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Entrevista Esporte Futebol Vitória da Conquista

Ederlane Amorim, o dirigente apaixonado que briga pelo Vitória da Conquista porque quer vê-lo em Dubai

Quem acompanha o Vitória da Conquista nos dez anos de sua formação sabe que por trás do sucesso do time até aqui há um grupo de abnegados, que acreditam no futebol e no potencial da cidade para ter um grande clube. À frente do grupo, um nome: Ederlane. Ex-jogador de futebol, apaixonado pelo esporte e louco pela sua criação: o Esporte Clube Primeiro Passo de Vitória da Conquista, que começou como escolinha, um projeto social – ainda mantido – e se transformou na terceira força do futebol no estado, tendo sido vice-campeão baiano no ano passado.

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Mas, o que pensa o homem que deu início à história do Bode, que hoje detém a maior torcida local e é um adversário temido pelos gigantes Bahia e Vitória? Sobre Ederlane diz-se que é oito ou oitenta. Quem o vê apenas de longe e se baseia no que ouve falarem diz que ele é bravo, rude e até arrogante. Os que convivem mais de perto não negam que ele tem um temperamento forte, mas afirmam que ele é uma pessoa muito séria, que se preocupa com as outras pessoas. E com o Vitória da Conquista, claro.

Ele mesmo admite os defeitos conhecidos. Fala que sempre é muito nervoso em campo e que nunca aceitou injustiça, por isso, às vezes, reage com uma firmeza que nem sempre as outras pessoas entendem. Diz que, na verdade, é tímido e que não gosta de aparecer.

A timidez, no entanto, não o impediu de colocar tempo e dinheiro no sonho que, até agora, está dando certo. Segundo ele, graças à ajuda de pessoas que emprestaram seus nomes ao projeto, que acreditaram e ajudaram a impulsionar o ECPP para que o projeto começado em 2006 chegasse à condição atual. Ainda é um time pequeno, carece de estrutura, ainda está montando o Centro de Treinamento (CT Toca do Bode), não tem dinheiro para contratar craques famosos e depende do apoio da comunidade, mas não deve nada a ninguém.

Este ano, o Bode participa de três competições – o Campeonato Baiano, a Copa do Nordeste e a Copa do Brasil. No Baiano já fez dois jogos e empatou os dois. Contra o Flamengo de Guanambi, fora, por 0 a 0, e contra o Vitória, jogando em Ilhéus, por 1 a 1. Com dois pontos, o Vitória da Conquista está na segunda colocação no grupo 2. Neste domingo, o time enfrenta o Ceará, também em Ilhéus, já pela Copa do Nordeste. No dia 17 (próxima quarta) jogará em São Luís (MA), contra o Sampaio Correia, também pela Nordeste. A estreia em casa, no Lomanto Júnior, acontece dia 25, em partida contra o Flamengo do Piauí. A Copa do Brasil começa no dia 16 de março e o adversário do Bode na primeira etapa será o Náutico (PE).

Como clube se prepara para essa maratona e quais as ambições do Vitória da Conquista, segundo o seu presidente? Aliás, quais os objetivos maiores do Vitória da Conquista, o que o torcedor pode esperar para as competições deste ano e para o futuro? Para Ederlane Amorim, a meta é chegar a Dubai, na final do Campeonato Mundial de Clubes. Ele diz isso simbolicamente. É força de expressão, mas serve para estimular os diretores, jogares e colaboradores a pensarem alto, a terem confiança e a trabalhar duro pelos sonhos do clube.

Ederlane fala disso e de mais, em uma entrevista completa, recheada de histórias do futebol, da luta para que o Vitória da Conquista não se transformasse em apenas um projeto de metade do caminho; da organização dentro do clube; das regras internas; de disciplina; dos salários; das ideias que não deram certo; do fatídico 6 a 0 contra o Bahia, quando o time conquistense era quem já tinha a taça praticamente na mão; da briga com o treinador Fael Júnior; da visão do dirigente do principal time da cidade sobre o futebol de Conquista; dos planos e de outros temas sobre a vida de Ederlane e sobre o Vitória da Conquista, inclusive sobre os tabus relacionados a Bahia e Vitória e sobre os traumas das goleadas de 2008 e 2015, justamente quando o time estava perto (muito perto) de ganhar o campeonato baiano.

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PERFIL

Ederlane Amorim Silva.
Nasceu em Belo Horizonte (MG), em 25 de março de 1967, 49 anos incompletos.
Formação: superior incompleto (Administração de Empresas).

Pai de Eder, 19, Keylane, 10 e Édria, 9 anos
Chegou a Vitória da Conquista em 2001.

Ex-jogador de futebol com passagens pelo Vitória, Conquista, Serrano (BA); Rio Branco, Cataduvense (SP); Rio Verdense (GO); Ibiraçu. Colatina (ES); Maranhão Atlético Clube (MA) e vários outros clubes, no Brasil e também no exterior (Peru, Chile, Bolívia, Equador e Alemanha).

LEIA ABAIXO A PRIMEIRA PARTE DA ENTREVISTA, ABORDANDO A HISTÓRIA DO CLUBE, DETALHES DO FUNCIONAMENTO, ESTRUTURA, DIFICULDADES, ETC.

