Amor

A pedido de um amigo triste, para sua amada ler.

Na minha última viagem dei a sorte de reencontrar um velho amigo na estação rodoviária. Já não nos víamos há uns dez anos. Ele vestia-se bem, camisa bem passada, mangas compridas por dentro da calça de sarja com jeito de nova. Elegante, embora me parecesse abatido. Ele percebeu que reparei na sua elegância e sem que eu dissesse nada, antes mesmo de nos cumprimentarmos, ele soltou: “Você também está muito arrumado”. Mentira dele. Viajei de ônibus, havia acabado de chegar, descabelado, a camisa devia estar muito amassada, nunca estava por dentro da calça, que era um velho jeans surrado, que eu chamo de “vintage” para desculpar o desbotado irregular.

Meu amigo tinha uma mochila às costas e me explicou que não ia viajar, estava esperando um colega do escritório de Salvador, que vinha para começar uma auditoria na empresa onde é gerente de vendas. Perguntou se o anel que eu usava – naquele dia no dedo anular a mão esquerda – era de casamento. Balancei a cabeça negando e troquei o anel de mão. Estou só, respondi. E você ainda está casado? Não estava mais. Daqui a dois meses completará um ano de separação. Sinto muito, eu disse. “Não mais que eu”, ele respondeu.

Vi que ele sofria. De repente o homem que conheci altivo, sorriso sempre confiante, arqueou-se e soltou um longo suspiro. “Estou fodido, amigo”. Contou-me que a mulher decidiu se separar dele por causa de política. Como assim, por causa de política?, eu quis saber.

“Tivemos uma discussão na véspera da eleição. Eu apoiei um candidato ela outro. Me pediu para mudar de opinião, mas eu preferi desancar o candidato dela. Disse cobras e lagartos, pois o cara é direitona, político escrôto, essas coisas que eu odeio. Ela ficou muito zangada. Disse que não gostou do meu tom, que eu fui rude, que gritei. Saiu de casa e foi para o apartamento da irmã. No dia da votação eu nem a vi.  Meu candidato perdeu. Nem me importei, só queria que ela voltasse. Antes de meia-noite ela chegou. Nada disse, também nada perguntei. Estava vestida com uma camiseta com a foto e a marca de campanha do candidato vencedor. Tinha cara de cansada e de longe senti cheiro de álcool. Entendi que ela estava na comemoração. Até aí tudo bem. Sem problema. O importante é que ela voltou. Deitei-me na cama para esperar por ela. Conversaríamos e toda aquela confusão, a briga, seria esquecida. Eu pediria perdão, diria que a entendo e até a parabenizaria pela vitória. Acabei dormindo sem ver a hora que ela se deitou. Acordei cedo. No lado dela na cama não havia ninguém. Nem no banheiro. Foi quando, no caminho até a sala, vi pela porta que estava um pouco aberta, que ela dormia no quarto ao lado, o que reservávamos aos hóspedes. Até aí tudo bem. O importante é que ela estava perto de mim. Eu iria trabalhar e faria um esforço para almoçar em casa. Não quis acordá-la para não aborrecê-la e piorar as coisas. Não tive como almoçar em casa, meu trabalho às vezes me consome. Cheguei cedo à noite. Jantamos juntos. Eu: o velho pão com mortadela, tomate, alface e cebola, com suco de uva, e ela: chá, torradas e um iogurte cheio de granola. ‘Tudo bem?’ Tudo bem. Dia puxado, mas tudo bem. Ela me avisou que ia para o quarto, queria terminar de ler um artigo que escrevia para uma revista. Eu disse OK. Vou assistir um pouco de TV. Quando fui para a cama ela não estava. Pude ver a luz por baixo da porta do quarto ao lado, ela estava lá. Menos mal, isso passa. Vou respeitar. E isso durou. Ela resolveu dormir no quarto ao lado outra noite e outra e outra. E quase não nos falávamos. Até que uma noite ela não estava mais lá. Esperei acordado, mas ela não voltou. Fui vê-la de novo somente dois meses depois na pizzaria, com o filho da puta que ganhou a eleição”.

