Herzem Gusmão: auditoria na folha e nos aluguéis, austeridade e diálogo, com “sociedade dentro da prefeitura”

Posted on quinta-feira, 15 dezembro 2016

0


img_2642-2

Herzem agradeceu a Deus pela oportunidade histórica.

O auditório do Centro Municipal de Atendimento Especializado (Cemae) estava lotado. Quase todo mundo foi comemorar um momento considerado histórico: a diplomação do primeiro prefeito não petista nos últimos 20 anos. Mas, havia gente que não votou no prefeito eleito, Herzem Gusmão (PMDB), gente ligada ao atual governo que estava ali, provavelmente, para acompanhar a diplomação de seus vereadores. Estes testemunharam o último ato da eleição com diplomacia, embora com alguma decepção visível. O prefeito Guilherme Menezes foi representado pelo vice, Joás Meira. Quando discursou, Herzem falou também para essas pessoas. A mensagem foi de otimismo, com a reiteração da promessa de que fará um governo de paz, inclusivo e austero, mas sem perseguição.

Herzem Gusmão fez um discurso expressando muita fé. Foi religioso e mencionou seu bisavô, Tertuliano Gusmão, que trouxe a primeira Bíblia para Vitória da Conquista, segundo ele. E disse que no gabinete de prefeito deixará duas bíblias abertas, uma no Salmo 91 e a outra em uma passagem de Neemias que o BLOG acabou não ouvindo qual. Confiante, Herzem pediu orações e conclamou eleitores e não-eleitores a ajudá-lo a fazer uma Conquista mais humanizada. Na fala, de cerca de cinco minutos, o prefeito eleito e então diplomado, criticou o PT, mas disse que a campanha acabou e que a hora é de pensar na cidade.

Antes de receber o diploma de eleito das mãos do juiz Jovino …, Herzem concedeu uma entrevista exclusiva para o programa Informação e Análise (I&A), conduzido pelo jornalista Giorlando Lima, e veiculada nesta quinta-feira na Melodia FM. Leia a transcrição da conversa em que Herzem falou metas e metodologia de gestão.

I&A – Herzem são 20 anos, um momento histórico, uma modificação plena, considerando que Vitória da Conquista teve 24 anos com um grupo no comando da administração, depois mais 20 com outro. Sua diplomação, hoje, é o começa de um novo ciclo tão longo? Qual é sua meta como prefeito, em termos de longevidade? Havendo reeleição, esta é uma ideia que você tem? Como é que você imagina que vai ser o seu mandato?

HERZEM – Eu não penso em reeleição Giorlando. Um abraço a você. Eu penso em governar bem a nossa cidade. Você sabe os desafios. Os prefeitos brasileiros estão assustados com a queda de Fundo de Participação dos Municípios, queda de ICM, queda de tudo, até da arrecadação de IPTU. As prefeituras não estão arrecadando mais, a inadimplência aumentando, é queda geral. Mas eu estou confiante. Sabe por que Giorlando? Eu creio na oração, a oração transforma. Essa cidade está toda orando, não por mim, pela nossa gestão. Nós entramos nessa campanha orando, eu senti verdadeiramente Deus operando, Deus movendo, Deus abrindo as portas e dando uma oportunidade a um novo pensamento político.

