Contos

Um conto para Denzel

I

O ônibus vencia veloz os dois últimos quilômetros da estrada. Sentado na poltrona 27, ele podia ver as primeiras casas, miúdas, telhados meia água e coloridas. No entorno delas, uma vegetação rala e rochas. A cidade é incrustrada em um vale e o trecho que ele avista fica por trás das serras que a circundam. Viu o velho pontilhão, por onde, em sua infância distante, o trem de ferro passava no início da longa viagem à capital, o apito avisando para abrir caminho e a chaminé fazendo… muita fumaça, afinal, era a maria-fumaça. Deu para ver ainda o velho prédio da antiga sede da Companhia Força e Luz, desativada no final dos anos 1940. Os dois – ponte e prédio – estão nos folhetos impressos que oferece o setor de turismo da Prefeitura e são mencionados em quase todos os trabalhos de graduação dos estudantes de História que se formam na universidade estadual que mantém um campus na cidade.

Quando o ônibus atravessou o pórtico e começou a dar a volta na estátua do garimpeiro, símbolo da cidade, muitos passageiros – como sempre antes da hora – se levantaram e começaram a pegar suas coisas nos guarda-volumes acima das poltronas. O burburinho o tirou da contemplação da paisagem. No ponto de parada ele ainda não sabia se descia ali ou seguiria até a estação rodoviária. Era a primeira vez em 25 anos que voltava à sua terra natal. Agora, lembranças tomavam a sua mente. Optou por encolher-se na poltrona e aproveitar o tempo até a rodoviária para pensar o que dizer quando reencontrasse com as suas duas tias que ainda moravam na cidade.

Elas não sabiam que ele vinha. Pelo menos não tinham certeza. Pelo telefone eles conversaram sobre a velha casa onde ele nascera e onde até o ano passado morava a sua avó, sozinha, porque queria assim e porque os pais dele, que ocupavam quatro cômodos construídos nos fundos, se mudaram para uma cidade a uns 200 quilômetros, levados pela filha caçula, que depois de formada em Medicina foi trabalhar para a prefeitura de lá e acabou por montar uma clínica de relativo sucesso. Mas, ele não disse às tias que apareceria. As duas moram juntas e sozinhas, numa casa pequena do outro lado da rua onde fica a velha casa da família.

A rodoviária estava igualzinha ao que era quando ele saiu da cidade pela última vez. As paredes um pouco mais escurecidas pelo tempo. Um trailer de lanche praticamente na área de desembarque. Um passageiro apressado, tentando equilibrar uma sacola de viagem com um sanduíche numa mão e uma latinha de coca cola na outra, entra bufando no ônibus que seguiria até uma cidade menor, no fim da estrada. A menina que viajava na poltrona ao lado da dele e que passou a viagem toda dizendo à mãe que estava com fome, sai correndo em direção ao trailer. “Aí, mãe, agora a senhora compra”. A mãe resmungou algo incompreensível e seguiu a menina. Antes, olhou demoradamente para o balcão onde havia gente esperando quem chegasse e falou mais alto: “E o traste do seu pai não apareceu”. Isso ele ouviu. E riu. Mas, logo se esqueceu das duas.

Seguiu os outros passageiros que subiram uma escada de dois lances, chegou ao salão principal da estação rodoviária, olhou em volta, leu as boas-vindas pintadas na parede em letras gigantes e resolveu perguntar a um homem gordo e suado, que atendia no misto de bar e lanchonete com balcões compridos, se ali tinha a cachaça Sabor da Serra, com a qual aprendeu a beber aos 16 anos, na companhia de dois dos seus amigos mais antigos, um poeta e o outro músico, tocador de tuba na filarmônica. Sabia que agora um mora no litoral e o outro havia retornado para a terra natal. Demorou para saber qual ficou longe e qual voltara. Ah, o tocador de tuba foi o que fez o caminho de volta. O poeta é professor em Ilhéus.