Chato isso, amigo. “Péssimo, fiquei péssimo. Cheguei a escrever um monte de cartas, à mão, enviar e-mails, e até pedi a um locutor amigo meu para tocar, no mesmo horário que a gente costumava ouvir juntos, as músicas que ela gosta e que nos inspiravam a dançar na sala, descalços, às vezes nus, taças de vinho nas mãos e aquelas caras riscadas por sorrisos apaixonados (ou que pareciam estar), mas ela nem deu bola. Pensei em fazer um blog, pois quem sabe as amigas delas ou os colegas comentariam com ela o que eu escrevesse, mas desisti. Faltou coragem”.

Eu falei que tinha um blog onde eu publico um monte de histórias bobas também, cartas velhas de amor, poesias de rimas doidas e que isso me ajudou a diminuir a saudade do meu amor que também me deixou. Ele lembrou que eu e a ex-mulher dele éramos amigos e que é possível que ela leia meu blog. Eu expliquei que não acreditava, pois meu blog era um daqueles escondidinhos da blogosfera, que não atrai mais do que meia dúzia de leitores por dia e que, com toda certeza, a ex-mulher dele – com quem eu não tenho contato há séculos e é uma mulher cheia de trabalho, sem tempo a perder – não seria uma das leitoras do meu blog.

“Mesmo assim, publica um negócio meu lá. Eu te mando, você tira meu nome, dá um ‘tratamento literário’ (como se eu soubesse fazer isso) e publica. Só um. É uma das cartas que eu escrevi. Eu digitei e tenho uma cópia no meu computador. Me dá teu e-mail. Mas não põe meu nome, pois eu quero que ela saiba que sou eu, mas não as outras pessoas. Tenho vergonha”.

Ele teve um amor que morava no seu coração e dormia no seu peito. Houve um tempo que este amor dormia na cama dele, que consideravam a cama dos dois. Um dia ele chegou e a encontrou dormindo numa cama só dela. No quarto ao lado. Hoje, ela dorme em outra casa. E não é na casa ao lado.

Diz que agora pode ver que não era assim tão ruim quando o seu amor dormia a duas portas dele, longe da sua cama, como ele reclamava. Ainda era bom daquele jeito, sabe hoje. Pelo menos ela estava ali, por perto.

Certo dia, num ímpeto, pintou num muro no caminho da casa dela uma das frases da carta: “Não há dias cheios ou ricos ou alegres ou felizes ou mesmo bons sem você”.

E na carta, que ela, com toda certeza, não leu, disse-lhe que ela ainda mora em seu coração. “Nada vai arrancá-la daqui. Mas o seu silêncio cala a minha vida. Nenhum som compensa esse vazio da sua voz. Nenhuma festa afasta essa agonia”.

Diz saber que estas palavras não terão nenhum valor para ela; “soam até ridículas”, confessa. Diminuído pelo abandono, ele admite que o seu amor e a manifestação daquela paixão que não cessa, só importunam o dia da amada que se foi, atrapalham a concentração do seu trabalho, tiram o conforto da sua noite, como elefantes, incomodam, incomodam, incomodam muito mais…

Na longa carta cuja cópia ele me enviou, está escrito: “Sei que você já tem o que buscava e que a minha aparição lamuriosa no seu dia não diminui sua indiferença e só aumenta a sua certeza de que longe de mim é o melhor lugar para estar. Mas, ao fim de tudo, mais do que desejar reencantar você, mais do querer tê-la de volta para poder abraçá-la, beijá-la e lhe tirar suspiros, como eu sonho, o que faço mesmo é lembrar a você que, aconteça o que acontecer, aonde quer que vamos, o que quer que façamos e com quem façamos, eu sempre a amarei. Nunca igual, sempre mais. Porque é esse o efeito da saudade que sinto de você: quanto mais me lembro, quanto mais fica distante o tempo em que nos beijamos pela última vez, mais cresce em mim a necessidade de você, a vontade de ter você e me dar a você”.

Ele me contou isso e pediu para eu publicar porque não tem blog, porque lhe faltou coragem para escrever um. Falou que enviava as cartas pelos Correios, escrevia à mão e, às vezes, tinha que recomeçar a escrever várias vezes porque o papel ficava todo molhado. Falou isso de olhos baixos, envergonhado. Disse que tem um colega de trabalho, a quem confidencia suas saudades, que o chama de chorão.

