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Quem quer e quem pode fazer aliança eleitoral em Conquista, na leitura de Fábio Sena

Da planície ao planalto: micro ensaio sobre alianças partidárias em 2016

Por Fábio Sena

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O confronto político-eleitoral, silenciosa e elegantemente travado entre o governador Rui Costa e o prefeito de Salvador, ACM Neto – visível a olho nu na capital, mas ainda não suficientemente perceptível aos olhos das cidades médias do interior baiano– em breve ganhará inconfundíveis contornos de UFC, provavelmente naquele momento em que for absolutamente necessária e improrrogável a costura final nas alianças partidárias rumo à disputa real; quando, entre afetos e cotoveladas, amigos e inimigos deverão efusivamente abraçar-se ou mutuamente repelirem-se. Mas, sobretudo, verão expirado o tempo das elucubrações, das ingenuidades filosóficas, para acessarem, compulsoriamente, o terreno do pragmatismo eleitoral.

Em 2015, a ser governador da Bahia, Rui Costa preferiu acumular, com ACM Neto, a condição de prefeito de Salvador. Vultosos investimentos em infraestrutura e uma propaganda maciça denunciam a estratégia: disputar palmo a palmo o eleitorado soteropolitano no afã de – mais que inviabilizar uma provável vitória do prefeito ainda no primeiro turno – contar com a força dos orixás para que a população, que aplaude a administração municipal, não despeje nas urnas seus sonoros aplausos a ponto de constranger os candidatos governistas. É praticamente impossível não tropeçar – também palmo a palmo – nas centenas de placas que sinalizam a existência de obras do Governo do Estado em Salvador. A cada metro, um aviso.

Macaco velho, experiente operador da política, o sindicalista Rui Costa sabe que ACM Neto é o seu mais provável (e forte) adversário em 2018 –, e tem a exata dimensão do que significa, para seu futuro político, uma consagração eleitoral do democrata no principal território eleitoral baiano – e a evidente repercussão deste eventual acontecimento em todo o Estado. De modo que é possível mesmo afirmar que o maciço investimento governamental em Salvador não decorre da proverbial devoção do governador ao seu berço – ele, um filho da Liberdade. É cálculo político e eleitoral. É engenho. Cada voto subtraído de ACM Neto – que vá para o Sargento Isidório, para Lídice da Mata,para Alice Portugal – valerá ouro.

É com base nessas premissas, artesanalmente elaboradas, que trago a convicção –reiteradamente manifestada em conversas de pé de orelha com amigos: Vitória da Conquista experimentará, neste 2016,uma eleição de natureza marcadamente estadualizada. As articulações e alianças partidárias obedecerão, por óbvio,a uma lógica comezinha: estarão em disputa dois projetos antagônicos e irreconciliáveis: o petista, simbolizado pela figura do governador Rui Costa, e o da oposição, calçado na imagem do prefeito ACM Neto. Especialmente em Vitória da Conquista, onde derrotar o atual governo significa por abaixo um consagrado símbolo petista, esta dicotomia ganhará contornos de batalha. Em resumo: a Planície orientará o Planalto.

Sem desmerecer todo o acervo de debate travado em Vitória da Conquista nos últimos meses – e que incluem insinuações e suposições de improváveis novas amizades políticas e eleitorais –, diria que, das alianças partidárias,pouco ou quase nada será definida ao mero sabor das vaidades ou interesses do Planalto da Conquista. Por isso, as peças do complexo tabuleiro eleitoral serão movidas sob orientaçãodo litoral:uma lógica comezinha reinará: 2016 parirá 2018. Daí que o conteúdo da entrevista do dirigente tucano, Onildo Oliveira, ao Blog de Giorlando Lima, repete a abordagem reinante, uma perspectiva ingenuamente localizada que em nada interage com o complexo tabuleiro nacional e estadual. São discursos que revelam certo grau de amadorismo e inabilidade para interpretação do quadro nacional, cada vez mais opondo partidos e projetos.

