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Hoje eu posso confessar: sim, já tive muitos amores. Porque não se pode amar a um amor menos do que se amou ao que se foi ou ao amor que ainda virá.  Amar é uma coisa plena, ainda que nem sempre realizada.

O meu primeiro amor foi Bela, sabem dele os que já leram o que contei, lá atrás, sobre nós dois. Uma história curta e forte que teve como testemunhas a Igreja da Conceição da minha cidade de natal, os paralelepípedos da rua Alice Barros de Figueiredo, os arbustos do caminho que levava ao Rio do Ouro, a curiosidade dos amigos virando adolescentes e os pés de laranja amarga que me davam sombra, enquanto eu aguardava o beijo, no portão dos fundos da casa onde Bela trabalhava.

Outra Bela me trouxe um amor mais recente. Um amor que tornou-se, como o primeiro, uma vontade de repetir, de recomeçar mil vezes, experimentando beijos e adormecendo a vida como se a saboreasse embebida em um tacacá com um pouco de jambú a mais. A primeira Bela o tempo levou, não me resta sequer a lembrança clara de um rosto, apenas a sensação de que a certeza daquele amor de infância me serviria muito bem nesta minha maturidade cheia de dúvida.

A Bela que me veio depois, trazida pelo sugar da minha alma necessitada do seu específico calor, do seu beijo único e do seu cuidado carinhoso, próprio dela e que foi meu, esta me foi levada pela distância. E ainda pelas vidas instaladas, as diferenças consolidadas, que essas se repetem o tempo todo na nossa existência, como razão para amores se afastarem.

Entre elas, as Belas, mais de um amor, como já confessei. E entre eles, ela. Aquela a quem segui por 40 anos. E que muitas vezes persegui. E a quem nunca havia achado como achei agora. Não me perguntem como. Digamos que do mesmo modo como se encontram pessoas hoje em dia. Ok, já que é dia de confissão, admito: Foi sim, pelo Facebook.

Quando vi a sua foto naquela coluna onde está escrito “Pessoas que você talvez conheça” a reconheci imediatamente. Percebi que havia marcas do tempo em seu rosto e antes que isso significasse qualquer outra coisa apenas serviu para confirmar que era ela. Eu a vi dos 10 aos 15 anos de idade, quase todos dias, exceto nas férias escolares; depois a vi de novo quando virava mocinha, na janela, como se em uma moldura; até que a vi em uma noite, bem mais tarde, já ambos dito adultos, em 1985 e, por fim e última vez- até que o Facebook me propiciou rever seu sorriso – em um ano qualquer daqueles de 1990, no Shopping Iguatemi, perto da Perini, com sacolas na mão e um olhar em mim que me gelou.

O gelo do Iguatemi não esfriou nem matou a lembrança e as sensações que marcaram a minha “relação” com a aquela moça. Serviu, no entanto, percebo hoje, para conservar o sentimento. E ele é bom.

Por causa dessa moça entendi o que quer dizer “amor platônico”, se é que isso quer dizer alguma coisa. Quando eu estudava no mesmo colégio que ela, o C.E.D.B.C, alguém me deu uma explicação para o que seria “platônico”. Foi um professor, talvez Astor Rocha de Miranda, que, apesar de ter sido professor de Educação Física, conversava muito comigo sobre outras coisas, me dava dicas, diria. Como meu amigo Astor me dizia: “Você vai ser um grande jornalista. Vai sair daqui e fazer sucesso como fez Sebastião Nery, que saiu da Bahia para tornar-se um nome nacional”. Astor errou, não fui tão longe, mas sua confiança foi um dos meus grandes estímulos para eu não desistir de, pelo menos, ser um jornalista.

Me teria contado Astor, ou outra pessoa, mais ou menos o seguinte (me perdoe, professor, se o que direi agora lhe parecer ridículo e mais ainda se não foi você quem me disse):

“Uma pessoa, tentando testar o grego Platão, um dos maiores filósofos da história da humanidade , perguntou-lhe certa feita: Platão, qual o melhor alimento?  Ao que Platão, sem pestanejar, teria respondido: Ovos. O tempo passou e muitos anos depois, encontrando-o, mais uma vez, em uma das vielas de Atenas, o mesmo homem de outrora volta a arguir Platão: De que modo preparado? E o filósofo, de chofre: Cozidos (ou fritos, sei lá).”

Entendido, então, que platônico seria algo que não sai da memória, algo que não se esquece. O meu amor por Florbela*, era, me diriam aqueles que dele tomaram conhecimento, platônico. Nesta segunda noite em que “conversamos como amigos no Facebook“, entendi que essa coisa de platônico não acaba fácil. A paixão adolescente-juvenil de anos a fio, transformada depois em atrevimento embalado por uma covardia etílica numa noite constrangedora que eu não esqueci e, mais tarde, realimentada pelos olhos graúdos que me encararam e me fizeram fugir, sumindo eles mesmos em instantes, no Iguatemi, pareceu-me, agora, ainda quente e saborosa como os ovos cozidos de Platão.

Como não sei se de fato ovos cozidos são o melhor alimento, confesso, nesta noite de confissões, que além de tremer com a emoção do reencontro, mesmo que virtual, também temi que o meu atrevimento, desta vez não embalado pela valentia etílica, não seja saudável.

E assim é que, para contar sobre o que foi Florbela para mim, de como aquele amor platônico funcionava na minha cabeça e sobre os rabiscos que a paixão pela professorinha deixou em minha alma, só se ela ler isso o que escrevi até aqui e achar um jeito de dizer: Continue, agora me interessa saber do seu amor, mesmo que passado.

* Florbela não é ela. Mas ela existe, ainda bem.

Itabuna, 27 de agosto de 2013. 2h57.

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Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 56 anos de idade, 40 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

0 comentário em “Se ela disser que sim eu prossigo…

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