EXCLUSIVO: Guilherme avalia eleição, defende o governo e o PT e fala do futuro, incluindo gestão de Herzem e candidatura em 2018

Posted on sexta-feira, 11 novembro 2016

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É provável que o prefeito Guilherme Menezes dê outras entrevistas antes de deixar o mandato, em 31 de dezembro, mas acho que, dificilmente ele dirá mais do que me disse em conversa que tivemos em seu gabinete na segunda-feira, 7 de novembro de 2016, pela manhã. Espero que não seja a minha última entrevista com Guilherme, que é um personagem interessante, culto, capaz de dar a cada fala sua sobre questões locais o suporte de citações de filósofos e pensadores de todos os séculos. Mostra-se um leitor voraz. Esta característica faz a conversa mais agradável, extrapolando a condição de entrevista. Pena que aqueles que o combatem política, por razões ideológicas ou disputa de poder não possam – não queira, na verdade – usufruir de um bom papo com o prefeito de Vitória da Conquista. Embora, eu tenho que dizer que a agenda dele atrapalha um pouco. Quem sabe a partir de janeiro ele tope fazer palestras, rodas de conversa, sobre assuntos que não seja a política partidária, a defesa do PT, por exemplo. Quem sabe?

Cheguei à recepção do gabinete 10 minutos antes do horário marcado com a intermediação do secretário de Comunicação, meu amigo, Ernesto Marques. Entre no gabinete do prefeito às 9h10. Eu e o jornalista Ailton Fernandes, jornalista da Secom e autor do excelente blog Conversa de Balcão. Formalidades e informalidades preliminares depois, eu disse a Guilherme que minha intenção não era pressioná-lo a me ajudar a vender o BLOG, não era gerar manchete de impacto, e que algumas perguntas poderiam ser iguais a outras que já fiz, mas que poderiam ter outras respostas, por ser um outro tempo, após uma eleição em que ele não fez o sucessor e a eleição foi perdida para um candidato que era mais adversário do prefeito do que do candidato do seu partido.

HOUVE FALHAS E ACERTOS, MAS ACOMODAÇÃO NÃO

Eu quis logo saber como Guilherme reagiu sabendo que políticos do partido dele e parte da mídia atribuíam a ele a derrota de José Raimundo. Ele respondeu que não sabia que estavam dizendo isso. Não teria sido informado de que o vereador petista Florisvaldo Bittencourt foi um dos que jogaram o insucesso do PT no colo dele, para usar uma expressão usada pelos blogs. Até o candidato do PT, José Raimundo, deixou essa culpa no ar ao dizer em uma entrevista de rádio que só estava tomando conhecimento das obras da prefeitura agora. Guilherme faria um mea culpa, admitiria responsabilidade na derrota? Ela teria como causa o comodismo da administração a que se referiu o candidato petista no primeiro programa de TV da campanha no 2º turno?

O prefeito disse que o que estava ao seu alcance foi feito. E não gostou de saber que sua gestão foi considerada acomodada. Rebateu essa insinuação em dois momentos e atribuiu o resultado ao massacre da mídia e ao sentimento de mudança.

“Olha, falhas e acertos existem em todo mundo, tanto em âmbito pessoal e, principalmente, no âmbito coletivo. Dizer que o governo estava acomodado… quem está dentro do governo sabe que isso não existe e nem vai se acomodar até o dia 31 de dezembro que é o nosso último dia. E trabalhamos muito em todos os povoados, todos os distritos e temos dados. Foram cinco vitórias sucessivas, só eu fui prefeito quatro vezes. Eu tenho, neste momento, a imensa gratidão ao povo de Vitória da Conquista por ter colocado sobre meus ombros principalmente, enquanto candidato, tamanha responsabilidade. Sei que procurei corresponder a essa responsabilidade dentro das minhas possibilidades, com todas as minhas limitações e das dificuldades internas e externas.”

“Então, houve muitos erros e muitos acertos, mas houve também um massacre da mídia contra o Partido dos Trabalhadores, absolutamente injusto, e isso também eu acho que influenciou muito o eleitorado de Vitória da Conquista. E aquela coisa: ‘Tá na hora de mudar’, o povo quis, majoritariamente, eleger outro projeto político.”

