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Crônica

Pessoas que vi recentemente – 3. Quem é o traficante que te ajuda a comer?

Dia desses revi no YouTube aquele comercial que mostra uma pessoa vendendo DVD pirata na rua e quando o comprador diz que está sem dinheiro trocado o vendedor responde: “Eu troco pro senhor. Eu posso dar o troco em bala?”. E então a imagem mostra a mão dele despejando balas de pistola na mão do outro. O locutor finaliza afirmando que “o dinheiro que circula na pirataria é o mesmo que circula no crime organizado”. Forte. Verdadeiro? Talvez, mas nem sempre.

Há alguns anos eu estava em São Luís, linda capital do Maranhão, e conheci um rapaz que vendia CDs e DVDs piratas. Eu o vi em um determinado ponto da cidade, antes do meio-dia. À tarde, eu estava em um bar distante do ponto inicial uns 20 quilômetros. Fui de carro. E por lá também estava o vendedor de DVD. Curioso, chamei-o e perguntei como ele se deslocava pela cidade, já que horas atrás eu o vi tão longe dali. Respondeu que andava a pé, visitando bares, restaurantes e pontos de aglomeração de pessoas “que gostam de filmes e de música”.

O cara me disse que saía de casa depois das 9 da manhã. Morava no Anil. Ia de ônibus (não sei se pegava um ou mais) até onde desse, desde que chegasse à avenida Litorânea, onde começavam as vendas, para o “pessoal da praia, ali nas barracas”. O percurso, segundo ele, incluía Holandeses, Ponta d’Areia, São Francisco, atravessava a ponte até chegar ao centro, onde “os turistas e o pessoal que gosta de barzinho chega sempre à tarde, mais pro finalzinho do dia”.

Era um rapaz novo, não mais que 25 anos. Me disse que era casado e tinha uma filha. Perguntei se aquele trabalho era suficiente para sustentar a família. Respondeu que estava dando sim, pois fazia mais de 500 reais por mês (isso foi há uns sete anos) e tinha a ajuda da mulher, que dava aula numa escolinha do bairro, “minha mulher é formada”. – E você quer continuar fazendo isso, vendendo cópias de DVDs e CDs ou pensa em se formar também?, indaguei. Pensava em se formar, disse, mas até que gostava de fazer o que fazia. Rindo, falou que era exercício, via gente nova, fazia muitas amizades, “todo lugar tem gente que me conhece e já é meu cliente certo” e o dinheiro era mais do que trabalhar na construção civil ou “num trabalho pequeno na prefeitura”.

Tem alguma coisa ruim nesse trabalho? Tem. “De vez em quando aparece uns vagabundos querendo levar o que a gente vende. E também tem gente que não compra porque diz que é coisa de traficante”. – E não é? “Que nada, esses DVDs eu pego com um amigo, ele e outro parceiro compraram um computador com várias bandejas de DVD e passam a noite fazendo as cópias. As capas eu mesmo pago pra fazer na loja de Xerox colorida”. Se fosse de traficante eu ficava era longe, mas também não posso dizer que não tem traficante nesse negócio, tem bandido mexendo com tudo, até com política, né?”

Aperto o botão e dou avanço no tempo. Carnaval em Salvador. Típico morador sozinho, preguiçoso para cozinhar, saio para comer um sanduíche na Speed, aqui em Ondina. Depois de perguntar a um dos sócios da lanchonete se eles são indenizados pelo Camarote Salvador (que os expulsa da praça onde estiveram por vários anos) e saber que tudo o que os ricos do camarote oferecem é a tenda, montada a 50 metros da sua localização original, “mas não assumem qualquer prejuízo”, vejo passando uma figura que admiro muito. É Fábio. Ele está vendendo balas, Halls, Mentex, amendoim Mendorato, etc., “vestido” em um daqueles tabuleiros que se penduram no pescoço e passam a ser uma extensão do corpo, da barriga, digamos. “Pela manhã vendo meus DVDs de noite ganho um pouquinho mais com meu tabuleiro de balas. Quer um Halls?”

Fábio é um rapaz muito educado, simpático e gentil. Nunca perguntei a idade dele, mas o professor Felício, meu vizinho e meu amigo, acha que ele tem uns 21 anos. Fábio não vende balas nos dias normais. Vende cópias de CDs e DVDs e pode ser visto quase todos os dias em Ondina, oferecendo filmes e músicas aos seus fregueses que frequentam os bares da área. É um rapaz que fala devagar, baixo, com respeito. E é honesto. Aceita de volta até o DVD que você, por não ter esperado terminar o trailer, quis devolver pensando que tinha levado o filme errado. “Eu gosto de agradar meus fregueses”.

