Sobre nossa índole brasileira e a ação deletéria dos políticos atuais.

Posted on quarta-feira, 30 novembro 2016

0


O professor doutor Paulo Cairo, da UESB, uma das cabeças que pensam melhor em Conquista, fez uma manifestação no Facebook em reação aos últimos episódios (dramáticos, bizarros e vergonhosos) protagonizados pelos congressistas brasileiros. Começa ele o texto dizendo que: “Nós, brasileiros, somos realmente um povo ainda em formação”, e continua: “Nossa frágil cultura política, associada a um espírito conciliador inabalável, no máximo nos deixa perplexos diante da conjuntura que vivemos. Capacidade para reagir com firmeza, infelizmente, parece não ser o forte da nossa personalidade”.

Arvorei-me a emitir um comentário, que posto abaixo, na ilusão de que minha humilde opinião sirva a tão grandioso debate. Temo ser um texto de pouco valor, mas, escrito estando, que seja lido.

Não creio que sejam todos os brasileiros dotados de “um espírito conciliador inabalável”, sendo esta a explicação principal para a aceitação das situações que lhes impõem políticos, judiciário e outros que detêm poder. Creio que a razão predominante para essa catalepsia política do brasileiro é a falta de noção de unidade, de nação. Não há isso nem mesmo nos lados que se definem como lados.

Espalham a balela que o esporte nos une. Coisa nenhuma. O esporte separa para caramba. Leia-se aqui, como esporte, o futebol. O pau quebra. Tampouco o espírito cristão nos junta: a intolerância, o desprezo pela fé do outro e a adjetivação são comuns e repetidas em todos os matizes. Aí, também, o pau quebra.

O que une o Brasil, eventualmente, é a comoção. A morte de Senna, a morte de Leandro, a morte de Claudinho, de João Paulo, dos Mamonas Assassinas, a morte de Montagner, a tragédia que matou os irmãos no voo de Medellín, mesmo assim, somente pelo tempo que a mídia sustenta e com pinceladas de certezas absolutas e maniqueísmo. E muito oportunismo.

Não sei se você percebeu, mas em meio à dor da queda do avião da Chapecoense, surgiram uns gotejando veneno na decisão da Anac de não liberar o voo fretado nas condições propostas. Era mais uma no golpista, pensaram os bons.

congresso-e-placa-de-pare2Ontem, o parlamento apodrecido – nada diferente do que era há 30 anos – fez duas votações que chocaram. Na Câmara destroçaram o projeto Anticorrupção apresentado pelo Ministério Público Federal, com 2,5 milhões de assinaturas de cidadãos, e aprovaram um “frankenstein” salvando a cara de servidores que se enriquecerem ilicitamente e liberando políticos do crime de Caixa 2, entre outras peraltices com a cara dos nossos deputados, naquilo que se chamou de vingança contra o MP, em razão da Lava Jato e outras operações.

No Senado, aprovaram a PEC 55, aquela que limita as despesas do governo federal por 20 anos, incluindo os investimentos em Saúde e Educação.  Disseram de deputados e senadores: bandidos, putos… quase uma unanimidade nos protestos. Mas, não se engane, uns se acostumarão com a picada da cobra mais rápido que os outros e a unidade sumirá logo que a coisa estiver tornada real, publicada no Diário Oficial da União, revogando as disposições em contrário.

Já o STF, o (talvez) Supremo Tribunal Federal, uma espécie de juízo final da hipocrisia brasileira, tomou uma decisão mais distante do que desejava uma larga escala da massa média: decidiu que o aborto até o terceiro mês de gravidez não é crime. Aí a reação foi dos outros bons.

E assim prosseguimos. Maniqueístas, desunidos, oportunidades e fracos, alimentados por pensadores iluminados que escrevem blogs com verdades absolutas, e nem cantar o Hino Nacional sabemos direito (os que sabem).

Unidade, isso faz a força. Faria.