O POVO ESQUECEU O QUE FOI FEITO E DECIDIU MUDAR. “PÃO COMIDO É ESQUECIDO”

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Para Guilherme, avanços não foram incorporados pela população, que quis mudar (Foto: Giorlando Lima)

Fiz três perguntas em uma, na esteira da resposta dada por Guilherme: O senhor não acha que a implementação dessas melhorias tenha se estabilizado, chegado a uma fase pouco avanço, e que a população esperava um pouco mais, novos projetos, e esse pouco mais não veio? Porque, com todo respeito, atribuir somente ou majoritariamente o resultado da eleição ao massacre da mídia não apenas reduz bastante o valor do outro candidato, como retira toda a responsabilidade do partido e do governo sobre uma eventual fala que tivesse contribuído com a derrota. Guilherme admitiu que a derrota do PT em Conquista não ocorreu apenas por causa da mídia e explicou que o eleitor queria mais do que tinha, porque havia incorporado os avanços como normais e esqueceram as conquistas: “Os antigos diziam: ‘Pão comido é esquecido’. Além disso, a juventude não participou daquele movimento inicial, quando a autoestima da população estava lá embaixo, os esgotos a céu aberto, o entulho, crianças e adolescentes nas ruas, uma população de rua imensa”.

Depois ouvir a lista de razões para a derrota – massacre da mídia, esquecimento da população sobre os feitos do governo, a vontade de mudança, o pouco conhecimento da juventude sobre os feitos do PT na cidade – eu quis saber do prefeito se ele e o partido entraram na campanha achando que iam perder. “Não!”, foi a resposta rápida de Guilherme, ao que eu completei querendo saber o que poderia ter sido feito para impedir que os fatores mencionados tivessem levar à derrota do candidato do PT e do governo. Como resposta, Guilherme passou a explicar a sua postura diante da escolha do nome de José Raimundo. Justificou a preferência por Odir Júnior e voltou a reagir à insinuação de que houve acomodação da sua parte”.

“Foi disse que eu não queria o nome de Zé Raimundo – e isso não é verdade. Um grupo de pessoas me procurou quando já havia sido lançado, dentro do partido, o nome de Marcelo, que é um professor universitário, e Márcio Matos também já havia sido lançado. Na casa de Dona Mércia, que é a nossa secretária de Finanças, funcionária da prefeitura, o grupo me procurou para que eu colocasse o nome de Odir e eu coloquei. Falei: ‘É uma pessoa honrada, por que não colocar?’. Logo depois, o deputado Waldenor colocou o nome dele e, o professor Zé Raimundo estava fora do país, colocou também o nome de Zé Raimundo. Eu falei: ‘Ótimo!’. E aí começou aquela disputa bonita interna, dentro do partido. ‘Vamos para o bate-chapa?’. Eu falei: ‘Vamos, não tem problema’. E depois, todo mundo foi criando um consenso em torno do nome de José Raimundo. Não houve briga, não houve dissensão, houve uma disputa que é natural. Nós chegamos a procurar pessoas de fora do partido, para que pudessem compor conosco, mas houve uma discussão que terminou vitoriosa, aquela do nome do professor José Raimundo e eu entrei em todos os momentos, dentro das minhas condições, mesmo dividindo o meu tempo de prefeito e de filiado militante.”

“Mas, essa palavra acomodação eu não aceito. Eu tenho, claro, que um perfil muito reservado pessoalmente, diria até que discreto, mas trabalho de domingo a domingo. E vou trabalhar até o dia 31. Conheço essa zona rural como poucos conhecem, viajei muito para fora, para buscar recursos, projetos como o da Barragem do Rio Pardo, que um dia será feita, mas nós já temos o projeto executivo, pronto e pago pela prefeitura. Mas as coisas são assim. Houve uma vontade majoritária da população em mudar e temos que respeitar.”

O GOVERNO FEZ MUITO. A INICIATIVA PRIVADA FOI PARCEIRA, MAS QUANDO O PT ASSUMIU JÁ HAVIA INICIATIVA PRIVADA MAS A CIDADE NÃO TINHA CREDIBILIDADE

O BLOG provocou querendo saber o que Guilherme dizia das afirmações do prefeito eleito, ainda em campanha e também por aliados, como o candidato do PCdoB (que ficou contra o PT no primeiro turno) de que Vitória da Conquista se desenvolveu em razão da iniciativa privada e menos do seu governo. Guilherme acha isso uma injustiça?

Ele respondeu que a parceria do governo com a iniciativa privada é sempre importante, mas enfatizou que quando ele chegou à prefeitura já havia iniciativa privada, no entanto, a cidade estava desacreditada.

Segundo ele, houve uma parceria da sua administração com o setor empresarial para que a cidade chegasse aonde chegou. “Essa parceria houve. E mesmo com Conquista não tendo nem água; não tendo royalty de nada; mesmo tendo um território onde cabem dentro o território de Feira de Santana, Ilhéus, Itabuna, Lauro de Freitas e Candeias, mesmo assim, esta c se desenvolveu, as empresas se desenvolveram, e de uma forma justa, com a economia avançando com os aspectos sociais, o micro, o pequeno, o médio e o grande todos crescendo”.

