Pessoas que vi recentemente: a menina que pedia fraldas para a avó

Posted on sexta-feira, 15 maio 2015

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O comportamento de algumas pessoas nestes tempos líquidos, como diria minha querida Naudielle, nos faz desconfiados. Não que essa desconfiança seja uma coisa nova. Eu me lembro de um episódio comigo, ocorrido na Estação Rodoviária de Salvador, no longínquo 1979. Um episódio que ajudou a me moldar como pessoa. Naquele ano, fui a Salvador com meus amigos Cícero Matos (artística plástico e então aluno de Belas Artes) e Paulo Vieira (ator e então aluno de Artes Cênicas). Era a primeira vez que eu viajava a Salvador desde que retornamos, eu e a minha família, de um período em que meu pai conduziu a reforma da casa de Seu Ebenezer, gerente do Banco do Brasil em Jacobina, que logo se transferiria para a capital. Aquela estada em Salvador, com a família, dá uma crônica, mas deixo-a para depois. Voltemos à minha viagem com C. Matos e Paulão, porque ela me trará ao caso de hoje, sobre o meu encontro com uma menina de 16 anos.

Olha, eu nem estava pensando naquela viagem de 1979. Embora tenha que levar em conta a coincidência de ter visto, hoje, uma foto postada no Facebook, por Kátia Loepfe Matos, com a família de Cícero toda em pose (na cara do povo sorrindo dava para ver a lembrança do velho pai). Mas acho que isso é a tal da vida, não o espaço de tempo entre o nascer e o morrer, mas a conjunção de coisas prováveis e improváveis, não previstas, chamada também de acaso, consequência daquilo que não foi programado, pelo menos não pela pessoa. Mas,  vamos à história.

Hoje é quinta-feira, 14 de maio. Almocei no Tempero Caseiro, um restaurante de comida a quilo que fica perto de minha casa. Vivo comendo fora, enquanto não compro um botijão de gás e não assumo, de vez, que já estou morando definitivamente neste apartamento que antes só ocupava nos finais de semana (desde 2012, quando fui para Itabuna fazer a campanha de prefeito de Vane e depois compor o seu governo). Depois de almoçar, desci a Avenida Brasil a passos rápidos, porque caía uma chuva miúda e um frio desses de outono que fazem as pessoas gostarem de Vitória da Conquista (ou pelo menos afirmarem isso, porque passou a ter um certo charme, entre os baianos, dizer que mora nesta cidade). Parei no ponto de ônibus em frente a uma lanchonete que serve açaí. Uma menina bonita, branca, me entrega um pedaço de papel com uma mensagem impressa, como aquelas com as quais os surdos-mudos pedem ajuda nas estações rodoviárias e nas praças cheias de gente.

No papelzinho estava escrito: ”Por favor, me ajude a comprar fraldas para a minha avó. Ela caiu e quebrou (braço ou perna) e nós não temos como comprar. Deus lhe abençoe. DEVOLVA.” A menina entregou e não disse nada, continuou a sua distribuição entre os demais que esperavam o ônibus e aos fregueses da lanchonete. Fiquei pensando, confesso, “será um golpe?”. Afinal, tem sido tão comum. Um senhor (costumava chamar de senhor as pessoas mais velhas e eu não me desacostumei disso, apesar de também já estar velho) se aproximou e enquanto abria a carteira, me perguntou: “Vai ajudar ela?”. Entregou R$ 5,00 e enfatizou: “Tome, cinco reais!”.

A menina já havia falado antes. Disse obrigado, duas vezes, enquanto recolhia, com um sorriso, as moedas que lhe entregavam as pessoas do ponto de ônibus. Não respondi ao senhor. Estava me lembrando de quando, esperando a minha ex-mulher, que estava no dentista, perto da praça Tancredo Neves, fui abordado por uma senhora (naquele tempo a pessoa velha ali era só ela mesmo) que me mostrou uma caixa vazia de Berotec e me pediu um dinheiro. Explicou que já tinha Atrovent em casa, que era asmática e que não dispunha de dinheiro para adquirir o medicamento que faltava. Também me mostrou umas moedas e um pouco de cédulas, dizendo que só havia conseguido uns trocados.

