Amor

Die mär von Ulenspiegel und Lamme Goedzak e algumas das minhas lembranças

Guardo um livro em minha estante, que eu e meus irmãos chamávamos de O Livrão de Papai. Nas suas páginas estão curtas anotações feitas pelo meu pai ou pela minha mãe, sobre pequenas coisas do dia a dia da família, do tempo em que meu pai era vivo. São contas de somar, lembretes e até uma poesia ou letra de música que não sei a quem atribuir. Entre as páginas, cópias de duplicatas pagas, velhas promissórias, papéis com outras anotações e sempre algum dinheiro trocado. O livro era uma espécie de cofre. “Cadê o papel com a conta da venda de Seu Noel?”. Estrava guardado entre as 470 páginas do livrão.

Este livro tem um grande valor sentimental para mim – e acho que também para meus irmãos. Lembra muito meu pai, que adorava livros, gostava de ler (aprendeu no antigo Madureza Ginasial, já adulto), mas nem chegava perto de saber que aquilo era alemão, apesar de ter imaginado isso ao comentar, certa vez, que as letras pareceriam as de livros antigos, feitos quando inventaram a impressão.

Meu pai encontrou o livrão dentro de um baú grande, feito de couro e com armações de ferro, muito parecido com os baús de pirata, muito bonito. Infelizmente, nossa ignorância cultural e o descuido fizeram o baú desaparecer. Foi sendo comido pelo tempo e pelos ratos e acabou sendo jogado no lixo, ou outro destino que não sei.

Meu irmão Gervásio (Fio) disse que Bade, outro dos meus irmãos, foi quem jogou fora, porque minha mãe só o via como um baú velho e estragado, um trambolho a mais entulhando o quartinho já entupido de coisas velhas, ferramentas, pedaços do passado sem uso, ou quase nenhuma uso. Claro que nem a minha mãe, nem eu, nem ninguém lá em casa pensava de outra forma. Só depois que o perdemos lhe demos valor. Como, de resto, é na vida.

Havia mais coisas no baú, que fora abandonado pelos antigos donos da casa que meu pai foi reformar em Salvador, quando eu era mais menino, mas eu só lembro do livrão.

A casa que meu pai e uma equipe estavam reformando – quando ele achou o livrão alemão – ficava na Afonso Celso, Barra e seria, logo que estivesse pronta, a residência da família de Seu Ebenezér e Dona Elita. Ele gerente do Banco do Brasil que estava de mudança de Jacobina para Salvador. Dela, tenho a lembrança de uma mulher generosa, que me levou para fazer “exame de vista”, comprou meus primeiros óculos e me ensinou, me segurando pela mão, a atravessar a rua, quase em frente ao Farol da Barra. Apontando o sinal para pedestre, ela me disse: “Só atravesse quando o sinal estiver verde”. Como eu olhava para o semáforo maior, que estava verde e os carros atravessavam normalmente, demorei para entender.

O livrão que viajou de Salvador para Jacobina com o meu pai e depois veio para Conquista comigo me lembra Dona Elita. Mas me lembra muito mais meu pai. E minha mãe. Lembra da luta daquele tempo, quando dormíamos em “camas” feitas de tábuas e madeira retirada da construção. E conta a história de Thyl Ulenspiegel, um personagem do folclore (ou da história) alemão, passada, eu acho (não sei ler em alemão) no período da Inquisição. Creio serem contos/crônicas/fábulas sobre um tempo ruim, contadas sob o ponto de vista do herói aventureiro que viajava divertindo pessoas. Seu personagem é apresentado vestido como um arlequim.

O livro, a edição que guardo comigo, deve ter uns cem anos. Só em posse da nossa família tem quase 50 anos. É mais velho que meu irmão Fio e minha irmã Tinha (Gessineide, porque eram assim os nomes, como na família de minha amiga Dadá Coelho). E a julgar pela data escrita pelo meu pai na primeira página do livro, Ninca (Genival) tinha um ano e dois meses quando meu pai achou o grosso volume dentro do baú.

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Antigo e ainda belo, o livro alemão, com suas ilustrações de cenários e momentos lúgubres, feitas a lápis, deve valer uma grana, mesmo estragadinho. Queria saber se alguém tem interesse em comprar, um colecionador, um alemão apaixonado pelas fábulas de Thyl Ulenspiegel ou mesmo um museu, o Instituto Cultural Brasil-Alemanha ou o Goethe-Institut.

Que sugiram um valor, façam uma proposta. Quero ter a alegria de recusar, dizer não. Não quero dar valor ao livrão depois de perdê-lo. Ele não é um velho baú de couro quase vazio. Ele guarda um tesouro caro. Eu não venderia a existência física de tantas lembranças.

— Die mär von Ulenspiegel und Lamme Goedzak (A Lenda de Thyl Ulenspiegel und Lamme Goedzak),de Charles De Coster.

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