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Crônica de um domingo chuvoso em que o Vasco caiu, Bené sumiu e meus filhos sorriram

Hoje é domingo, pé de cachimbo. Uma da tarde.

Otávio Henrique fuma charuto e come sarapatel no Café Society; Ederivaldo Benedito dá um susto em seus amigos e ainda está sumido; a chuva já se foi, o calor volta “di cum força”; meu filho Giorlandinho me enviou uma foto sorrindo, de hoje, e Alice ainda dorme; ouço Marcelo Jeneci e Tulipa Ruiz pela UESB FM e administro a fome, para ver se economizo a lasanha de atum que está na geladeira, até a hora do jantar.

Esta página, que já tem um pouco mais de cinco linhas escritas, esteve me encarando, desafiadoramente, por umas duas horas, até que me lembrei de que amanhã é o meu aniversário e eu posso escrever uma daquelas crônicas pessoais e lamuriantes que costumavam frequentar o meu blog. Inspirado em Bené, eu poderia escrever sobre o dia que fugi de casa e tentei dormir a primeira noite debaixo de um jipe. Graças a Deus não consegui adormecer e pude sair de debaixo do carro antes de o dono resolver ir para o trabalho. Não. Deixa para outra vez.

Eu tenho muita história para contar Mas, não poderia ser diferente. Amanhã completarei 54 anos. Uns 75 por cento do tempo de vida que deverei ter. E da vida que terei vivido ao morrer acho que já vivi mais do que 85 por cento, talvez 90 por cento. Não me vejo mais em aventuras ou vivendo muitas histórias novas. Doravante, dores nos joelhos, cuidados com a pressão arterial e muita nostalgia. Se acontecer algo mais interessante do que a rotina de um pré-idoso eu contarei a você. (Como se isso fosse importante para alguém).

Hoje, o importante é escrever uma lauda, pelo menos, porque eu ando sentindo falta dos leitores do blog do tempo que ele era apenas pessoal e “literário”. Florbela, Izabela, Izaura, Pr. Aécio, Alva, Mariângela, Renata, Cláudia, Eurico, Ana Elisa, Nau, Breno, Isolda (que me ensinou o que é limerência), Aquilino, Zé Galego, Marineide, Fredinho, Gustavo Romero… Sabe aquela conversa de que não precisamos ter muitos amigos, mas amigos verdadeiros? Pois é, andei sentindo isso em relação ao blog.

Quando passei a escrever sobre política, fazendo entrevistas, veio um certo sucesso. As pessoas comentam comigo na rua, no bar, no whatsapp, mas uma coisa sem emoção. Não pelo valor do que publiquei, mas, a maioria das vezes, porque eu disse algo que rendeu aos que elogiam alguma satisfação política. Cada nicho o seu elogio ou o silêncio.
Com as crônicas, embora pessoais, os contos e até uma ou outra poesia, a manifestação que chega vem com carinho. Mesmo a crítica contém carinho, na forma de uma correção ou uma dica indicando um caminho que pode ser seguido.

E olhe que eu falo de mim, conto histórias longínquas. E é interessante é até onde elas vão. Gente de vários pontos do Brasil e até do exterior já se comunicou comigo para comentar um texto. Falas agradáveis que me encabulam e algumas vezes até me convencem de que eu tenho um certo talento para a literatura. Quem não tem? Toda história pessoal daria um livro. Todo mundo tem uma vida que cabe em uma biografia. Se é rica de aventuras e sucesso ou só ocorreram coisas muito comuns ou sem graça, tudo pode ser contado como história e servir de exemplo ou mesmo virar uma comédia. Por que só as celebridades têm o que contar?

Parei a presente crônica porque Alice acordou e também me enviou uma foto de hoje, sorrindo. Não, ela não está aqui. O celular tocou a música Don’t Worry, de Pierre Minetti, gravada no CD/DVD do projeto Playing For Chance, Songs Around The World, que a própria Alice me deu de presente do Dia dos Pais. Escolhi Don’t Worry como toque para as chamadas recebidas de Giorlandinho e Alice, sejam chamadas de voz ou do whatsapp. Temos um grupo na rede social, que meu filho nominou de Família Insone, baseado em uma mania comum dos três: dormir tarde. Só para constar e para irritá-los, que eu os irrito muito: na minha agenda telefônica Alice é Ecila e Giorlando é Meu Heroi. Esta informação pode ser útil numa emergência, se vocês me encontrarem caído na rua, por exemplo. Aliás, não vai adiantar muito, não. Um está no estado de São Paulo e a outra no Rio de Janeiro (e, agora, ainda mais irritados comigo porque estou falando “essas bestagens”).

