Requisitada por outros partidos Nadjara Régis fala sobre política e sua suposta saída do PSB

Posted on quinta-feira, 12 novembro 2015

0


Para começar, quem é Nadjara Régis? Advogada, professora, mestranda em Direito Administrativo, ex-procuradora-geral do município de Vitória da Conquista, ex-petista, candidata a deputada federal pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) no ano passado, atualmente ela é chefe de gabinete do presidência da Câmara de Vereadores, casada com  jornalista Fábio Sena e mãe de Filipe, cinco anos, e João Pedro, de três.

Nadjara Régis, nome desejado por vários partidos, pode sair do PSB

Nadjara Régis, nome desejado por vários partidos, pode sair do PSB

Por que Nadjara foi entrevistada pelo blog? Para começar, Nadjara é uma das figuras que melhor pensam política em Conquista, tendo sido uma das principais conselheiras do prefeito Guilherme Menezes, até 2013, quando deixou o governo municipal e o PT, do qual era secretária-geral em Conquista, sem que quase ninguém entendesse as razões práticas para tal decisão. Migrou para o PSB e tornou-se candidata a deputada, quando ainda era muito pouco conhecida e teve pouco tempo e ainda menos dinheiro para a campanha. Obteve 4.090 votos em Vitória da Conquista.

Até o fim da semana passada, Nadjara fazia parte de uma lista de possíveis pré-candidatos a prefeito de Conquista pelo PSB. Foi mencionada em entrevista simultânea que fiz com José Carlos Oliveira, que fez dobradinha com ela como deputado estadual, e Gildelson Felício, secretário municipal e membro da executiva do PSB em Conquista. Mas, eis que o deputado estadual Herzem Gusmão, pré-candidato do PMDB e principal nome da oposição, posta nas redes sociais uma foto com Nadjara em seu gabinete e diz que ela está migrando para um partido contrário ao PT e, pelo menos até aqui, também ao PSB.

Nadjara nega que esteja saindo do PSB. Não nega com muita veemência, mas nega. Nega que já tenha escolhido a quem apoiar para prefeito. Diz que a quantidade de pré-candidatos (são uns doze nomes) é pouco, “infelizmente”. Como boa advogada, Nadjara Régis não produz provas contra si. E deixa muita coisa no ar. Elogia e saúda a chegada ao partido de Alexandre Pereira, que as conversas nos corredores e gabinetes da prefeitura, o burburinho no senadinho do Banco do Nordeste e os papos de blogueiros e radialistas já dão como o nome certo para disputar a Prefeitura pelo PSB. (Lídice da Mata chega a Conquista no dia 19, próxima quinta-feira, para abonar a ficha de Alexandre e dar a sua bênção à pré-candidatura. Mas é bom lembrar que Gildelson disse que rola conversa com o PT e que o tempo regulamentar só se esgota na véspera das convenções previstas para o fim de julho).

A ex-procuradora-geral na administração passada de Guilherme Menezes passa hoje a maior parte do seu tempo estudando e doando seus cuidados maternos aos dois meninos, mas lê tudo e ouve quase tudo sobre política e ainda mais a política conquistense. Admite seu desencanto com a política partidária e não mais distingue os políticos pelo partido. O que considera, afirma, é a postura humanista, o respeito a questões fundamentais como o direito da pessoa. Diz: “Qualquer partido político que seja, desde que não defenda o nazismo, o fascismo ou ditaduras no Brasil, eu sento e dialogo, se assim for o convite. Hoje acredito nisso: em pessoas que se sentam para buscar identidades e organizar uma ação consensual, de modo horizontal, fraterno, ainda que seja pontual”.

O BLOG não acredita que a permanência de Nadjara Régis no PSB se prolongue. Os líderes do partido devem buscar um diálogo logo, se quiserem manter um quadro como ela nas suas fileiras. Mas, se sair do PSB, o desejo é que fique na política, acertando e errando, como é da natureza humana e da dialética.

A entrevista segue abaixo e se você veio até aqui leia-a. Vale a pena.

BLOG – Em uma postagem recente no Facebook você demonstrou desconforto e/ou uma incompatibilidade com a vida partidária. É um sentimento relacionado ao PSB ou às agremiações pelas quais passou e à política, em si? Você pensa em deixar o PSB?

Sou filha de Capitão do Exército e de uma pedagoga. Entrei na militância estudantil após me apaixonar pelo teatro e ser impedida de continuar. Eu estava na Escola Técnica Federal da Bahia, passava o dia todo por lá, então pude participar dos grupos do Movimento Estudantil sem que meu pai percebesse. Para isto, não participava de nada a noite. Foi assim que ingressei no PT. Com paixão, acreditando que os éramos a reserva ética da verdade do que era o melhor para a sociedade. A honestidade ainda fazia parte do nosso discurso crítico naqueles idos. Havia muito debate interno, muita busca pela renovação de lideranças, busca pela coerência entre a teoria e a prática. Lembro que vendi meus livros de literatura brasileira para ler os textos indicados pelo grupo. Eu orava todos os dias para passar a entender as entrelinhas de um discurso político. Quando pensei a primeira vez em sair da vida partidária, do PT, foi em 2002.  Eu era coordenadora geral do Centro Acadêmico de Direito da Universidade Católica. Sentia que no Movimento Estudantil, na ação, nos imergíamos em algumas incoerências e eu então comecei a corporalmente querer me distanciar. Roda mundo, roda gigante, mais adiante me reaproximei, me reinseri na vida partidária, ainda que de modo indireto. Então, posso te dizer que o partido político tem sido cada vez menos um espaço para inspirações. É duro exercitar sua mente para aceitar o partido político como um espaço instrumental. Cada vez menos inspiração ideológica; cada vez mais instrumento. Instrumento para quê? Para o exercício da cidadania no âmbito da ocupação dos Poderes Constitucionais. Então, antes eu dizia: “Se acredito no socialismo vou para tais partidos, se acredito no capitalismo vou para um dos partidos”. Depois, ainda se dizia: “Se sou honesto, se creio na equidade na repartição dos bens, vou para o PT”, por exemplo. Agora eu digo o que para alguém que queira entrar num partido? Sei que partidos políticos não são mais espaços para as crianças, os adolescentes… isto é entristecedor. Portanto, são cada vez menos espaços para quem deseja ser ouvido, ser incluído. Naquilo que chamamos transformar a realidade social, adquirir consciência social. Realmente, tenho uma intermitência: a vida partidária.