NA SEGUNDA PARTE, O LEITOR CONHECERÁ UM POUCO MAIS SOBRE O DIRIGENTE E DA PESSOA EDERLANE, INCLUINDO POSIÇÃO POLÍTICA, TEMPERAMENTO E OS DETALHES DA BRIGA COM O TREINADOR FAEL JÚNIOR, DEMITIDO NA VÉSPERA DE UM JOGO.
BLOG – O Esporte Clube Primeiro Passo de Vitória da Conquista, ou só Vitória da Conquista, como o Brasil já conhece, é um projeto de dez anos que você, praticamente, carregou nas costas durante boa parte do tempo. Chegou a pensar em desistir?
EDERLANE – Hoje não, mas no início a gente olhava para todos os lados e não tinha muito apoio. Estou falando de 2006 e 2007, que foram os anos mais difíceis. Em 2008 não, porque nós chegamos, praticamente, numa final de campeonato baiano, apesar de o desfecho ter sido horrível, pois nós perdemos lá pro Bahia por 5 a 0.
Eu não sei se você sabe, se a gente vencesse o Bahia naquele jogo, a gente era campeão baiano. Era um quadrangular e só quem chegou na última rodada com chance de ser campeão baiano e dependendo só de si foi o nosso time. Infelizmente, perdemos e não fomos campeões. Fomos o terceiro.
Mas em 2005, na fundação, nós já ficamos um ano sem poder disputar a competição, porque reza o regulamento da CBF que só pode ter um time a cada 100 mil habitantes em uma cidade, e nós já tínhamos três times registrados aqui. Então, nós não conseguimos nosso registro na CBF e ficamos de janeiro a dezembro de 2005 só com o registro aqui na Bahia, sem poder disputar competições, o que já foi uma grande decepção pra gente.
Em 2006, nós conseguimos o registro – saiu um dos times locais dos registros da CBF – e nós disputamos naquele ano, com a base, da 2ª Divisão do Campeonato Baiano, e já fomos vice-campeões com a base. Isso criou uma atmosfera positiva com a torcida, no primeiro semestre. E no segundo semestre fomos campeões invictos da 2ª Divisão (com o time principal). Talvez tenha sido aí o “xis” da questão, que nos ajudou: no primeiro ano que disputamos a segunda divisão, ascender à primeira.
Como a gente não tinha muita experiência administrativa, 2007 foi um ano muito ruim, em todos os aspectos: financeiro, de logística, de planejamento, de execução do trabalho… Chegamos a fechar o clube em abril, um time de futebol que chegou em abril e botou o cadeado no portão. Ficamos de abril a dezembro de 2007 sem disputar nenhuma competição, nada. Então, como é que você pode se manter um mercado tão competitivo como é futebol, se você não tem nenhuma projeção de disputa, de calendário.
Então, naquele momento, eu imaginei que não ia dar certo, porque nunca tivemos o apoio público. E nem é relevante ter (mas poderia ser uma ajuda), já que você poderia ficar refém desse apoio e em um momento ou outro poderia mudar a gestão e você ficar descoberto. É importante você caminhar com suas pernas, mas também seria importante ter um maior apoio do poder público, como toda cidade tem.
Mas, em 2008, nós mantivemos o clube e reacendeu nossas esperanças de poder chegar distante. Foi uma campanha maravilhosa em 2008. Nós jogamos aqui em Vitória da Conquista 21 jogos, vencemos 18, empatamos um e perdemos duas partidas apenas, entre o Campeonato Baiano e o Brasileiro da Série C. Então, foi um ano maravilhoso. Conseguimos negociar dois jogadores, Tatu e Rafael Granja e de lá para cá não houve mais esse interesse em parar com o projeto, porque nós entendemos que já era uma realidade e que essa oscilação de um ano para outro é natural dentro do futebol, até as equipes grandes, as equipes da Série A, passam por isso. O reflexo aqui é maior porque não temos uma estrutura financeira, não temos uma estrutura física para poder sustentar essa paralisação. Praticamente, o time ficava esquecido, você perdia espaço na mídia, não sustentava o seu trabalho, não fortalecia a sua marca e perdia a competitividade.
De lá para cá, eu acho que Deus colocou a mão. Porque diante da limitação financeira e de estrutura que a gente tem, de estar no Nordeste, que geograficamente já é uma região que sofre muito preconceito, que não tem muito investimento, diante desse quadro aí, acho que os nossos resultados, apesar de não termos sido campeões baianos ainda, eles são assustadores, eles são absurdos com relação ao lado positivo, pela limitação, em todos os aspectos que nós temos de trabalhar.

BLOG – Este ano são três competições, o Baiano, a Copa do Nordeste e a Copa do Brasil. Nestas competições, onde você acha que o Vitória da Conquista pode chegar?
EDERLANE – Nós não somos favoritos em nenhuma delas, começa por aí. Não temos a obrigação de ganhar nenhuma delas. Estamos mais maduros, porque nos últimos quatro anos será a nossa terceira Copa do Brasil. Já enfrentamos o Sport Recife, perdemos aqui de 1 a 0 e lá de 2 a 0, e enfrentamos o Palmeiras em 2015, quando, apesar do desastre do placar, ficou uma imagem muito positiva, não da cidade, não do estádio, mas da instituição. Fortaleceu muito o nome da nossa equipe. Agora, vamos enfrentar o Náutico. Será a nossa segunda Copa Nordeste, disputamos a primeira em 2014. E ficamos em terceiro e segundo lugar no Baiano, em sequência.
Ou seja, os resultados são assustadores e isso nos leva a acreditar que podemos fazer boas campanhas. Mas, por exemplo, na Copa Nordeste, disputando com Ceará, Sampaio Correa, Flamengo do Piauí (que talvez seja o time mais do nosso nível), onde classifica apenas um time, é muito difícil você superar equipes mais tradicionais. Claro que isso na teoria, na prática nós vamos buscar.
Já no Campeonato Baiano, nós temos Bahia e Vitória e nos últimos 50 anos só houve dois campeões do interior, que foram o Bahia de Feira e o Colo Colo. Então, por si só, esses números já mostram o que vai ser o campeonato.
Na Copa do Brasil, vamos enfrentar o Náutico, que é um time da Série B, chegou em 5º lugar em 2015, por pouco não chega na Série A. Tem um investimento muito maior que o nosso, em todos os aspectos. Então, a gente entra como franco-atirador, mas, claro, fazendo isso uma oportunidade de crescimento, não só para o clube, como para os jogadores. A equipe vê nisso a oportunidade de estar no lugar certo, na hora certa. Que o diga Wendel Lira, que fez o gol da vida. Esse gol dele foi o gol de todos nós, tanto times emergentes como jogadores que buscam seu espaço, provando que sim, devemos acreditar sempre.
E onde a gente vai chegar? Não sei se vai ser este ano, mas antes era Tóquio, onde a final do Campeonato Mundial de Clubes acontecia, agora é Dubai. O nosso objetivo é chegar o mais distante possível, ainda que possa parecer loucura, utopia, mas estamos com esse foco e esse objetivo.