Bené ainda não apareceu. Acho que não conseguirei deixar a lasanha para a noite. A rádio UESB toca Paralamas: “A vida não é filme e você não entendeu. De todos os seus sonhos não restou nenhum”. Mas, insisto, se a vida não é filme, pode virar um livro. E sonhos não têm fim. As angústias, estas uma hora cessam. Um dia saberemos se Dilma sai ou fica. E teremos a notícia da prisão de Eduardo Cunha, finalmente. Já sobre o Vasco saberemos ainda hoje. Às 19 horas de Brasília. E isso me lembra de um comercial de cigarros que eu vi no cinema. Tem tempo, foi antes de José Serra virar ministro e – corretamente – tornar proibida propaganda de cigarro em audiovisuais. Um casal de homem e mulher, bonitos ambos, sorri um para o outro. Ele está com fones de ouvido. Ela quer saber o que ele ouve. O bonitão coloca os fones nos ouvidos da namorada e ela ouve: “Em Brasília, dezenove horas”. O prefixo da Voz do Brasil. Aí o locutor do comercial encerra com sua voz de nuvem resmungando durante a tempestade: “O importante é ter Charm”. Nos dias de hoje, se fosse uma postagem nas redes sociais, viria acompanhada de um monte de cás. Eu só uso “rs”, Antes, no IRQ e no bate-papo do UOL eu ria com “ah, ah, ah”. Mudei.

E acho que de hoje pra amanhã mudarei mais. Terei 54 anos e talvez tire a barba. E ande na Olívia Flores. E coma mais rúcula, berinjela e brócolis. Quem viver, me verá.

Eu ainda chamo minha filha de Ecila porque sou nostálgico. Explico (não se zangue, filha): quando ela era pequena adorava que eu lhe contasse histórias. Eu as inventava baseado em contos de fada e outros muito conhecidos. A estória do Lobo Mau eu contava invertida. O lobo queria participar do aniversário dos três porquinhos (eles deviam ser gêmeos), mas não foi convidado. Os porquinhos o discriminavam. O lobo só queria poder assoprar as velinhas com the three little pigs. Sou daqueles que enfiam palavras e frases em inglês nas conversas. O povo reta comigo por causa disso. Oxe.

Com a cabeça no meu colo, Alice pedia para eu contar a história da princesa que chegava montada em um cavalo branco e era quem decidia se beijava o belo adormecido ou o sapo. Não que eu fizesse essas inversões nas histórias com uma intenção específica. Não era deliberado. Ia saindo. Não se falava tanto, como hoje, em empoderamento feminino ou sobre ser politicamente correto. Ainda se cantava “Atirei o pau no gato”.

Eu acho que quando Alice era pequeninha eu ainda acreditava que se a gente cavasse muito no chão acabaria na China, ou no Japão, país que eu queria conhecer por causa de uma antiga admiração pelo príncipe Hirohito. Aí eu dizia a Alice que ela tinha uma irmã que morava no Japão, e que o nome da menina era Ecila, Alice ao contrário. Ela adorava quando eu lhe dava notícias de Ecila. Mais crescida, Alice passou anos dizendo que seu sonho era ir ao Japão. Não sei se ela ainda acreditava que Ecila estaria lá, esperando-a, mas, com certeza, seu sonho tinha a ver com as histórias que eu contava. E talvez com o Karatê, que ela praticava na academia de Djalma Karibé e chegou a ser faixa laranja. (Ou verde, filha?) Eram três caratecas na família, ela, o irmão e a mãe. Eu fui por um tempo. Mas só porque a mãe dela estava querendo me deixar e eu achei que era um jeito de impressioná-la. Não ajudou muito, mas eu aprendi três katás, a dar um maegueri e cheguei à faixa vermelha. Giorlandinho foi o que chegou mais longe. Mais tarde treinou Ai-ki-dô. Mas ele adorava Karatê e também chegou a falar em ir para o Japão. Foi sério e foi há uns meses. Passaria sete anos lá, com a esposa, Angélica. Eu só soube depois que o projeto não vingou. Ainda bem que não deu certo. (Desculpa, aí, filho).

Vou explicar porque ele é meu heroi. Primeiro: porque toda história que tem princesa (Ecila) tem um heroi. E ele é Giorlandinho. Sempre me encheu de orgulho. Desde a escola de Liliu. Independente, com foco e corajoso, Meu Heroi aprendeu a defender a irmã desde que ela nasceu. Ele tinha oito anos em maio de 1995. Foi fundamental para que eu e a mãe dele pudéssemos criar Alice com conforto, amor e segurança. Ele foi para Alice o que os tios Nicolau e Fio e a tia Dina foram para ele, desde o seu nascimento, a 17 de fevereiro de 1987. Lembro de um dia em que, após uma desagradável discussão que eu e a mãe dele tivemos (eu era quem levantava a voz), ele nos chamou e disse que nós poderíamos brigar o quanto nossa absurda ignorância permitisse, mas se um dia isso magoasse Alice nós teríamos que nos ver com ele. (Isso não me corrigiu definitivamente, mas saiba, filho, se houve alguma melhora em mim, teve a ver com aquele seu gesto corajoso e heroico).

