Amor

Antes que as pontadinhas me calem. Uma carta

Eu adoeço pouco, a última gripe de que me lembro eu estava com uns 14 anos. Nem dor de cabeça me incomoda. Já tive algumas muito chatas, depois de beber barris de cerveja misturados com tonéis de rum. Fora isso, se uma pontadinha se insinua, coloco as pontas dos dedos indicador e médio no local e, como se tomasse doril, a dor some. Para não dizer que não adoeço, uma dengue chata me derrubou recentemente. Minha amiga Marineide Lawinsky e meu amigo Paulo Bicalho cuidaram de mim e em sete dias eu estava no batente de novo.

Talvez por essa minha falta de intimidade com doenças, ainda que as famosíssimas viroses, é que, se a pontadinha na cabeça fica intermitente e eu tenho que levar as pontas dos dedos mais de duas vezes ao local, já fico nostálgico, saudoso, rememorando momentos bons (ou tristes) e sentindo saudade. Vem aquela vontade de sair do quarto e sair abraçando todo mundo, com um medo enorme de morrer. Medo de morrer não, medo de não estar mais aqui amanhã.

Hoje, como meu teletransportador apresentou defeito, ao invés de sair para os abraços, resolvi escrever uma carta a mim mesmo. Como publicarei no meu blog, quem quiser pode se sentir destinatário da presente missiva.

É uma carta para me lembrar de que preciso cumprir minha promessa de viver mais, até que eu ganhe netos, pelo menos. E de que não posso deixar de agradecer a Deus e a todos os que os me amam ou me amaram neste tempo que já vivi e aos que me amarão pelo tempo que ainda vou viver, antes que as pontadinhas de dor na cabeça não sejam mais vencidas pela energia das pontas dos meus dedos.

Mas é uma carta de saudade. Estava pensando em meus filhos e pensei no meu pai. No próximo dia 24 ele completaria 79 anos. Nos deixou aos 63, muito novo. Nos legou a lembrança de um pai amoroso, rude algumas vezes, que embora tivesse dificuldade para verbalizar seu amor, era sempre cuidadoso, generoso em casa e fora. Meu pai me ensinou a ler. Lembro de um dia, quando eu estudava a Cartilha da Alice, aquela que tinha a letra bem grande no centro e ao lado palavras iniciadas por ela e as figuras respectivas. B, de bule e o bule lá, bem colorido. Parei na letra E. Meu pai perguntava: que letra é esta? E eu, cheio de dúvida É… é… é. Ele: É “e”? E eu: “Não sei”. Meu pai retava: É “e”.

Eu pensando que ele apenas me repetia, zangado, e ele estava era me dizendo que a letra era o “e”. Quando eu entendia e acertava ele ficava extasiado. Ele lia, devorava vários, aqueles gibis de cowboy, formato de bolso, capa desenhada colorida, miolo em papel jornal e histórias muito parecidas que mencionavam o Velho Oeste americano, tinham autores com nomes americanos, mas que eram bem brasileiros. Aprendeu a ler no Madureza Ginasial e os livros que ele tinha, conta a minha mãe que eu os comia, literalmente.

Meu pai era pedreiro. O melhor de Jacobina. Sua mão de obra era disputada. Eu gostava de ouvir minhas professoras para cujos maridos meu pai fazia obras, dizerem que ele era inteligente. E que éramos parecidos. Meu irmão Gervásio conseguiu que a Câmara de Vereadores de Jacobina desse o seu nome a uma rua em frente à casa que meu pai construiu para nós, na serra. Rua José Pedreiro, foi assim que ficou na lei. Ainda não tem uma placa lá, falha nossa. Falha minha.

Falhei muito com o meu pai. Uma vez uma colega de escola disse que meus pais deveriam ter muito orgulho de mim, na verdade ela disse “muito gosto”, porque eu seria um rapaz estudioso e inteligente. Ela estava certa apenas em parte. E não era quanto ao “gosto” que eu dava. Meu pai me demonstrou mais de uma vez que tinha alegria em ser meu pai – e de todos os meus sete irmãos. Retava quando ficava sabendo que alguém havia dito ou feito algo que nos ofendesse. Uma vez eu lhe contei que seu Arcanjo bateu com a máquina de cortar cabelo na minha cabeça, ficou furioso. Ainda bem que ele teve tempo de se acalmar.

Outra vez, eu estava com a minha mãe no Rio do Ouro, “ajudando” ela a lavar as roupas da família, quando me envolvi em uma briga com um dos meninos da rua. Briga de meninos, naquele tempo, costumava terminar em troca de pedradas. E não foi diferente. O cara, de quem não me lembro mais o nome, correu, se afastou de mim e de longe atirou a primeira pedra. Eu reagi. Péssima pontaria. Dei a batalha por encerrada e volto para o rio. Para me certificar de que o meu contendor também havia guardado a disposição para a briga, olhei para trás… A pedra veio, pontiaguda e me acertou entre o canto do olho e o “osso” do nariz. Dor e sangue. Muito sangue.

Meu pai me leva ao hospital Antônio Teixeira Sobrinho (onde 30 anos depois ele morreria, sem um exame digno, sem um diagnóstico). Íamos a pé, claro. Naquele ano, meu pai não tinha bicicleta. No caminho, pelo Beco do Calango, perto do portão dos fundos do Hotel Triunfo, de Dona Ilda, mãe de Lala, passa um outro homem e fala: “Quer vender esse menino, eu compro”. Meu pai não parou porque estava com pressa de chegar ao hospital e me ver livre daquele sangueiro, só disse: “Esse menino, não tem dinheiro que pague”. Pode ter sido outra coisa, afinal eu era um guri, mas eu sei que variou só um pouco.

Há muitas histórias. A do Natal já contei aqui. Meu pai me puniu muitas vezes com dor, mas me perdoou muito mais, com amor. Acho que não cabe nesta carta que escrevo a mim mesmo, pois não há déficit de lembrança.

José Pedreiro e Gervásio (Fio), em 1981.

José Pedreiro e Gervásio (Fio), em 1981.

Eu puni mais meu pai. Lhe impus sacrifícios, lhe fiz trabalhar a mais muitas vezes. Mas hoje, ao sentir a falta que sinto dos meus filhos que estão fisicamente longe, eu penso que machuquei muito meu pai com a minha ausência. Deixei a minha casa pela primeira vez em 1981. Fui para Feira de Santana movido por uma paixão louca dos meus 19 anos. E apesar de ter retornado em 1982 por alguns meses e em 1983 por dez meses, saí de vez um ano depois.

Pobres, eu e meu pai, não podíamos viajar para nos ver mais do que uma vez por ano. Ou dois anos. Lembro que, certa feita, eu estava na casa de amigos muito queridos em Campo Formoso e um dele, Jonas, me disse que um dos irmãos que moravam fora estava chegando, depois de passar um tempo em outro estado (ou país, não sei mais): oito anos. Eu fiquei abismado, imaginando como alguém conseguiria ficar oito anos afastado da família. Mas, eu saí e fiquei quase isso longe da minha.

Eu nunca tive nenhum motivo para desgostar de meu pai, mas quando eu fui para longe, era como se apenas a minha mãe sentisse falta dos meus contatos. A minha irmã Girleide, que pouco depois da minha ida para Vitória da Conquista foi morar comigo, havia voltado para Jacobina e com as economias de seu trabalho e participação de outros irmãos (imagino) comprou um telefone para a minha casa. Eu ligava sempre que podia, ou seja, quando tinha dinheiro. E falava com a minha mãe, com a minha irmã, perguntava como estava meu pai e mandava um abraço para ele. Um dia, ele pegou o telefone e perguntou se eu o havia esquecido. Não falou de saudade. Como diria Arnaldo Antunes em “Amor I Love You”, ele não era dado a essas sentimentalidades. Isso está marcado.

E eu já usei esse episódio para fazer chantagem emocional com meus filhos. É que eu sinto, mesmo, uma enorme dor pela saudade deles. E tenho um temor gigante de um dia eles irem para ainda mais longe do que são o Rio de Janeiro e Campinas, em relação a Itabuna, a Vitória da Conquista ou a Jacobina. Eu morei em Conquista por mais de 20 anos e meu pai só pode ir lá uma vez. Eu já fui muitas vezes aonde meus filhos estão e, graças a Deus, posso ir outras vezes.

Mas, tenho medo de as pontadinhas na cabeça atrapalharem meus planos, assim como não quero atrapalhar os planos deles. O amor é mesmo, às vezes, essa coisa egoísta, pelo menos no meu caso. Então, tenho que ser comedido nas minhas declarações e desejos. Farei um esforço. Apesar disso, quero que eles telefonem mais. E escrevam. E enviem mensagens pelo whatsapp ou recados no facebook ou mesmo broncas pelo e-mail (“porra, pai, sempre dramático”. Rs). Desejo que falem comigo das coisas que eu quero perguntar e eles acham um saco responder. Quero saber dos seus sonhos. Não posso falar dos meus porque eles me repreenderiam por saber que há uma pessoa errada neles. Mesmo assim, é tão gostoso falar de sonhos.

Eu sonho com uma sala aquecida onde as risadas maravilhosas e os abraços macios dos meus filhos lindos substituam as pontas dos meus dedos e as pontadinhas na cabeça sumam como se eu fosse para sempre. E fosse sempre aquela festa que sabemos fazer juntos

———-

Pronto,  Nadir e Ana Lúcia: escrevi.  Venci mais um moinho.

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6 respostas »

  1. Parabéns tio, linda mensagem. O amor imenso que sinto pelo meu pai-avô faz com que muitos momentos ainda estejam tão nítidos em meu pensamento. Fiquei muito emocionada . 😉

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  2. Caro Amigo Gigio,
    Às vezes passeio por aqui e sempre me encanto com suas histórias. E teve uma frase que me chamou atenção, que nos seus sonhos existe uma pessoa errada. Sonhos são sonhos e neles não existem certo ou errado. E como vc mesmo disse: “é tão gostoso falar de sonhos”. Desejo que em breve seus sonhos se tornem realidade. Bjs

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