BLOG – Em determinado momento Vitória da Conquista tinha quatro times profissionais, o Serrano, o Conquista e o Serranense e o ECPP de Vitória da Conquista, dirigido por você. Hoje a cidade tem apenas o Vitória da Conquista, já que o Serrano, nos últimos anos, escolheu outras praças como sede e não se sabe se este ano jogará em Conquista seus jogos da 2ª Divisão. Considerando que o Vitória da Conquista passou a ser, de fato, o representante da cidade no futebol baiano e brasileiro, você diria que a torcida dos outros times migrou para o seu clube?
EDERLANE – Totalmente, totalmente. Isso ficou provado nos jogos que nós fizemos aqui com o Serrano, quando 90% do estádio torciam pelo Vitória da Conquista. Primeiro, porque quando nós fundamos a equipe o Serrano estava desativado. O Serrano só voltou em 2010, na 2ª Divisão e, me parece, que em 2011 à 1ª. Com isso, criou-se uma lacuna muito grande, pois o Serrano parou de jogar em 2002, ficou praticamente dez anos em inatividade. E nós tivemos a campanha de 2006, quando fomos campeões, e depois 2008, quando chegamos ao quadrangular e poderíamos ter sido campeões.
Historicamente, você sabe, Vitória da Conquista, Serrano, Serranense, Bahia de Feira, Itabuna, nenhum desses é o primeiro clube no coração de ninguém, o nordestino sempre tem preferência por times da região Sudeste do Brasil, então não é difícil entender o que aconteceu. Quando tem um time jogando na cidade, você passa a ser bairrista, passa a gostar do time que representa a sua cidade, aí vai formando e fidelizando novos torcedores. Se você pegar uma foto do estádio em 2006, quando nós fomos campeões baianos da 2ª Divisão, você não vê uma camisa do Vitória da Conquista, todos os torcedores com camisas de outros times. Hoje, a imagem é inversa e acho que 80% dos torcedores vão para o campo com a camisa nosso clube. Isso foi uma quebra de cultura e um avanço importante.

BLOG – O Vitória da Conquista esteve perto de ser campeão baiano duas vezes, mas duas goleadas do Bahia – uma de 5 a 0, outra de 6 a 0 – impediram que isso acontecesse. Ficou algum resquício daquilo, algum trauma? Quando o Vitória da Conquista volta a jogar com o Bahia você acha que a memória dessas goleadas tem efeito sobre o desempenho do time?
EDERLANE – Eu acho que reflete negativamente, sim. Na verdade, foram três derrotas. Eu tenho três punhais cravados pelo Bahia: o de 2008 (5 a 0); de 2012, que não foi goleada, mas nós estávamos indo para a final com um empate e no finalzinho do jogo tomamos 1 a 0, e 2015, com o 6 a 0. Cada um tem sua peculiaridade e sua dor diferente. Muitos jogadores estiveram nesses três jogos, seis ou sete jogadores, Carlinhos, Sílvio, Rafael Granja, Tatu, Edmar e mais alguns estiveram presentes nesses três jogos.
Um outro tabu que nós não conseguimos quebrar ainda é que nunca vencemos, nem o Bahia e nem o Vitória, jogando em Salvador. Nunca. Ou empatamos ou perdemos e olha que já são dez anos de campeonatos, devemos ter feito uns 20 a 25 jogos e nunca tivemos esse prazer. Embora outros times do interior já tenham provado que podem ir lá e vencer, nós ainda não conseguimos isso, principalmente contra o Bahia. Já chegamos a empatar jogos com o Vitória, mas com o Bahia a gente sempre perdeu e com diferenças e placares elásticos, salvo em 2012.
Eu acho que esse histórico influencia sim. Já não basta a tradição, a camisa, a imprensa e um tema que é polêmico, mas que a gente não pode deixar de falar, que é a arbitragem. Quer queira ou não, foi 6 a 0 lá, mas dois gols foram na conta da arbitragem. Nós vencemos aqui de 3 a 0 no primeiro jogo da final e mandamos ofício reclamando da arbitragem, pois houve pênalti não marcado, uma expulsão que deixaram de fazer, pois o zagueiro fez a falta, era o último homem e nem amarelo recebeu. Então, existe esse peso, e isso é secular, é cultural e não vai mudar nunca, seja na Bahia, seja em Goiás, seja em São Paulo. Os times pequenos tendem a sofrer essa dificuldade, mas nós contribuímos também para isso. Como no 6 a 0, quando nós não fizemos uma boa partida. Aliás, nós nem fizemos uma partida, é como se nós nem tivéssemos jogado aquele jogo.
Existe, sim, esse tabu – embora não da nossa parte (diretoria) – por mais que a gente converse, já tivemos, inclusive, preleções com psicólogos. Nesse jogo da final, por exemplo, nós deixamos que eles (os jogadores) decidissem tudo e eles falaram: “Não, presidente, não falta nada. Agora, é com a gente”. Nós viajamos cinco dias antes para Salvador, para sair do oba, oba da torcida, do já ganhou, que é natural, pois a torcida e a imprensa trabalham com emoção; pagamos o salário de abril adiantado, pagamos a premiação; treinamos no Barradão, treinamos na Fonte Nova para aproximação do gramado, que era totalmente diferente do nosso; ficamos reclusos em hotel, nem familiares nós permitimos que fossem visitar os jogadores. Ou seja, fizemos tudo o que era preciso para que o foco fosse apenas o jogo. Chegamos ao ponto de eles dizerem que não faltava mais nada, que era só com eles. E aconteceu aquela tragédia.
Então, deve causar sim, algum tipo de dificuldade (o histórico de derrotas ante o Bahia), o Bahia é um time que tem essa tradição, essa força. Eles (Bahia) também fizeram o jogo político, separaram nossa torcida, não deixaram todos os torcedores que foram ao jogo ficar juntos, no mesmo espaço, venderam os ingressos separados, colocando cada um em um ponto do estádio; colocaram um alto-falante com um som enorme, enfim, estratégias que são extracampo, mas que acabaram, talvez, também influenciando naquele jogo. Mas, nós vamos ter que superar isso e só pode superar jogando. É jogo a jogo, competição a competição.
Quase todo dia eu paro e penso como seria bom se nós tivéssemos sido campeões. Me vejo campeão, inclusive, naquele jogo, vejo a festa, o retorno para Conquista, sendo recebidos pela torcida; penso no que significaria, ao longo da história, para as pessoas que vão surgir, pós-Vitória da Conquista, para as crianças, os adolescentes, para o trabalho social que o clube desenvolveu, para provar que, sim, é possível. Mas, Deus não quis que fosse naquele momento. Faltava alguma coisa para que tudo terminasse perfeito. E a gente está buscando descobrir o que é que estava faltando, para que este ano, ainda que não aconteça como foi em 2015, as coisas sejam melhores. A gente tem que procurar pensar em corrigir o que errou, melhorar o que aperfeiçoou, para mudar esse quadro.