Como na resposta à pergunta anterior o prefeito de Vitória da Conquista voltou a mencionar as conquistas possibilitadas pelo Partidos dos Trabalhadores e protestou contra as acusações feitas ao partidos, o BLOG quis saber se as acusações consideradas infundadas contra o ex-presidente Lula, principal figura do partido e o mais atacado, não existissem o PT ainda seria inocente na opinião dele. Guilherme admite outros pecados do partido ou acha que o PT estaria a salvo? Para ele, se não fosse a campanha contra o PT, a agremiação “estaria como um partido respeitado, como os outros devem ser respeitados. O que a gente sente é que não estão apenas destruir Lula e cassar o registro do PT, querem destruir conquistas dos trabalhadores. Não é pouca coisa pegar um país quebrado, o país que é nosso e fazer o que foi feito. Fernando Henrique quebrou o Brasil três vezes, da última vez que foi ao FMI foram 40 bilhões de dólares. E Lula assumiu, com Guido Mantega como ministro em 2003, e em 2005 já saldava aquela dívida com FMI e poucos anos depois já emprestava 11 bilhões de dólares, para ajudar, inclusive, o Haiti durante aquele terremoto, que matou a Doutora Zilda Arns, aquela médica da Pastoral da Saúde. O Brasil saiu da 14ª economia e 12 anos depois já está na sexta economia mundial, isso por conta não apenas de uma pessoa, mas de um projeto voltado para os invisíveis”.

“Você se lembra que 1996, quando eu era candidato, uma das frases mais fortes aqui era: ‘A única saída para Vitória da Conquista é a estação rodoviária’. Era ir embora daqui. E depois dessas políticas, que chamavam compensatórias as pessoas começaram a voltar, inclusive de São Paulo, com o Luz Para Todos, a energia elétrica lá, com estrada, com água, com educação para os filhos. Houve uma revolução silenciosa e isso não perdoaram. Não é só no Brasil, é o grande capital internacional.”

VAI FICAR NO PT, QUE PRECISA FAZER UMA AUTOCRÍTICA, MAS VAI CRESCER DE NOVO, COMO LULA VEM CRESCENDO

E sobre as notícias de que muitos nomes importantes do PT estão querendo deixar o partido para fundar outro e alguns do que ficam falam em refundação? Falei sobre as especulações de que o governador Rui Costa pode sair do partido e da avaliação feita por Frei Beto de que o PT só tem futuro abrir mão da “ideia fixa de ganhar a próxima eleição”. Guilherme afirmou que continua confiando no PT e no seu projeto político. E disse crer que o ex-presidente Lula mantém forte liderança nacional. “Acho que Lula está num reconhecimento crescente no Brasil, tanto que houve pesquisa, agora mesmo, no auge das piores denúncias contra o PT e 42% dos brasileiros colocaram lá que foi o melhor presidente do Brasil de todos os tempos. Fernando Henrique nem foi lembrado, aparece lá embaixo, depois de Sarney, Dilma e Itamar, com 1%. Então, Lula incorpora não apenas o PT, mas esse projeto político que repercutiu na vida das pessoas. Quanta gente que não podia sonhar em ver o filho terminar o curso secundário viu o filho voltar com o diploma de médico, de advogado, de engenheiro, de pedagogo ou pedagoga, até com a possibilidade de estudar fora do Brasil. Não foi só o Prouni, o ENEM, mas o Ciências Sem Fronteiras, como tem jovens de famílias humildes de Conquista que estão fora do Brasil, estudando na Alemanha, na Austrália, na França, nos Estados Unidos…”

“Eu acho que ele (o partido) incorpora mais do que duas letrinhas, o P e o T, Partidos dos Trabalhadores, incorpora um projeto político do qual eu tenho do qual eu tenho muito prazer e muita honra de participar. Houve erros enormes? Houve. Primeiro, o pragmatismo. Se acreditar em conciliação com quem era inconciliável. Há coisas que não se misturam. Dizem que as paralelas se encontram no infinito, mas eu nunca encontrei ninguém que viesse do infinito pra cá, para dizer como foi esse encontro, agora, imagine quem nem paralela é, que são projetos absolutamente díspares.

Então, houve esses erros gritantes, a partir, principalmente, da eleição de Lula e eu acho que o partido aprendeu muito. Esse negócio de refundar eu não sei como seria isso. É repensar, é autocrítica, e continuar tendo como foco mais justiça para quem mais tem necessidade de justiça; mais para quem mais precisa, incorporar, incluir. Incluir todos.”