Não sei você, mas eu não resisto a um pedido de ajuda. Se me pedem e eu tenho, eu doo. E sempre com a filosofia de que se posso dar uma ajuda razoável não devo regatear. Não se pechincha diante da miséria. Perguntei à vecchia signora quanto custava o Berotec. Ela me respondeu: “Ali na farmácia de Coronel Dema custa R$ 14,00”. Eu: Mas eu não tenho dinheiro trocado, só R$ 50,00. Ela: “O senhor me dá, eu vou lá ligeirinho e trago o troco”. E agora? Como desconfiar daquela mulher? Arfando, como se a qualquer momento todo o oxigênio do mundo não fosse mais suficiente para mantê-la respirando, e com os olhos cheios de súplica. Que enorme pecado seria pensar que ela sumiria com o meu dinheiro.

– Então, tudo bem. Compre seu remédio e me traga o troco.

Você voltou? Nem ela.

E o que fazer no caso da menina quase muda, ali, esperando os segundos intermináveis de minhas lembranças terminarem? Simples. Como me ensinam os mais precavidos: “Compre você mesmo as fraldas e lhe entregue”. Mas o ônibus que eu esperava já estava a menos de 100 metros e a farmácia é lá do outro lado da rua. “Ah, daqui a pouco passa outro”, disse uma vozinha lá dentro. Então, tudo bem. Vamos à farmácia comprar as fraldas da sua avó.  No caminho, o interrogatório. Quantos anos tem a sua avó? “81”. O que ela teve? “Caiu e se machucou e mais isso e aquilo”. Ela é mãe do seu pai ou da sua mãe? “Mãe da minha mãe”. E sua mãe não trabalha? “Não, ela está sem trabalho agora. Lá em casa só meu irmão trabalha, vendendo DVD”. E seu pai? “Eu não conheço ele”. Você não tem pai? “Tenho, todo mundo tem, né? (um sorriso leve, ela deu), mas eu não conheci. Nem eu, nem meu irmão”.

Na farmácia, o balconista informa que as fraldas têm três tamanhos, P, M e G. Qual o tamanho da sua avó? “Não sei” (outro sorrisinho). Mas ela é gorda, miúda? É assim, da sua altura? “É bem magrinha e do meu tamanho”. Tá, se pesa ali. “Deu 44 quilos”. Pronto, eu disse ao balconista, então é P, a avó dela deve pesar uns 41. “Naaada”, retrucou o rapaz. “Osso pesa e velho fica pesado”. Ao afirmar isso, o “geriatra” apontou para uma colega que estava encostada no balcão, com as mãos para trás e rindo: “Veja esta, baixinha, magra, mas só de osso pesa quase 50”. Àquela altura, os ônibus indo embora sem mim, já estava divertido comprar a fralda para a avó da menina quase muda, que sorria.

Paguei, voltamos ao ponto de ônibus. Mais interrogações. Seu pai é um e o pai do seu irmão é outro? ”Nããão!”. Então, como é que ele também não conhece o seu pai? Vocês são gêmeos? “Nãããão!”. (A mudez já havia ido embora de vez, deve ter sido o efeito de ter um pacote de fraldas para a avó enfiado na mochila pendurada às costas). “Meu irmão tem 17, eu vou fazer 16. Quando minha mãe teve ele, meu pai foi embora. Um tempo depois voltou, engravidou minha mãe de novo e largou ela outra vez, antes de eu nascer”.

Putz! Que filho da puta, eu quis dizer, mas ela ainda falava do pai com aquele sorriso leve. Então, eu chutei uma sugestão, cheia de uma ironia que se não fosse uma risada sonora dela, teria me feito o mais arrependido dos bestões: Então, bem que sua mãe podia deixar ele saber que topa engravidar de novo, quem sabe ele vem só pra isso e você aproveita para conhecer o seu pai? Eu sei: tosco, bruto. Mas, juro, me veio aquilo à mente como uma ideia boa. Ato falho, de junção de fatos “ruins” em busca de um efeito bom.