Quando esteve com o músico em Salvador, talvez em 2006 ou 2007, conversaram sobre a velha cidade. Seu amigo lhe disse que estaria voltando em breve, porque o estresse da cidade grande e o excesso de cigarro e álcool o adoeceram e ele precisava de paz e qualidade de vida. A qualidade de vida que fosse possível na sua terra do interior. Disse mais, que o componente emocional da volta, o reencontro com velhos amigos, a reunião da família e o abraço das serras lhe fariam bem. Sim, ele disse “o abraço das serras”. O amigo tentou convencê-lo a voltar também: “Vamos voltar para morrer lá. Aquele lugar nos pariu, vamos homenageá-lo morrendo e sendo enterrados lá. Será como voltar para o útero da terra mãe”. Às vezes o amigo músico era mais poeta que o amigo poeta, que, por sua vez, nem mesmo assobiar sabia direito.

O gordo que atendia no bar respondeu que tinha a cachaça. E tinha uma garrafa dela bem envelhecida. Falou isso e o encarou. Sorriu e perguntou se ele era quem ele estava pensando. Era. O homem o reconheceu, mas ele não se lembrava do outro, mesmo quando lhe disse o nome. Disfarçou. Disse que fora a barriga e a papada o gordo do bar mudara pouco. Arriscou perguntar se o outro ainda morava na mesma rua. Empolgado pelo reencontro o homem explicou que não, que se mudara quando o pai morreu e a mãe teve que vender a casa para manter os filhos estudando. “Para piorar, arrematou, minha irmã – lembra dela, Selma? – ficou grávida de um delegado de polícia calça curta que se picou daqui e minha mãe é que teve de arcar com tudo”.

Agora ele mora na Rua do Cruzeiro, numa casa alugada porque a dele, que levantou praticamente sozinho, ficou com a ex-mulher e os filhos, um casal de gêmeos. “Eu não reclamei. Não teve briga, ela não me deu chifre, só perdeu a vontade. E os meninos adoram ela e a casa. Graças a Deus”. No bar ele é meeiro. Um ex-empregado da mineração pegou uma grana boa de indenização e comprou o bar, mas como não queria mais trabalhar, ofereceu a ele sociedade, só 10%. Isso foi há uns sete anos. Com o tempo conseguiu comprar outra parte das cotas e hoje tem metade. Agora, o sócio só aparece no estabelecimento para tomar da cachaça – “Ele que compra, adora dessa que o pessoal do alambique separa para ele” – e comer traíra. Ficou sabendo que aquele é o ponto da melhor traíra da região, “sem nenhuma espinha, só o filé”. Ninguém faz uma traíra melhor que Gordo do Bar da Rodoviária, que é a forma como o amigo, amizade renovada, passou a ser conhecido.

Sentiu-se tonto. Não comera quase nada. Saiu de casa cedo para viajar, só bebeu água. Em Tanquinho, comeu somente um pedaço de requeijão acompanhado de café com leite no copo americano. Perguntou quanto era. O amigo do bar quis saber se ele não queria comer nada. Tinha codorna, está temperada, sai rapidinho. Agradeceu. Aceitou um pastel. Pagou seis reais e cinquenta. Apertou a mão suada do amigo gordo, ajeitou a mochila nas costas, puxou o suporte da mala de rodinha e atravessou o salão em direção ao ponto de táxi.

Na última vez eram carros velhos, caravan, belina, corcel dois, todos movidos a gás de cozinha. Desta vez estavam parados dois carros novos. Um siena da Fiat e um prisma da Chevrolet. Sorriu ao ver que os dois carros eram bem diferentes da maioria da frota de táxi da cidade onde ele mora, formada quase só de classics cor prata, também da Chevrolet. O carro da vez era o prisma. Entrou e sentou-se no banco do carona. Reparou que não havia taxímetro, disse aonde ia e perguntou quanto custaria a corrida. Para quase toda a cidade era dez reais, a não ser quando era para as bandas da Caeira ou para a Bananeira, subia cinco reais.

II

O motorista era mais velho que ele e usava óculos de graus daqueles com as lentes grossas. Sentiu um cheiro forte de cigarro e abriu a janela do carro. Quando o motorista apontou o dedo para mostrar a direção que tomaria, pôde ver os dedos do homem bem amarelados. Explicado o cheiro forte de cigarro. Mas, não era problema seu. Esperançoso de ser reconhecido e querendo saber se o motorista era alguém com que ele conviveu, puxou conversa. Gostou de ter sido reconhecido pelo gordo do bar. “Pelo” Gordo do Bar, consertou. Teve a boa sensação de que estava voltando a um lugar do qual poderia gostar de novo. Perguntou porque os táxis não tinham taxímetro. O homem respondeu que era por causa da desorganização da prefeitura e também porque daquele jeito todo mundo gostava, taxeiros e passageiros. Na média sai bom para todo mundo.

