O Natal que eu passei sozinho

Posted on quarta-feira, 25 dezembro 2013

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Comecei a escrever às 23:45 do horário da Bahia. Em Mococa, onde meu filho passa o Natal com a família da esposa dele, é uma hora mais.

Digamos, antes de qualquer coisa, que este texto, o qual não sei como acabará, serve para marcar um reencontro com o meu computador, depois de um mês. Enquanto estive sem ele, meu velho MacBook preto, ano 2008, muitas coisas passaram pela minha cabeça que poderiam ter virado uma crônica, dessas que escrevo sobre mim mesmo. Mas, para a sorte de vocês, não tive coragem de digitá-las em um computador qualquer e vocês ficaram livres da minha memória emotiva.

Para tentar encurtar a história digo logo que o Natal que eu passei sozinho é exatamente este que se comemora agora, enquanto escrevo. E também digo logo que não estou triste. Sim, eu sei que em se tratando de mim eu já deveria ter chorado, mas não chorei. E nem sinto vontade de. É claro que estou vendo TV fazendo curvas com meu controle remoto para evitar os filmes que fazem chorar.  Mas o fato é que não chorei. E, sim, poderia ter chorado.

Não lembro de muitos natais de quando eu morava em minha casa, com meus pais e irmãos. Pelo menos não Natal assim como vocês conhecem. Sabem do que estou falando.: árvore, presentes, peru, bebidas, risadas, abraços. Rebuscando minha memória, lembro da alegria de montar a lapinha. A gente catava pela serra as pedras e a areia que iam compor a gruta onde colocávamos bonequinhos representando Maria, José e Jesus, com os reis magos, sempre que possível, e os animais. Lembro de uma dessas lapinhas em que colocamos um fruto que não recordo o nome agora (lembra um maxixe, tem a crosta parecida com as costas de um jacaré e uma sementinha vermelha) para fazer o papel dos animais. Enfiávamos palitos no lugar das pernas e os colocávamos lá, perto da manjedoura.

Como eram os personagens humanos eu não lembro. Só sei que eram lindos. Era linda a lapinha. Isso em Jacobina.

Mas, antes, em Feira de Santana, lembro de dois momentos marcantes do Natal. Um deles foi a visita da minha avó paterna, Santinha, que nos levou iôs-iôs. Acho que foi o meu primeiro presente de Natal. E um dos únicos da minha infância e adolescência. Minha avó também levou uma caixa cheia de suculentas mangas espada. Isso deve ter sido em 1966.

Em 1967 (talvez, minha memória é lerda e misturada) eu tive a primeira decepção com o Natal. Era costume os meninos colocarem os sapatos do lado de fora, na noite do dia 24, pois quando acordassem estaria lá o presente que Papai Noel traria. Acordamos, eu e meus quatro irmãos (de então), e fomos direto aos sapatos, que estavam cheios de balas, caramelos de leite. Uns cinco para cada. Ficamos murchos e fomos procurar saber porque Papai Noel só havia nos presenteado com aquilo. O que fizemos de mal? Nosso tio Zé Carlos, irmão da minha mãe, que deve ter sido quem fez o favor a Noel de colocar as balas nos sapatos, nos explicou que o presente foi aquele não porque fôramos ruins, mas porque Papai Noel, naquela noite, só tinha aquilo para nos dar.

Mas, lá fora, uma multidão de meninos e meninas mostrava uns aos outros o que haviam recebido de Natal. Bonecas, velocípedes, bicicletas, metralhadoras, bolas, sapatos novos sem caramelos dentro… E nós, ali, na calçada sentados, olhando, mastigando as nossas balas e a nossa decepção. Hoje, sei o quanto foi caridoso o nosso tio Zé Carlos. Anos mais tarde entenderia que Papai Noel não nos pune. Ele só faz o que pode.

Lembro que em um Natal, eu já com meus 8 anos, por aí, prestei atenção àquela música “Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel…”. E Papai Noel foi se desmontando a partir de então. Mantive-o real na minha fantasia por mais um ano, talvez.

