Às minhas ex-crianças, no Dia das Crianças

Posted on sábado, 12 outubro 2013

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Tenho duas maravilhosas razões para não querer ser criança de novo. Qualquer que seja a lembrança boa da minha infância ou da minha adolescência, por mais feliz que eu tenha sido na minha meninice; quaisquer que sejam as razões para eu me queixar da vida adulta, nada me faria desejar ser criança outra vez. Tenho os meus motivos. Não quero nenhum tempo anterior a eles, nada que tenha acontecido antes deles é mais importante.

Quando eles eram bebês eu – como acho que todo pai ou mãe alguma vez já fez – ia várias vezes ao berço e colocava um dedo perto das suas pequenas narinas para confirmar que estavam respirando, de tão suave que era o sono de cada um. E cada vez que eu percebia a vida neles eu sentia que a minha própria vida ganhava mais vigor.

Quando meus filhos eram pequenos eu olhava para eles e perguntava até onde chegariam. Num mundo cada vez mais complicado, competitivo, violento, eu perguntava como conseguiriam crescer e virar homem e mulher. Será que eu e a mãe deles teríamos capacidade de protegê-los?

Com meu filho lindo.

Com meu filho lindo.

Eu comemorava cada dia da vida do meu filho, como se fossem aniversários. Terminar o dia com ele saudável era motivo de grande festa em meu coração. Dava graças a Deus pela manutenção daquela vida que, desde o começo, era o mais importante e mais lindo tesouro que a vida havia me dado. Eu simplesmente o idolatrava, por sua inteligência cedeira, por sua vivacidade envolvente e por seu carinho.

Com minha filha linda.

Com minha filha linda.

Quando a minha filha nasceu os sentimentos se repetiram. Aquela menina mandava em mim. Eu contava os dias, marcava as semanas e meses, sempre pensando no que teria que ser vencido para que ela chegasse à idade adulta. Eu ouvia seu pequeno coração bater e o som ficava gravado em minha memória, quando eu viajava o levava comigo, para continuar comemorando a vida da minha pequena, pelo que agradecia a Deus.

Hoje eles estão adultos. Não me pedem presente do Dia das Crianças. Ele não quer o game das Tartarugas Ninja. Ela não quer uma Polly bailarina. Eles querem continuar crescendo. E eu me esforço para não os tratar como crianças. Como eu não quero voltar a ser uma, sei que eles não querem voltar também. Resta-me torcer para que mantenham guardadas dentro de si as crianças maravilhosas que foram. Filhos maravilhosos.
Costumo dizer que os meus filhos não apanharam de mim (como por um tempo muita gente achava que era uma boa educação) porque eu fosse bondoso demais ou “mole”, como diriam alguns, mas porque eles não precisaram. Eles nunca fizeram por merecer. Só mereceram carinho, cuidado, proteção e amor, que eu dei e a mãe deu, como ainda dá. E o que fizemos foi com o intuito de torná-los adultos melhores que nós. Daqueles adultos tão bem resolvidos que, quando querem, deixam as crianças que moram em suas almas saltarem para fora, para nos fazer sorrir encantados, como era nos tempos em que os dois não passavam da minha cintura.
Hoje eles estão longe. Constroem suas vidas com coragem e metas definidas, a milhas e milhas de mim, dos meus olhos, do meu abraço. Mas estão pertinho do meu coração. Carimbados, tatuados, colados na minha alma. E neste dia 12 de outubro, eles não me pedem presentes. Ele não quer uma roupa e uma máscara de Changeman – com a espada, claro – para enfrentar os monstros nas brincadeiras com os amigos do Bem Querer; nem ela quer uma boneca de um metro que se senta à mesa com a família na hora do almoço. Mas eu peço. Posso pedir?

Quero que me deem de presente a sua respiração morna, constante, aquecendo as pontas dos meus dedos e o meu coração. Continuem a me dar orgulho. Cuidem-se e continuem contando com o seu pai, que é grato, muito grato, a vocês dois por terem se tornado o presente mais valioso que eu já ganhei na vida. E, por favor, Giorlando e Alice, minhas ex-crianças, digam ao menino e à menina que estão guardados nos seus corações, que eu desejo a ambos um feliz Dia das Crianças.

Itabuna, 11 de outubro de 2013 (valendo para toda a vida