Conquista: Escaramuças, vices, vaidades, falta de timing… O que mais atrapalha virada de Zé Raimundo?

Posted on segunda-feira, 25 julho 2016

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Quando o diretório do PT de Vitória da Conquista anunciou que não haveria mais prévia para escolher o candidato a prefeito do partido, pois os demais quatro postulantes* abriram mão para apoiar o deputado Zé Raimundo Fontes, ouviu-se que, finalmente, aconteceria uma reação positiva e o eleitorado manifestaria isso nas pesquisas de opinião. O candidato do PT e do governo municipal sairia da poça em que patinava, bem abaixo das intenções de voto auferidas por Herzem Gusmão (PMDB), e passaria a navegar em um rio de águas tranquilas.

A definição pelo nome de Zé Raimundo foi tomada, oficialmente, no dia 23 de março deste ano, há quatro meses. Entretanto, apesar da fé inicial, desde então, a candidatura do deputado e ex-prefeito não saiu do lugar nas pesquisas. E ninguém, em sã consciência, pode dizer que isso ocorre porque Zé Raimundo é um candidato ruim, pois foi um excelente prefeito e pessoalmente é muito respeitado e querido. Mas, entre outras razões, abaixo listadas, engolfado pelo embate nacional, Lava Jato, impeachment e que tais, o PT apenas se arrastou no primeiro semestre deste ano, no quesito pré-campanha eleitoral.

Zé e Abel

Zé Raimundo e Abel Rebouças, uma chapa forte. Mas, será que se confirma?

Não bastassem o rescaldo do incêndio de Brasília, o PT ficou meses fazendo a corte ao PSB e ao PCdoB, que lhe estendiam as certidões de divórcio, nas quais o partido de Zé Raimundo não queria acreditar. Depois veio o esforço para manter o PTB e Irma Lemos “pendurados” na abalada Frente Conquista Popular que elegeu Guilherme em 2012. Esforço debalde. E o partido está até agora sem saber como vai ser a chapa. O que pode estar atrasando ainda mais a reação mencionada no primeiro parágrafo. O senador Otto Alencar veio a Conquista na semana passada, para um evento de menor importância, mas com o fim claro de dar o recado: o PSD tem tamanho para estar na chapa majoritária e apresentou os nomes, por ordem alfabética: Abel Rebouças, Clóvis Ferraz e Gilzete Moreira. O presidente do PSD não falou, mas ainda tem o médico Valverde Mont’Alverne. O PT não gosta de ninguém da lista de Otto.

Nas esquinas e nos blogs fala-se que o prefeito Guilherme Menezes quer emplacar a sua ex-secretária de Saúde, Márcia Viviane. Mas, assessores próximos negam qualquer imposição de Guilherme e tem gente apostando que a escolha recairá em Abel. O problema é que Abel já teria dito que não topa. Eu duvido, mas me disseram. Abel é um excelente nome e pode ser a tábua de jangada que Zé Raimundo precisa para navegar com mais segurança (e um pouquinho mais rápido) no rio caudaloso e cheio de jacarés da eleição deste ano. Abel teve 11.344 votos em 2012, em uma disputa que tinha o próprio Guilherme Menezes, maior liderança da política local, e Herzem Gusmão, que lhe segue na popularidade. Ou seja, Abel tem voto. Mas, ele e o grupo do deputado Waldenor Pereira, Zé Raimundo incluído, ainda sofrem sequelas de escaramuças na UESB, onde Abel venceu o candidato de Waldenor e tornou-se reitor em 2002, derrotando o candidato apoiado pelo PT.

A julgar pelo lento deslizar da jangada, o vice de Zé Raimundo só vai ser conhecido no dia da convenção e pode ser do mesmo PT que ele, a chamada chapa puro-sangue. E aí, Zé Raimundo e o PT, que parecem não ter pressa, terão apenas cerca de dois meses para consolidar a chapa e buscar os números que podem lhe dar a segurança de presença no segundo turno – se acontecer o segundo turno, aliás. Tem gente no PT que já se acomodou ao ritmo, mas ainda acredita que a virada é possível, porque “Zé tem carisma e se Guilherme entrar de cabeça na campanha desequilibra”. E há os que não se acomodaram, mas se queixam de que, “mais do que Zé, falta é Guilherme entrar de vez na campanha”. O fato é que, no caso da escolha do ou da vice, predominam as versões e a articulação encastelada do PT. E quer admitam ou não, os caciques do PT ou confiaram excessivamente em seu baú de votos ou não perceberam o prejuízo da guerra fria que mantiveram por mais de três anos. Tempo em que nem Zé Raimundo chegava perto das coisas da administração municipal (eventos, inaugurações, méritos ou ônus) nem a administração municipal fazia qualquer questão de abraçar Zé Raimundo. Havia outros planos.

Hoje, abraçam-se em meio a uma correnteza de incertezas, em um esforço grandioso (e quase desesperado) para não se afogarem. Contados nos dedos o deputado José Raimundo Fontes, pré-candidato a prefeito pelo PT, esteve em sete eventos do governo municipal do PT, desde janeiro de 2013. Fez isso nos últimos dois meses, por força de um entendimento entre ele, Waldenor e Guilherme, que estavam afastados por todo aquele tempo. Numa linguagem infantil: estavam de mal. Ficaram de bem, mas não tiveram tempo de dividir os brinquedos. Anote-se que numa alternativa de marketing procurando visibilidade e contato popular, o PT apela para o chamado PGP, de cujas reuniões o prefeito Guilherme Menezes ainda não foi à metade. Aparenta que, como no caso de Abel, embora tenham cessados as escaramuças no seio petista, ficaram as cicatrizes.

Para a sorte deles e do PT, o menino birrento da vizinhança, que gosta de brincar de rádio, também ficou de mal de uns colegas da escola que se sentam na fila da direita.

 

* Márcio Matos, Marcelo Neves, Odir Freire e Waldenor Pereira