Ponto & contraponto: Você vai pra rua neste domingo? Por quê?

Posted on sábado, 12 março 2016

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O racha nacional está claro. As redes sociais mostraram na última semana que o Brasil está, definitivamente, dividido. De um lado adversários do PT, partido que está no poder nacional há pouco mais de 13 anos, e do outro os defensores do projeto que tem à frente o ex-presidente Lula. A crise política se acentuou com a condução coercitiva (à força) de Lula na semana passada. O evento, dentro da Operação Lava Jato, tanto estimulou os que querem o PT fora do poder, como a militância petista e os movimentos de esquerda, que reagiram e prometeram que também vão às ruas para impedir o que chamam de golpe. Os que querem a prisão de Lula e o afastamento da presidente Dilma vão para a rua neste domingo. Em Conquista terá até Pixuleco.

O BLOG pediu a dois defensores destacados de cada ponto de vista que escrevessem sobre as suas razões para ir e para não ir para rua neste domingo. O empresário e pré-candidato a vereador Ivan Cordeiro (PSDB) e o jornalista e secretário de Comunicação da Prefeitura de Conquista, Ernesto Marques (PT).

Ivan vai pra rua. Ernesto não. A seguir, os dois falam de suas razões. É a estreia da coluna Ponto & Contraponto no BLOG, que trará, uma vez por semana, dois pensamentos diferentes sobre o mesmo tema, abordando assuntos que estejam na agenda política e social de Vitória da Conquista. É nossa contribuição ao debate, neste ano de eleições, quando é muito importante termos ajuda para pensar. Aproveite.

PORQUE EU VOU

Ivan Cordeiro

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Parece que chegou ao fim a capacidade do PT de iludir o povo para se manter no poder. Em vez de se defenderem do que estão sendo efetivamente acusados, Dilma e Lula lutam para desviar o foco de todo o lamaçal em que estão submetidos. Por isso, o Dia 13 se constitui em mais um divisor de águas da história nacional.

Está evidente que Dilma feriu o artigo 85 da Constituição, segundo o qual é crime de responsabilidade atentar contra a lei orçamentária e contra a probidade administrativa, assim como, violou a Lei de Responsabilidade Fiscal e a Lei 1.079/50. O pedido de impeachment é apenas mais uma das várias razões que conduzirá o povo na rua no dia 13.

O ex-presidente Lula debochou da justiça e da nação brasileira. Chegou a hora de dar um basta no modelo corrupto de governar o país. Como bem afirmou o ministro do Supremo, Gilmar Mendes, o Partido dos Trabalhadores instalou um modelo de governança corrupta, definido pelo próprio ministro de “cleptocracia”, que significa estado governado por ladrões.

O Dia 13 valerá por muitos anos, servirá para mostrar ao país que a corrupção pode até continuar existindo, mas, a impunidade não. Os brasileiros precisam entender de uma vez por todas que o crime não compensa, seja ele qual for.

Então, fica assim, amanhã, ou você vai, ou ela fica!

PORQUE NÃO VOU

ERNESTO MARQUES

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Preliminarmente, quero dizer do meu profundo respeito por quem, com justíssimas razões, se indigna e levanta a voz contra a corrupção. A manipulação grotesca dos fatos lança uma densa bruma e turva a visão de um lado e outro em confronto, como se fossemos antagônicos. Na verdade, a imensa maioria dos que se opõem neste debate eivado de hipocrisia, sempre esteve do mesmo lado – ainda que uns não reconheçam, ou relutem em admitir.

A corrupção, para nossa desgraça, está na gênese do Estado brasileiro, fundado sob os marcos do não menos ladrão Estado lusitano. Se não quiserem admitir que a corrupção chegou a Pindorama em 1500, junto com Cabral, a História nos revela a farra da construção de Salvador. O jornalista e pretenso historiador gaúcho Eduardo Bueno, conta em divertida prosa, em seu livro “A coroa, a cruz e a espada”, toda sorte de ladroagem perpetrada por Sua Majestade e os nada nobres construtores da primeira capital do Brasil: favorecimento, superfaturamento… Já ouviram falar nisso?

Ou, se quiserem outro marco histórico, revisitem a fuga da família real, em 1808, acossada por Napoleão. Os brasileiros foram expulsos das casas marcadas com a inscrição PR e o nosso bom humor já naquelas priscas eras brincava com as adversidades: oficialmente, aquelas duas letras significavam “propriedade do rei”, mas, desde então, acostumamo-nos a rir da nossa desgraça e os nossos antepassados, roubados pela elite da época, bem traduziam como “propriedade roubada”.

