Anúncios

Escreva. Em setembro não há nada.”

Não há nada mais imperativo que a paixão. Dá ordens na mesma medida em que causa desordem. Na cabeça da gente, na vida, nas horas, nos dias e, principalmente, nas noites. Quando há paixão, as noites precisam ser completas. Ninguém resiste ao silêncio quando está apaixonado. Até mesmo a falta de um simples SMS provoca uma sensação de vazio.

E Florbela veio em meu sonho e deixou essa ordem, exatamente assim, entre aspas. Ordenou como se faz um pedido, em seu tom suave, quase silencioso, de dizer o que deseja. Um verbo, deixou-me claro, que prefere não conjugar.  (“Se for um desejo, mesmo, Florbela silenciará.”). Explica-me que a paixão que eu lhe confessei era “uma paixão adolescente. Hoje não caberia mais”. Quase lhe perguntei se fosse uma paixão adulta se caberia.

Não foi por medo da resposta que preferi o silêncio, mas isso não vem ao caso. O que escrever em setembro, isso vem ao caso.

Tenho uma ótima desculpa para não escrever nada agora, além da falta de inspiração. É que dois operários, cada um com uma britadeira, cavucam o solo de uma área perto daqui (dez metros de distância) há várias horas. Vrum-um-um-um-um… Passei lá e perguntei se estão tentando achar petróleo. O encarregado riu. Mas não tem graça. O barulho é intermitente e chato, muito chato.

Me faz lembrar de um episódio antigo, que vivi em Jacobina. Não era mais um adolescente, embora ainda pensasse em Florbela. Também não era tão adulto assim, afinal, ainda pensava em Florbela. E sem que ela tivesse culpa, uma noite eu estava sentado na porta de casa, vendo o movimento no pé da ladeira, onde um cão castrado criado por meus tios, chamado Leão, latia ferozmente para outros cachorros que se enfileiravam para subir a serra e atender ao instinto provocado por uma cadela magra da vizinhança que estava no cio.

Leão não podia fazer nada “daquilo”, eu acho. Mas parecia ser apaixonado pela cachorra esquálida que morava na vizinhança e andava sempre por perto. A adolescência dos cachorros, me parece, passa rápido. Eu não lembrava da adolescência de Leão, que deve ter coincidido com a minha. Talvez eu nada soubesse daquele período da vida do cão do meu tio porque, enquanto ele não precisava fazer nada para conquistar a cachorra dos seus sonhos, eu vivia fazendo planos de como atrair a atenção de Florbela. (Condenados os que criaram uma frase horrível com essa parte da história).

Enfim, no meio da adolescência (dele) caparam Leão, que ficou um cachorro grandão, mais bonito, que metia medo em ladrão, mas não nos meninos da rua e nem nos cachorros que vieram de longe guiados pelo feromônio da cachorra do vizinho, pois, em poucos instantes, uns cinco já estavam rondando a magrela, com seus focinhos sob o rabo da cadelinha pronta para ser emprenhada. Enquanto Leão se embolava no pé da ladeira com um pulguento qualquer mais fraco que ele, outro já estava com a cachorra sob si. E fazia movimentos grotescos querendo entrar, até que…

… um inseto consegue entrar no meu ouvido direito. Um barulho ainda pior que o das britadeiras que quebram o solo aqui pertinho (para fazer um “puxadinho” para uma das secretarias municipais). Por causa do besouro invasor de orelhas a posteridade perdeu a chance de saber da sequência do acasalamento dos cachorros na serra. Quando o inseto parou de mexer lá dentro do ouvido, olhei e vi que não estavam mais por perto nem Leão, nem seus desafetos, nem a cachorra sedutora e nem o macho sortudo. Mas foi um alívio. Quem nunca teve um besouro nervoso dentro do ouvido não sabe como é bom a hora que o bicho para de bater as asas e fazer seus sons desesperados.

Só que começou de novo. Não a transa dos cachorros. A safadeza animal não era mais na serra, não era mais para fins de procriação, mas, pelo jeito, para fins de destruição. O inseto no meu ouvido queria me matar. Recomeçou mais forte, mais zuadento. Acho que estava doido e queria me deixar doidão. E dessa vez demorou mais. Como se um Airbus A-380 estivesse esquentando os motores sem sair do lugar e eu fosse um aeroviário de pista sem plugs nos ouvidos. Desci a serra correndo e tomei o caminho do Antônio Teixeira Sobrinho – onde meu pai se despediu da vida, um hospital que parecia já ter morrido antes dele.

No caminho, o inseto silenciou. Respirei aliviado. Morreu, pensei, ufa! Agora vou apenas pedir para que tirem ele daí de dentro. Não sei porque cargas d’água, não estava fazendo o caminho mais curto. Se tivesse subido a São Salvador, dobrado a esquerda antes da entrada do brega, descesse a rua dos Artistas, passando em frente à casa de Dizinho, depois pelo posto Texaco, mais um pouco até passar da praça Dois de Julho, atravessar a rua e chegar ao Pronto-Socorro já estaria livre daquela tortura. Mas não. Fui pela Manoel Novaes.

