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Lembranças. Cada um tem um jeito de vê-las. As pessoas da minha infância eu as vejo adultas, como se o tempo fosse hoje. Com Florbela está sendo assim. O rosto, com a boca marcante e os olhos bem abertos, e o corpo de mulher esguia são os mesmos que avistei no Iguatemi de Salvador há uns 20 anos. E mesmo que eu reveja momentos de 1973, 1974, quando ela tinha não mais que 10, 11 anos, Florbela está uma mulher formada na minha visão. Vou falar a verdade, que me perdoem as muitas mulheres bonitas a quem eu já disse “você é mulher mais bonita que já conheci”: Florbela era linda. E que também me perdoem os que não gostariam de me ouvir dizendo isso: ela ainda é uma das mulheres mais bonitas que eu já conheci.

Estou contando isso porque ela autorizou, disse sim. Talvez o primeiro sim que ela me diz em 40 anos. Ou um sim diferente dos que pode ter me dito outrora, um sim ainda mais sim. Uma demonstração de confiança e generosidade que, confesso (de novo), não pensava que teria dela.

Porque a tal paixão platônica era mesmo meio besta. E eu rio quando digo isso.  Não era apenas uma coisa sem chance, como o tempo se encarregou de mostrar, era masoquista. Ela não me dava muita atenção; aliás, dava pouca atenção a quase tudo o que eu tentava dizer ou fazer para chamar a sua atenção. Na maior parte das vezes parecia que estávamos competindo. Ela era uma das alunas mais inteligentes da turma (que se repetiu por muitos anos no mesmo colégio) e eu dava meus dribles nos professores a ponto de parecer, para muitos, que também eu era inteligente. Florbela era mais. E linda.

E eis que agora descubro que não posso falar muito dela. Porque se o meu amor por Florbela foi uma fantasia, Florbela não é uma fantasia. Tem em torno de si, certamente quem dela sente ciúmes ou algum leão que a proteja, inclusive de mim.

Pelo menos guardo as lembranças. De suas pernas compridas na aula de Educação Física, com Astor, Armando ou Estefânio. Passa no filme da minha memória Florbela tentando dar uma manchete em um partida de vôlei ou fugindo da bola em uma brincadeira de boleado. Ou não era você, Florbela? Teria a minha fraca memória de quase meio século transformado todas em você? Você jogou handebol Florbela? Rosana jogou, era goleira. E também Rosana nunca mais eu vi. Não foi um meu amor, era minha amiga, irmã de Jussara. Lembro de Rosana dançando gut gut na sala de aula. Todo mundo dançava, só não me lembro de Florbela dançando gut gut.

Lembro dela na janela de sua casa. Fim de tarde, eu, ainda moleque, jogando bola em um campinho de terra ao lado do Colégio Sóror Joana Angélica e tentando impressioná-la com um gol ou um drible, com pulos macaqueados que ela não percebia na distância e se via não entendia e se entendia sabe-se lá o que pensava. É lugar comum, eu sei, clichê que seja, mas a janela servia de moldura para a obra de arte que era a sua figura. Braços apoiados no parapeito da janela, cabelos compridos e pele morena clara, ela parecia esperar um cavaleiro garboso e, de preferência, montado em um cavalo branco, passar em sua porta fazendo sinal para que ela o seguisse.

O cavaleiro não era eu. Um dia fomos estagiar na mesma escola. Ela bem vestida, roupa bem passada, blusa branca cobrindo seios de menina moça que, ainda que belos, pelo que eu podia supor, não me atraiam tanto quanto sua voz, seus lábios cheios, seus olhos bem abertos. Eu usava uma roupa mais velha. Uma calça de tergal azul. A farda era blusa branca, com o escudo redondo do Centro Educacional Deocleciano Barbosa de Castro (C.E.D.B.C.) no bolso e calça azul.  Quando a gente entrou já era assim a farda, Florbela? Não chegamos a usar aquela caqui, parecendo roupa de polícia, não né?