“Qual é a sua graça?”, perguntou o homem, de um jeito que se fazia há muito tempo. Disse o nome e perguntou o do taxeiro. Nildo. Rosenildo Oliveira Pessoa, mas é chamado de Nildo desde menino. A mãe, que Deus a tenha, o chamava de Nido. “Pra falar a verdade eu não gostava. Uma vez minha colega de escola aprendeu a me chamar assim e eu fiquei morrendo de vergonha. Quando ela me chamava assim eu pensava na minha mãe e quando minha mãe me chamava eu pensava na minha colega, por quem eu tinha uma caída. Aí já viu, né? Constrangimento”, falou, deu um riso sem graça e ficou em silêncio por um tempo, como se tivesse se arrependido, mas retomou a conversa.

Quis saber se ele era da cidade. Nascido, saiu com 17 anos, voltou umas seis vezes e depois passou 25 anos longe. Mas, tem alguém dele na cidade? Sim, minhas tias. Uma é viúva, sem filhos, e a outra é solteira. Foi suficiente para o taxeiro quase gritar: “Moram na subida da serra? Conheço as duas”. Então ele era filho de Pedro Porto? O que escreve para jornal? Era sim. “Rapaz, eu não conhecia o senhor não, mas o povo fala. Meu filho que trabalha no banco comentou um tempo aí que o senhor falou que ia voltar pra ser prefeito. E é agora?”. Não, sorriu ao responder. Não é pra agora. Passou. Lembrou de quando deu uma entrevista pelo telefone a um radialista seu conhecido de uma das FM locais e acabou respondendo a uma pergunta com um: “Eu só voltaria aí se fosse para ser prefeito”. O radialista insistiu e ele disse que quem estivesse ouvindo poderia anotar: ele retornaria e se candidataria à Prefeitura, para fazer a cidade voltar a ter a importância que tinha antigamente. “Chegamos!”. Pode ficar com o troco. “Olha, a gente tá precisando mesmo de um prefeito. Tome coragem aí”. O carro partiu e ele começou a subir a escadaria.

III

Subiu devagar, reparando nas mudanças. Havia pelo menos três casas que antes não existiam na rua. A da esquina virou um sobrado de três andares. O morador do segundo andar provavelmente dormia mal ou economizava luz, porque o prédio era tão colado no poste de energia que dava para ver, pela janela aberta do que deveria ser um quarto de dormir, que a luz iluminava quase todo ambiente. Chegou em frente à velha casa da família. Pintura descascada e capim saindo das rachaduras no passeio. Sentou no passeio da casa vizinha, mais alto que o da sua. Era dele. Deu uma olhada rápida para o corredor apertado, formado pelas paredes da sua casa e da vizinha, e que dava acesso à porta principal. Eles e os irmãos chamavam de bequinho. Não viu nada que lhe prendesse a atenção. Voltou os olhos para a cidade lá embaixo. Aqui e ali pontos escurecidos e, onde a luz era boa, dava para ver as ruas tortas, como ele bem lembrava que eram, desde quando se imaginava super-homem voando, fazendo curvas em alta velocidade, tirando fino das casas e dos prédios que naquele tempo chegavam somente até dois andares. E também avistou carros, muito mais que antes e gente andando a pé. Dali era tudo muito parecido a como era antigamente, bem antes do dia que ele foi embora.

Esticou mais o olhar e tentou ver na outra ponta, na outra parte alta da cidade, o colégio onde estudara por oito anos. Era dia útil e ainda não eram nem oito da noite. Viu muitas janelas iluminadas. Estava em aula o velho Centro Educacional Rui Barbosa de 1º e 2º Graus. Lembrou de Florbela. Foi a primeira vez que se emocionou desde que entrou no ônibus para fazer a viagem da sua volta às origens. Passou a ponta da camisa nos olhos, levantou a mala pela alça auxiliar e subiu mais. Não podia chegar muito tarde. Suas tias têm 78 e 81 anos. A solteira é a mais velha. Podem estar dormindo. Nessa idade as pessoas se assustam fácil. Ou é o contrário, já que já viram de tudo? Não é o caso dessa análise. Superou ligeiro os não mais que 200 metros entre a velha casa da família e a residência das tias.

