Bahia

Pedral, o rochedo da política: “Eu não tenho coração de concreto”

Paro o que estou fazendo para lembrar de J. Pedral. E lembro a partir de uma conversa que tivemos em sua casa, ali na praça Sá Barreto. Eu fazia uma das muitas entrevistas que fiz com ele sobre a política de Vitória da Conquista, o passado e o futuro. A certa altura falávamos do pedralismo, a denominação para o movimento surgido a partir de sua eleição, em 1962 e que ganhou força justamente com a sua cassação pelo regime militar instaurado em 1964. Eu disse a Pedral que muita gente o tinha como um mito, ao que ele, firme, mas não bruto, respondeu: “Mito não, os mitos podem ser desfeitos, eu não almejo ser uma lenda”.

Mito ou não, Pedral sai da vida para consolidar a sua história. Foi o maior prefeito que Vitória da Conquista já teve, considerando o tempo e as condições em que fez o seu melhor mandato, de 1983 a 1989. Pedral também sai da vida e entra para a história como a maior liderança política de Conquista. Não teve quatro mandatos como Guilherme Menezes, mas estruturou a cidade de tal forma que o PT, com Guilherme e José Raimundo Fontes, que se seguiram a ele, teve que consertar pouca coisa, ao contrário, pôde ampliar, complementar e dar seguimento. E olhe que Pedral fez tudo isso num tempo em que não havia essa parceria, que ainda se contesta, do governo federal com as prefeituras.

Não havia a municipalização da Saúde, o SUS e Fundeb, financiando quase a totalidade da Educação e da Saúde. Cada centavo era disputado em Brasília. Para construir, as prefeituras tomavam dinheiro emprestado. Os municípios viviam à mercê dos governos estaduais – e Conquista ainda mais. Quase nada chegava. Era pura retaliação, uma perseguição que durou anos contra uma cidade que era guerreira, conhecida como a trincheira das oposições na Bahia, tendo à frente exatamente o líder que os poderosos da política estadual (e até nacional) tentaram calar com o assalto contra o seu mandato, em 1964.

Não há para onde se olhe em Vitória da Conquista e não se veja a obra de J. Pedral. Infelizmente, por ação de uma propaganda maciça dos seus adversários de 1996, muito da juventude de nossa cidade – que naquele ano, quando ele foi derrotado pelo PT, não tinha mais que 9, 10 anos de idade – acha que Pedral só fez aquele viaduto incompleto da Régis Pacheco ou que entregou Conquista em estado de calamidade ao PT. Não foi bem assim.

Como eu disse, não há para onde se olhe para não enxergar sinais daquele operoso governo comandado por Pedral de 1983 a 1989 e mesmo do curto de 1963 a 1964 ou do contestado, que se encerrou em 1996. Mas, ele pagou caro, nunca mais obteve um mandato eleitoral, porque em seu último governo faltou dinheiro, o salário dos servidores atrasou e o lixo se acumulou nas ruas. Ou porque uma Câmara corrupta marcou aquele tempo com reflexos na história de um homem que até seus maiores adversários reconhecem: morreu com a dignidade dos que não roubam.

J. Pedral, insisto em tratá-lo assim, porque foi assim que ele construiu sua história de coragem, realizações e amor a Conquista. Quando os marqueteiros de Salvador inventaram a marca de Pedral Sampaio, ele começou a perder. Perdeu a eleição para deputado federal em 1990 e só voltou a ser prefeito de Conquista em 1992 porque o povo reconheceu nele o J. Pedral de 1958, 1962 e 1982. O J. Pedral que representava a coragem do conquistense e que foi afastado da Prefeitura pelos trogloditas da ditadura com o apoio de alguns borra botas da sociedade e da política local.