Em praticamente todas as respostas o prefeito mencionou Lula, seu pensamento, programas, defesa. O BLOG quis saber se Lula é a razão pela qual ele ainda acredita no PT, lembrando que na pré-campanha, ­ por uma ou outra fala dele, as pessoas entenderam que o ele poderia deixar o partido. Guilherme respondeu que não se comporta como um torcedor de um time. “Política é diferente. Falo isso respeitando todos os torcedores. Eu li o Modo Petista de Governar no início, quando eu estava ingressando no PT e uma coisa que me empolgou muito foi a inversão de prioridades, aquele que não tinha direitos passar a vir pro topo. Veja a questão das cotas, que tanta gente combateu e que quem entrou na universidade por cotas não decepcionou. As cotas mostraram a imensa dívida que o Brasil tinha com essas gerações. O Brasil foi o último a acabar com a escravidão e o que mais demorou com a escravidão, quase 400 anos. As cotas respondem ao preconceito contra o índio, contra o afrodescendente. Foi justamente esse projeto político que começou a combater tudo isso. É claro que continua ainda forte”.

“Eu acho que esse projeto político precisa continuar, até para ir de encontro às convicções sem enraizamento, sem razoabilidade. Como outro dia, um procurador federal dizia que não tinha provas contra Lula, mas tinha convicção. E Lula respondeu: ‘E aquele helicóptero com cocaína vocês tinham provas, mas não tinham convicção’. Então, essa coisa de convicção sem conhecimento e sem razoabilidade é uma coisa muito perigosa. Isso foi a base do nazismo, o fascismo.

Hitler tinha convicção de que a derrota da Alemanha eram os negros, eram os judeus, eram os deficientes físicos, tinha toda convicção. E o Brasil, infelizmente, atravessa uma crise muito perigosa com esse tipo de convicção, onde um juiz ele investiga, ele orienta os próprios promotores e depois ele mesmo julga. Tem alguma coisa de muito triste em tudo isso aí. E não é destruindo um partido e uma liderança social e política como Lula que isso vai resolver. O que se quer é destruir conquistas dos trabalhadores, direito ao estudo, o direito à liberdade.”

NOVO PREFEITO VAI TER MUITAS OBRAS PARA CONCLUIR E ENTREGAR, TODAS COM RECURSOS GARANTIDOS: MAIS DE R$ 60 MILHÕES

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Guilherme diz que deixa recursos garantidos para o recapeamento das principais avenidas (Foto: Ernesto Marquest)

Os últimos 20 minutos da entrevista foram dedicados ao fim da administração, O relacionamento com o prefeito eleito e o futuro político do PT local e do próprio prefeito que sai no fim deste ano. Pedi a Guilherme para ele falar dos recursos que ficam na Caixa para obras e o que dá para fazer com o dinheiro. Segundo ele, só a Perimetral são mais de R$ 40 milhões. “Nós fizemos um percentual, em torno de 22%. Só para você ter uma ideia só de drenagem, ali no Comveima, foram R$ 3,4 milhões. Já fizemos duas partes, incluindo a Morada dos Pássaros. Se você visitar a passagem do Rio Verruga vai ver o quanto de canais tem ali feitos e a colocação de armcos – que é uma tecnologia de tubulações só tem uma empresa no Brasil que faz – e as duas tubulações dão mais de 9 metros de diâmetro, ou seja vai dar de folga, mesmo quando o Rio Verruga tiver com muitas águas ali passando, e por cima uma banca interligando a Olívia Flores ao Alto da Boa Vista e que vai, essa avenida, se ligar à avenida Brumado, à altura da Lagoa das Bateias. São muitos milhões que já foram gastos”.

O prefeito aproveitou para falar de uma obra da qual seu governo se orgulha muito: ciclovias e ciclofaixas. Disse que a Perimetral terá 15 quilômetros de ciclovias que, somados aos 25 já existentes faz de Vitória da Conquista uma das cidades que mais oferecem essa facilidade de mobilidade no Nordeste. “Nós já temos quase 25 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas e começamos interligando bairros populares, não foi para lazer, o que é válido também, mas foi para as pessoas se deslocarem para compras, pro trabalho, pros estudos, sem disputar espaço com veículos motorizados. A primeira foi a da Avenida Paraná, do aeroporto, que custou R$ 350 mil que eu consegui como deputado federal. A segunda foi da Avenida Juracy Magalhães, R$ 250 mil, isso no governo de Zé Raimundo, eu enquanto deputado federal. E depois de eleito a gente continuou fazendo ciclovias em todas as avenidas que abrimos, como a Jadiel Matos, que os engenheiros diziam que havia um ponto que se estreitava muito e não daria para ciclovia e eu pedi para parar a obra, viemos aqui pro gabinete, reestudamos e está lá a ciclovia desde Campinhos até a UESB, praticamente. Dá para um estudante ir com sua mochilinha nas costas pedalando sem correr riscos no trânsito”.