BLOG – O que significa para um time como o Vitória da Conquista jogar contra o Palmeiras, em jogo oficial, em casa, como foi no ano passado? E por que acontece de o time “menor” segurar o placar o máximo possível, como foi naquele jogo, mas ceder a vitória no final? É preparo físico, é o emocional, qual razão você aponta?
EDERLANE – A dificuldade é pertinente ao nosso universo, à nossa realidade. Vou lhe dar alguns exemplos. Na Copa do Brasil, a CBF dá 25 passagens para as equipes que se deslocam para jogar fora. Nós, do Vitória da Conquista, temos que tirar pessoas da lista, para não ter que pagar passagem. Já o Palmeiras fretou um avião para vir para Conquista e veio com 35 pessoas. Ou seja: não só não usou as 25 passagens como trouxe todo staff. Fica evidente a superioridade. O Palmeiras e o Corinthians têm equipamentos que quando acaba um jogo os atletas passam por uma espécie de Raios-X, de ressonância das pernas, e quando, no outro dia, o atleta chega para treinar, eles vão comparar aquela foto que tiraram depois do jogo com o estado do atleta naquela hora e têm a resposta se o jogador pode treinar ou deve descansar. Já a gente joga e no dia seguinte não tem essa resposta. Às vezes, ao invés do treinamento, o jogador teria que ter um descanso e nós colocamos o atleta para treinar, limitando a capacidade física dele para o treinamento ou para a partida.
E ainda tem os deslocamentos. O Bahia e o Vitória quando vêm jogar aqui vêm de avião, a gente enfrenta oito horas de viagem para jogar lá. Só em 2012, naquele 1 a 0, eu consegui fazer uma coisa louca e levei o time de avião. Foi até uma coisa engraçada, porque nós só viajamos com 18 jogadores, mais o treinador e o presidente, ou seja, todo o staff teve que ir de ônibus. Mas, conseguimos dar essa valorização ao time e fizemos um bom jogo. Foi 1 a 0 e com um homem a menos, desde os 30 minutos do segundo tempo.
Na Copa do Brasil ficou evidente a supremacia, não só técnica – porque Palmeiras é Palmeiras, foi o campeão daquela Copa do Brasil, inclusive -, mas também a física. Quando Arouca foi expulso, estava 2 a 1 e nós estávamos, teoricamente, classificados para o jogo de volta, que era o que interessava: jogar em São Paulo, mostrar o time para São Paulo e para o Brasil e não perder dinheiro. E nós perdemos naquele jogo R$ 250 mil de renda. Tivemos que tirar do banco para passar ao Palmeiras, porque como perdemos o jogo ele fica com 60% da arrecadação, que seria 100% nossa e tivemos que fatiar. Foi dolorido, muito doído – porque o dinheiro já estava na conta, pois vendemos ingressos antecipados -, no outro dia, você tirar R$ 250 mil da conta, que pra gente é como se fosse R$ 250 milhões, considerando o nosso orçamento. Dinheiro que nós perdemos em dez minutos, porque nós tínhamos um jogador a mais e tomamos dois gols. Ficou evidente que se tivesse mais dez ou quinze minutos no segundo tempo nós tomaríamos mais gols, não estávamos conseguindo mais reagir. Quando você leva o terceiro gol ou quatro, psicologicamente você se abate, o jogador se abate, dentro de campo ele enxerga que vai ser difícil mudar aquele quadro.
É uma questão de estrutura mesmo. Está muito longe de se comparar um time de interior e eu nem digo com um time de Série A, mas com um time de Série B ou talvez mesmo da Série C, que tem tudo ali pronto, CT, etc. No nosso clube, se um jogador se machuca tem que ir andando para a fisioterapia, lá fica esperando um horário, porque o profissional está atendendo seus clientes e não pode ficar à disposição do clube. O próprio médico também é assim. É muito complicado, por mais que você queira, dar uma estrutura que se possa, no mínimo, comparar com essas instituições gigantes, como o Palmeiras.

