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O assassinato da pastora pelo pastor e a intolerância religiosa

No dia 12 de outubro de 1994, dia em que os católicos brasileiros homenageavam a padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, o então bispo Sérgio Von Helde, da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou a imagem da santa durante o programa que apresentava ao vivo, na TV Record. A agressão do bispo à imagem ainda é o principal marco da intolerância religiosa no Brasil, em mais de duas décadas.

De lá para cá, duas coisas ficaram muito visíveis: há um gigantesco crescimento de igrejas e denominações evangélicas no Brasil, e grande parte da população brasileira passou a ver os evangélicos como Van Helde, a quem é obrigatório odiar. Basta que surja um motivo, um evento separado, em qualquer canto do Brasil e eis que se ouve “esse evangélicos, de novo”. E os xingamentos, e a intolerância, esse mal que mata.

Ontem, em Vitória da Conquista, uma pastora (Marcilene Oliveira Sampaio) e sua sobrinha (Ana Cristina Santos Sampaio) foram assassinadas, em um crime, que, segundo relato dos executores, foi a mando de outro pastor, que não aceitou que os dois tivessem saído de sua igreja parra formar uma nova, levando 80% dos fiéis e com eles suas contribuições. Os assassinatos, com requintes de crueldade, chocaram Vitória da Conquista. A comoção estendeu-se a quem é evangélico e a quem nem religião tem.

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Este é Edimar Brito, suposto pastor, acusado de ser mandante dos assassinatos, segundo os executores da pastora e da sobrinha dela.

Porque foi mesmo um crime bárbaro, por motivo torpe e mais chocante ainda porque teria sido premeditado e executado por uma pessoa a quem se supunha do bem, que dizia pregar o evangelho e falava em paz para as pessoas.  O acusado, segundo os dois homens que executaram os crimes, teria sido o pastor de nome Edimar Brito.

Porém, no dia seguinte, enquanto as duas mulheres ainda estavam sendo veladas, a comoção e o sentimento de solidariedade à família, foi superado pela intolerância. Nas redes sociais, pastores viraram monstros. As lembranças de episódios envolvendo membros de igrejas evangélicas, especialmente pastores e pastoras, alguns muito aumentados pela lente do ódio, vieram à tona, foram repostados e passaram a justificar a atitude de colocar todos os evangélicos no mesmo balaio do bispo Von Helde e do pastor que matou as duas mulheres e espancou – e o teria matado se ele não fugisse – o marido de uma delas.

Usando a mesma régua, é como se aos padres acusados de pedofilia ou bispos listados nos escândalos do Banco do Vaticano pudessem ser igualados todos os padres e qualquer católico, como se todos fossem  atores dos mesmos pecados. Ou como se fosse também verdade que um malfeito cometido por alguém que frequenta um terreiro possa ser repartido ou atribuído a qualquer candomblecista.

Mas, este erro de avaliação e julgamento vem sendo cometido à larga. Na política mesmo, todos os políticos já são vistos, pela imensa maioria da população, como iguais aos que são bandidos naquele meio. A diferença entre a política e a religião é que parece mais fácil perdoar os políticos do que os que professam uma fé ou são associados a uma religião. E eles – os políticos –  se salvam de eleição a eleição.

Retomo o tema do artigo. Perdoem-me a variação.

Quando os blogs deram a notícia do sequestro dos dois pastores – marido e mulher – e da sobrinha e, logo depois, informaram que as duas haviam sido mortas a pedradas, eu estava em Poções e não pude evitar de lembrar do pastor Tobas. Em setembro de 1990, a polícia descobriu que Tobas havia matado três pessoas e enterrado nos fundos da igreja. Tobas se entregou à polícia, em Vitória da Conquista, mas fugiu dois meses depois, após subornar um agente penitenciário. Nunca mais se soube dele.

Mas sabe-se que a igreja a que ele pertencia manteve suas atividades e o respeito da população. Se não em Poções, mas no resto do Brasil e em Vitória da Conquista, onde o pai de Tobas era o principal pastor de uma grande comunidade. Naquele tempo, não houve demonstração de intolerância, ninguém jogou pedra na família ou nos irmãos de fé de Tobas. Talvez porque não havia redes sociais, Facebook e, o grande canal de divulgação instantânea que é o WhatsApp. E é pelo Facebook e pelo WhastApp, predominantemente, que, neste momento,  muita gente fazendo justiça com os próprios textos. Espalhando intolerância e colocando na mesma bacia cheia de dinheiro, ambição, usura e sangue pastores e evangélicos que não têm nada a ver com o peixe.

J’avais été Charlie (Hebdo) – perdoem-me se é ruim o meu francês. Não sou mais. Reclamei da intolerância que teria sido a motivação de alguns muçulmanos contra o periódico francês que publicava charges e piadas com Maomé, Jesus e qualquer outro símbolo da fé que se distribui entre os mais de 7 bilhões de terráqueos. Até perceber que a intolerância suposta dos muçulmanos foi provocada por um tipo de intolerância que eu vi, mais tarde, no Charlie, quando ele desrespeitou o sentimento do mundo com aquela estúpida charge em que faz piada com a morte de Alan Kurdi, o menino sírio que foi encontrado morto em uma praia da Turquia, em setembro de 2015, no meio de uma fatídica tentativa de fuga para a Grécia, em que ele e sua família fugiam da guerra em sua terra.

Eu não sou evangélico. Mas sou Marcilene (se virasse moda no mesmo Facebook que julga e condena, destroi e salva seria Je suis). Sou Ana Cristina. Não sou evangélico, mas se eu fosse evangélico eu não seria o pastor Edimar. Nem Tobas. Nem Van Helder. Nem um daqueles homens que jogaram pedra na menina Kaliane, de 11 anos, quando ela saía de um culto de candomblé no Rio, em junho do ano passado. Nem eu sou, nem o são todos os cerca de 50 mil evangélicos de Vitória da Conquista ou os mais de 2,5 milhões de crentes (como eram mais chamados) da Bahia.

Tampouco são assim todos os que seguem os rituais das religiões afro-brasileiras ou católicos, ou espíritas ou ateus. A maldade não tem a ver com religião o ou com a falta dela. Cuidemos. Não sejamos maus, disseminado intolerância porque um pastor ou um pseudo-pastor matou alguém. Ele é ele.

A intolerância atrai ódio. O ódio faz a guerra. E hoje é o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.

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3 comentários em “O assassinato da pastora pelo pastor e a intolerância religiosa

  1. Por causa dos falsos profetas o nome do evangelho é blasfemado;
    Tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas?
    Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, cometes sacrilégio?
    Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei?
    Romanos 2:21-23
    Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós. Romanos 2:24

    E, se aqueles dias não fossem abreviados, nenhuma carne se salvaria; mas por causa dos escolhidos serão abreviados aqueles dias. Mateus 24:22

  2. Marcilene – Eu a conheci em outra circunstância que a vida nos proporcionou, digo sobre ela não como pastora, mas como uma pessoa do bem. Não tive o prazer de conviver, mas pelo conhecia sobre ela, podia admirá-la: mulher íntegra de grandes valores morais, humilde, pois tratava com igualdade pessoas de todas as classe – ignorantes, ricos e pobres, pessoas inteligentes e até mesmo os intolerantes.
    Bondosa em atos e palavras.
    A sua igreja perdeu sua líder, mas a sociedade perde muito mais!
    Abraço Fraterno a todos amigos e familiares.

  3. Ernesto Soares - Pr.

    Parabéns, companheiro, Giorlando! Boa, sua análise. Quanto ao fato em si, lamentável, lamentável!

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