Eu quis saber mais detalhes, afinal, além do dinheiro para a Perimetral, o próximo prefeito terá o dinheiro para mais o quê?

“Tem mais R$ 5 milhões que é para a reforma do terminal da Lauro de Freitas, tem recursos para os corredores de ônibus, inclusive para recapeamento, por exemplo, da Siqueira Campos, da Bartolomeu de Gusmão, da Régis Pacheco… Tem pra mais de R$ 20 milhões. E mais do que isso, compramos uma usina de asfalto nova, que deu muito trabalho para instalar.

Primeiro por causa do sistema de gás, que estava no contrato que era a empresa que tinha que instalar e ela queria que a prefeitura comprasse e nós quase que judicializamos a questão, mas terminou ela aceitando, e depois por causa do aterramento, porque não é tão simples. Acho que pela riqueza de minérios que tem em nosso solo, demorou muito até chegar ao aterramento mais ou menos normal para que a usina começasse a funcionar”.

Fiquei sabendo que a nova usina não está produzindo com sua carga toda. Depois de passar pelos testes normais antes de começar a fazer o asfalto, veio a restrição: falta de dinheiro para os insumos. O prefeito explicou que enquanto a usina antiga produz 20 toneladas/hora, a nova produz 80 toneladas, o que exige mais insumos caros. “Fizemos os testes, agora, precisa de recursos para os insumos: o cimento asfáltico, a emulsão, o gás… São muitos insumos para botar uma usina dessas para funcionar. Mas hoje mesmo (07/11) ela deve estar usinando para terminar algumas vias do Vila América e continuar até dezembro”.

CRECHES E ESCOLAS EM ANDAMENTO PARA 2017

Dentre as obras em andamento ou planejadas que o próximo prefeito deverá tocar ou inaugurar, estas creches em vários bairros, a exemplo de Vila América, Simão e Miro Cairo. Foram aprovadas 13 creches pelo Governo Federal, ainda no governo Dilma, dentro do programa Proinfância, com recursos do Fundo  Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Segundo Guilherme, em torno de sete unidades deverão ser concluídas e entregues pelo prefeito Herzem Gusmão.

BLOG – Ficam também creches e escolas para terminar, prefeito?

GUILHERME – Hoje nós temos 27 creches entre conveniadas e as creches próprias feitas pela prefeitura, principalmente a partir do governo Dilma, com o Brasil Carinhoso e com a Educação Infantil, que está correndo risco neste governo atual. Muitos prefeitos não quiseram as creches porque não basta construir a infraestrutura, a manutenção é por parte da prefeitura.

BLOG -E escolas, ficarão escolas para terminar?

GUILHERME: Como eu lhe disse, nós temos 160 unidades escolares, estamos reformando ou já reformamos, ultimamente, 80, mas desde o início do governo vimos cuidando da estrutura das escolas. Eram 176 escolas, das quais 131 na zona rural e 45 aqui na cidade, mas algumas foram fechadas e realocadas para espaços melhores e porque foi reduzindo o número de alunos e oferecemos transporte escolar. Tem escola que a gente fez recentemente, como por exemplo, a da Estiva, que é tão pertinho aqui. Em 98 eu me lembro que a gente se reunia na casa de farinha de Seu Dó ou na igreja, com Dona Maria Parteira, que ainda está viva e lúcida, e fizemos uma escolinha com duas salas, que o pessoal da Estiva ajudou em mutirão. Então, recentemente, entregamos uma nova escola, com doze salas, com sala de informática, biblioteca, sala do professor, que custou R$ 1,3 milhão de recursos próprios. As escolas do interior do município, como São Sebastião, Bate Pé, Estiva e tantos outros, obedecem ao mesmo padrão das escolas aqui da cidade.

BLOG – Para essas creches e escolas que estão em construção ou reforma os recursos também estão assegurados?

GUILHERME – Estão sim. Existe o crédito do Fundo Nacional de Desenvolvimento Escolar. Só que havia antes do governo federal atual, a Caixa Econômica, por conta da credibilidade do município, antecipava os recursos para que fossem feitas essas obras e depois ela vinha sabendo que ia receber uma obra dentro dos critérios exigidos. No governo atual não existe mais essa antecipação, aí o governo municipal tem que ter os recursos pra fazer e depois a Caixa Econômica, por intermédio de seus técnicos, recebe a obra e repassa o recurso”.