Uma coragem que me fascina ainda. Nostálgico, embora, tenho dificuldade para lembranças específicas. Mas não me esqueço de quando fomos a Salvador para Giorlandinho fazer o vestibular. Ficamos em um hotel zero estrela no Campo da Pólvora, por recomendação de um parente que era parente dos donos do hotel. Quase derretemos de calor. Não tinha ar condicionado e ao invés de colocarmos o ventilador na chave de ventilação, colocamos na chave de exaustão. Eu deveria ter procurado outro lugar, mais confortável, para ficarmos, porque meu filho estava ali para uma batalha que eu considerava épica, que seria cansativa e que exigia descanso e preparo. Mas, ele não reclamou. Pelo menos ficava perto do local onde ele faria as provas. Só resmungou quando, a caminho da prova, no primeiro dia, eu me ofereci para ficar dentro do Colégio Central, para “qualquer coisa” que ele precisasse. Não precisava. Tenho a orgulhosa sensação de que ter sido mais parceiro confiante do que pai extremado fez bem a ele.

Foi assim em Belo Horizonte, em Campinas, em Santiago. Eu fazia de conta que o protegia, enquanto ele não conseguia evitar de me guardar e guiar, como bom mestre de RPG. Deixe-me contar essa de Santiago. Um dia saímos para um passeio e por um motivo que não contarei, ele, a irmã e a mãe, zangados comigo (e com razão) voltaram para o hotel. Eu segui. Subi o cerro a bordo de um funicular, apanhei o teleférico até o fim do primeiro trajeto e resolvi que não voltaria no equipamento. Desci o cerro por um dos lados, andando. Quando cheguei à parte habitada, resolvi a perguntar às pessoas se o bairro onde estava localizado o hotel em que nos hospedamos era perto ou longe. “El barrio Providencia es lejos de aquí?”. “Estoy lejano del barrio Providencia?”. Todo mundo: “Si, muy lejano”. E eu crente que estava fazendo o certo. Depois de andar mais de duas horas, pergunto a um jornaleiro e ele me diz “No, es cerca. En realidad usted ya llegó”.

Pausa para o boletim do momento. Benedito fez contato com a família. Avisou que está bem. Não precisou acionar a polícia. Em compensação, aqui faltou luz. Está chovendo, com raios e trovões ensurdecedores. A esta altura o que tem de cachorro debaixo das cobertas ou da mesa…

Pois é, troquei “cerca” por “lejos” e andei uns dez quilômetros por ruas estranhas de Santiago, até chegar a uma loja da Starbucks. Cheio de remorsos e aborrecido comigo mesmo, por ter sido o responsável pelo cancelamento do passeio da minha família, por não ter usado o bondinho e o funicular para descer o cerro, para então tomar um táxi e voltar ao hotel, e por ter trocado os verbos perto e longe, em espanhol, resolvi tomar um café forte. Aceitei todas as recomendações da moça do balcão. Fiz um blend com cafés africanos e colombianos e pedi 250 ml. Cheguei ao hotel com os olhos mais acesos que boca de vulcão ativo. O povo não estava para papo. Achei que um remédio para baixar aquela adrenalina seria entrar na piscina, cuja água estava com uma temperatura de uns 2 graus. Odiei.

Ah, Giorlandinho? Havia passado na mesma Starbucks e pediu 500 ml de café. De um ainda mais forte. Ficou quase 24 horas com os olhos em larva. Mas, manteve-se firme, não reclamou e no dia seguinte estava comigo e as duas mulheres do grupo, subindo o cerro. E cuidando delas. De mim também. Desta vez o passeio deu certo. Trocamos o café por mote com huesillos.

E é isso. Nem sei porque comecei esta crônica. (É uma crônica, não é gente?) Ah, lembrei: porque queria falar um pouco sobre estar completando 54 anos e já ter uma muita história para contar. Nem que seja em uma autobiografia não autorizada de um Zé Ninguém. Pode ser que esta seja a coisa que eu tenha para fazer daqui pra frente. Com sinceridade, não vejo muita ação na minha vida que falta viver. Ainda bem que já tive tanto. Ecila e Meu Heroi, especialmente. Tenho que agradecer a Deus por eles e por tudo o que já experienciei (para usar um termo caro a um povo sabido de hoje em dia). Ah, claro, agradecer também pela sua paciência, caro (e raro) leitor.

Agora, vou colocar a lasanha no microondas. Antes, fazer um filminho da chuva para postar no Facebook e saber por que porra Ederivaldo Benedito sumiu. (Aliviado por saber que ele está bem, mas vou pedir uma vaia unânime no grupo Reage, onde discutimos política, principalmente de Itabuna).

O Vasco empata e o Avaí e o Figueirense vence. Vasco com o pescoço na guilhotina. Pelo menos vai poder reclamar do juiz, teria havido um penalty a favor dos cruzmaltinos não marcado pelo árbitro. Vai ser zoada até depois do Natal.

O Vasco caiu. A chuva parou, de novo.  A luz voltou. Não comi a lasanha.

Vitória da Conquista, seis de dezembro de 2015, 17h55.

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2 comentários em “Crônica de um domingo chuvoso em que o Vasco caiu, Bené sumiu e meus filhos sorriram

  1. Zero estrela é bondade sua. Mas é uma boa história, e não é isso que importa no fim?

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