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(Não sei dizer o que há em ti que fecha e abre; só uma parte de mim compreende que a voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas) Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas. (E.E. Cumming. Tradução de Augusto de Campos. Ouvido na música de Zeca Baleiro)

O que um quarto desarrumado, com roupas pelo chão, flores mortas no vaso, livros, papéis rasgados, um chapéu, uma luminária quebrada e uma caixinha de música sem música e sem bailarina sobre a cômoda, pedaços de vela sobre um antigo e descatembado criado-mudo que – manchado pelo fundo gelado de frequentes copos de whisky – lhe grita noite após noite, “solidão”, “solidão”, “solidão”, diz sobre paixão? O que um quarto assim tem a ver com amor? Alguém traduz?

O que uma parede, entre quatro paredes, quase todas bem pintadas e limpas, riscada ora com a ponta da tesoura de unha, ora com a ponta de uma faca de cozinha ora mesmo com a unha, tem a ver com amor?

Ele está diante da parede outra vez e é meia noite. Zero hora de um novo dia, mais apropriado dizer. E agora, a tesourinha na mão, começa a riscar uma linha diagonal sobre outros pequenos riscos verticais, quatro, fechando a conta: cinco, como ele fazia nos tempos de estudante, marcando a pontuação do jogo de vôlei, ou como prisioneiros, o Conde de Monte de Cristo, talvez, marcando o tempo, contando a pequena eternidade de seu encarceramento. O que isso tem a ver com amor? Quem diria?

Uma parede quase completamente cheia dessas coisas. Aqui um quadradinho fechado com um risco no meio, ali as linhas verticais cruzadas, desenhos e cerquinhas, como nas paredes das celas dos romances, dos filmes e dos desenhos animados. O que riscos em paredes de celas de prisão têm a ver com amor?

Lento, sem que ninguém saiba dizer porquê (primeiramente porque mais ninguém o via, a não ser ele mesmo e o velho espelho com o canto quebrado encostado na parede ao lado da cama), ele andou até o início de tudo. Enquanto caminha, pisando com dificuldade como se carregasse nos ombros a si mesmo, cada dia mais obeso, olhos fixos na parede, vê em cada quadradinho, em cada conjunto de riscos, um tempo perdido, de uma vida tão confusa quanto o lugar onde ele dorme – só, com frio e com medo de não acordar.

O dia novo ainda nem chegou aos primeiros 15 minutos desde que ele completou a cerquinha, mas o trajeto de não mais que dois metros durou uns anos. Chegou cansado. A memória cansa e a do coração às vezes doi. Então, começa um ritual que ele repete há não sabe quanto tempo. Olhos fechados, vai fazer o percurso inverso, com os dedos passeando nos quadradinhos e cerquinhas, como um cego lendo em braile.

E como cego lendo em braile, ao passar os dedos nos riscos que faz na parede desde que começou a se sentir só, ele vê e revê a porta se fechando, ela indo embora sem adeus, ouve todo o silêncio que veio como resposta aos sussurros que sua alma soltou nos caminhos por onde ela andava, na esperança de que ao invés de buzinas nervosas e campainhas de telefones e elogios insinuantes, ela o ouvisse dizendo seu nome, a palavra de amor que lhe restava, escrita no vidro do box do banheiro, nos cantinhos da agenda, nas poesias de rima quebrada que ele salvava no computador, como “um jeito de dizer a ela que meu colo ainda é o céu”, como faziam os meninos e as meninas em suas carteiras de escola, nas capas dos cadernos, na areia molhada da praia. Mas, assim como ele agora estava cego, ela tinha ficado surda.

E quando, já perto da porta, ele abre os olhos, vê o que ainda resta de parede para riscar e respira fundo. Alívio e angústia. Já faz um tempo que não a procura. Milhares de horas, milhões de segundos. Uma pequena festa, comemoração. Tanto tempo sem ligar, sem enviar um e-mail, sem perguntar aos amigos se ela está bem, por onde ela anda, o que faz: alívio. A angústia do espaço ainda branco na parede. Será que cabe? Não mais a procurará por uma vida inteira. Mais e muitos quadradinhos e cercas, riscos na parede, como os encarcerados contando o tempo que falta para sair. Ele contando o tempo que permanece fora.

Conta e comemora os dias que não a vê, não a busca, mas sabe que seu coração queria mesmo era a parede limpa, com um quadro com o retrato dela pintado a lápis por um artista anônimo, numa rodoviária qualquer, com a pintura comprada no programa da TV, que ela emoldurou e disse que adorou, mas que deixou para trás, como deixou as taças do brinde de um ano novo, quando tudo já era um nada quase sólido e cujo único beijo possível foi o do batom que até hoje marca uma das taças. Gente, ele pergunta, o que isso tem a ver com amor?

Passa a mão na parede, mede em palmos o espaço que ainda está em branco. Branco gelo, para ser mais específico. Uma masmorra erguida com pedras frias. Isso é amor? Não, não é, ele dispensa outras respostas. Nunca mais vai procurar por ela. Pensa que poderá essa não-busca levar tanto tempo que todas as paredes do quarto (e talvez até as da sala) estarão riscadas e a porta e a janela e o espelho e o criado-mudo e a cômoda e as roupas no chão e o piso e o teto e a barriga dele, que cabe muitos riscos. Porque mesmo que ele a procurasse e ela quisesse vê-lo não admitiria voltar para alguém com uma barriga tão grande.