A casa das tias era de um tipo comum naquela região do sertão da Bahia. Era uma casa de porta para a rua. Uma porta dividida em três partes, a banda da direita de baixo até em cima e a da esquerda com duas metades, onde as pessoas descansam os cotovelos enquanto reparam na paisagem e no movimento da vizinhança e, entre um bom dia e um boa tarde, criam memória para as fofocas. E duas janelas, também de duas bandas. Ficou um tempo sem saber se batia na porta, batia palmas ou chamava as tias pelos nomes. Não tinha campainha e nem combinaria. Tocou os nós dos dedos na madeira. Um toc, toc suave. Se elas estão acordadas, ouvirão. Também chamou. Tia Janete, Tia Janilda. “Já vai. Quem é?”, ouviu, de lá de dentro. Sou eu, tia, respondeu, mais alto agora. “Inho?”. Nunca mais tinha sido chamado por aquele apelido. Sorriu. Isso! Ele disse lá para dentro.

Viu pelas gretas da porta que uma luz foi acesa. Não demorou e a parte de cima da banda esquerda da porta se abriu. A tia apareceu de touca. Na hora não conseguiu saber qual das duas, mas ao olhar mais de perto reconheceu a tia Janete. Ela abriu a metade de baixo da porta. Ele deu dois passos e a abraçou. Enquanto a abraçou fechou os olhos e viajou muitos anos na memória. Sentiu o mesmo cheiro de alfazema. A imagem era ele bem novo, pedindo a bênção da tia e ela lhe oferecendo a mão direita para o beijo, sorrindo, com um candeeiro fumegante na outra mão: “Deus te dê juízo, Inho. Dorme com os anjos”.

Ela se ofereceu para passar um café. Estava empolgada. Mas falava baixo, não queria acordar a irmã. Sussurrou que a outra ia tomar um susto de manhã quando o visse dormindo na casa. Riu como uma vitoriosa. O sobrinho amado era só dela agora. Soube que ele não bebe mais café à noite, porque perde completamente o sono. Conta à tia que fez a besteira de acompanhar uma amiga em uma xícara de expresso, há alguns dias, no comecinho da noite, e ficou contando carneirinhos até meio-dia do dia seguinte. Os carneirinhos ele colocou na história para enfeitar. “Puxa, que pena, Inho. Você gostava tanto do meu café. E se eu botar leite?”. O que são algumas horas de insônia diante de tanto carinho? Respondeu que se for mais leite que café até pode.

IV

Faltava pouco para as seis da manhã, quando ouviu passos cuidadosos se aproximarem da cama. A mesma cama, forrada com colchão de capim, onde dormira há mais de 40 anos. Hoje era um colchão de espumas e bem macio. Ele estava acordado. O leite não ajudou. Era a tia Janilda. “Mas, Janete, você abriu a porta pra ele e nem me acordou? Sua ruindade!”, reclamou entredentes. As duas combinaram que sairiam do quarto e o deixariam dormir. Ele riu. Adorou enganá-las. Como pensava que fazia quando era menino e se escondia atrás de uma vassoura, se achando invisível. Elas o viam, mas faziam de conta que ele sumira. Até saíam de casa, uma ia para o quintal e a outra para o passeio, chamando-o pelo apelido carinhoso. E ele ria. Como faz agora. As lembranças, tão suaves, quase o fizeram pegar no sono. Mas não podia. As duas estavam na cozinha. Uma disse que ia fazer o café que ele gostava. A outra faria um bolo de leite. E um cuscuz. Uma delas já havia ido buscar a coalhada. Elas o amavam. Ele precisava “acordar” em alguns minutos.