Mas aí, Pedral colocou uma sombra em seu caminho. Fez um acordo com ACM. Acreditou que o velho coronel ajudaria Conquista e salvaria o seu governo do vexame que foi. A mim, um ano depois, Pedral disse, mesmo depois de aderir ao carlismo: “Eu ainda sou marxista”. A frase foi manchete de capa de uma das edições do jornal Hoje, de Paulo Nunes. Antes, em entrevista que me concedeu para a Folha de Conquista, Pedral havia afirmado que se mantinha socialista, a despeito do surpreendente acordo feito com ACM. Mas, dizer isso não o ajudou a recuperar seus ex-aliados da esquerda. E eles trabalharam para acabar com o mito. Entretanto, ninguém tentou mais isso do que o próprio Antônio Carlos Magalhães, que acabaria por manter a política de pão e água com Conquista e, mais tarde, antes mesmo de o governo de Pedral terminar, já o traíra pelo menos duas vezes, incluindo o racha no pedralismo, ao apoiar Murilo Mármore e forçar Pedral a lançar Vonca, em 1996. Conquista disse não aos dois.

Mas o mito não morreu. Fez-se lenda. Legendário, esse J. Pedral. Só não conseguiu, como me havia me dito no dia 13 de setembro de 2010, chegar aos 100 anos. Conquista o perdeu antes, mas sabe que ele não durará apenas um ou dois séculos. Está para sempre na história do município. E da Bahia.

Para terminar, revisando uma das entrevistas que fiz com Pedral, achei um trecho que reproduzo aqui, para falar do doce sentimento que ele, um rochedo de firmeza e decisão, tinha pela terra onde nasceu e que o fez a figura política e histórica que será por muitos anos. Em uma parte da entrevista, feita no começo de 1989, eu perguntei como ele via as críticas ao fato de ter mandado construir uma biblioteca em uma área de charco, que era ali na Conquistinha, muito diferente do que é hoje. A biblioteca veio com um pacote de obras que Pedral trouxe à cidade, algumas delas inauguradas por Murilo Mármore, que o sucedeu eleito com a força dele, 1988.

Além da biblioteca, Pedral trouxe três escolas, então nominadas como Iara Cairo, Maria Célia Ferraz e Iza Medeiros e o hospital Esaú Matos, entre outros equipamentos construídos com estrutura de argamassa armada, projetados pelo famoso arquiteto carioca João Filgueiras Lima, o “Lelé”, na Fábrica de Cidades, mantida pela Prefeitura de Salvador, quando Mário Kertész era prefeito da capital.

Vamos ao que me disse Pedral naquele bate-papo, há 25 anos.

Mas, no dia em que se drenar isso aí – e temos tal projeto, esse projeto que se chama Aguão -, ali será uma área verde muito grande e a biblioteca ficará dentro de um bosque, com vegetação linda. E será uma biblioteca que irá atender várias escolas. O projeto dessa biblioteca é modular e muito amplo, pois foi projetado para crescer sem precisar criar apêndices.

Eu sou uma pessoa sensível e emotiva, mas no exercício do poder, às vezes, temos que ser durões e tomar decisão. Quem tem um mandato, um comando, tem que decidir a favor ou contra, não pode ser morno. Você decide a favor ou contra, pode até decidir errado, mas tem que decidir. Eu não tenho coração de concreto, eu gosto de cultura, aprecio.

Não pensei que a biblioteca fosse ficar localizada tão mal. Era para se fazer um canal ali, onde passa o Rio Verruga, que nasce no Cruzeiro, no Poço Escuro e desemboca em Itambé. Esse rio já foi muito grande. No tempo do meu avô se pescava nesse rio, aqui na praça 9 de Novembro, onde hoje o rio é canalizado, mas se pescava ali, pois era um açude onde hoje é a Praça Bartolomeu de Gusmão. Em 64, eu destruí essa barragem, pois a região tinha muito esquistossomose, por causa deste açude. Era uma epidemia, esse açude era no antigo Aguão, hoje a biblioteca fica aí nas imediações de onde era o Aguão.