Parecido com o seu “colega de profissão” do Maranhão, que hoje já pode estar formado e fazendo outra coisa, Fábio anda muito. Aposto que ele percorre uns 30 quilômetros por dia. Será que um carteiro anda mais? Deve ser por isso que ele é magro. Nunca perguntei. Mas, como fiz em São Luís, perguntei a origem dos seus discos. – Quem é o traficante que te ajuda a comer? “Oxe, Deus me livre, vira essa boca pra lá. O pessoal que me entrega eu conheço de muito tempo, tem nada de traficante não. O povo tem essa mania de dizer que é de traficante, mas é todo mundo trabalhador, quem copia e quem vende”. Ele diz que tem muita gente fazendo cópia, basta ter computador, internet e impressora. “Tudo gente normal, de família”. Fala isso com o cenho franzido, chateado, mas com uma convicção que me convence.

Não comprei nada na mão do vendedor do Maranhão. Para falar a verdade, passei um longo tempo discursando contra o comércio de cópias piratas de filmes e CDs musicais. Não comprava. Sabia de gente que não comprava, comentava a mesma coisa da propaganda anti-pirataria, mas baixava de tudo pela internet. “Assim não é a mesma coisa, não vendo, não alimento um comércio ilegal”, argumentavam esses uns. Depois, conhecendo os Fábios da vida, com suas sacolas pesadas, andando ao sol, arrastando a sandália puída no asfalto, comecei a pensar que as estrelas do cinema e da música, juntando seus milhões, não valiam mais que o meu amigo vendedor de cópias piratas.

Eles lá, cheirando suas imensas carreiras de cocaína, querem (e até merecem) que eu pague fortunas por seus produtos e eles gastam com quem? O, é a lei. Mas, por que eu colocaria nas costas de Fábio e do cara do Maranhão, a culpa e a responsabilidade pelas balas que o tráfico dá de troco por aí?

Ei, me dê aqui esse Discurso do Rei, esse Tropa de Elite 2, quero também esse show e aquele Sherlock Holmes novo. Tem troco não? Me dá aí umas balas. Não, não, peraí, vou levar um chokito.

Se quiser ver o comercial mencionado, vai aqui.

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8 comentários em “Pessoas que vi recentemente – 3. Quem é o traficante que te ajuda a comer?

  1. Compro sem nenhuma dor na consciência. Penso que se eles quissesem que a gente adquirisse só produtos (dvd/cd) originais, colocariam preço acessíveis para os que gostam de arte e cultura.
    Mas o que realmente interessa é encher o cofre e como tu escreveu, quantas carreirinhas de cocaína vai dar!
    Bjs

    • Mas, sabemos, Mazinha, que nem todos querem apenas ganhar dinheiro ou cheiram cocaína. Mas, também não têm que vir com o marketing pesado tentando colocar carapuça de criminoso em todo mundo. Não duvido que hoje 90% das pessoas que compram CDs ou DVDs compram pirataria também.

  2. Coincidentemente eu e uns amigos conversamos sobre isso semana passada. Um amigo, hoje engenheiro civil, conta que quando garoto trabalhou vendendo CDs e DVDs piratas. Sá parou porque a Polícia Civil apreendeu todo o material de produção e destruiu tudo que já estava pronto (quem produzia era um amigo dele). Assim como o moço do maranhão, esse rapaz era casado e tinha três filhos. Ele fala com orgulho, e disse que não fez nada de errado que era um trabalho honesto. Segundo ele, os policiais levaram todo o dinheiro dizendo que era produção do tráfico, deixando o moço sem dinheiro nenhum, passando por dificuldades até conseguir abrir uma lanchonete para trabalhar com a esposa. Uma injustiça. Não é correto, mas erros maiores existem, os preços originais, por exemplo. Gostei de ler esse texto, meus amigos vão gostar de ler, também. Gostei também do seu festival de música (risos). Um abraço.

    • Há a lei, que deve ser levada (muito) em conta e há a força dos estúdios, dos empresários, das celebridades, do mercado, do marketing. Muita gente ruim mexe com isso, sim, claro, mas é como disse o rapaz do Maranhão, tem bandido em todo lugar, até na política, né? Ainda bem que já uma certa compreensão e flexibilidade. Pelo menos essa história de que (só) o tráfico é que vende DVD pirata não cola mais e se cola não gruda tanto. Um abraço, Alva. Obrigado por vir e obrigado por espalhar. Rs.