Nem precisou disfarçar para demonstrar o quanto estava apreciando aquele café da manhã. Primeiro se alimentou dos cheiros. Do café, da banana frita, do bolo. Elas capricharam. Ele adorou. Estava faminto. Na barriga só estavam o requeijão de Tanquinho e o pastel do bar do Gordo. E café. “Trouxe retratos dos meninos?”, perguntou tia Janilda. Trouxe. “Terezinha esteve aqui”, falou tia Janete. “Foi mesmo. Mostrou os retratos no computador e botou pra gente ver na televisão”. Havia uma TV com tela de cristal líquido na pequena sala. Devia ser de 30 polegadas. Do sofá vermelho cheio de almofadas bordadas, ele voltou à infância. Onde está a TV, sobre um rack simples, com paninhos coloridos e uma garça de resina vermelha e transparente ao lado do aparelho de televisão, ficava um móvel com duas gavetas e logo abaixo duas portas de correr de vidro e dentro copos, xícaras e taças. Duas eram de cristal. A tia Janilda havia comprado para o brinde de casamento, quando casasse, se casasse. Não casou. Teve curiosidade de saber das taças, mas não perguntou. Em cima do móvel que guardava as taças havia um rádio. Lembra bem do passarinho da cor de ouro, que ele adorava, que era marca do rádio. Os tempos e as coisas mudaram, elas duas nem tanto. Pessoas adoráveis.

Depois do café, viram as fotos. Do mesmo jeito que Terezinha mostrou. O pendrive enfiado na TV e as duas ali babando pelos sobrinhos netos, em fotos que começavam mostrando os dois nos berços, na escola, andando de bicicleta, na piscina, até o casamento de uma e a formatura do outro. Mostra as fotos dos filhos. Das duas ex-esposas. Da viagem que fez a Jerusalém. Elas amaram. São católicas fervorosas. Mas ele não queria ficar ali o dia todo. Avisou que ia descer e talvez comesse na rua. Ah, para que disse aquilo? Nunca viu caras tão tristes. Consertou. Só não voltaria meio-dia em ponto. Elas aguentariam até uma da tarde? “Claro, para de pensar que só porque somos duas velhinhas a gente não aguente em pé até mais tarde”, uma delas falou. “É, completou a outra, a gente te espera até a hora que você chegar”.

V

Na descida, parou em frente à casa velha. Não pegou a chave. Ainda não entraria. Não encontrou nada interessante na rua. E achou o comércio fraco. Ninguém que o reconhecesse. Só uma mulher, numa loja de bijuterias, chamou seu nome. Ele se aproximou. Ela disse que não acreditava. “Tanto tempo!”. E ele nem tinha ideia de quem fosse. A mulher falou que foram colegas de trabalho, quando ele estagiou na firma de representação de óleo de cozinha. Ele era tão novo e tão rebelde. Ela disse. E ria. Ele também riu, para combinar. Mas mesmo depois que ela disse o seu nome, ele ainda não se lembrou quem ela era. Disse algumas coisas que lhe fizeram parecer que ele, finalmente, se lembrara, perguntou se a loja era dela e se as peças eram de produção própria. A mulher gostou de falar de seu negócio, ficou excitada com o elogio que ele fez diante de um mostruário de pulseiras e colares. Ele disse que eram lindas e perguntou o preço. Ela fez questão de lhe presentear uma. “Pode escolher. Leva para sua esposa. Casou?”. Ele não respondeu. Selecionou uma pulseira que realmente lhe pareceu bonita e disse que só aceitaria o presente se a mulher, sua velha colega, aceitasse que ele pagasse por um par de brincos e um colar. “Tudo bem. O importante é que você gostou”. Na saída abraçou-a, deu dois beijos no rosto e prometeu que a adicionaria no Facebook.

Não quis ficar mais tempo na rua. Chegou em casa ao meio-dia em ponto, assustando as tias. A comida não estava pronta. “A gente está fazendo ainda, porque você disse que ia chegar mais tarde”. Pediu licença para se deitar um pouco. Ainda tentou ler as mensagens de Whatsapp, mas adormeceu. Elas o acordaram quando a comida ficou pronta. Ele levantou com a impressão de que tinha um saco de pedras sobre os ombros. Lavou a cara e logo estavam à mesa rindo e falando de parentes. Ficou sabendo sobre os netos-sobrinhos que nasceram e sobre os parentes que morreram. Disse que iria ao cemitério à tarde, visitar o túmulo da avó. Elas não iriam. Foram no dia de finados e outro dia desses. Mas mandariam as velas para ele acender lá.