A AMEAÇA DA PEC 55 E A FALTA DE DINHEIRO EM CAIXA PARA 2017

Além da mudança no sistema de financiamento das obras, que passou a exigir que a prefeitura tenha o recurso para adiantar as obras, Guilherme menciona a queda de arrecadação como um dos fatores para que algumas obras e ações tivessem o seu ritmo reduzido e ele acha que a partir do ano que vem vai ficar pior, especialmente se a PEC 55 (antes 241) seja aprovada. Para o prefeito essas dificuldades seriam as mesmas independente de quem tivesse sido eleito prefeito, José Raimundo ou Herzem Gusmão. Conquista vai sofrer com a PEC de qualquer jeito, na visão de Guilherme.

“Se a PEC for aprovada, independente do prefeito, eu vejo momentos sombrios para os próximos governos. Nós já estamos tendo dificuldade, na atual gestão, para finalizar o governo, porque houve uma queda de receita. Tanto que estão tentando passar algum dinheiro da repatriação desses recursos não declarados para os municípios, uma pequena faixa é verdade, para ajudar, porque a própria Confederação Nacional dos Municípios, e a UPB também, tem mostrado as dificuldades por que passam todos os municípios. E não só os municípios, estados também”.

“Basta lembrar que o estado do Rio de Janeiro já decretou, por duas vezes, estado de calamidade financeira, isso significa um estado totalmente falido, precisando buscar no governo federal recursos para fechar suas contas. Nós não vamos declarar aqui calamidade financeira, mas estamos fazendo todo o possível para fechar esse exercício de 2016 e entregar à próxima gestão um município com as contas renegociadas, mas deixando também crédito. E, como eu disse, uma usina de asfalto nova pra próxima gestão.”

Diante do quadro ruim atual e da perspectiva de momentos sombrios, como teme Guilherme, e da queda na arrecadação que afeta as contas da prefeitura desde agora, o BLOG quis saber se vai ficar dinheiro em caixa, para custeio e manutenção da máquina administrativa. O prefeito disse que ele e sua equipe estão se esforçando neste sentido, mas acha muito difícil.

“Estamos procurando fazer com que aconteça, mas acho muito difícil (deixar dinheiro em caixa), por conta dessa redução de arrecadação e aqui não sobra dinheiro, o dinheiro que chega aqui vai para a educação, pra saúde, pro desenvolvimento social, vai pra quem de direito e sem desvios. Nossas contas estão aí, abertas. Hoje abrir mão, por exemplo, das contas bancárias, do segredo, aquelas coisas, isso não existe mais, porque isso aí está na transparência, além da nossa transparência aqui dentro da prefeitura. Mas, estamos fechando com muita dificuldade”.

Guilherme se queixa que a receita total da prefeitura vai fechar abaixo do planejado e diz que a receita própria é muito pequena. Ao BLOG, em outra oportunidade ele informou que ficava em torno de 25 por cento. Com uma folha de salários beirando os R$ 23 milhões, mais R$ 4 de auxílio-alimentação, o prefeito explica que nem os recursos da repatriação que virão para o município ficarão em caixa. Representam um alívio diante da necessidade de deixar as contas no azul. “Nós fazíamos uma previsão (de receita) pra mais de R$ 600 milhões este ano e não vamos chegar a isso, para cerca de R$ 570 milhões, que é uma receita irrisória, pelo tamanho do município. E nossa receita própria é pequena”.

“Para você ter uma ideia, o IPTU mal dá para pagar a coleta de lixo, porque nós mandamos recolher o lixo até do interior do município, em todos os distritos, inclusive para prevenir criadouros de mosquito da dengue e criar nessas populações a noção a responsabilidade do descarte desse lixo.

Tanto que criamos aqui no município as gincanas da saúde, incluindo todos os bairros da cidade, e várias vezes foram populações rurais que venceram. A prefeitura tem um caminhão compactador e mandar o buscar o lixo em todo esse interior, isso encarece bastante, além do que é pago à empresa. E temos ainda um aterro sanitário que funciona como aterro sanitário. Então, não há recursos sobrando e é mesmo uma receita pequena. Qualquer gestor que entrar eu tenho certeza que vai ter o rigor necessário tanto na receita quanto na despesa.”

ALÍVIO PARA O GOVERNO DE HERZEM: GOVERNO DO ESTADO VAI COFINANCIAR ESAÚ MATOS.