Servidão Humana, do francês William Somerset Maugham

Servidão Humana, do francês William Somerset Maugham

O amigo dele fala de um livro que ele nunca leu, só sabia da resenha. O livro conta a história de Philip, nascido manco, que se apaixona por uma garçonete chamada Mildred e, com toda a carga de traumas e complexos que carrega, acaba se prestando à mais vil servidão, abrindo mão da dignidade e de qualquer traço de coragem, na tentativa de ficar com ela. Mildred acaba ficando com outro.

O meu amigo não é manco, nem tem nenhuma deficiência física aparente (a menos que feiúra seja uma deficiência física. Brincadeira, me desculpo), mas ele tenta me convencer que tem um defeito horrível no rosto e orelhas defeituosas (não consegui perceber nem uma coisa nem outra) e que isso pode explicar o desprezo que a mulher que o abandonou passou a ter por ele.  Diz-me, melancólico: “Servidão humana é a que me submeto por esse amor”.

Como li o livro de Somerset Maugham que o amigo dele mencionou, lembro de um diálogo lá do fim da história, entre Philip e a filha de um jornalista de quem ele ficara amigo, chamada Sally. Narro a passagem: “Como é que você pode gostar de mim? – Sou insignificante, aleijado, comum e feio. Ela tomou-lhe a face com as duas mãos e beijou-lhe os lábios – Você é um bobalhão, isso é o que você é.

Ele emite um breve e quase inaudível: “É…”. E completa: “Pode ser que eu dê a sorte de ganhar um beijo assim”.  Respondo, só em pensamento: eu também. E interrompo a nossa conversa pedindo que anote meu e-mail e aproveite para enviar a carta hoje, pois terei tempo de postar no blog. Eu publicarei, prometi. “Você não vai rir? É tudo muito lamurioso, quase infantil”, me avisa. Eu digo que ele deve ler o meu blog, antes de mandar o que ele quer que eu publique (na tentativa de a amada ler e então lhe dar uma respostazinha, um pouquinho de atenção). Se ele ler as histórias que exponho no meu blog não terá motivo para desistir de enviar-me a carta. Nessas coisas de dor de amor, abandono, solidão e saudade, todo mundo se parece, digo ao meu amigo. A gente é muito igual nessas horas, mesmo os durões. “Os brutos também amam”, meu amigo completou.

Como prometi, publiquei. Espero que a mulher que meu amigo ama – e que o deixou tão triste – leia. Vai deixar dois alegres, porque eu gosto quando leem meu blog.

Itabuna, 25 de setembro de 2013.

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2 respostas »

  1. O texto mostra, sentimentalidades à parte, duas vertentes do comportamento humano acerca da compreensão de uma relação.
    Na primeira, o rapaz relata o que ele pensa ser sido a causa do fim, provalmente sem ter percebido que foi apenas o desfecho de um processo que deve ter começado há mais tempo.
    Depois, nas atitudes da moça, podemos sentir o que tem sido uma tendência forte no comportamento das mulheres que vivem ou viveram relacionamentos longos e tradicionais: Uma sede de liberdade e da necessidade de estar no comando da própria vida, culpando o parceiro por sua infelicidade ou “anos perdidos”, deixando de reconhecer que sempre estamos no controle, mesmo quando resolvemos franquiá-lo ao outro.
    Num mundo ideal, o homem ouviria com o coração as queixas e desejos da mulher e ela além de retribuir, é claro, entenderia que vive ao lado de um homem e não do príncipe idealizado na juventude, ou aprovado pelas amigas. Entenderiam, os dois, que um bom relacionamento não é uma dádiva mas uma conquista.
    É claro que estou generalizando. Existem mesmo relacionamentos impossíveis mas acredito que sejam minoria e que quase todos podem ser salvos se socorridos a tempo.
    Quanto ao seu amigo, Giorlando, só posso desejar-lhe que tenha muitos outros que possam, com um bocado de carinho, ajuda-lo a atravessar esses tempos difíceis mas próprios de quem está vivo.

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