Eu estou muito confiante e sei que nós iremos corresponder em função desse movimento da sociedade. Pra você ter uma ideia, eu estive com o PIB sentado na mesa, estive conversando com o PIB de Conquista, todo o PIB, toda a riqueza de Conquista – agronegócio, indústria, CDL, atacadistas – e eles fizeram a mim a mesma pergunta que fizeram aos outros candidatos – foram sete candidatos comigo -, se eu seria capaz de implantar uma Secretaria de Indústria e Comércio. Eu disse que já existe, é só uma questão de nomenclatura, tem Trabalho, Rede, Desenvolvimento, coisa de socialista. Socialista nunca empregou ninguém, não sabe o que é um salário mínimo, nem o custo do salário mínimo. Eu não só já inverti essa história – a denominação é Secretaria da Indústria, Comércio e Planejamento, para que a gente possa desenvolver um plano de desenvolvimento, um plano diretor de desenvolvimento estratégico – como mandei que eles indicassem três nomes. Isso gerou algo tão positivo, eles indicaram os três, eu recebi os nomes de Itamar Figueiredo, da Associação Comercial e Industrial, da Cláudia Dutra, da CDL, e o Cláudio Cardoso que veio da Escola Sebrae, isso foi tão extraordinário que eles já fizeram uma reunião na TV Sudoeste, o Movimento Pró-Conquista, e criaram uma ONG. Essa ONG é pra me ajudar, ajudar a cidade, é pra dotar de melhorias praças, logradouros, os atletas, o esporte. Eles vão fazer uma revolução em Conquista, eles queriam fazer também, Giorlando, isso antes, só que o governo do PT não deu oportunidade.

entrevistando-herzemI&A – As dificuldades são notórias, o prefeito Guilherme Menezes, agora, no final do governo, deu esses sinais. São cerca de R$ 20 milhões de folha, R$ 2 milhões de limpeza pública, mais o custeio da máquina, etc., enquanto município, incluindo os repasses constitucionais, vai ter cerca de R$ 50 milhões por mês. Você teme que em 2017, fevereiro ou março, surjam dificuldade para você garantir o pagamento dos funcionários?

HERZEM – Veja só, as dificuldades serão inevitáveis, mas essa folha que você falou de 20 é de R$ 24 milhões, nesses R$ 24 milhões, tem R$ 8 milhões e oitocentos mil de gratificações e horas extras e mais um R$ 1 milhão de Vale Refeição.

O trabalhador, funcionário público que está trabalhando, que é dedicado, que tem verdadeiramente direito a todas as gratificações e a hora extra, direito adquirido, pode ficar tranquilo que a nossa auditoria na folha não vai alcançar o trabalhador correto, assíduo, presente. Agora, aqueles que não vão lá e que recebem salários, nós já detectamos, que não correspondem à realidade, nós iremos cortar, e cortando vamos reduzir.

Como vamos reduzir secretarias, vamos reduzir cargos de confiança de 50% ou 60%, eu já acho que reduzir 50% é pouco, eu estou querendo já chegar a 60%. Vamos detectar e saber porque quase meio milhão de reais em aluguéis por mês.

Não sabemos ainda, mas vamos chegar a quanto paga a Prefeitura a terceirizados e carros alugados, que são mais de 400. A Prefeitura tem um posto de gasolina e óleo diesel que não controla, não tem controle, o Deserg [Departamento de Serviços gerais da Prefeitura, responsável pela manutenção e abastecimento de veículos da prefeitura] é um desmando total. Então, nós queremos apurar cada centavo da prefeitura. Eures [Ribeiro, prefeito] de Bom Jesus da Lapa é um exemplo e nós aprendemos com ele. Fui pra diante da televisão ver o que ele está fazendo e perguntaram a ele qual o milagre, pois está sobrando merenda, ele está dando café da manhã para as crianças, os hospitais estão funcionado, as obras está aparecendo. Qual o segredo? Ele disse que é não roubar e não deixar roubar. [O BLOG publicará amanhã uma entrevista exclusiva com Eures Ribeiro].

Então, Giorlando, nós queremos que a sociedade vá pra dentro da prefeitura, queremos uma nova concepção de licitação, nas licitações nós queremos que a Câmara, que a OAB tenha assento e que a Câmara, oposição e situação, também esteja lá. A gente precisa fazer um rodízio na equipe da licitação, eu acho um risco enorme. É preciso consultar a Procuradoria, o que diz o direito administrativo brasileiro, mas eu acho uma licitação permanente perigoso, eu acho que a cada 90 dias você tinha que mudar, porque isso cria um vício.

