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Crônica História Qualquer coisa

Um pierrot sem colombina. Ou: eu já amei assim

Eu a conheço há tão pouco tempo, mas sinto como se eu fosse me juntar a você por toda a vida. É que acho seu fardo leve. Não vou dizer que tenho essa certeza desde o primeiro dia, mas neste carnaval, depois que corremos na rua de mãos dadas e que carreguei você em meus ombros, em plena Siqueira Campos, eu descobri que essa sua alegria vai marcar a minha vida para sempre.

Daqui a uma semana de seu ventre sairá o primeiro dos maiores presentes que tivemos. Ele já grudado em você, vou olhar para o seu rosto e ver o mesmo sorriso que me encantou entre uma lambida e outra naquele “sorvete de chantily”. Na volta para casa, pegaremos o táxi de Marinho, super felizes, mas assustados ainda com o barulho dos carros, o som ameaçador das caçambas, pela lembrança aterrorizante do acidente que interrompeu a nossa viagem e quase nos interrompe a vida.

Mas, ainda bem, estamos em casa; salvos, como sempre chegamos. Para alegrias marcantes, para dores estúpidas, para fazer a vida, para fazer a menininha de cabelo espetado e cara de sapeca que se uniria ao filho responsável e carinhoso que criamos. Ela que hoje é nossa ponte e vigia, cuidando para que não mais nos firam as farpas que ela viu passarem tão rente ao olhos dela.

Farpas, seda, flores, espinhos, doces, amargos, nuvens, trovões, brisa, ventania, abraços, empurrões, carinho, parceria, altos, baixos, aprendizado, amor, vida.

E logo se avizinha outro carnaval. A pouco menos de um mês, talvez, depende de quando você estiver lendo este bilhete (se o ler). Daqui a pouco Momo chega. E você sai. Num dia de fevereiro levará a dor que lhe fiz, deixará o amor que me fez. Diz que vai buscar o que lhe fará mais feliz. Eu fico. Guardando o seu lugar. E agora, eis que, de novo, são dias de carnaval. E como a multidão atrás do trio elétrico, as emoções pulam em minha frente, a memória criando figuras na parede branca do apartamento vazio. E são todas você. Em seus vestidos azuis.

É carnaval lá fora e eu aqui dentro revendo você quase do mesmo jeito que você aparece nos meus sonhos,  vendo a sua imagem como se fosse um holograma aceso, dançando na sala, através do embaçado dos meus olhos fracos de saudade.

Muitos carnavais depois, eu ainda tenho em você a minha maior alegria. Aquela que me deu os melhores motivos de sorrir. E ainda faço festa por isso. Penso que farei para sempre e a isso chamarei de felicidade.

Um carnaval daquele tempo. Conquista, 1985.
Um carnaval daquele tempo. Conquista, 1985.

Não há calendário, tempo, distância, dores, favores ou outros amores que a afastem do meu coração, ou, para ser mais correto, que afastem o meu coração de você.

Não há abraço ou beijo ou riso ou olhar ou gracejo ou zanga, até mesmo calundú como o seu. Não diga que isso é coisa de gente besta, que sou um obcecado, um iludido (“Ô, iludido…”), um analfabeto da realidade que acredita no amor mítico. Deixe que os outros digam isso. Você sabe quais são as minhas razões para crer no que eu creio, para sentir o que eu sinto, para esperar o que eu espero, para amar quem eu amo.

Você sabe o que fomos. Nem sempre lembra, certamente, mas sabe o que me fez, o que fez para mim. E não foi a dor, não foi o abraço de despedida, não foi a porta se fechando na sua saída (ainda bem que você não disse “adeus”). Foi tudo o que houve mais que isso. Foi o que eu vejo nas suas fotos e filminhos que guardo. Sua risada de menina, seu jeito de dizer como mulher “Gio, eu amo você” ou como menina, em falsete, “Gio é meu amor”.

Sim, sei que é muito provável, cada dia mais provável, que você não me ame mais. Por ter descoberto que nunca amou, por ter esquecido ou por ter desistido. Sei que a vida é assim. Era para todo mundo ser assim e eu seria uma exceção, uma anomalia, um ser fora de padrão. Mas, a verdade é que tanto bem você me fez, tanto amor você me deu, que fiquei convencido de que me amou de verdade e foi tanto amor que ainda não se gastou.