ESCUDO CEDBC

Ela era a estagiária, eu era o homem da sala. Na turma, eu era o único homem. No dia em que cheguei à secretaria do colégio para me matricular havia duas opções: Contabilidade ou Magistério. A funcionária do colégio me deixou ver quem dos meus colegas do curso básico havia se matriculado em qual. Muitos, cujos pais podiam pagar, foram para Salvador. Alguns já haviam mudado desde o final da oitava série. Lembro que fiz parte de uma turma que se preparou para a Escola Técnica Federal, quando lemos O Encontro Marcado, de Fernando Sabino. Chegamos a combinar que também nos encontraríamos dez anos depois; já são 35 e todos sumiram.

Menos um. E ele também era apaixonado por Florbela. Quando nos vimos em Salvador, há quatro anos, lembramos dessa paixão e da música que o ajudava a se alimentar da paixão. Não posso contar porque exporia Florbela. Vou escrever sobre isso em uma folha de papel, colocar em um envelope e guardar comigo até que um dia eu possa revê-la, no Iguatemi, talvez, na praça da Perini, e entregar essa parte da história. Não, não apenas essa parte, mas toda a história que vou guardar mais um pouco, como lembrança. Quem sabe Florbela nem saiba quem eu sou eu e nem vai saber que falo dela. Então por que falar de alguém que não vai se ver nas histórias?

Vou terminar pelo menos a parte referente ao dia em que fomos estagiar juntos em uma escola pequena. (Porque, ao ver o nome de Florbela na lista de matrícula do curso de formação de professores eu escolhi fazer Magistério). As meninas da minha turma de estágio se encantaram comigo. Eu já tinha 16 anos e as alunas variavam entre 11 e 12, talvez 13. E na sala delas estava um “professor” não uma professora. Risinhos baixos, cochichos, aqui e ali um “psiu” impertinente, que desviava a atenção do professor e, de repente, a minha calça rasgou. Na bunda. Um rasgão do cós à coxa, sobre a nádega direita.  E eu estava sem cueca, pois não tinha. Minhas alunas nem repararam, mas eu vi que Florbela reparou e achou ridículo. Se não reparou e nem achou ridículo eu achei por ela.

Eu não seria o seu cavaleiro garboso. Coloquei aquilo na cabeça. Fui embora. Ainda fui às aulas um tempo com a calça remendada pela minha mãe. Mas estar naquela sala, naquele curso acabou por perder o sentido. Desisti de estudar na mesma classe, no mesmo curso e no mesmo colégio que Florbela. Tempos depois me vejo passando de bicicleta pela sua rua, em frente à sua casa, olhando para dentro – porque Jacobina era muito tranquila e as portas e janelas podiam ficar abertas de dia. Via móveis, quadros na parede, uma estante, acho, uma TV, se não me engano, um sofá. Menos Florbela.

Até que, seis anos depois de tê-la deixado na sala de aula aprendendo sobre behaviorismo, ego, id e alter ego com a professora Diva Paes, de Psicologia, eu a encontrei na pizzaria. Foi quando a perdi de vez. Isso nem vale a pena contar. Basta dizer que a ressaca daquela bebedeira e da bizarrice cometida me embrulha o estômago até hoje.

Por isso me faz feliz vê-la sorrindo na foto do perfil do Facebook e saber que ela aceita ser minha amiga hoje, mesmo que de modo virtual, já que a ponte entre nós mais nos separa do que junta.

Obrigado, Florbela. Um beijo carinhoso.

* Florbela não é ela. Mas ela existe, ainda bem.

Itabuna 27 de agosto de 2013. 23h50

SE VOCÊ SE INTERESSOU EM ENTENDER ESTE TEXTO, LEIA O QUE PUBLIQUEI ANTES: Se ela disser que sim eu prossigo…

AH, APROVEITE E LEIA AS OUTRAS COISAS QUE ESCREVI. PODE SER QUE ACHE ALGUMA LEGAL.

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0 comentário em “E Florbela disse sim.

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