BLOG – E o que o clube já alcançou, considerando essa estruturação que você mencionou, para que o atleta tenha melhor condição antes, durante e depois do jogo? Qual o estágio do Vitória da Conquista em comparação com os demais clubes do interior do estado?
EDERLANE – Estamos em nível muito parecido com as principais forças. Acho que em relação ao Bahia de Feira estamos atrás, porque eles estão construindo um estádio, são independentes, empreendedores. O Jodilton é proprietário da Faculdade Nobre, de Feira de Santana, trabalha com entretenimento, ou seja, é milionário e não precisa do futebol e ele mesmo fala que o time é o brinquedo do filho dele. Enfim, graças a Deus ele conseguiu isso aí e não é o mérito da questão, é apenas para você entender a diferença, o abismo das realidades.
Outra força é o Fluminense de Feira que tem um CT. Nós também temos o nosso, ainda que sem instalações físicas construídas. Se você for lá, agora, não vai se sentar, só tem os dois campos, numa área que é nossa, adquirida com recursos do clube, na época da negociação dos jogadores. Temos uma sede administrativa, que é um comodato de dez anos, faltam dois para encerrar, e é o coração do clube. É onde os jogadores moram, não temos despesas com hotel, todos ficam alojados nesse edifício, onde também funciona a parte administrativa. Mas falta muita coisa.
Tudo o que se arrecada é reinvestido dentro do próprio clube. E você me pergunta: o que se arrecada? Nós temos um plano sócio torcedor, que é mínimo, talvez 300, 400 sócios-torcedores e adimplentes, porque tudo é feito com cartão de crédito. A nossa expectativa é chegar a cinco mil torcedores, porque quando nós chegarmos a esse número, se a campanha do time continuar a ajudar, aí sim nós vamos caminhar com nossas próprias pernas, vamos ter uma arrecadação mensal de R$ 250 mil e com isso você pode trabalhar bem todo o ano.
Mas, se você me perguntar sobre o departamento médico, o Dr. Luis Allan é quem nos atende, com a estrutura dele; a fisioterapia é de Dr. Fabrísio, cunhado de Dr. Allan; exames de radiologia, de imagens, é o Dr. Valverde; exames cardiológicos sempre tem algum médico, indicado internamente, e a gente vai fazendo. A gente não tem uma estrutura própria dentro do nosso espaço para que o atleta seja atendido ali. Um departamento de fisiologia nós não temos; psicologia não temos; a parte jurídica, são advogados da cidade que prestam serviço ao clube sem cobrar nada.
Quanto à alimentação, é ministrada por uma nutricionista, tudo é comprado, não temos parceria com nenhum supermercado ou atacadista, se compra tudo. O único que dá um apoio para o clube nesse quesito é o Atacadão Curitiba, que anuncia lá um valor de R$ 1 mil por mês e depois isso é abatido no pacote anual do custo.
Essa estruturação é na base do apoio, porque não sobra. Tudo o que a gente arrecada é reinvestido. Quando termina o ano não devemos a ninguém, mas não sobra. Aí começa o novo ano com a mesma dificuldade, como você se estrutura? Nós temos um projeto, para o CT, de R$ 8 milhões. Tentamos através da Lei de Incentivos Fiscais, não foi aprovado e também não conseguimos ninguém para tentar captar esses recursos. Aqui em Conquista não tem empresas que possam subsidiar esse projeto, tem que ser estatais, algum político teria que ter influência para conseguir isso. Olha só o tanto de coisa que envolve o futebol.
O que está sustentando o clube são as competições que a gente vem disputando. Nos últimos quatro anos foram três Brasil e duas Nordeste, que são subsidiadas e é o que dá essa condição financeira para que a gente possa tocar, mesmo com toda essa falta de estrutura. Por isso eu tenho medo que isso pare de acontecer. Se em 2017 não disputarmos nem a Copa do Brasil e nem a Copa Nordeste, eu não sei em que situação o clube vai poder seguir trabalhando.

BLOG – Diante dessa dificuldade de apoio financeiro, você acha que tem gente que deixa de apoiar o clube porque acha que Ederlan ganha dinheiro com isso, que se ajudar o Vitória da Conquista vai estar ajudando você a ficar rico?
EDERLANE – Eu acho que tem quem pense assim. Isso é cultural, é natural. Eu tenho meu pró-labore no clube, o que é normal, eu trabalho 48 horas dentro do clube e ainda tenho dinheiro lá dentro e não é pouco, para a minha realidade. Tudo o que tem lá é registrado, é contabilizado, temos um tesoureiro, todo pagamento que sai é assinado por mim e por ele. Todo ano, cumprindo a lei, o Estatuto do Torcedor, nós divulgamos o balanço financeiro nos meios de comunicação, no site da Federação Baiana e no nosso site. Então, está tudo aberto, pode fazer auditoria, o clube está lá à disposição para quem quiser fiscalizar as nossas contas, elas são publicadas anualmente. A única coisa que a gente tem é nosso salário, como qualquer outro funcionário do clube, e é dentro de uma realidade também de diretor de esportes, porque eu sou o presidente e sou o diretor de esportes do clube, eu que contrato, por ter vivido o futebol; eu que demito. Tudo dentro de um bom senso, de um consenso, por critérios técnicos.
Mas acho que pode passar por essa avaliação, sim. Principalmente as pessoas que não têm um certo conhecimento. Eu, na verdade, só tenho 15 anos de Conquista, a minha vida em Conquista são 15 anos, eu não cresci aqui, eu não sou conquistense de origem, mas tenho a honra de ter recebido o título de cidadão o ano retrasado. Eu sou de BH, sou mineiro, mas vim para Bahia com seis anos, para morar em Itambé. Em Itambé eu comecei a jogar futebol, fui para Salvador e comecei a minha carreira como jogador de futebol. Vim para Conquista em 2001, vou completar ainda 15 anos na cidade. Ninguém me conhecia, não tenho família aqui, não cresci no meio social conquistense, e isso dificulta um pouco. De repente, chega um cara aqui, como eu em 2001, dizendo “vamos lá, vamos fundar um time”, vão dizer que é louco, mandar prender. Não foi fácil quebrar esses paradigmas. Só em você falar já dá para fazer uma leitura. Mas, o certo é o clube nunca ficou devendo a ninguém, na cidade não tem um fornecedor com quem a gente não esteja em dia; não permito que um fornecedor vá nos cobrar, nunca. Se você me apresentar um fornecedor que a gente ficou devendo, pode levar lá o cheque ou a promissória que eu pago dobrado. Nunca um jogador saiu daqui sem acertarmos. Talvez por criarmos esse rótulo administrativo, essa transparência administrativa, a gente foi conseguindo comprovar que se pode fazer diferente.
Quando nós tivemos na associação (ECPP) alguma ajuda de empresário, que ajudava ao Primeiro Passo com R$ 50,00 por mês, por exemplo, tudo aquilo era contabilizado e eu prestava contas para todo mês. Nós xerocávamos uma folha de papel, com os nomes de todos os jogadores do projeto, com quanto eles recebiam por mês. Era a maneira que a gente prestava contas para aquela empresa que me patrocinava. O atleta assinava quanto recebia, na frente do nome estava o telefone dele. Caso a pessoa que ajudava quisesse comprovar que a ajuda era mesmo usada para patrocinar os atletas ele podia ligar para saber. Se fossem cem empresas ajudando, eu xerocava cem folhas e ia, pessoalmente, entregar aos empresários, para que eles soubessem onde era gasto o dinheiro. Nós temos até hoje esse acervo guardado. Assim começou, talvez, essa conquista do segmento empresarial. Claro que depois a coisa passou a ser profissional, como tinha que ser, isso foi só no início do projeto. Hoje já temos nossa contabilidade, com tudo organizado.
Quanto à sua pergunta, essa desconfiança é inerente ao ser humano. Sempre existiu a inveja e também a dificuldade de entender, porque outras pessoas tentaram e não conseguiram. Eu não vou dizer a você que fico feliz em escutar que o futebol conquistense se divide em duas etapas, antes e depois do Vitória da Conquista. Isso eu escuto sempre e as pessoas ainda usam meu nome, mas eu prefiro dividir esse crédito com todas as pessoas que me ajudaram – e não foram poucas -, principalmente as pessoas que emprestaram para minha ideia o que a gente tem de mais digno que é o próprio nome. Isso para mim não tem preço. Não digo nem a parte financeira, mas de associar o seu nome a um projeto, uma coisa que, provavelmente, muitos deles nem acreditavam que ia chegar aonde chegou, mas confiaram o nome a uma pessoa que estava chegando, sem nada, apenas com um papel debaixo do braço. Por isso que deu certo.