A sociedade brasileira encontra-se dividida como séculos atrás, entre os seculares beneficiários das piores tradições do nosso Estado burguês, patrimonialista e corrupto por natureza, e os “de baixo”. Em pouco mais de cinco séculos de Brasil, tudo que vem da mais legítima matriz popular, primeiro é achincalhado, ridicularizado e marginalizado. E quando a nossa beleza e criatividade genuína suplantam a violência atávica da herança escravocrata, com o mesmo atavismo ladrão, usurpam – ou tentam usurpar – o que de melhor essa matriz produz.

A casa-grande sempre se deleitou com o que havia de melhor na senzala, mas nunca economizou açoites. Os senhores sempre violentaram as negras, e não apenas sexualmente. E por mais repugnância que nutrissem das coisas de lá, amamentaram seus filhos com os peitos pretos, iniciavam seus varões no sexo e na violência com a carne indefesa das pretas enquanto os grilhões eram a lei. E, vergonha nacional, quando enfim abolimos a escravidão que já não mais existia em parte alguma do mundo, este nosso Estado ladrão indenizou os senhores donos de escravos, e não aqueles que foram trazidos à força da África.

A capoeira era coisa de vagabundo, e hoje é marca do Brasil reverenciada mundo afora. A música popular, a culinária e tantas formas genuínas de expressão dessa matriz mestiça, experimentaram primeiro a perseguição violenta e depois tiveram que conviver com as mais cínicas e deslavadas tentativas de apropriação pela casa-grande. Sempre foi assim.

Sou homem e socialmente branco. Mesmo lutando contra o racismo e o machismo, não posso ignorar que esta condição sempre me beneficiou. Mas, trineto de uma índia cariri que se prostituiu para não ser exterminada como seus irmãos, sei bem de onde venho, e é por isso que não vou. Sinto-me obrigado a vingar cada vez que aquela mulher teve que deitar com um homem branco por alguns mil réis que lhe aplacassem a fome.

A cruzada manipuladora e hipócrita de agora tem a mesma gênese do lacerdismo que levou o fundador da Petrobras ao suicídio. Getúlio Vargas, quando ditador, criou a CLT, instituiu o salário mínimo e o voto feminino. Reconduzido à Presidência da República pelo voto popular, atiçou a ira dos herdeiros das capitanias hereditárias, sequiosos por viver em vassalagem, primeiro da coroa portuguesa, depois da britânica e depois ao império norte-americano, especialista em derrubar governos e extinguir democracias.

Essa mesma cruzada falso-moralista, em nome de Deus (que pecado!), da família (que família, cara pálida?) e da propriedade (em muitos casos, sim, um roubo, como bem disse Proudhon), levou o Brasil a 21 anos de uma ditadura canalha, covarde e entreguista. Agora que a competência brasileira nos coloca diante de alguns trilhões de barris de petróleo guardados onde somente nós, brasileiros, sabemos buscar, querem nos convencer de novo daquele papo furado de mar de lama.

Parvos, como o promotor Conserino, preguiçoso que não lê e nem sequer recorre ao Google, embusteiros, como o Torquemada das araucárias, fazem de tudo para impedir que a primeira mulher eleita presidenta conclua um mandato legítimo. E não só: querem transformar em bandido, o maior líder popular da nossa história. Transformam instituições de Estado em instrumentos de dominação para continuar vampirizando e concentrando nossas riquezas. Lula, como tudo que vem do povo e ganha brilho, se a casa grande não usurpa, deprecia e criminaliza. É por isso que eu não vou. Porque sei de onde venho e sei muito bem qual é a terra que me levará ao encontro dos meus antepassados.

Sou jornalista e estou vice-presidente da Associação Bahiana de Imprensa, mas a pitada corporativista que há em mim, não me turva a visão diante do desserviço que muitos colegas e seus patrões estão prestando ao País. Finalizo citando um grande líder negro, Malcom X: “Se você não for cuidadoso, a imprensa fará você odiar os oprimidos e amar os opressores”. Não alimento ódios, mas oponho-me a quem se associa a traficantes que transportam cocaína em helicóptero com piloto e combustível pagos com dinheiro público; oponho-me a quem renega filhos “naturais”, como faziam os senhores de escravos; oponho-me a quem, comprovada e irrefutavelmente comprou votos parlamentares para instituir a reeleição; combato os responsáveis pela privataria lesa-pátria; combato os entreguistas dispostos a qualquer coisa para repassar o pré-sal que pode nos redimir da condição de subalternos.

É por isso que eu não vou neste domingo. E é por isso que irei a tantas manifestações quantas puder estar ao lado dos que defendem a soberania nacional, o Estado Democrático de Direito, os direitos humanos e o patrimônio do povo brasileiro.