O Papai real seria responsável, uns seis anos após, pela emoção mais marcante dos meus natais. Mais que a decepção de Feira de Santana. Meu pai, que nos protegia, mas não nos abraçava; que nos amava, mas não nos beijava; que nos alimentava, mas não passava a mão nas nossas cabeças; que cuidava de nós doentes e sofria com a nossa febre, mas não falava de amor, me chamou a uma parte da casa que ainda estava em construção (ele a fez com as próprias mãos e a ajuda fundamental da minha mãe) e ali, sob a pouca luz que entrava pelo vão da janela, em uma noite de lua minguante, me entregou uma nota, não sei o valor, mas algo equivalente a R$ 10,00 de hoje. Me disse, “quero lhe dar um presente de Natal, é pouco, mas é tudo o que eu posso”. Entregou, bateu a mão no meu ombro, num gesto imenso de carinho e de amor, considerando o seu jeito, e retirou-se. Chorei. Papai existia.

Depois disso há um vazio. Devemos ter comemorado natais, do nosso jeito, na nossa casa. Ou não. Não era fácil. Para nós era mais importante poder ir à festa da Praça da Missão, com a roupa nova que minha mãe fazia, levando algum trocado para chupar uns roletes de cana, comer uma pipoca e tentar, pelo menos uma vez, o tiro ao alvo, o arremesso de argolas…

Vejo-me, de novo, em um Natal dos outros, em 1984. Na casa do meu amigo Cadete, o pai. Eles trocavam presentes. Eu estava na cidade há três meses, havia chegado a Conquista em setembro, e a família de Cadete me acolheu com carinho. Na troca de presentes o bom fotógrafo, hoje velhinho, mais ainda um grande retratista*, me brindou com um mimo. E com um lugar à mesa, onde degustei das maravilhas preparadas por Dona Ozelina.

A minha festa de Natal, minha mesmo, que eu promovi, com as pessoas que eu viria a amar como uma família, aconteceu no ano seguinte. Na rua 2 de Julho, em uma república onde morava a moça que se tornaria a minha ex-esposa 25 anos depois. Éramos como crianças naquele nosso primeiro Natal. Tudo simplesmente rico. Pude comandar, pela primeira vez (riso) uma troca de presentes. Todos ganharam um. Eu vários.

Desde então, passei a ter natais felizes, um ano atrás do outro. Em 1987, o primeiro com meu filho. Em 1995, já com minha filha. Depois disso com os dois, quase sempre. No ano passado nosso Natal foi em Roma. Passamos no Vaticano, durante a Missa do Galo, e depois fomos cear em um restaurante aconchegante e bonito como os nossos natais.

Mas, já dizem, filhos a gente cria para o mundo. E este ano não tenho o meus filhos na minha festa da Natal. Nem o meu pai, que já se foi. Tampouco pude estar com a minha mãe. Eu até quis ir para a minha casa original. Mas a exigência profissional e a enorme dificuldade de ir de ônibus de Itabuna a Jacobina, com aquela baldeação em Feira, me atrapalharam. Meu filho, como eu já disse está em Mococa. Minha filha com a mãe dela.

Mas, eu não estou só por falta de opção. O colega e excelente amigo José Humberto Martins me chamou para cear com a família dele. Cássia Melo, minha doce amiga, também. E o camarada Lucas Caires. Eu o encontrei no Shopping Conquista Sul, tomamos um drinque e ele deve ter lido nos meus olhos que eu estava “sem agenda” para esta noite (riso) e me convidou para passar o Natal em sua casa. Os três convites me deixaram honrado e emocionado. Mas não chorei.

Fiquei só para aprender a ficar só.

Chorei em Feira de Santana, chorei quando descobri o sentido da música Boas Festas (de Assis Valente, gravada por Carlos Galhardo, nos anos 1930), chorei em Roma, chorei anteontem, mas hoje não chorei. Papai Noel não existe. Amigos sim. E o Facebook, idem. E ainda tem Woody Allen no TC Cult, com A Era do Rádio. Eu estou é rindo muito aqui. É minha festa de Natal, com vinho, queijos e minhas boas lembranças e minha fé.

Feliz Natal e um ano novo de amor, paz e saúde. Como diz Maria, a avó materna dos meus filhos, minha amiga, “prosperem”.

http://www.youtube.com/watch?v=OuChU1yMHhc#t=26

* Antonio Francisco da Costa Neto, o Cadete, pai do meu amigo médico com o mesmo apelido, disse-me, um dia, que fotógrafo muitos podem ser (e nos dias de hoje, com as digitais, mais ainda), mas para ser retratista precisa ser bom. E ele é.