BLOG – Falando agora de profissionalismo. Me lembro de uma oportunidade, há uns 20 anos, em que um dos times de Conquista estava classificado para o quadrangular final do Baiano, o primeiro jogo seria em Salvador, numa quarta, após a micareta em Conquista. Mas, antes de viajarem, os jogadores podiam ser encontrados na rua, como foliões, e não concentrados. Imagino que essa atitude ainda aconteça em alguns lugares, não sei no Vitória da Conquista. A pergunta é: há uma preocupação com isso na hora de contratar um atleta local, uma preocupação que ele não se acostume às exigências atuais de profissionalismo?
EDERLANE – Tem essa preocupação, mas não só com o atleta local. Essa preocupação é em geral. Esse comportamento é cultural também. Isso vem desde o tempo da caverna, a questão da bebida, da droga, da mulher, da Maria Chuteira, da noite. O jogador de futebol, onde você vê, você sabe quem é; ele chega, ele conhece as marias chuteiras do passado, ele tem um envolvimento muito grande com a cidade, com as festas, as boates. Eu abomino isso, a gente não tolera. Nós temos um regulamento de quase 60 itens, que veta veementemente essa situação de beber em público, por exemplo. Imagine que tem um jogador do Vitória da Conquista aqui neste restaurante (Pietri Pizzeria), bebendo, e chega um empresário e vê, poderá pensar: “O cara está bebendo, não vou botar meu dinheiro num cachaceiro e tal”. Criou-se esse entendimento de que jogador de futebol não pode beber, porque se fosse bom o preparador físico ministrava no cardápio, na rotina do atleta. Então, a gente controla horário, controla refeição, se passar de meia-noite ninguém entra na sede. Temos circuito interno de câmeras, mesmo assim, às vezes chegam uns e tapam o rosto, tentam ludibriar de qualquer maneira essa organização, porque parece que isso já é nato deles. Na verdade, é da condição humana. Só que a gente tenta coibir isso, porque sabemos que eles vão precisar.
Por exemplo, nós vamos fazer agora, em fevereiro, sete jogos. Um time como o Vitória da Conquista, que ainda não tem a estrutura que precisa, não tem departamento médico, nem as condições para recuperar um jogador em dois dias, uma massagem, uma sauna (perde-se um dia para conseguir dar uma massagem em um jogador, porque tem que procurar o cara que vai indicar o outro, que vai indicar), enfim, se você vai fazer sete jogos, com as viagens, os deslocamentos, com a própria dificuldade técnica da competição, considerando as equipes que nós vamos enfrentar, estamos praticamente dando um tiro pro alto. Eu chego a falar para os jogadores para que eles se podem até na parte sexual, porque é um desgaste físico significativo. Hoje se o jogador não estiver bem plenamente, em termos físicos, o jogador não joga. Jogadores talentosos como Ganso, como Alex, estão cada vez mais ficando para trás. Hoje a gente prefere um jogador que corra, que se entregue e para fazer isso é preciso se preservar.
Eu sou bem rigoroso, bem ditador nesse aspecto. Porque o jogador de fora, por exemplo, chega aqui, passa três meses, quatro meses e vai embora. Ele não vai ser solidário ao clube. Se a gente não disputar nada no segundo semestre, o clube pode estacionar ou até acabar e para ele é mais fácil seguir a carreira em outras equipes, por isso essa passagem tem que ser vigiada, tem que ser controlada e cobrada, porque eles não estão aqui por amor ao clube e nem à cidade, estão aqui por um contrato. Os jogadores daqui é que sofrem mais essa pressão, como o Silvinho, o Edmar. Acabam taxados de se vender quando o resultado não é aceito pela torcida. Sílvio mesmo, que é o jogador que está há mais tempo no clube, desde 2006, coitado, é acusado. Tem gente mesmo que me fala: “Pô, Sílvio vendeu o jogo, como é que toma seis do Bahia?”. Quem é daquele time que ainda está aqui? O Fausto não está aqui mais, o Viáfara não está, nem Apodi, nem Mateus Leoni, nem André Beleza Paulo Almeida também não, então eles não sofrem nada, quem ficou aqui é que está sofrendo. Eles vieram aqui por um contrato, acabou o contrato, receberam seus quatro meses e cada um está seguindo a sua vida. O Apodi foi para o próprio Bahia, Mateus Leoni foi para o Caxias, o Ramirez, que estava conosco no ano passado, o Goiás comprou…