BLOG – Você pensa em apoiar ou defenderia apoio a Herzem?

Quanto a Herzem, a outros candidatos, de qualquer partido político que seja, desde que não defenda o Nazismo, Fascismo ou Ditaduras no Brasil, eu sento e dialogo, se assim for o convite. Hoje acredito nisso: em pessoas que se sentam para buscar identidades e organizar uma ação consensual, de modo horizontal, fraterno, ainda que seja pontual. O efetivo diálogo e a inclusão na construção é o pontapé da política. Sou uma pessoa que, tendo oportunidade, prefiro obter de qualquer pessoa a opinião e a participação, ainda que contraditória.

Posso te dizer que se Herzem Gusmão tem 44 por cento da intenção de votos em uma pesquisa feita junto à população de Conquista, ele tem a probabilidade favorável, no momento, de obter mais votos. Mas isto ainda é circunstancial.

Sinceramente, não tive nenhum diálogo tão profundo com Herzem e nem com absolutamente nenhuma partido a ponto de eu me predeterminar a votar em alguém. Estou na mesma condição da maioria da população: esperando os candidatos apresentarem seus propósitos, sua capacidade de atrair o diálogo, aliás, esperando os próprios candidatos se constituírem como tal. Estamos, infelizmente, com um mínimo de candidaturas pré lançadas. Infelizmente.

BLOG – Sua sinalização de contrariedade com o PSB tem a ver com a possível escolha de Alexandre Pereira como candidato a prefeito pelo partido?

Não tenho qualquer contrariedade com a pessoa de Alexandre, aliás, um ser humano de muita qualidade. É bom saber que podemos contar com ele, com sua reinserção na política. Nossa geração (eu e ele somos da mesma geração) ficou contida numa represa formada pelas gerações mais antigas, que têm tido a dificuldade de promover a renovação. O principal motivo que na chapa da OAB voto em Ratis é este: consolidar o surgimento de novas lideranças nos espaços de decisão política e de militância profissional. Então, posso dizer, inclusive das conversas que tenho com Alexandre, que sou uma incentivadora de seu retorno mais protagonizador.

BLOG – Para qual partido você iria? Ainda que não deixe o PSB, há um partido pelo qual simpatiza?

Sai do PT por decepção. Não suportei as reminiscências da juventude… Não suportei as novas regras do jogo num tabuleiro que eu idealizei com as utopias de outrora.

Meus pensamentos eram de deixar a vida partidária, tendo em vista a monotonia intelectual que é estar em um partido político. Sou uma pessoa inquieta. Acontece apenas que, não tendo saído da vida partidária, estou sendo reconhecida por outros partidos políticos como alguém que poderia dar melhor contribuição. Eu já assumi cargos de direção, tanto no Legislativo como no Executivo, já publiquei muitas opiniões, faço meu mestrado em Direito Administrativo na Ufba, fui candidata nas últimas eleições.

Assim, do mesmo modo que alguns negligenciam a participação, outros valorizam. Claro que eu vou considerar com muita estima aqueles que encontraram nas ideias que defendo uma razão de aproximação, inclusive de um projeto político partidário. E a vida política é igual à vida dos namoros: o melhor namoro é com quem demonstra te querer por suas qualidades, por sua postura, por querer construir algo junto. Tem namoro que termina por completa falta de diálogo, de atenção, de projeto pensado junto.

BLOG – Você conversou sobre a possibilidade de deixar o PSB com Gilzete Moreira, de quem é chefe de gabinete na Câmara de Vereadores, e com a deputada Fabíola Mansur, de quem Fábio Sena, seu marido, é assessor?

Imaginando que a razão da pergunta está em saber se há participação dos mandatos de Gilzete Moreira ou de Fabíola Mansur em alguma articulação para eu sair do PSB, eu lhe posso afirmar que não.

BLOG – A pergunta com Gilzete e Fabíola tem outra intenção: saber se você conversa com eles sobre a possibilidade de sair; se os avisou. Herzem postou que você está migrando para um partido da oposição ao PT em Conquista. Isso não é sério?

Eu fiz uma visita de cortesia a Herzem, uma visita que não fazia parte das intenções da minha viagem. A qual ocorreu exclusivamente devido à retirada total de meu saldo bancário em uma de minhas contas, em crime digital.

Não há decisão de sair, por enquanto me reservo ao direito de pensar sobre propostas que estão sendo formuladas com muita seriedade, muita maturidade.