A síndrome do pavão pretensioso

Posted on terça-feira, 25 outubro 2016

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Ernesto Marques é jornalista, radialista e secretário de Comunicação da Prefeitura de Vitória da Conquista

Por Ernesto Marques

Depois de um longo e tenebroso período da ditadura que se sucedeu ao golpe civil-militar de 1964, o povo brasileiro finalmente reconquistava em 1985 o direito de escolher os prefeitos das capitais pelo voto direto. O segundo turno só seria instituído em 1988, com a promulgação da Constituição Cidadã que o governo golpista de hoje joga no lixo com a PEC 241. Bastava, portanto, um único voto à frente do segundo colocado para vencer. E já naquela época as pesquisas de intenção de voto eram bom combustível para debates, fofocas e resenhas políticas.

Naquele 1985, em São Paulo, as pesquisas davam como certa a vitória do então senador Fernando Henrique Cardoso, que disputava pelo PMDB. Em segundo lugar pontuava o excêntrico ex-presidente Jânio Quadros (PTB) e bem atrás dele o petista Eduardo Suplicy. Traído pelos pecados capitais da soberba e da vaidade, Fernando Henrique cometeu o grave pecado antidemocrático de tratar pesquisa como urna.

Ainda com poucos cabelos grisalhos e um bem cortado blazer branco, cantou vitória antes da hora e, no dia 14 de novembro, véspera da eleição, chamou a imprensa para o gabinete do então prefeito biônico (nomeado pelos militares) Mário Covas. Posou garboso para fotos, com ares de grande monarca moderno, de pernas cruzadas, sentado na ambicionada cadeira de prefeito da maior metrópole brasileira.

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FHC sentou-se antecipadamente na cadeira que Jânio Quadros depois limpou

No dia seguinte, as urnas lhe puxaram a cadeira e, depois da queda, o eleito Jânio Quadros deu um coice histórico, eternizado em imagens no dia da posse. Como fez FHC, levou a imprensa ao gabinete e, antes de sentar-se, aplicou inseticida na cadeira de prefeito: “gostaria que os senhores testemunhassem que estou desinfetando esta poltrona porque nádegas indevidas a usaram, porque o senhor Henrique Cardoso nunca teria o direito de sentar-se cá e o fez, de forma abusiva. Por isso desinfeto a poltrona”.

Nestas eleições em Vitória da Conquista, um candidato cantou vitória em primeiro turno com base em pesquisas, como fez FHC. Na onda da terceirização de Cunha e Temer, por que ir às urnas, se algum instituto de pesquisa antecipa o eleito? Não precisa de TRE nem de juízes, basta algum instituto e profissionais de estatística. Mas, o eleitorado conquistense quis mais debates e, como em 2012, determinou um segundo turno.

E, novamente, a divulgação das sondagens acerca da vontade popular é usada para passar a ideia de fato consumado com a pregação aberta em favor do chamado voto útil. “E eu sou de perder voto? Esse aí já tá eleito”, diz uma peça de propaganda eleitoral do candidato “pocado”.

Além de usar indevidamente uma concessão de serviço público, transformando uma emissora de rádio em palanque eleitoral permanente, o candidato 24 horas há 8 anos usa também indevidamente a propaganda eleitoral gratuita para desqualificar o processo democrático. Vende a ideia do voto útil na tentativa de influenciar o eleitorado ainda indeciso e estancar a sangria de votos que se revertem em favor do seu adversário, o professor José Raimundo Fontes (PT). Aliás, desde a revelação das conversas do senador Romero Jucá, um dos ministros mais breves da história republicana, estancar sangria virou uma obsessão peemedebista…

Hérzem Gusmão não cometeu o pecado de FHC porque somente adentrará o gabinete do prefeito de Vitória da Conquista se a cidade assim quiser. Qualquer aproximação física com o atual prefeito faz a adrenalina correr farta em seu sangue e isso se vê no gogó subindo e descendo, como no debate do segundo turno de 2012.

No próximo dia 28, quando os dois candidatos se enfrentarão pela última vez antes da eleição, a cena poderá se repetir. É a síndrome do pavão pretensioso, traído pela vaidade e pelo arrivismo.