BLOG – Quando você monta um time, com jogadores locais, mais humildes, que começaram aqui, e traz cinco ou seis caras que já jogaram em times maiores, que já têm uma carreira mais consolidada, salário bem maior, eventuais regalias, isso não desestabiliza o grupo local? Tem uma diferença de tratamento?
EDERLANE – Não, não tem. Vou concordar apenas em parte, porque quanto ao que se pode fazer, ou todo mundo pode ou ninguém pode. Lá é assim, pode ser Viáfara, pode ser Paulo Almeida, nesse aspecto não tem exceção não. O que pode mudar? Você traz um Viáfara, um Paulo Almeida, um cara que jogou no Santos, na Seleção Brasileira, o outro no Vitória, Atlético Paranaense, o retorno de mídia é muito grande e todo mundo tem que entender que o cara é um ídolo e tem que ganhar um pouquinho a mais, isso é normal, privilégios e exclusividade é que não. E isso é falado para eles: tomem esses jogadores como exemplo, para que vocês também possam, amanhã ou depois, seguir o mesmo padrão financeiro que eles tiveram em outros times. Eles já estiveram lá e estão voltando aqui, muitos dos que ainda não saíram daqui ainda podem trilhar esse mesmo caminho.
Fora a questão salarial, ninguém tem vantagem sobre os demais em outros aspectos. Essa questão do bicho, essa premiação, ela é proporcional. Teve dez jogos, se você jogou nove vai receber por nove. Teve um bicho, por exemplo, pela conquista do vice-campeonato, por terem levado o time à Copa do Brasil e à Copa do Nordeste. O Paulo Almeida mesmo criou o maior tumulto, porque ele jogou acho que só dois jogos e queria que dividisse o bicho em partes iguais, quando, na verdade, e isso é cultural no futebol, essa divisão tem que ser proporcional. E ele teve um monte de atrito, inclusive com jogadores, porque não quis entender que aqui também funciona nesse sistema.

BLOG – E a atual equipe tem um medalhão? Dos jogadores que você trouxe tem alguém que lhe dê uma segurança para a Copa do Brasil e Copa do Nordeste?
EDERLANE – Acho que posso destacar o Arthur, que jogou aqui em 2007 e 2008, saiu, foi campeão da Copa do Brasil pelo Palmeiras; foi vice-campeão, pela Ponte Preta, na Sul-americana, que é um torneio internacional; esteve no América Mineiro no ano passado e mais recentemente no Figueirense, no Campeonato Brasileiro. Mas alguém pode perguntar: “Mas, ah, por que veio para cá?”. Um jogador de 32 anos, que vai descendo a ladeira, isso é natural, para jogar em time de Série A, mas que ainda tem muita coisa para dar em times emergentes, em crescimento, como o nosso.

BLOG – Essa volta também serve como um segundo impulso, porque, dependendo do desempenho do jogador e do time ele pode voltar aos grandes centros…
EDERLANE – Ele pode voltar e é isso o que ele quer. Ele citou até o exemplo do Ramirez, que estava aqui e voltou a fazer um bom contrato. O Ramirez eu trouxe do Espírito Santo, de um time chamado Real Noroeste, pequeno, que não está em divisão nenhuma do Brasil. Ele fez uma boa campanha lá, nós identificamos, trouxemos, ele disputou a Copa do Nordeste aqui e o Goiás comprou. O Goiás caiu, ele vai jogar a Série B, mas poderia estar na Série A, olha só o salto que deu. O Apodi veio de Tocantinópolis, fez um bom Baiano aqui e o Bahia levou. Não deu sequência, mas já foi para o Santo André. Mateus Leoni, foi para o Caxias e agora está no Luverdense. Raul, lateral esquerdo que esteve aqui, o Bahia contratou. Kleber que saiu daqui e o São Caetano comprou, na época. Rafael Granja o Vitória comprou. O Tatu, o São Caetano comprou em 2008. Então, é assim, os jogadores que passaram por aqui tiveram um impulso muito grande nas suas carreiras por conta da campanha que nós fizemos. Não adianta passar por aqui e a campanha ser ruim, porque ninguém vai aparecer.

BLOG – Embora você tenha 15 anos em Vitória da Conquista, mas, pela sua especialidade e pela condição de um dirigente esportivo atualmente, deve ter estudado a história do futebol no município. Pelo que você conhece, o futebol conquistense tem um nível equiparado ao que havia antes, nos tempos de Zó, Kel, Pena, Herbert, Claudir, Tidão, etc.?
EDERLANE – Em alguns aspectos evoluiu, claro. Hoje nós temos a informação num click. Mas, a gente tem que voltar lá atrás, no apoio do poder público ao esporte amador. Não existe mais uma renovação no futebol de Conquista. Nós temos hoje primeira e segunda divisões no futebol municipal, mas que não se renovam. Poderia ser estipulado limite de idade, porque são sempre os mesmos jogadores. Além disso, nós não disputamos, há seis ou sete anos o Campeonato Intermunicipal. Eu não coloco a participação do ano passado, porque foi da iniciativa privada. O Intermunicipal é um celeiro de revelação de jogadores. São 120 seleções, no ano passado se não me engano foram 60, disputando um campeonato belíssimo que revela muita gente boa. Bobô, por exemplo, saiu de um campeonato intermunicipal, a mesma coisa nosso Djalminha… Milhões, se a gente for falar. O que é que a Federação Baiana de Futebol faz? Quando acaba o Intermunicipal – e eles têm vários observadores, inclusive os próprios árbitros – é repassada aos times profissionais uma lista dos destaques do campeonato, de todos, com contatos, com a secretaria de Esporte da cidade, com o responsável, um trabalho muito bem elaborado, e Vitória da Conquista não está na relação. Como você vai revelar um jogador em Vitória da Conquista?
O Intermunicipal depende das prefeituras. As seleções participam com apoio das prefeituras. Nós tivemos aqui o ano passado, foi até uma coisa política, se não me engano, vou citar o nome aqui, foi Herzem Gusmão que tentou colocar uma seleção, através da iniciativa privada. Nós chegamos até a emprestar alguns jogadores da base para a disputa dessa competição, nós e o Serrano, mas aconteceu sem treinamento, sem condições, sem o jogador estar recebendo. E existe seleção de Intermunicipal que paga até melhor do que time profissional e não são poucas. Então, com isso você passa por uma renovação. Se você for fazer uma seleção aqui hoje você não tem nem quem convocar, porque são sempre os mesmos jogadores. E olhe que Vitória da Conquista é bi-campeã do Intermunicipal.
Em resumo: primeiro você não tem estrutura, segundo não tem renovação. A qualidade eu acho que até tem. Na zona rural, por exemplo, tem vários campeonatos. Mas se você pega um jogador da zona rural para você botar no profissional, esse tempo de transição que o jogador vai precisar para amadurecimento, evolução técnica, tudo, seria prejudicial. O que seria o ideal? O ideal seria esse da zona rural ou esse mais novinho participar de uma seleção de Intermunicipal, que é um torneio disputadíssimo, interessantíssimo, para daí nós trazermos para o profissional. O Arthur é um exemplo vivo do que eu estou falando. Ele chegou aqui em 2007, com 22 anos, sem passar por nenhuma categoria de base, veio da seleção de Irecê, fazer teste, foi aprovado, foi titular em 2007 e 2008 todinho e veja onde chegou: campeão da Copa do Brasil pelo Palmeiras e vice-campeão Sul-americano pela Ponte Preta. Um jogador que veio fazer teste aos 22 anos de idade. Rafael Granja se profissionalizou também com 22 anos, até essa idade ele era amador, porque não tinha horizonte, não tinha times profissionais para ele jogar e quando veio para Vitória da Conquista, ele e Edmar, se profissionalizou. Outro, esse daqui, Kleber, com 26 anos, trabalhava no Bleza, da Urbis VI. Nada contra quem trabalha em supermercado, mas é para mostrar uma realidade. Kleber se profissionalizou no futebol aos 26 anos, subiu com o Criciúma para a Série A, depois América Mineiro, São Caetano, São Bernardo, Paraná Club… Assim como ele, como Rafael Granja, como Arthur, devem ter milhares de jogadores por Vitória da Conquista, mas como você vai buscar se não tem como ou onde ver?