A caminho do cemitério, finalmente um trecho onde quase nada havia mudado. Apreciou as casas pintadas de tantas cores diferentes, cores vivas, novas. Deu a impressão de estar olhando para uma obra de arte. Quis voltar alguns metros e passar no mesmo caminho, outra vez, mas correndo, para ver o efeito daquelas cores correndo com ele. Ao lado do cemitério, algumas oficinas mecânicas, com restos de carro na porta, o fizeram se lembrar do irmão que levou para morar com ele há 30 anos. Conseguiu um emprego de auxiliar de mecânico para o irmão, que foi se estabelecendo aos poucos na outra cidade, tornou-se funcionário público, casou, comprou uma casa popular. Mas, sempre falava em voltar. Ele lhe disse que voltar para a velha cidade seria regredir. Hoje, vendo que pouca coisa mudara e que, pelo contrário, havia uma visível decadência, achou que tinha razão quando falou aquilo para o irmão. Mas, a verdade é que ele viajou para a cidade onde nasceu pensando em não voltar mais para a cidade onde morou até as primeiras horas da manhã do dia anterior. Sinceramente queria era voltar para casa. E ficar. De vez.

Limpou o espaço para velas no túmulo da avó. Havia duas gavetas para caixões. Ele não sabe de quem são os ossos que estão na gaveta de baixo. Não há uma plaquinha com nome. Tem uma com o nome da avó e uma foto. Maria Laurinda Ferreira Porto. E uma foto, ela com uns 50 ou 60 anos, uma negra bonita, com cabelos bem brancos. Sentiu saudade. Fez uma oração, o sinal da cruz, jogou um beijo para a foto da avó e começou a deixar o cemitério. No portão, como fazia quando era menino e visitava o local no dia de finados, parou para lavar as mãos. Como se precisasse se purificar e afastar a própria morte.

Pensou em ir à praça onde havia um viveiro antigamente. Ver a linda e histórica igreja, construída pelos índios; talvez fazer algumas fotos do campanário e postar no instagram. Resolveu deixar para depois. Amanhã é sábado. Melhor. Poderá ver mais gente, amigos antigos, colegas de escola. Quem sabe, até Florbela. Voltou para casa. Perguntou às tias pela chave da casa velha. Disse a elas que está pensando em ficar um tempo maior na cidade, para avaliar se vale a pena voltar. “E seu trabalho, Inho?”. Sou freelancer. “Que diacho é isso”, era tia Janilda, a mais nova, viúva, rindo. Ele achou que dizer que era o mesma coisa de trabalhador autônomo responderia. “Ah, eu sei”. No sofá verificava, ao mesmo tempo, os e-mails no notebook e as conversas nos grupos de Whatsapp. No grupo família, a filha perguntou se ele chegou bem. O filho pediu que ele enviasse fotos. Os dois pediram que se cuidasse.

VI

Sentiu muito sono. Respirava pesado. Deixou o corpo cair no sofá. Suava. A tia Janete chegou perto e perguntou qualquer coisa. Ele não conseguiu entender o que ela disse. A voz ecoava e as palavras se misturavam, metalizadas. Achou que era sono. Fez um sinal de positivo com o polegar, abriu um olho e jogou um beijo para a tia. Aí se lembrou da avó colocando álcool canforado em um chumaço de algodão e cheirando, quando se sentia tonta. Achou força para se sentar e perguntou, alto, se havia cânfora em casa. A avó dizia arcanfor. Tinha. Cheirou um pouco, melhorou. Levantou e foi até a porta. Com os braços descansando sobre a metade da banda esquerda da porta, olhou para a velha casa da família e, de repente, achou que ela ficava muito longe. Não acreditou que conseguiria chegar lá. Muito longe. Sentiu um peso no peito. Uma certa tristeza. Não sentia mais vontade de entrar na casa. Nem na velha casa da família, nem na casa das tias.