No ponto de ônibus, ela recolhe o último papelzinho. De um cara que bebia água mineral como se fosse um vinho francês. Não deu nada a ela. Talvez só tivesse a grana para aquela água, que bebia para suprir o sonho de beber um vinho que o dinheiro dele não comprava. Entendo mais ou menos isso. Já bebi Ki-Suco como se fosse Tang.

A menina bonita – e agora mais alegre – ex-mudinha, me pergunta para onde vou. Estou indo ao Centro, Siqueira Campos. Ela, me ajudando: “Ah, vai passar um daqui a pouco. Aquele lá, aquele lá serve”. Entrei, ela também, com moedas na mão. Não deixei que ela pagasse, estava convencido de que ela precisava muito daquele dinheiro. E você, para onde vai? “Moro perto da Rodoviária. Pego o Patagônia”. Ficou pertinho; em pé, como eu. Aproveitei para dar conselhos, do alto da minha velhice e, muito mais agora, da minha condição de patrocinador das fraldas da avó dela: Não gaste o dinheiro que lhe deram. ”Nããão. Dou todo a minha mãe. Ela compra mais fralda e comida”. Tome cuidado na rua, não confie em todo mundo. “Eu sei, tem muito homem que quer mexer comigo. Mulher também”. Hum, juízo. “Por que está tirando foto do ônibus?”. Porque eu tenho uma namorada ciumenta que precisa saber sempre onde estou. (Eu ri, ela também).

Vou descer, se cuide.

“O senhor também, Deus lhe abençoe”.

menina-com-mochila

Quando terminou aquele tempo em que conheci boa parte de Salvador, ouvindo o violão de Paulo de China e apreciando a performance de Paulão, acompanhando canções que me marcaram como Riacho do Navio, Chão de Giz, Dunas Brancas e A Dança Das Borboletas; depois de vomitar o Dom Bosco nas noites do Campo Grande, do café da manhã com pastel no Chinês da Dois de Julho; de me declarar apaixonado por Olga, sabendo que a minha paixão era Ceiça, namorada de Cícero, fomos para a estação rodoviária. Era hora de voltar. Mas estamos sem grana, avisou Ciço, que já havia gasto todo o dinheiro do crédito estudantil que sacou no caixa eletrônico da UFBA. E como vamos pegar o ônibus? Perguntei, me registrando como menino. Vamos pedir dinheiro, fui avisado.

Perto do guichê da São Luiz, desarrumado, com a mesma roupa de quando cheguei a Salvador, me dirigia a pessoas bem vestidas, pedindo uma ajuda para voltar a Jacobina. Sou estudante, vim para o Congresso da UNE e não tenho dinheiro para a passagem. “Não dá não. Esses pivetes pedem dinheiro e depois vão aprontar, roubar, fumar maconha. Ele está mentindo, não dá não”. Eu não era pivete. Não estava mentindo. Precisava daquela ajuda. Envergonhado, dei outro jeito de voltar para casa, sem precisar pedir mais. E no caminho, enquanto chorava, disse a mim mesmo: “Nunca vou negar ajuda a quem me pedir, principalmente a crianças e velhinhos”.

Quando hoje, sob o chuvisco de uma tarde de outono em Vitória da Conquista, aquela menina quase muda me pediu ajuda para as fraldas da avó, lembrei daquele menino que eu transportava no ônibus de volta a Jacobina, há 36 anos. Espero que ele não vá embora de dentro de mim.

E que a avó da menina tenha ficado confortável com as fraldas.

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Perdão pela indefinição da caracterização (orto)gráfica dos diálogos.

(Roubei a foto do blog de Shenna Rocha, via Google. Espero que ela não se zangue. Aproveita e vai lá dar uma olhada: sherocha.wordpress.com)