Essa área era para ser um parque, não se concretizou o projeto, mas é para ser um parque. Isso foi em 1964 e está assim até hoje. Ninguém fez mais nada. Já foi feito canal no bairro Jurema e também vai chegar a hora de fazer esse canal e ali será um parque, parecido com o da praça da República em São Paulo. Essa biblioteca estará dentro de um parque no dia que fizer esse trabalho.

Será uma coisa linda, com pássaros cantando, aí vai ser bom, tudo arborizado no futuro. Isso tudo está pronto no projeto, basta apenas tomar posse. Essa moçada de hoje não conhece muito da cidade no passado, é preciso registrar essa memória, sim.”

O coração, que não era de concreto, parou. Descanse em paz, José Fernandes Pedral Sampaio.


(Leia ainda, sobre Pedral: http://notasdeconquista.wordpress.com/2010/09/13/caiu-do-cavalo-duas-vezes-mas-aos-85-anos-pedral-e-uma-figura-da-historia/)

Pedral sendo entrevistado por mim no velório do ex-governador Régis Pacheco, que ele considerava o seu maior padrinho político.

Pedral sendo entrevistado por mim no velório do ex-governador Régis Pacheco, que ele considerava o seu maior padrinho político.

Coordenador de Comunicação, reuni minha equipe com o prefeito Pedral para pedir melhorias salariais

Prefeito, Pedral ouve a minha equipe de trabalho em 1985.

Esse rosto pela metade no canto esquerdo da foto, quase só um nariz, sou eu, tímido, em coletiva do então ministro da Previdência Waldir Pir..

Pedral ao lado de Waldir Pires, então ministro da Previdência, em 1985.

Pedral abraça Waldir Pires, para quem foi fundamental na eleição de governador em 1986.

Pedral abraça Waldir Pires, para quem foi fundamental na eleição de governador em 1986.

Pedral se prepara para uma entrevista coletiva. Na foto, além de mim, o radialista João Melo e o jornalista Wellington Gusmão.

Pedral durante a I Feira Industrial de Conquista (1987), promovida por Hélio Ribeiro que o substituiu enquanto ele estava na secretaria estadual.

Momento anterior à inauguração Cabrália Conquista

1988: inauguração da TV Cabrália, então Rede Manchete em Conquista. Pedral está com a esposa D. Zica, sendo entrevistado por Herzem Gusmão que, de adversário ferrenho, converteu-se em aliado.

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5 respostas »

  1. Caro Giorlando, boa tarde de 19/09/2014.

    A partir do seu comentário no meu Facebook sobre a morte de Pedral, visitei o seu blog e me senti encorajado de deixar aqui este registro, primeiro, para dar-lhe os parabéns pelo artigo muito bem escrito e verdadeira e merecida homenagem a José Pedral Sampaio.

    Na eleição de 1982, você se lembra, fui eleito Vereador pela sub-legenda do MDB, com Sebastião Castro à frente. Mas não pensei duas vezes em procurar Pedral após a eleição para dizer-lhe do meu respeito a ele e do propósito – juntamente com o Partido do qual eu fazia parte – em apoiar os aspectos positivos do seu Programa de Governo que acabava de ser aprovado pela maioria dos eleitores conquistenses.

    Durante os anos que atuei na política de Conquista, vi o quanto Pedral representava, junto com alguns outros líderes, para que Vitória da Conquista fosse respeitada nacionalmente pela sua posição de não aceitar ser pisoteada por quem quer que fosse que estivesse politicamente no comando da Bahia e da União.

    Além disso, ele teve uma posição de muita coerência no Diretório Municipal do MDB ao me defender e pedir o apoio dos componentes contra uma deduragem covarde de um filiado daquele Partido da qual fui vítima.

    Ele era um bom frasista também, como você mostra no seu artigo. Me lembro dele ter dito uma vez pra mim e outra pessoa, entre risadas: “Em política, se possível, não se deve dar nem oxigênio ao adversário”.

    Pedral faz parte da história de Conquista, como você bem destacou no texto.

    Grande abraço.

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