Viu o colégio, enxergou-o como se estivesse mais perto do que a velha casa. Lembrou de Florbela subindo a pé, de manhã cedo, sob a neblina. Ele achava o máximo a fumaça que lhe saía da boca quando ela falava. Ainda não sentia vontade de entrar na velha casa da família. Chorou de novo. Sentia-só. Queria voltar o mais rápido possível para o pequeno apartamento que deixou sem móveis, pois vendera tudo porque o plano era não voltar mais, era ficar onde nasceu, até morrer. Sentindo-se cansado lembrou que prometeu a um amigo escrever contando o que viu, com quem se encontrou, o que mudou. O amigo que esperava a crônica foi seu colega de colégio, amigo de adolescência. Brigaram uma vez, trocaram murros, ele perdeu e ficou com o olho roxo. Não pôde contar a Florbela que a briga foi por causa dela, ela não o ouviria. Nem olhava para ele. Para o amigo tampouco. Ela se casou, logo depois de terminar a faculdade, com um criador de bodes da região.

O sol se punha atrás da Serra do Tombador. Ele respirava mal. Pediu a uma das tias que lhe trouxesse o computador. Sentou no passeio com as costas apoiadas na parede morna da casa das tias. Começou a escrever no notebook com pressa. Como só sabia usar três dedos, o indicador da mão direita e o médio e o indicador da esquerda, a pressa o levava a reescrever mais de uma vez a mesma palavra, porque errava. Digitava o “rê” no lugar do “é”. O “si” no lugar do “dê” e se atrapalhava com os acentos. Mas nem adiantava tanta agonia, porque não tinha muito que contar. Falou de saudades. Lembrou do dia que o avião caiu e matou os cinco ocupantes, todos das Forças Armadas. Teve medo de morrer. Deixou isso escrito na mensagem que enviou por e-mail ao amigo.

VII

Quando voltou para dentro de casa, achou tudo muito escuro. E gelado. Chamou as tias. Falou que não estava tão bem. Deve ter comido muito. Ou foi a cachaça do bar do Gordo. Mais cânfora. Deitado na cama que elas arrumaram e perfumaram com Seiva de Alfazema, contou a conversa que tivera com o amigo músico em Salvador. Perguntou se Deus o havia mandado fazer aquela viagem para se despedir. Elas o consolaram. Se elas, naquela idade, cansadas, ainda viveriam muito, quanto mais ele, que acabara de fazer 55 e parecia muito saudável. Tem ainda muito para curtir. Vai achar alguém e casar e ainda ter filhos naquela cidade. “Oxe, Inho, está ficando besta?”. Tia Janete foi fazer um chá. Ele sentiu o cheirinho da hortelã.

Ele nunca pensou que morrer seria uma decadência. Seria regredir? Os espíritas dizem que é o contrário. As tias só acreditam em purgatório, céu e inferno. Aliás, a mais nova diz que o purgatório é aqui. E se calam. Ele apreciou o silêncio. Finalmente entrava na velha casa da família. Gostou daquela sensação. Era um homem de 55 anos visitando a casa onde crescera, mas via tudo como era antes. Os móveis, uma bola no canto. Os pais à mesa. O pai mandando ele vestir a camisa antes de sentar para comer. A mãe lhe perguntando se lavara as mãos. Os irmãos discutindo quem comeria as coxas da galinha que a mãe preparara. Ele só não queria o pé, nem o pescoço. E separaria todos os pedaços de pimentão e cebola. Ouve uma voz feminina lhe chamando no bequinho que trazia à casa: “Inho, vamos”. Pareceu Florbela. Quis responder que antes precisava almoçar com a família. A voz não saiu. Chamaram de novo: “Inho, umbora. Tá na hora”. Agora pareceu a voz da avó. Era a avó. Vó, vou só comer com papai e com mãe. Vou aproveitar que tem pirão, tá?

Colocaram a cabeça dele cuidadosamente sobre o travesseiro, fecharam os seus olhos e deixaram cair lágrimas de amor sincero sobre o seu rosto. Agora iam ligar para os pais dele e para os meninos para avisar. Estavam tristes. A tia mais nova pegou o notebook, olhou o que estava escrito e antes de abaixar a tampa do computador perguntou à outra: “Quem é Denzel?”

2015-12-22 17.18.28

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