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Eleições 2016 Partidos Política Baiana Política Conquistense Vitória da Conquista

Direção estadual barra articulações com PSB e PCdoB e Onildo sai do PSDB

IMG-20160127-WA0003[1]Depois de uma longa reunião com os dirigentes estaduais do PSDB, na segunda-feira, em Salvador, Onildo Pereira de Oliveira Filho não é mais o presidente do partido em Vitória da Conquista. Ele não foi afastado, saiu. Digamos que por incompatibilidade de pensamentos. Onildo queria tempo e liberdade para debater. Defendia que o mais importante é um projeto para o futuro de Conquista e não necessariamente o nome do candidato a prefeito,  e chegou a expor que o PSDB poderia se aliar a outros partidos que não aqueles que fazem oposição ao PT e apoiam o projeto de ACM Neto de eleger-se governador em 2018.

A direção estadual do partido tucano pensa diferente, embora tenha prometido a Onildo que a comissão executiva municipal poderia conduzir o partido com autonomia. Avisado de que isso dificilmente aconteceria, o empresário preferiu acreditar na promessa dos tucanos graduados. Expôs seu sonho, falou de seu projeto e qual o cavaleiro andante, engenhoso fidalgo de Cervantes, enfrentou o moinho de vento da política com a esperança de que sonhariam com ele o seu sonho. Não deu. O moinho venceu. Hoje, Onildo me disse que não deixa apenas a direção do PSDB, mas sai do partido. Não quis dizer se vai continuar na política, em outro partido. Creio, sinceramente, que Vitória da Conquista perde.

Terça-feira, de manhã cedo, escrevi um artigo onde fazia um exercício de imaginação de qual teria sido o resultado da reunião com o deputado federal João Gualberto, presidente estadual do PSDB, e companhia. Não achei que Onildo deixaria o partido. Temi que ele cedesse à catequese tucana para a disputa. Com o artigo pronto, fiquei esperando algum sinal de que a minha análise antecipada coincidisse com o que acontecera na capital, na conversa dos tucanos. Leia abaixo o artigo e veja que eu errei pouco.

Para onde vão o PSDB e a estratégia sonhadora de Onildo?

“Quando se sonha sozinho é apenas um sonho. Quando se sonha juntos é o começo da realidade”. (Dom Quixote. Da obra de Miguel Cervantes).

Eu estava no salão de reuniões do Livramento Palace Hotel, na noite de 10 de setembro do ano passado, quando vi um Valverde encolhido, um Ticolô retraído, um Arlindo de olhos bem abertos e um José Maria Caires com a cara de quem tinha o futuro anotado em algum pedaço de papel no bolso, ou, considerando os tempos modernos, em uma nota arquivada em seu smartphone. Eram os sinais do pré-dilúvio tucano. Saindo dali, a missão de construir a arca seria passada a outra pessoa. Ticolô e Valverde voltariam ao fim da fila. Um perderia a direção do partido, o outro veria esbagaçar-se no chão o sonho de ser candidato a prefeito.

Depois dos discursos de João Gualberto, presidente estadual do partido, que deixava no ar uma (talvez sincera) esperança para Valverde, e de Jutahy Júnior, que a destroçou, sem qualquer embargo de comiseração na voz, foram todos ao encontro de Noé. Digo, Onildo Pereira de Oliveira Filho, conhecido como Onildo do Labo ou Onildinho, escolhido para liderar o partido de Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Aécio, Alckmin, João Gualberto, Jutahy Jr., Imbassahy e José Maria Caires, em Conquista. Como nem todos sabiam o que pensavam Jutahy e João Gualberto, nem tiveram acesso ao smartphone de José Maria, a notícia que explodiu nos blogs no dia seguinte surpreendeu muita gente. A Valverde, certamente, muito mais, ele que não passou mais do que 48 horas como pré-candidato a prefeito pela agremiação tucana.

Onildo assumiu o PSDB de Vitória da Conquista. Por recomendação de alguns amigos e por “pressão” de outros. A maior parte deles querendo que o empresário bem sucedido, herdeiro que fez o Labo se tornar um dos maiores laboratórios de análises clínicas da Bahia, fosse candidato a prefeito. E assim pensou-se que seria. Não é. Onildo diz que não é pré-candidato. Fala em sentar e conversar com todo mundo, até com José Raimundo Fontes e Odir Freire, os dois pré-candidatos a prefeito do PT, um dos quais será o adversário do PSDB e do grupamento político de oposição ao governo Rui Costa, à presidente Dilma e ao PT. Para Onildo, conforme disse em entrevista a este BLOG, não importa o nome. Nem havia pressa de defini-lo, mas importa o projeto.  E ele já disse que em um mês, um mês e meio, dá para definir a proposta e depois escolher quem o conduz, mesmo que seja alguém que surja de uma hora para outra.

É preciso esclarecer que Onildo não é novato em política. Ele já foi do PCdoB, por exemplo. E no final dos anos 90 acreditou que poderia entrar na política partidária – como entrou agora – e ter sucesso. Apostou em um projeto. Chegou a se associar a um jornal local, colocando seu dinheiro lá e perdendo-o sem ver alcançado o objetivo que lhe propuseram. Setembro do ano passado, quando José Maria Caires andou os cerca de 800 metros que separam o prédio onde estão reunidas as suas empresas e a sede do Labo, para convencer Onildo a ser presidente do PSDB e o candidato do partido à sucessão de Guilherme Menezes, não foi a primeira vez que o nome do empresário foi lembrado para ser prefeito. Mas, agora, muitos confiaram, vai dar. Bastava ele querer.

