Do Facebook sem guerra entre petralhas e coxinhas. Uma vitória da sensibilidade humana.

Posted on sábado, 9 abril 2016

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As redes sociais estão tomadas de baboseiras e de ódio. Vê-se muito por lá, em especial no Facebook, uma carga infindável de lero lero, exposição de vaidades; a piada com o ser humano – em destaque mulheres consideradas gordas, muito magras ou feias -, o abuso de imagens bizarras de tragédias, mortes, assassinatos e semelhante – aquelas imagens ricas em detalhes que expõem as tripas e a dor de um criminoso esvaindo-se em sangue e chorando à aproximação da morte, enquanto a “plateia” comemora e ri no cordão à sua volta, smartphones na mão, filmando a agonia daquele que vai ser “bom” no primeiro instante após o último suspiro.

E, ultimamente, a guerra. Resultado de ações altamente contestáveis dos políticos por anos e anos, fruto de uma campanha eleitoral raivosa, carregada de preconceitos e estímulo aos tais, o Brasil descambou para uma “guerra fria da política”. Em defesa de um ou de outro lado; no questionamento ou na justificação de uma condução coercitiva ou do impeachment; ou na tentativa de esconder as contas no exterior, o helicóptero da cocaína, o roubo da merenda, o rombo do metrô, os desvios do PAC, os esquemas da Petrobras, a fraude das eleições, milhões de pessoas se atacam, molestam relacionamentos, estragam convivências. E o debate começou importante, virou chato e agora virou preocupante.

Chego a pensar que o Facebook sinaliza um Brasil sem jeito. Não há votação de impeachment que o salve, tampouco anulação da eleição e convocação de outra. O Brasil está cindido. Há um profundo corte na nossa emoção, no nosso corpo de fé e quando isso parecer ter passado, nossas cicatrizes vão nos lembrar que não curamos. Queloides e sequelas nos marcarão por muito tempo. Uma coisa que dá medo. Um dia desses li postagem de uma amiga, em que ela, psicóloga, estudiosa de comportamentos, disse que tinha medo de tudo o que estava vendo. E sabem os leitores que depois de Regina Duarte ter dito que tinha medo, na campanha de José Serra, em 2002, ficou quase proibido a alguém com amigos à esquerda dizer que tem medo, quando se trata de política.

Mas, eu estou com medo. Não estou com medo de uma guerra civil, que ela encerraria em si uma solução, tenho medo de que isso perdure de tal forma que o um país inteiro perca para um mosquito ou que esse estrago que vislumbro cada vez maior aumente a vulnerabilidade de quem já tem muito pouca segurança. Temo que a desconfiança passe a ser a marca do outrora cortês, hospitaleiro e pacífico brasileiro. Mas, meu temor não me impõe a falta de esperança. Não fantasio, mas ainda acredito no ser humano, na sensibilidade que se expõe aqui e ali e que, na soma, me conforta.

Isso tudo escrito a propósito de introduzir uma história que apreciei esta semana no Facebook e que já comentei lá no meu perfil. Dei um título – Da utilização das redes sociais como instrumento para a solidariedade e escrevi: “Essa moça, Renatta, postou uma história comovente sobre um casal forte – e seu filhinho tanto quanto – que precisava de ajuda enquanto procurava emprego na cidade. A reação ao post de Renatta no Facebook gerou várias dezenas de compartilhamentos e muita gente se dispôs a ajudar. A ajuda veio. Que legal, Renatta! Que legal, pessoal, ver que as redes sociais não servem só a futricas e guerras partidárias ideológicas, a maior parte conveniente“.

Leia a postagem original, para entender melhor a que compartilho agora (mantenho a forma como a autora escreveu a nota):

ontem conheci uma família que veio de Minas para Vitória da Conquista pra tentar uma vida melhor e não estão conseguindo emprego. eles moram próximo ao aeroporto e foram andando até o distrito industrial para distribuir 5 currículos. o marido, a esposa grávida de 8 meses e um filhinho de menos de 2 anos – super feliz e bem cuidado, acreditem!
a questão é, ela disse que dorme em um colchão de casal com toda a família, mas que precisa muito de um berço pra colocar o neném que vai nascer. alguém tem um berço que não usa mais pra fazer essa doação? eu me comprometo a buscar e levar pra ela”.

 

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Esta é Renata. Espero que ela não se zangue porque roubei a foto mais bonita do perfil dela no Facebook.

Renatta postou o episódio da família necessitada e o apelo para que seus amigos a ajudassem a ajudar os três (quatro, porque há outro filho na barriga) na sexta, às 9h05. Menos de 24 horas ela estava comemorando a resposta recebida. O ser humano se manifestou. E foi muito bonito. Ela postou hoje pela manhã: “a boa notícia é que eu pedi só o berço e a família já ganhou o berço, o colchão, uma cama de casal, uma de solteiro, lençol, roupas pro bebê, banheira, fraldas,roupinhas, mamadeira e um monte de outras coisas.
a boa notícia é que tem tantas doações que eu não vou dar conta de buscar tudo e que eu não paro de receber mensagens de gente querendo ajudar, inclusive em outras cidades.
a boa notícia é que, se a gente acreditar que os bons são a maioria, esse mundo ainda vai ter jeito.
MUITO obrigada a todos! 🙏🏼

Eu acho que esse seria um tipo de desafio a ser feito no Facebook, além daqueles de postar fotos de situações vividas, da maternidade ou de paisagens lindas. O desafio poderia ser identificar casos de pessoas que, apesar dos programas de proteção social levados a efeito pelos governos, ainda passam por necessidade, não necessariamente fome ou falta de abrigo, mas,  também, por exemplo, falta de trabalho para se sustentar ou a dificuldade para um tratamento médico ou exame pelo qual longamente esperam – e sei que há quem espere assim. O desafio seria em duas etapas e se completaria com o encaminhamento da solução, ainda que parcial – porque há os que se recusam a dar alguma ajuda “pequena” argumentando que é paliativo e não adianta nada. Adianta. Quem já sentiu fome e ganhou um pão, sabe do que falo.

Que tal? Se não der para o desafio, pelo menos a gente pode dar mais um tempinho a outro assunto que não a “briga política”? Renatta não é um exemplo melhor do que esse pessoal todo de Brasília pelo qual estamos brigando há um tempão?