POR GRAVIDADE

À moda de Jack, vamos aos exemplos por partes: o deputado estadual Herzem Gusmão é, entre os pré-candidatos à Prefeitura de Vitória da Conquista, aquele que, nas sucessivas pesquisas divulgadas, inclusive à boca miúda, apresenta melhor performance. Pergunta: interessaria a ACM Neto, provável futuro candidato ao governo do Estado e, portanto, ao conjunto das forças da oposição na Bahia e no Brasil, a vitória do peemedebista em outubro próximo, desbancando um projeto simbólico para todo o PT? Interessaria. Até o mundo mineral já o sabe. E por um motivo elementar: uma derrota em Conquista abalaria eleitoral e simbolicamente todo o sistema nervoso central do PT baiano, abrindo largas portas para a oposição em direção a 2018.

Não seria inteligente sequer imaginar que as cúpulas dos partidos de oposição na Bahia assegurem às direções partidárias de grandes municípios como Vitória da Conquista, Feira de Santana, Juazeiro, Itabuna e Eunápolis a absoluta liberdade de construção de uma politica de alianças sob uma ótica local, distanciando-se das disputas estaduais e nacionais, cada vez mais acirradas. E nem é preciso haver ingerência ou a tão propalada “intervenção” partidária. Bastarão dez minutos de uma boa e saudável prosa para demonstrar a um tucano como Onildo Oliveira Filho, por exemplo, que, na politica do mundo real, não existe a fantasiosa terceira via quando a bipolarização assume a cena; quando é preciso traçar rumos concretos.

O OUTRO LADO

Analisemos algumas outras circunstâncias, improváveis, quase impossíveis, mas sempre recorrentes na boca dos ingênuos. Suponhamos que, como sugerem alguns aquilatados intelectuais, por ordem divina (por certo, por ordem superior), aliem-se, para a disputa eleitoral, comunistas e sociais-democratas. Imaginemos a composição chapa: Fabrício Falcão prefeito e Arlindo Rebouças vice. Imaginemos, em tom de devaneio, que prospere o acordo e ambos adentrem o mês de agosto percorrendo as ruas da cidade em busca de votos para o que seria uma terceira via… Que discurso povoaria esta campanha? Um irremediavelmente antipetista e outro condescendente, quase governista? Rui Costa, Wagner e PT assistiriam a esta improvável aliança sem abolir, em nível de Estado, as relações com os seus sempre tão afáveis camaradas? Entender-se-ia como mera questão local? Acredito piamente que não. Os efeitos seriam destrutivos, em cascatas.

Algo mais provável – especialmente pela recente filiação de Alexandre Pereira às fileiras socialistas – seria uma aliança do PSB com o PSDB, mas esta costura esbarraria, também, em pedras no meio do caminho drummondiano. A primeira: os socialistas integram o governo municipal, o vice-prefeito pertencente ao PSB não demonstra a mais ínfima vontade de entrar em disputa com o prefeito ou com seu partido, inclusive oscilando na disposição de seu nome para uma eventual e propalada candidatura própria. No plano estadual, o PT conta com certa a candidatura da senadora Lídice da Mata à Prefeitura local. Não seria impossível – até se admite – mas seria estranho ver, no mesmo palanque, Gildelson Felício e Aécio Neves, ambos portando no peito a mesma praguinha e o slogan: unidos por uma Conquista Melhor.

A síntese do recado – quase uma assessoria gratuita – aos dirigentes partidários locais é sucinta: o Brasil vem experimentando uma disputa eleitoral* que põe em lados opostos dois grandes consórcios partidários: o do PT e seus “puxadinhos” – como bem descreveu o senador Cristovam Buarque em entrevista a Veja –, e o PSDB, com seus amigos de sempre. Não se chega a 2018 sem passar por 2016. A tucanos e petistas importa acumular, ganhar corpo político nos municípios, eleger prefeitos, fazer grandes bancadas nas Câmaras, tudo para fortalecer-se para as alianças futuras. Assim, as alianças serão empresarialmente pensadas e articuladas. É evidente que eleição não é matemática simples. Aqui e acolá, como sempre, alianças inesperadas ocorrerão. Mas é improvável que em Vitória da Conquista ensaios e improvisos ocorram.
* Sim, é meramente eleitoral, pois que politicamente e do ponto de vista da orientação econômica em tudo se assemelham.