Onildo quis e não quis. Tanto quis que está à frente do PSDB. Poucos acreditam que será por muito tempo. Mas, não aceitou ser o candidato. Pelo contrário, pôs-se a conversar com todo mundo. Ao BLOG ele disse, textualmente: “Por que o nome de Onildo é um bom nome? Quase ninguém me conhece. Então, o meu nome é bom só pelo fato de eu ter sido bem sucedido nas minhas empresas? Isso me dá respaldo para ser prefeito de Conquista? Será que eu tenho capacidade emocional para isso?”, sobre não ser candidato. E mais: “Eu fui voto vencido em relação a ter nome e depois o projeto. Primeiro: eu acho que o PSDB não deve e não tem o direito de sair isoladamente, querendo ser o salvador da pátria(…) Por que, de repente, nós não podemos sair com uma grande composição como alternativa para Vitória da Conquista? Acredito, sinceramente, que seja possível isso e é nisso que eu trabalho”. Com extrema educação e uma crível sinceridade, Onildo avaliou os candidatos “naturais” da oposição e deixou-os a uma distância significativa. Alexandre Pereira e Fabrício Falcão foram colocados muito mais perto. Aos que me acusarem de maldade com Onildo, sugiro que leiam a entrevista publicada no dia 13 de janeiro (Entrevista de Onildo).

A humildade de Onildo nesse processo é tamanha que ele levou o partido para o agrupamento chamado de Grupo Independente, um condomínio de partidos pequenos, cujo líder, ele próprio um ex-candidato a vereador que obteve 694 votos em 2012, soma os votos de dois candidatos a deputado (estadual e federal) em 2014, para propagar a força do grupo*. Para entender porque essa observação veio a este artigo, e nesse tom, quero lembrar que o PSDB é, nada mais, nada menos, o partido que foi ao segundo turno, com Aécio, contra o PT e Dilma, tendo recebido em Vitória da Conquista 84.871 mil votos, contra 82.827 mil dados à presidente eleita.

Ontem (segunda-feira), Onildo estava em Salvador, onde se avistou com a cúpula estadual do partido. Imagino que Onildo tenha retornado mais confuso do que foi. Saiu de Vitória da Conquista certo de que o diretório local poderia definir sozinho o que fazer na eleição, inclusive apoiar candidatos de partidos que jamais apoiarão ACM Neto ou Aécio, e provavelmente saiu da reunião da capital avisado de que o PSDB não tem mais sete, seis ou cinco caminhos, apenas três: candidato próprio, se houver potencial para isso; apoiar Herzem Gusmão ou apoiar Marcelo Melo, oferecendo o vice, se for o caso.

O cavaleiro fidalgo perdeu para o moinho de vento. Onildo não terá tempo e nem suporte político para continuar defendendo que o projeto venha antes do homem (ou da mulher), antes do candidato. Deve ter ouvido que “o projeto” já está pronto – e não é de Vitória da Conquista. É da Bahia. E do Brasil. Como eu não ouvi relato de ninguém sobre o resultado da reunião e nem tenho bola cristal (nem a parabólica de Jânio Freitas eu tenho), diria, cuidadoso, que é provável, embora não muito, que agora Onildo seguirá a cartilha, as regras comezinhas, como diria Fábio Sena, da disputa política em ano de eleição. Se for isso, é uma pena. A visão de Onildo do processo político não é fantasiosa, é utópica. Quão bom seria para Vitória da Conquista – e para o Brasil – se a política partidária, à boca de uma eleição, se desse como propunha Onildo Pereira de Oliveira Filho.

Imaginem comigo: PSDB, os tucanos (que a maldade gerada no embate de 2014 chama de coxinhas) conversando, dialogando, estruturando um projeto político e de cidade com partidos associados ao PT, como o PCdoB e o PSB, que em Vitória da Conquista são irmãos siameses – a caminho da mesa de cirurgia para a separação – do Partido dos Trabalhadores, alcunhados de petralhas, ou, mais recente, de mortadelas, pelo miolo do tucanato.  Ou, afastada essa hipótese, imaginem esse partido que é a segunda marca política do país, perguntando a partidos ainda quase imberbes (em Conquista, frise-se) sobre o que fazer e para onde ir, como está alinhavado que deve ser a postura do partido no Grupo Independente. Democracia pura.

Afirmo para os que estão me xingando: eu não estou sendo irônico.

IMG-20160127-WA0001[1]Quando entrevistei Onildo admirei sua postura. Não o discurso, que outro qualquer poderia fazer, mas a convicção contida nele. O meu primeiro voto para presidente da República foi para um tucano. Votei em Mário Covas e não me arrependo. O icônico Waldir Pires, por exemplo, ex-ministro de Lula e hoje vereador pelo PT, já foi do PSDB. E o PT precisou do PSDB para ganhar a primeira eleição em Conquista. Pelo que eu sei de Onildo Filho, pela recomendação valorosa de amigos que considero muito, eu até poderia votar nele. Depois da entrevista que lhe fiz no começo do ano, o faria ainda mais convicto. Mas, não votarei. Ou porque ele não será candidato, porque seu pensamento não está no mesmo diapasão partidário, ou porque, se ele for, o será, a esta altura, porque o convenceram, em Salvador, de que o negócio não é do jeito que ele sonha, mas do jeito que tem que ser.

E, desse jeito, não dá para saber para onde vai o PSDB. Ou os sonhos de Onildo, a quem eu disse ser ele um estranho no ninho. E encerrando com Dom Quixote, como comecei: “Uma andorinha só não faz primavera (ou verão, a depender do tradutor)”. Onildo ficou só.

* A candidata a deputada federal Nayana Gusmão (então no PT do B) teve 2.727 votos em Conquista e o candidato a deputado estadual José Carlos Ladeia (então no PTC) teve 4.973 votos.

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