BLOG – Qual é o maior e qual o menor salário no Vitória da Conquista, entre os jogadores?
EDERLANE – Na história do clube o maior salário nós pagamos em 2008. Chegamos a pagar R$ 15 mil para um jogador. Em 2008, que era um absurdo. Em 2012 ele quis vir por R$ 5 mil e já não contratei, porque achei que estava muito. Em, 2008, nós tínhamos vendido alguns jogadores, investimos no CT e fizemos um time muito bom para a Série C, da qual só ficamos de fora por um gol. Foi uma campanha muito boa naquele ano, 21 jogos e apenas duas derrotas. Hoje, no Vitória da Conquista, o menor salário é um salário-mínimo, ainda tem jogador ganhando salário-mínimo, jogadores que estão saindo da base, e o maior é de R$ 10 mil. Devemos ter uns três ou quatro ganhando esse valor, mas oscila: 10, 8, 7, 6…

BLOG – É aquela velha história: você vai jogar contra o Palmeiras e tem um jogador deles que ganha por mês o que você paga a todo o seu time por um ano…
EDERLANE – Você foi longe. Souza, aqui no Bahia, ganhava R$ 300 mil reais, minha folha todinha hoje é R$ 180 mil.

BLOG – O futebol conquistense já trouxe alguns grandes jogadores nacionais em fim de carreira, com salários bem mais altos que esses que você fala, como Eder, Polozzi, Adílio. Pelo retorno de mídia ou pela experiência, você faria um investimento assim?
EDERLANE – Não, eu não faria. Até me falam isso: traz um nome para levar o torcedor ao estádio. Mas aí eu pergunto: em 2008 nós batemos recorde de bilheteria e quem era o nome do Vitória da Conquista? Não tinha esse nome. Era Tatu, era Sílvio, Edmar, Rafael Granja , todo mundo aqui de Conquista. O que leva o torcedor ao estádio é a campanha. O ano passado eu trouxe Viáfara, mas ele se adequou a nossa realidade e veio ganhando até menos do que alguns jogadores do clube. Eu tenho uma organização financeira pontual e prática. Tenho R$ 100 mil não posso trazer um jogador ganhando R$ 60 mil. Um jogador só não vai resolver meu problema. Ah, vai levar torcedor em campo? Eu prefiro apostar no resultado. O ano passado, por exemplo, só tinha Viáfara e não era um jogador assim tão conhecido, e chegamos a uma final de campeonato invictos, com onze jogos sem perder, praticamente com o título de campeão na mão.
Hoje um jogador que tenha nome não vai querer vir jogar em Conquista, vai querer jogar em times que vão lhe proporcionar conforto, bem-estar, não viria para uma estrutura como a do Vitória da Conquista. E eu não faria esse tipo de investimento, porque o Vitória da Conquista já é uma empresa e eu não posso trazer um jogador aqui por ele ser conhecido e comprometer nossa capacidade financeira. Cheguei a pensar em trazer Edmundo, em 2008. Ele pediu R$ 3 milhões. Já pediu para não vir. Queria carro, passagem aérea semanal ida e volta para o Rio. Nem se eu tivesse condições eu faria uma loucura dessas. Eu ia trazer Túlio Maravilha. Nós oferecemos R$ 100 mil a Túlio para um jogo, quando nós íamos jogar contra o Sport Recife na Copa do Brasil. Seria uma jogada de marketing, ele estava buscando o milésimo gol e viria fazer só esse jogo. Não era uma proposta para ele ficar aqui porque sabíamos que ele não ia conseguir jogar um campeonato competitivo, por mais jogador que ele tenha sido. Chegamos até a depositar um sinal para ele, mas, na última hora o Botafogo não liberou, porque havia um contrato de que ele teria que fazer o milésimo gol pelo Botafogo. Ele foi até muito ético e profissional, devolveu o sinal. Seria a última loucura que eu iria fazer, mas pensando no retorno de marketing. Para trazer um jogador para disputar uma competição, hoje, eu não vejo nomes disponíveis, se tiver não vai estar aguentando jogar e se estivesse jogando, se fosse me dar um retorno de produção em campo ele estaria num time maior, não estaria solto.

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0 comentário em “Ederlane Amorim, o dirigente apaixonado que briga pelo Vitória da Conquista porque quer vê-lo em Dubai

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