Em meio a tantas contas com resultado negativo, uma notícia que deve aliviar as dificuldades para a futura gestão: o governador se comprometeu a assumir parte das despesas do Hospital Esaú Matos e vai oficializar a decisão ainda este ano, segundo Guilherme. “O governador Rui Costa se comprometeu em participar do cofinanciamento da Fundação de Saúde Esaú Matos, em torno de R$ 5 milhões. E como ele comprometeu a palavra, eu tenho certeza que assim será, com o cofinanciamento no extrateto, porque o Esaú Matos atende pra mais de 80 municípios da região e muita gente vem sem nenhuma pactuação. E isso é ainda para ser oficializado este ano. O governador pediu apenas que deixasse passar a eleições, mesmo que a Procuradoria Geral do Estado tenha afirmado que poderia ser antes da eleição, porque é por dentro do SUS e é um cofinanciamento que há muito tempo a gente vem solicitando ao estado. Porque não é justo o município bancar sozinho um atendimento tão grande. Então, como ele comprometeu a palavra, eu não tenho dúvida de que ele vai cumprir. Antigamente, os avós e bisavós nossos avalizaram a palavra com o fio do bigode, depois muita gente passou a avalizar com papel passado em cartório e reconhecida a firma, mas o governador não precisa disso”.

TORCIDA PARA QUE ADMINISTRAÇÃO DO ADVERSÁRIO DÊ CERTO

E o próximo governo, com Herzem à frente, qual a expectativa de Guilherme, na condição de prefeito e também como cidadão? “Eu desejo que seja o melhor governo possível, porque eu desejo que Vitória da Conquista continue avançando. Ganhar ou perder eleição é resultado de quem participa. Não em que estar saindo com mágoa ou ressentimento, até porque quem ganha ou perde – e eu tenho repetido inúmeras vezes – é a população.

O candidato se frustra, volta pra casa um pouco abatido, mas é da regra do jogo”.

OCUPAÇÕES E MOVIMENTOS POPULARES PODEM SALVAR O PAÍS E OS MUNICÍPIOS, CRÊ GUILHERME

Mas, para Guilherme, o sucesso ou insucesso da futura administração, entre outros fatores, depende da aprovação ou não da chamada PEC da Maldade. Para ele, as mudanças interferirão diretamente na situação econômica dos municípios e afetarão a vida da população: “Porque as pessoas moram nos municípios, ninguém mora no governo federal”. E ao mesmo tempo que pensa na questão administrativa, o prefeito de Vitória da Conquista vê a questão política, da garantia dos direitos. “Eu desejo, realmente, que o Senado não aprove aquela PEC, que respeite os estudantes, a ocupação das escolas, pois eles merecem e devem ser ouvidos, são mais de mil escolas. Eles não estão invadindo nada, a escola é dos estudantes e dos professores. Eu desejo que os senadores sejam sensíveis a essa geração.

Nós que já fomos jovens sabemos o quanto de sonhos há e quanto de apoio essa juventude precisa. Eles não estão pedindo nada mais do que uma educação de qualidade e querem participar do debate. Como é que você manda um projeto desse tamanho sem discutir sem professores, sem os educadores e sem os alunos, com tanta gente qualificada para debater, de um lado e do outro? Não pode ser a toque de caixa. Eu desejo que a PEC não passe, que não haja esse congelamento. O Brasil tem outras formas. Que também não entregue o Brasil não entregue o seu pré-sal, a sua água, os seus minérios…”.

TRANSIÇÃO SOB O RIGOR DAS REGRAS DO TCM E SEM A PARTICIPAÇÃO DO PREFEITO

E sobre a transição de governo, quando se dá o repasse de informações para que o novo prefeito tome pé da situação da prefeitura, o que diz Guilherme? O que pensa da celeuma criada pelo prefeito eleito em torno de um pedido de antecipação do prazo para a transição? O prefeito é contundente e incisivo: “Nós vamos cumprir a lei, que são 30 dias. Já respondemos, inclusive, ao prefeito eleito. O prazo legal dará bastante para entender a dinâmica da administração municipal”. E diz que não vai participar, pessoalmente, da transição: “Tem uma comissão nomeada para isso, finanças, transparência, administração. É claro que eu vou estar, a todo momento, sendo informado, mas não compete a mim, eu confio muito na comissão que estamos formando para debater, discutir com a comissão que o prefeito eleito vai indicar”.

A DISPOSIÇÃO PARA CONVERSAR COM HERZEM

Quando eu perguntei se Guilherme, ainda no cargo, fosse procurado por Herzem se o receberia, ele garantiu que sim, afirmando não ter restrição porque não se considera um inimigo do peemedebista. “Não tenho restrição, nunca tive restrição. É possível que eu tenha inimigos políticos, mas eu não sou inimigo de ninguém. Como eu disse, quem me conhece de perto sabe que eu não faço política com ressentimento, com ódio. Até porque essa cadeira não pertence a quem senta nela, isso é coisa transitória, é passageira, eu demorei até muito o tempo que eu passei aqui, mas por vontade majoritária da população de Conquista.