Eu já quis mandar embora o amor que sinto por você. Abri meu coração, acreditando que esse querer pularia para fora e outro entraria. Só entraram pedaços, trechos, porções, taquinhos de um amor daqui, outro dali… Nada tão forte, nada maior, nada você. Não sei se por haver pôsteres de uma mulher linda e maravilhosa colados pelas minhas paredes coronarianas, sobrando pouco espaço no meu coração, ou se, porque coração pequeno, nele não caiba mais que todo o amor que você plantou em mim.

Na dúvida, deixo o tempo passar. E o meu colo ainda está aqui.

Conquista, terceiro carnaval sem meu amor, 2013

(Uma pessoa curtiu um texto publicado em meu blog e eu a segui. Ela faz também um blog e lá eu descobri que sofro de uma doença chamada “limerência”. Não tinha nem ideia do que eu sofria, além daquele “esse seu amor não existe, é mítico”, dito pela terapeuta que procurei pensando em salvar meu casamento e que ajudou a consolidar o fim da minha relação mais duradoura.
Descobri a limerência quando já estava me medicando para aliviar os efeitos do “amor mítico”, da obsessão improdutiva que me fazia ver uma mulher fantasma entre mim e as mulheres de verdade que conheci na minha jornada em busca de mim mesmo. Ao saber que a limerência pode ser tratada, achei a cura. E, então, as histórias que serviam apenas a mim, cujas releituras me torturavam, que ajudavam a recompor a paixão e a dor do amor (mítico) que eu tinha que jogar fora e guardava, vão virar literatura. De péssima qualidade, confesso, mas ler coisa ruim não doi os olhos. De repente pode parecer com a própria história de quem lê. Quem sabe essas coisinhas bôbas que eu escrevo não ajudem alguém a achar a resposta para a sua própria limerência? Qué tal? Aproveite e veja também o blog de Isolda Paixão e entenda mais de limerência, dores, alegria e amores: http://limerencia.wordpress.com/ )

Itabuna, 31 de agosto de 2013.

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7 comentários em “Um pierrot sem colombina. Ou: eu já amei assim

  1. Amigo Giorlando,

    Preciso redizer que tenho profunda admiração por você?

    Sim, reverencio sua habilidade literária de poetizar coisas comuns, vida diária, suas “bobagens” – como você mesmo diz.

    Leio quase todos os seus textos. Os últimos me causaram interesse curioso: ver você assim, publicando seus relacionamentos consigo e com alguém, tão intenso na concepção do amor, me parece divino. Alias, é a pura manifestação da faísca divina que há em nós. Parece que algo “assoprou” esta faísca, como se faz numa churrasqueira… Rsrs. Não te conhecia tão perto de Deus, confesso!

    Amigo, gostaria que vc lesse (ou relesse) o livro do Profeta Oseias. Seus últimos textos te aproximam dele. Oseias é Giorlando, perseguindo um amor que insta em fugir dele, mesmo estando por vezes perto. Oseias é Deus, que busca insistentemente na “mulher” amada a realização plena do amor (que para Giorlando é apenas “amor-mítico”).

    Pois é amigo! Vc se associou a Deus, pelo menos no plano das angústias de procurar um relacionamento com quem insta em se distanciar. Mas se distancia dEle quando confunde prazer com felicidade!

    Abraços,

    Aécio.

    • Meu colega, “aluno” (rs) e amigo, caro pastor: obrigado. Por ter vindo aqui mais uma vez. Por acariciar a minha alma com esse cuidado próprios dos filhos de Deus compassivos e generosos. Deixar-me ler, expor as coisas que foram parte das minhas relações, é uma resposta de superação a mim mesmo. Andei afogado naquela paixão. Não abro mão do amor e ao falar dele, do meu amor, penso que falo de assunto que é de qualquer um, é de todos. Alguém pode se ver, pode se sentir nos meus escritos bobinhos e pode sentir-se desabafado por mim. Rs.
      Mas, de tudo o que quero dizer nessa resposta o mais importante é “obrigado Aécio”. Vou ler o livro. Digo que a sua mensagem, esta sim, me ajudou a ver mais de Deus em nós. Você foi, agora, o sopro. Meu coração está grato. E feliz pela nossa amizade. Rogo que Deus continue abençoando-o e à sua família para que o resto de nós possa usufruir da sua inteligência e carinho.

  2. Obrigada pela citação, Giorlando! E bem-vindo ao clube. Sejamos felizes e donos de nossos passos, com ou sem a dona limerência nos sussurrando os ouvidos!

  3. Pingback: Nada você | limerência

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