Talvez estimulado pela saudade do Hotel Triunfo, da amizade colhida lá, das tardes vendo Vila Sésamo ou um filme Elvis Presley no Hawaii; do suco de laranja ou do guaraná, para o lanche com bolacha cream cracker Tupy; da poesia e da alegria juvenil que me uniam a uma menina branca, pequena e linda (cujo nome não pode ser dito aqui porque as pessoas crescem, casam e não são mais elas mesmas e tudo fica tão estranho que até quem se imaginava parte do outro passa a um quase estranho). O fato é que a sensação era de que eu nunca chegaria ao hospital. A mesma intermitência sádica das britadeiras de hoje parecia fazer o prazer do inseto no meu ouvido. Ou ele estava se vingando de mim ou, dono do meu pavilhão auricular, o fez de salão de dança.

Ainda bem que na Jacobina de então dava para se contar nos dedos os carros. Um ou outro passava na rua enquanto eu fazia a minha via crucis, ora quase gritando por causa da tortura do besouro – que na minha mente já embaçada aparecia como um daqueles monstros em preto e branco que Tochinho* enfrentava; ora aliviado ao aquietar-se do inseto invasor. Mas eis que um fusca passou. Mentira, não era um fusca, era um carreta pesada, com o motor forte roncando, ensurdecedor. Não, era mesmo um fusca. Desculpe a minha confusão e não me critique. Não é você que está com um besouro imitando John Travolta no seu ouvido.

Finalmente, o hospital. A chegada coincidindo com mais um silêncio do inseto que me odiava. Recíproca absolutamente verdadeira. Peço ajuda, explico que tem um bicho no meu ouvido e que não estou suportando o barulho e, pior, não aguento mais o para e recomeça dele, até parece que eu estou louco. Dizem que é assim que acontece nas mentes de alguns loucos.

Chega o médico. Pelo menos estava de jaleco, era branco – quase todos, senão todos os médicos eram brancos naquele tempo -, tinha um estetoscópio pendurado no pescoço, valendo mais que um crachá, como se fosse uma carta de apresentação de Deus. Com uma espécie de conta-gotas gigante ele coloca um líquido morno no meu ouvido. Me manda inclinar a cabeça para o outro lado. Diz “Ok” e me manda olhar para ele. Cara séria, olho no meu olho, fala: “Desculpe lhe dizer, mas não havia nada no seu ouvido. Tem certeza de que ouvia esses sons de que falou? Quer conversar sobre isso?”

As enfermeiras também sérias. Eram duas, afinal, pensei dali em diante, se precisassem me amarrar uma só não conseguiria. Pois o que quis dizer o médico, o Doutor, com seu estetoscópio divino prolongando-se do pescoço ao peito, senão que eu estava doido? Quem ouve barulhos estranhos, ensurdecedores, como se fossem de um inseto agoniado preso em um canto qualquer perto das Trompas de Eustáquio, se não fosse uma pessoa que acabou de ficar doida, talvez castigo de Deus por ficar curiando transa de cachorro, no mais bizarro do voyeurismo?

Imagem

Já estava para chorar e, aí sim, sair correndo dali feito louco, quando as moças soltaram risinhos. Olhei para a cara delas, encarei seu escárnio como uma expiação, admiti a loucura e voltei a olhar para o médico e perguntei: “E agora?”. Ele estava com uma bacia de aço pequena na mão. No fundo, completamente morto, talvez afogado, um inseto. O filho da puta. Aliás, não apenas ele, o doutor também. Mesmo assim, agradeci, pois não é todo dia que alguém pode dizer, com a certeza de um diagnóstico médico, que não é doido.

O que tem Florbela com tudo isso? Acho que nada, talvez só que ela vai gostar e vai rir. Ela tem uma enorme boa vontade com o que escrevo. Garante que gosta. Se isso for pouco, posso colocar no contexto a paixão que tive por ela, traduzida hoje em saudade. Como o besouro, às vezes ela mexe, dança, dá pulos, salta de um canto a outro da minha cabeça, intermitente. Mas eu não vou ao hospital por causa disso. O inseto atrevido me incomodava (deixava doido, vou falar a verdade) quando se debatia dentro do meu ouvido procurando a porta de saída. Quando o monstrinho cansava e desistia, era o céu. Tratando-se de Florbela a tortura é o silêncio. O céu é seu sim, que provoca uma festa em meu coração.

Itabuna, 4 de setembro de 2013.

* PROCUREI NO GOOGLE INFORMAÇÕES SOBRE O SERIADO, PARA CONFIRMAR O NOME DO PERSONAGEM. NÃO ACHEI. MAS TENHO CERTEZA QUE AQUELE GAROTO, QUE DEFENDIA A TERRA CONTRA MONSTROS LUTANDO KARATÊ, SE CHAMAVA MESMO TOCHINHO.

Anúncios

4 comentários em “Leão, a transa dos cachorros, o besouro, a loucura e Florbela

  1. Eu já ouvi parte desse enredo antes, em mesa de bar, ficou melhor ainda escrito, uma história dentro da história, inclusive o seriado japonês. Florbela faz bem para sua escrita, amigo.

    • Senti-me no podium, Achila. Um dos escritores – e amigos – preferidos dando-me o privilégio da visita e do elogio eleva-me a altura a que eu não cria chegar.

  2. Nunca sei o que escrever quando venho aqui. Os textos remexem com a cabeça da gente, como esse besouro aí. Mas sempre volto, é um bom sinal!

    • Claro que eu adorei o comentário. Não só porque você é uma das melhores amigas, mas porque, moça inteligente e sensível, sua volta é um sinal de que pode estar gostando do que escrevo.
      Obrigado, Nau.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: