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Crônica Crônicas Pessoais

Sobre uma velha saudade, nada mais

Não vai doer.

A voz parecia distante, quase um sussurro, mas soava clara. Dizia para ele ficar tranquilo porque acabaria rápido.

Você quase não vai sentir.

Tentando manter os olhos abertos se via deitado, nu e cercado de sombras. Sombras vestindo luvas. Luvas brancas. Lembrou-se do quadro de Rembrandt, A Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp, mas não via o doutor e seus alunos; não eram pessoas. Respiravam ofegantes, mexiam as mãos com suas luvas brancas e limpas, mas eram sombras.

A lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp (Rembrandt)
A lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp (Rembrandt)

Abra seu coração, será mais fácil. – Era a voz dela, vindo de longe, mas bem clara e limpa.

Inerte, ele fechou os olhos e procurou na memória um rosto para aquela voz. E a viu. Olhos graúdos, nariz pequeno, lábios finos e um sorriso tão terno que lhe trouxe alívio e o fez pensar que não iria mesmo doer, que deveria abrir o coração, como ela pediu.

Tendo visto o rosto dela, abriu os olhos e já ia dizer sim às sombras e suas luvas quando sentiu cócegas em seu peito e, por dentro, o movimentar dos dedos das luvas, ainda tão brancas, como se tentassem agarrar, todas ao mesmo tempo, um peixe que se debatia para um lado e para outro, desesperado e escorregadio.

Tentavam parar o seu peixe-coração, que batia mais forte, como numa reação, como se soubesse o que lhe queriam tirar.

E a voz, já vestida com o rosto dela, a repetir: “Não vai doer, não vai ser ruim“.

Sem saber e nem perguntar o porquê, de repente, ele consentiu em silêncio que as luvas das sombras lhe tocassem o músculo, que não se parecia mais com um peixe e parou de se debater. Foi quando viu não apenas um, mas vários de seu coração espalhados por aquelas mãos com luvas brancas que não se sujavam.

As sombras sussurravam, em dúvida. Afinal, em qual daqueles corações pulsantes estaria o que procuravam? E com ansiedade e frêmito as luvas os rasgavam, os dedos voando para dentro, como águias à caça. Perceberam o quão longa seria a jornada corações adentro. Como na toca do coelho, que sugou Alice, havia mundos gigantescos no interior daqueles corações iguais, aparentemente, a qualquer outro coração. E as sombras repetiam-se em sussurros: “Profundo, profundo“.

E ele, agora pegado no sono, como diria se acordado estivesse, sonhava que seu coração estava aberto, escancarado, mas era apenas um. E que aquelas sombras, que os viam muitos, estavam tendo alucinações. Só podia ser.

Sonhando ele a viu, de novo, o rosto da voz. Só o rosto, como antes. Sorrindo, como quase sempre. Seu sorriso lhe dizia que ela entendeu tudo. Não repetiu que não doeria, pois viu que doeu. Ela entendeu que dedos em luvas brancas, de mãos de sombras, remexendo nos corações dele não fazem cócegas, mas riscam cicatrizes.

Viu que aquele coração se fazia em muitos para proteger o que guarda. As sombras sempre se confundirão quando tentarem explorar um coração tão profundo (como são os corações, afinal).

E ela parou de lhe pedir que abrisse o coração para que as sombras pudessem entrar e tirar de lá o que ela um dia colocou e ele decidiu preservar. Soube ali, que os mil corações que ele tem a amam todos com a mesma intensidade, em saudades de muito mais que mil dias, de milhões de instantes.

Desistentes, como foi ela um tempo atrás, as luvas se vão de mãos dadas. As sombras ganham luz e também se vão. Ela ficou. Guardada no único coração que as sombras jamais tocarão, aquele que há muito já deixou o peito e foi abrigar-se nos seus sonhos, de onde jamais sairá, ainda que cesse a vida. Um coração que tem a fé de que os sonhos de amor vão além da vida.

Nunca vai doer. – Diz o coração à voz, guardada na distância de uma saudade constante.

————–

(Um velho texto, de um velho tempo, reaproveitado porque saudade não fica velha. Publicado atendendo a um pedido)

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4 comentários em “Sobre uma velha saudade, nada mais

  1. Adorei o texto.e vou ser uma das Giorgetes…kkkkkk bote pocando na politica, como vc agora está LIVRE! Voe,mas voe muito alto,e seja como às Águias,que voam livres e jamais abaixam a cabeça, a não ser por um bom motivo!!rsrs bjs

  2. Gostei do seu blog, você escreve muito bem! Estou seguindo!
    Se puder, dá uma passada lá no meu depois. 🙂

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