Portanto, eu tô confiante, eu quero prestar conta de cada real à cidade. E você vai acompanhar. Nós vamos ter agora um problema enorme pra resolver – e nós vamos resolver, nós que estou falando é a imprensa, que vai participar também -, que é o problema do Transporte Coletivo. Precisamos botar na mesa as duas empresas, colocar na mesa o sindicato, colocar na mesa os vereadores da situação e oposição, o Ministério Público, pra ver se a gente pode firmar uma TAC [Termo de Ajuste de Conduta], a prefeitura representada, a imprensa observando nas cercanias – cercanias é de João Melo [jornalista e radialista, colaborador do Informação e Análise], eu aprendi a falar com ele essa palavra bonita.

Então, nós haveremos de transformar essa cidade, eu estou muito confiante. Me perguntaram: “O senhor vai deixar o rádio?”, eu disse não, a minha profissão é radialista, eu não tenho o mandato como uma profissão e não tenho a minha filiação política no PMDB como profissão, a minha profissão é a mesma sua, eu sou radialista e por isso que eu sei que você que todos, os meus colegas que sabem que eu fui um crítico duro dos gestores, saibam a que eu não quero cometer os mesmo erros, e se eu errar pode ter sido involuntário, mas, pelo menos ouvindo as pessoas.

I&A – Dá para perceber que as suas duas marcas principais de governo serão austeridade e transparência…

HERZEM – Com certeza. Nós, inclusive, vamos inaugurar algo novo em relação à transparência. Conquista estava na rabeira em transparência e melhorou nos últimos meses, vamos saber o que foi que o prefeito fez para melhorar e mais ainda. Por exemplo, hoje é fácil você ter um aplicativo no celular e você como jornalista vai saber quanto a prefeitura recebeu esse mês na Caixa Econômica, que convênio foi. Você sabe que tem outros caminhos, mas você vai ter logo o aplicativo. Quanto a prefeitura depositou, qual é o salário do prefeito, como foram as diárias do prefeito este mês… E nós gostaríamos muito que Vitória da Conquista voltasse as atenções, porque ajuda a gente, a gente erra menos.

E a Câmara de Vereadores terá toda independência. Em relação à Câmara, quero lhe contar uma novidade. No Brasil, você é um jornalista atualizado, nunca aconteceu, vai acontecer aqui pela primeira vez: no dia que a Câmara realizar uma sessão, é quarta-feira e sexta-feira às 8:30 da manhã, nós vamos convocar os secretários para uma reunião na Prefeitura às 8:00 horas, e da prefeitura, não precisa nem de carro, a gente desce andando até a Câmara e vamos assistir uma sessão da Câmara, prefeito, vice-prefeito e todos os secretários. Lá seremos elogiados, reconhecidos, cobrados…

Não vou perseguir nenhum vereador, não irei vetar, não irei devolver, como devolveu o PT milhões de reais, milhões o PT devolveu para Brasília. Só uma emenda de Mão Branca, foram R$ 2,4 milhões. Não vai voltar um real. E se o deputado Waldenor, se o colega deputado Fabrício, José Raimundo Fontes, se eles canalizarem recursos, nós não iremos apenas edificar essas obras, eles serão convidados para inaugurar.

Eu acho que passou a política, nós temos que estar juntos. Eu estou me relacionando bem com representantes do governo, o exemplo foi a Embasa. Fizemos uma negociação, o governo inclusive quer conversar com a Prefeitura e eu com o governo, para a gente chegar a um denominador, se não um atrapalha o outro, na história da barragem e do aeroporto.

I&A – Para liberá-lo, porque já atrasamos a solenidade: em entrevista ao meu blog você disse que a Prefeitura é uma caixa preta. Você está num período de transição, de conhecimento do processo, a caixa preta está se abrindo ou você acha que ter que usar marreta?