(CORRIGIDO APENAS PELO AUTOR)

  • Fábio Sena é assessor parlamentar do mandato da deputada estadual Fabíola Mansur (PSB). Jornalista com passagens em vários veículos de Conquista e da Bahia, já foi secretário municipal de Comunicação.
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3 comentários em “Quem quer e quem pode fazer aliança eleitoral em Conquista, na leitura de Fábio Sena

  1. Itamar Pereira de Aguiar

    Interessante a leitur de Fabio Sena sobre os “negócios” da politica eleitoral, sim até mesmo porque política no Brasil, faz algum tempo, se reduziu apenas à política eleitoral, os partidos políticos meras instituição cartórarias, as alianças e votos mercadorias baratas que não se encontra na feira, necesárias apenas de quatro em quatro anos, o capital deste “negócio” é o dinheiro público, naturalmente desviado na cara de pau e com a maior tranquiliu do mundo. Assim, Fabio Sena tem razão na sua análise! Fazer política se tornou uma mera atividade “empresárial”, onde os “empresários” não presisa se quer tomar dinheiro emprestado, pagar juros ou fazer qualquer outra operação que exiga esforço e responsabilidade, até mesmo porque se forem investigados e pegos, é só ninguem viu, niguem sabe de nada e ninguem se lembra de nada e, dai aguardar o andamento dos processos judiciais e um momento adequado para corromper, ou pro engavetamento até a prescrição do processo. Ao amigo Fabio na Filosofia não existe espaço pra igenuidade ou pra esperteza.

  2. Luis Rogério Cosme

    Fabio Sena faz uma análise pragmática do pragmatismo político/eleitoral. Assim, põe uma pá de terra sobre ingenuas especulações em torno do pleito de 2016. De fato, não cabe, como o autor aponta, heroísmo como definidor de eleições. Não funciona assim. Ao discutir várias possibilidades Fabio Sena mostra porque sua opinião tem lastro: Nasce da observação no tempo de outras tantas batalhas presenciadas. Até agora, seguindo a mesma leitura, tem muita gente de olho no poder pregando novidade e na prática fazendo mais do mesmo, confiante que existam mais de 40% de eleitores indecisos no município. Exemplo: Neófitos afirmando que não importa as diferenças ideológicas entre partidos mas o desenvolvimento de Vitoria da Conquista, que passa impreterivelmente pela queda do PT. É o mesmo que deitar galinha em toca de raposa em nome do progresso do “galinheiro”. Não há quem creia nisso, em programas sustentados em alianças desesperadas. Contudo, imaginando-se possível as mais loucas alianças, o que seriam? Conveniências. Frouxas ou elásticas do poder pelo poder. Quem suporta mais isso? Ai o PT sai na frente, porque, entre troncos e barrancos, tem saldo em Conquista, desde que o partido concorra sem aventuras…

  3. Histórico aliado do PT tanto na Bahia quanto no Brasil, o PDT deve marchar ao lado do prefeito ACM Neto (DEM) na sua tentativa de reeleição este ano, caso ele confirme a candidatura. Desde o desentendimento entre o chefe estadual da legenda, o deputado federal Félix Mendonça Júnior, e o presidente da Assembleia Legislativa Marcelo Nilo, que deixou a sigla e segue sem partido, a agremiação fundada pelo esquerdista Leonel Brizola rumou para a ala destra da política soteropolitana.

    Embora a ex-vereadora Andréa Mendonça tenha deixado o Palácio Thomé de Souza para assumir o cargo federal de vice-presidente de Serviços dos Correios, o também pedetista Severiano Alves assumiu o seu lugar na Secretaria Municipal de Desenvolvimento, Trabalho e Emprego de Salvador (Sedes). “[A manutenção do PDT na pasta] significa que nós continuamos o acordo com a prefeitura. Já estávamos lá e continuamos na nossa aliança, que já dura mais de um ano”, avaliou o comandante nacional da agremiação, Carlos Lupi, em entrevista ao bahia.ba.

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