uma reminiscência.

Como eu já contei para Bi, posso contar também para vocês. Cícero Matos se lembra, Paulo (de China) Fontes também. Não sei quem mais sabe, além destes, porque não me lembro quem estava lá. Isso foi há muitas esquinas. Nem eu sei mais o caminho de volta.

Era ali pela segunda metade dos anos 1970, qualquer ano entre 1976 e 1979. O colégio onde eu estudei, o Centro Educacional Deocleciano Barbosa de Castro, público e bom (então), que te apresento para que veja o que vou te contando como se visses mesmo…

Pois então (como falam), o CEDBC promoveu um festival de cultura (se é que foi o CEDBC, mas como saber se já são tão velhos, o tempo e eu?). Eu queria ser parte ativa, mas não tecia, não bordava, não esculpia, não talhava, não pintava nem o sete. Insistente, achei que poderia unir uma ilusão que eu alimentava de ser poeta, com o talento de um amigo que era/é músico e participar, cantando, do festival de música.

Peguei o meu caderno de anotações, uma brochura de folhas já amareladas e rabisquei uma letra do que seria a minha canção no festival.

Era para falar de mim, da minha pele, das minhas dores, das minhas ilusões e das minhas rimas, nenhuma irmã, apenas primas, se amarrando meio bambas, coincidindo nas últimas sílabas, mas apenas piegas, como uma ladainha, uma reza sem milagres à vista.

Oh, Bi quer saber onde anda o caderno, onde estão as poesias, a música, o que se deu do festival. Mas, foi há 30 e tantos anos. A música está na cabeça, aos pedaços, cinzas, restolhos. O caderno joguei fora com um tanto de folhas soltas, cheias de palavras presas umas às outras, a que eu chamava de poesias e um tanto de gente acreditava que eram, ou me diziam que acreditavam para demonstrar carinho, para que eu continuasse a acreditar nelas. Do festival acho que não ficou registro. Talvez uma foto, mas não minha, porque não me lembro do flash.

Ensaiei com meu amigo, registrado e batizado Paulo Fontes, carimbado Paulo de China, por ser este o nome pelo qual a cidade inteira conhecia seu pai, muito conhecido. Eu escrevi a “poesia” e, como se disso eu soubesse, musiquei-a mentalmente e com barulhos feitos com a boca. De música eu só conhecia os sons que saíam do rádio, porque nem vitrola tinha em casa. O que seria um acorde? Paulo tentou me mostrar. E teve a paciência de um artista sensível e de um amigo mais sensível ainda. Achamos uma melodia para o poema de pernas curtas, calças curtas, frases curtas, rimas pobres.

Uma tarde de ensaio. Ele dizia: apenas cante, não tente ouvir o violão. E não suba muito a voz, não precisa. “Vamos lá, acho que pode dar certo”. No palco da Sociedade Filarmônica Dois de Janeiro, mas não era janeiro, talvez fosse setembro, os dois estávamos prontos. Um inteiro, excelente músico; o outro pela metade, excelente sonhador, não mais. Paulo de China sentado, suas pernas de magro cruzadas para apoio do violão.  Eu ao seu lado, em pé, meio bambo. Soam os tais primeiros acordes. Eu olho para o violão, para Paulo, para a plateia. A introdução não me introduz. Meu amigo, hoje um belíssimo maestro, me diz para cantar. “Canta”, fala uma vez. Olho para o violão de novo, como se quisesse achar o tempo e ler no movimento dos dedos dele nas cordas a leitura a seguir. “Canta”, murmura ele, outra vez, assim mesmo, murmurando, para não entrar pelo microfone e sair pelas caixas de som e a plateia – e os jurados – entenderem que era a música, afinal.

Eu olhava os dedos procurando os caminhos dos acordes

Cantei. Cantei? “Menino, moreno, mulato, de cor… Moreno natura, menino pudor…”

Pode isso ser poesia, ou música, ou arte, ou parte do que se chame festival de música, Bi? (Não diga que sim e nem teime só para me agradar). E o violão soltava suas notas na direção da luz e eu jogava minha voz, com minhas frases mal ajambradas, vestidas de lonas e papelão, para o lado da sombra. “Menino, moreno, mulato, de cor…” E agora a plateia, em coro, completava: “Oi”. E eu quase chorava e Paulo corava e os jurados se entreolhavam e a plateia me olhava esperando a sequência.

“Boiadeiro da estrada, pobre mulato, viver por viver, sonha por amor…” Coisa assim, semelhante, parecido, sobejos da memória. Devia ter mais um verso, choroso, clamando por um amor, um beijo, um pedaço de queijo, um desejo que viesse de outro alguém, talvez da plateia. No refrão, eu chamava o menino moreno e os mil meninos que olhavam para a dupla Giorlando e Paulo respondiam, “oi, estou aqui”.

Um boiadeiro que tomei emprestado do blog de Romeo Zanchett (Vai lá e vê mais)

Foram três ou quatro minutos. Uma eternidade. Na minha frente, uma massa disforme, uma junção de rostos de mulatos, brancos, um japonês, talvez. E eu não senti que era vaia. O pequeno choro que nem me embargou a voz, já tremida desde o início, pela estreia, pela invenção, pela intromissão na arte dos outros, virou uma satisfação. Gostei de repetir o refrão, gostei da resposta, gostei de falar com tanta gente e tanta gente retribuir. Foi isso o que senti. E agora ria. E enquanto ria pensava que os jurados iriam considerar a interação, a sintonia artista-plateia; não avaliariam minha chocha interpretação, minha voz, meu tom, tampouco a melodia de Paulo, que já era minha, mas que ele poliu, deu um jeito e eu borrei de novo. Além do que, ou mais que tudo – tive tempo e o atrevimento de pensar nisso -, eles estavam com a letra na mão. Falava de um jovem diante do tormento que é a busca por um amor, que viajava como um vaqueiro, laço na mão, tentando prender a si uma esperança, um amor, essas coisas quaisquer que a gente busca e chama de felicidade. Era uma poesia, afinal.

Qual o quê… nota 3, na média, de uma escala de 1 a 10.

Aposentei-me das carreiras de compositor, de cantor e de poeta, desde então.

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2 comentários em “Menino, moreno, mulato, de cor… boiadeiro, sonhador. Uma reminiscência.

  1. Giorlando…
    Passa tudo na vida da gente, mas ficam as lembranças, independente delas serem boas ou ruins…
    Menino, moreno, mulato, de cor… boiadeiro, sonhador. Uma reminiscência.
    Lembro de você adolescente, não era tão meu amigo e sim da Lay, mas como onde ela estava eu estava junto, acabamos por ficar amigos também. Vou procurar nossas fotos na piscina scanear e te mandar ou quem sabe te entrego pessoalmente em Jacobina, o tempo dirá.
    Dificíl escrever para uma pessoa como tu, que tem o dom da palavra dita ou escrita, sinto-me meio constrangida…
    Amei ler sobre mais essa passagem da tua vida, do nosso colégio, da nossa cidade. Lembro do Paulo de Seu China, estudava com o Gustavo irmão dele, que por acaso é hoje o sogro da minha sobrinha…Ohh mundão que dá voltas e voltas e acaba sempre no mesmo lugar! Certo Giorlando?
    Espero ansiosa por teu sucesso na literatura!
    Beijos…
    Amo voce!

    • Obrigado pela visita, pelo comentário, pela confiança e pelo amor. Retribuo tudo com carinho e um esforço maior para contar histórias mais interessantes e melhor elaboradas , sabe um dia, chegar mesmo à literatura.

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