HERZEM – Eu não deveria ter usado essa expressão de caixa preta, não é Massinha? [Pedro Massinha, radialista e ex-vereador, que acompanhava a entrevista]. Podia falar que a caixa tá trancada, que a gente vai abrir a caixa. Mas veja só, como jornalista atualizado que você é, sabia que a Emurc tinha sido vendida? João Melo sabia? Eu inclusive estava pregando que se eleito nós iríamos devolver a Emurc ao seu prédio original, para fazer uma homenagem a Raul [Ferraz, ex-prefeito] e a Murilo, primeiro presidente, e Raul porque foi ele quem idealizou. Eu fiquei sabendo agora, na transição, que a prefeitura desapropriou a Emurc por R$ 3,5 milhões pra capitalizar, tirar dinheiro do município para jogar na Emurc. Nós queremos saber aonde foi que a prefeitura aplicou, nós temos esse direito. E outra coisa, a prefeitura vendeu por R$ 3,5 milhões o que restava de terreno da Emurc. E eu só fui saber agora. Então, só publicaram só no Diário [Oficial do Município], a imprensa não tomou conhecimento. Só pra você ter uma ideia, a Emurc deve 20 milhões de reais e já tem uma outra dívida que foi negociada e a Emurc já está inadimplente. Eu lembrei no Blog que em 1999 o professor Wilton Cunha, do PT, entusiasmado, me mostrou que ele tinha a fórmula para a Emurc começar logo ali, há quase vinte anos atrás, a trabalhar no azul, o prefeito não aceitou e hoje a Emurc está falida. Mas nós estamos crendo, eu creio nas orações, que nós iremos restaurar a Emurc. E nós convidamos, inclusive, engenheiros e arquitetos, para que eles pudessem designar o secretário de Infraestrutura e o presidente da Emurc, isso poderá acontecer ou não, porque talvez nós iremos, nesse jogo de xadrez, ter surpresas no secretariado, que a imprensa acertou muita coisa mas errou muito também.

I&A – Seu filho joga xadrez mas você não joga não.

HERZEM – Jogo também, mas eu não sou eu gosto de jogar a defesa do russo [Alexander] Alekhine (1.e4, Cf6, com as peças pretas. Com essa jogada tenta-se provocar o avanço prematuro dos peões brancos). Eu gosto de jogar na defesa, porque aí se a gente pegar um enxadrista tipo Armínio [Santos, fundador do Clube Conquistense de Xadrez e vencedor do primeiro campeonato conquistense, em 1996) a surra é menor.

I&A – Eu e os ouvintes da Melodia agradecemos por você nos ter dedicado esse tempo, esperamos que os nossos diálogos, o nosso acesso à informação do seu governo, antes e depois, continue profícuo.

HERZEM – Quero respeitar e ter uma convivência extraordinária com meus colegas. Eu tenho assumido o compromisso de que nós não iremos, via prefeitura, mover nenhuma ação contra jornalista no exercício no direito de se expressar, da crítica. Não estou falando daqueles que agridem por agredir, mas não irei, muito pelo contrário. Sabe o que Jorge Melguizo me disse (Jorge Melguizo, da Colômbia, que transformou Medellin*)? Ele disse pra mim: Olha, você quer um conselho de colega? Eu disse, pois não. “Traga pra perto de você todos os seu críticos, eles é que vão ensinar você a governar”. E nós queremos voltar a apresentar uma Resenha Geral, quem sabe no sábado, e no sábado, convidar todos os críticos, até aqueles mais duros, implacáveis, para que a gente possa fazer tipo um Roda Viva, de perguntas e respostas, eu acho que ganha Conquista e a gente aprende Giorlando.

I&A – Muito obrigado Herzem. Boa sorte, parabéns.

* –  Como gerente do Centro de Medellin (2004-2005), secretário de Cultura Cidadã de Medellin (2005-2009) e secretário de Desenvolvimento Social de Medellin (2009-2010), Jorge Melguizo ajudou a cidade a passar da condição de uma das mais violentas do mundo a uma das mais acolhedoras e solidárias. O trabalho dele, baseado em cultura e convivência, transformou a realidade social de Medellin, por meio da cultura, com repercussão em todo o mundo.