  3. Giorlando: Pra começar, não vou dizer que você é insuperável porque a cada texto vem superando a si mesmo e eu não canso de me surpreender e repetir, mentalmente, uma “inveja boa”: quando eu crescer eu vou escrever como esse cara… E olhe que é coisa que eu comecei a pensar quando me habituei a ler Carlos Heitor Cony, coisa que nem faço mais. Talvez porque tenha surgido Giorlando Lima.
    Mas rasgações de seda à parte, também me pus a pensar no que o texto traz e faço também aqui meu depoimento: Sei que as gravadoras e detentoras de direitos autorais são escrotas, ambiciosas, só pensam no lucro, e os artistas/produtores, mesmo os mais bacanas e mais despojados, incluídos os que merecidamente fazem sucesso, sobretudo as revelações artísticas, idem, tratam tudo do ponto de vista comercial. E que, tanto a cadeia produtiva da música e do cinema quanto a legislação, se preocupam antes com direito de propriedade e manutenção do status quo do que com proporcionar lazer e entretenimento de qualidade para as pessoas… Mas também tenho minhas restrições à pirataria. Não vou dizer “desta água não beberei”, até porque já bebi e posso voltar a beber. Mas utilizo deste expediente raramente e com parcimônia. Consumo moderadamente, aliás, modestamente mesmo. Também já utilizei do expediente de baixar pela internet filmes e músicas (estas com mais frequência), expediente esse que sei lesar o direito autoral sem, contudo, me beneficiar disso como um comércio. No fundo, não acho legal alimentar esse tipo de comércio, mas ao ler seu texto, chego a ficar com um peso na consciência ao observar o aspecto de que a informalidade é para muita gente, o único caminho de se ganhar a vida decentemente (ainda que à margem da lei). Mas, também, o que é a lei diante das necessidades humanas? A Lei e a Ordem foi o pretexto para o ocorrido no Pinheirinho e me parece que não é preocupação dos legisladores e aplicadores da lei garantir direitos básicos como moradia, habitação, vida digna, etc., mas cuidar do controle social, que gera essas contradições: é errado vender pirataria, mas não se resolve o problema de quem usa deste expediente e tem que por um prato de comida em casa. Melhor mesmo seria o mundo perfeito onde artistas pudessem compartilhar suas obras de arte livremente, sem custos, sem a discussão da originalidade/pirataria e onde a gente não tivesse que ficar refletindo sobre essas questões existenciais. Mas enquanto esse mundo não chega, que suportemos essas contradições. Com balas, ou com chokito, pra adoçar um pouco as nossas vidas…

    • Caríssimo Fredinho, aprecio a sua lucidez. O que sabemos é que nunca haverá um mundo ideal para nada do que conhecemos como humanos, se fosse assim porque nos ofertariam o céu para apenas depois da nossa morte? É como você diz, enquanto isso, suportemos as contradições. No fundo, não quis fazer um libelo de defesa da pirataria. CDs, por exemplo, quando gosto do lançamento, vou e compro na loja, chiando, bufando pelo preço, mas faço assim. Compro músicas no UOL e no iTunes Store. E filmes vejo no cinema ou compro clássicos e títulos mais velhos no balaio das Lojas Americanas, porém, de vez em quando escolho uns entre os que Fábio vende. Nem sempre pelo filme, que alguns nunca coloquei para rodar, mais por considerar que o meu amigo merece essa minha colaboração e ainda mais por indisciplina, desobediência civil, porque não aceito essa campanha do mercado, sujando os informais, pintando todos pela mesma tinta com que pintam bandidos perigosos.
      Por fim, não posso deixar de agradecer o estímulo que você e outros amigos me dão ao virem aqui e comentarem, graças a Deus com elogios. Estou treinando com minhas cronicazinhas, de coisas que vi, vivi ou me lembro, daqui a pouco vou “ficcionar”, quero expor e submeter aos amigos uma obra maior. Já fiz os filhos, já plantei árvores, me falta o livro. Vou aproveitar enquanto me sobra tempo. Um forte abraço, querido.

  4. belo post …. uma imagem vale mais que mil palavras, dizem por aí, mas escrever bem é a união de som e imagem ao mesmo tempo. Parabéns

    • Giorlando Lima

      Grande Delaorden. Um comentário desses, vindo de um cara como você, me faz mesmo crer que consegui escrever um texto bacana e me estimula a continuar escrevendo e postando. Obrigado. Espero que volte mais vezes. (Seu blog também é um dos meus preferidos, adoro as fotos e o texto esperto).

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