A gente tem que ter a humildade necessária, até porque prefeito não tem poder, nem presidente, nem governador. A própria Constituição ensina que o poder vem de quem elege e é em nome dele que tem de ser exercido, com muita humildade”.

PLANO DE ENVELHECER COM TRANQUILIDADE E DISPOSIÇÃO PARA ATENDER CHAMADO DO PARTIDO EM 2018

Chegando ao fim da conversa é hora de saber os planos políticos do prefeito que sai do cargo no dia 31 de dezembro próximo. Desta vez, diferente de outras entrevistas em que afirmou que não pretendia mais se candidatar a nada, Guilherme Menezes admite que pode ser candidato a deputado em 2018. Colocou o poder de decisão no partido, pode ser candidato se convocado. E o que vai fazer depois do dia 31 de dezembro? “Não tenho muita noção, não. Vou continuar envelhecendo (sorrindo), se possível com o máximo de tranquilidade que eu possa ter. Sei que quem entra em política nunca tem. Especialmente quem exerceu os cargos que eu exerci nunca tem tanta tranquilidade que espera. Mas, eu vou continuar de cabeça erguida porque sei que, da nossa parte aqui, não cometemos nenhuma improbidade. Qualquer membro da população pode requerer, inclusive no Ministério (Público), o confronto da minha declaração de bens desde 1992, a primeira vez que eu fui candidato, e hoje. Sem nenhuma vaidade da minha parte, mas, se alguém quiser, está inteiramente às ordens, a minha, a de minha esposa e de meus filhos”.

E será candidato em 2018? “Não sei. Eu sou uma pessoa partido. Nunca coloquei meu nome como candidato a nada dentro do partido e digo isso sem nenhuma presunção, sem nenhuma vaidade, é apenas constatando que, desde a primeira vez em 1992 e todas as outras eu jamais coloquei meu nome e às vezes discuti não querendo, eu e a família achando que já tinha muito tempo dedicado à política. Então, em 2018 eu sei que eu vou estar mais velho. Já estou indo para 73 anos agora em dezembro e em 2018 vou estar com 74, 75 e eu estou adorando curtir a minha idade”.

E O CONFLITO NO PT, ESPECIFICAMENTE COM JOSÉ RAIMUNDO E WALDENOR CONTINUA, “MAS É BENÉFICO”

Tendo dito o que disse cabe a Guilherme agora dizer se apoiará José Raimundo para deputado. Este ano, o prefeito demorou para definir o apoio ao companheiro de partido na eleição de prefeito e em 2010 e 2014 não apoiou nem José Raimundo para deputado estadual, nem Waldenor Pereira para federal, optando por apresentar nomes de fora da cidade, embora do PT. Perguntei: considerando que o cenário político nacional determine que as lideranças petistas se unam mais do que estão unidas atualmente, há possibilidade de o senhor apoiar José Raimundo e Waldenor em 2018 ou manteria a tendência de trazer novos nomes para a disputa?

Guilherme disse que esta é uma questão tranquila, que pode apoiar. Explicou que houve momentos em que aconteceram divergências no campo político, não ético, “em que eu apresentei o meu discreto apoio a outros candidatos, mas um discreto apoio. Não tirei nenhum voto deles. Muita gente achava, inclusive, que eu estava na campanha. Mas, são coisas que acontecem dentro de um partido e para 2018 é como diz uma velha música: o que for será”.

Apesar da explicação, ao ser questionado se a campanha possibilitou a reunificação do grupo político, nos moldes que era antes de 2008, Guilherme disse que eles sempre foram um grupo, mas um grupo em conflito e o que conflito permanece. “O conflito se mantém e ele é benéfico. O consenso é que é triste. Temos um bom conflito”.

TEMPOS DIFÍCEIS PARA A NOVA GESTÃO, TEMPOS DIFÍCEIS PARA OS “INVISÍVEIS DA SOCIEDADE”

BLOG – Por fim e resumindo a expectativa em relação ao governo que se instala em janeiro: o senhor acha que Herzem Gusmão terá muitas dificuldades.

GUILHERME – Qualquer um que chegasse. Mas, eu tenho certeza de que Vitória da Conquista é uma cidade com uma população, um empresariado, micro, pequeno, médio e grande muito bem afinado e o que eu desejo é que continue sendo essa cidade que harmoniza o desenvolvimento econômico com desenvolvimento social. Que os invisíveis de antigamente não voltem a ser invisíveis.