Agora ele riu, pelo menos ele ri da barriga. E ele sabe que só consegue rir porque conseguiu completar mais uma cerquinha, mais cinco dias. Muitos já são os dias sem vê-la e sem dizer a ela que está com saudade. O que significa, certamente, o mesmo que estar sem saudade, porque nele a saudade é imperativa da procura, do apelo, do grito, do choro e agora ele está rindo, porque já são tantos dias e então isso não é saudade. E nem é amor.

Afasta-se da parede de masmorra, com um dedão arranca um pé de sapato; com o outro dedão, outro sapato longe. As meias dão mais trabalho. Senta-se na beirada da cama, respira com dificuldade, a barriga atrapalhando, mas as meias já estão jogadas sobre a cômoda, uma pendurada na cabeça do garoto tocador de flauta da velha luminária quebrada, outra entre as páginas abertas do livro de Rachel Joyce. Deixa as calças em cima da cama, entra no banheiro ainda vestido com a camisa, porque sentiu frio. Pelo menos era um banheiro sem nada que foi de antes, sem nada que ela tenha tido a chance de gostar ou criticar.

O vapor e os minutos passando, sob o chuveiro, aquele momento em que quase todo mundo faz auto-análise, repensa a vida, faz cálculos, promessas, sente saudade, sente saudade, sente saudade… o nome dela desenhado na porta do box, aproveitando o vapor formado pela água quente em contato com o ar frio. Dura pouco. Instantes. As quatro letras surgem do nada e evaporam, simultaneamente, com o cair de uma, duas, três lágrimas. Não é saudade. Não é amor. Desculpa-se com um firme e grave: “É apenas a decepção”.

Não demora a dormir. Nem chorou muito. Não é mais como antes, porque isso não faz sentido, é mítico, é a velha limerência.

Sonha com ela. As lembranças suaves de uma vida que ele pensava que não se interromperia nunca. Nuvens e brisa, mar e estrelas, “deixa eu dar essa lua para você?”, a música e a poesia, o filme e a pipoca, o avião e o museu, o menino e a menina, a casquinha e o chantily, a caixinha e a bailarina, a mãe e o pai, o pé frio e a barriga quente, o toque e o beijo, a ida e a volta, a espera e o abraço, olho abrindo, a luz do sol rasgando o vidro da janela, o dia novo, a leveza de uma noite bem dormida, a presença delicada dela, o sorriso, a voz chamando seu nome, dizendo palavras de amor, admitindo o amor, querendo o amor, fazendo o amor. Um sorriso lhe ocupa a cara. Vê no espelho os olhos grandes, o brilho de um entusiasmo matinal incomum. Vai ser um bom dia.

Ergue-se e olha para a frente. Uma parede feia, toda rabiscada, parecendo uma horrenda cela de cadeia, grita um basta ensurdecedor. “Ouve o que te dizem os quadradinhos e cercas!”. E surdo com o eco do significado daqueles desenhos repetidos, ele não ouve mais o som do mensageiro dos ventos pendurado na varanda. Não ouve mais a voz dela, a dos sonhos. Novamente decidido. Este é um dia que vai virar um rabisco. O primeiro do mês. Porque um sonho não é amor, não é mesmo.

Mensageiro dos Ventos (feito de bambu)
Mensageiro dos Ventos (feito de bambu)

É, já faz um tempo. Com certeza, quando não houver mais onde marcar na parede os dias que passam sequer os sonhos virão. Tomara. Guarda a tesourinha na nécessaire e vai para a chuveirada da manhã…

Pensei no tempo e era tempo demais/ Você olhou sorrindo pra mim/ Me acenou um beijo de paz/ Virou minha cabeça.

Eu simplesmente não consigo parar/ Lá fora o dia já clareou/ Mas se você quiser transformar/ O ribeirão em braço de mar/ Você vai ter que encontrar/ Aonde nasce a fonte do ser/ E perceber meu coração/ Bater mais forte só por você.

O mundo lá sempre a rodar/ E em cima dele tudo vale/ Quem sabe isso quer dizer amor/ Estrada de fazer o sonho acontecer. (Milton Nascimento)

Itabuna, 17 de setembro de 2013, 3:17.

(A foto do Mensageiro de Vento eu copiei do blog de Neli Rodrigues. Espero que ela não se zangue. Você que leu até aqui visita lá, é bem legal: http://www.caprichosbyneli.com/)

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6 comentários em “Ah, essa velha limerência…

  1. Lindo!! vc é realmente…literalmente um escritor nato!!rsrs

    • E você é uma amiga linda que me emociona com seu comentário. Não me acho escritor, mas gosto de contar minhas emoções. Que bom que meus textos alcançam
      a sua sensibilidade. Um abraço cheio de amor.

  2. Gosto de ler os seus textos, apesar de longos eles tem o dom de me transportar para um passado não muito distante em que o olhar do outro refletia o amor de longa data….

    • Oi, Maria Emília. Obrigado pela visita. É mesmo incrível como as histórias de todos, de algum modo, se entrelaçam. Quanto ao tamanho dos textos é que eu os escrevo contando histórias e cada uma tem um duração, uma intensidade. Quanto mais vívidas, mais parem palavras. Rs. Porém, acato (agradeço) a sua observação e vou tentar separar em partes, como capítulos, intertítulos, para não parecerem tão grandes. Um abraço.

  3. Mais um lindo texto! To sempre por aqui.

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