Governo Herzem: secretário diz que dinheiro deixado por Guilherme está comprometido e enaltece servidores

Posted on quinta-feira, 5 janeiro 2017

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A sala que Marcos Ferreira ocupa no prédio principal da Prefeitura de Vitória da Conquista parece, à primeira vista, mais confortável que a sala que ele ocupava no Palácio dos Esportes, prédio secular localizado na Praça Castro Alves, em Salvador, onde funciona a Federação Baiana de Futebol, da qual Marcos foi diretor comercial e onde fui visitá-lo há dez anos. O local onde ele trabalha agora, pelo menos, tem mais luz que na FBF, porém, é muito menor e menos charmoso que a sala de onde dirigia a TV Sudoeste, por 12 anos, entre os anos 1990 e 2003. De qualquer modo, ao começar a ouvir Marcos Ferreira falando do seu novo trabalho, a impressão é de que aquela é a pessoa no lugar certo.

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Marcos Ferreira: sala pequena, entusiasmo grande. (Foto: Coordenação de Comunicação da PMVC)

O novo secretário municipal do Gabinete Civil nos recebe, eu e Lu Macário, coordenadora de Comunicação da administração Herzem Gusmão, com formalidade, mas com cortesia. Não demora e Marcos Ferreira até sorri. Comento sobre isso e ele ri e diz que “eu sorrio, mesmo com o canto da boca, mas sorrio”. Gelo quebrado, depois algumas lembranças do tempo em que trabalhamos juntos na TV Sudoeste, eu sob a direção dele, o bom humor permanece e passamos a falar da administração municipal, que chegava ao seu quarto dia, sendo apenas três dias úteis.  É visível o entusiasmo do secretário que vem sendo apontado como um dos que mais exercem influência sobre o prefeito Herzem Gusmão, o que ele nega, polido: “Sou apenas mais um colaborador, com uma boa relação de respeito e amizade com o prefeito”.

Logo na primeira resposta à entrevista que lhe fiz, Marcos Ferreira fez questão de destacar a importância dos servidores da prefeitura na transição e nos primeiros dias de funcionamento do novo governo. “Isso facilitou bastante nosso trabalho”. Referindo-se à natural angústia e à tensão que tomam parte dos servidores, que não sabem o que exatamente vão fazer, se manterão suas gratificações ou que tratamento receberão dos novos chefes, etc., Marcos disse que naquele quatro de janeiro o que ele mais desejava era que a semana passasse logo, “para que o medo, a expectativa, o temor, a apreensão saíssem da cabeça dos servidores, porque tem muita gente boa, eu sabia que ia encontrar muita gente boa aqui”.

Como o secretário tinha reunião com o prefeito logo a seguir, a entrevista foi curta e não tratou de questões importantes como a relação com Câmara de Vereadores, regulamentação do transporte por vans, licitação de lixo, aumento de tarifa do transporte coletivo e a criação da guarda municipal, mas deu para ouvir o secretário sobre as contas da prefeitura. E ele disse que o dinheiro que a administração do PT afirmou deixar em caixa não é um recurso livre para o novo prefeito gerir, porque já está comprometido. A administração anterior deixou apenas o que dá para cobrir os restos a pagar. “Essa história que ficou aí o caixa x – e o número que a gente ouviu por aí de 11, 12 milhões – é o que está se devendo, nós não vamos ter nenhuma folga”.

Marcos Ferreira também falou sobre o orçamento, considerado fora da realidade, e das expectativas em relação ao futuro do governo. Segundo ele, a expectativa da equipe é a mesma da população, de que seja feito um bom trabalho. Nesse sentido, segundo Marcos, repetindo o que tem dito o prefeito Herzem Gusmão, a administração vai ouvir os moradores, empresários e movimentos sociais, se aproximar mais da sociedade. Para reforçar essa intenção, o secretário do Gabinete Civil sugere que o slogan, definidor da linha de ação do governo, pode ser Mais Perto de Você. “A gente ainda não definiu o slogan, então isso não é oficial, mas se eu pudesse sugerir, eu diria assim: ‘mais perto de você’, ‘a prefeitura mais perto de você’. Eu acho que essa é uma marca indelével, que esteve presente em todos os discursos da campanha do prefeito. Ele [o prefeito] sente necessidade disso, ele exige da gente também, é porta aberta aqui”.

Leia abaixo a entrevista completa que foi ao ar no programa Informação & Análise, da Melodia FM (87,9):

BLOG – Como vocês encontraram a administração? Com mais dificuldades do que esperado ou a situação está dentro da normalidade? E quanto ao que se fala sobre dívidas?

MARCOS FERREIRA – Bom Giorlando, é um prazer recebê-lo aqui, amigo e ex-colega. Na realidade, eu queria começar com a transição. Fiquei muito feliz em ver, presenciar a maneira civilizada como fomos recebidos aqui e em todas as secretarias, particularmente pelos seus servidores e secretários, isso facilitou bastante nosso trabalho na medida em que, no primeiro momento, nós queríamos antecipar essa transição em 60 dias, mas o prefeito se respaldou na lei e nós tivemos só o mês de dezembro, como o mês de dezembro é um mês curto, com festas, alguns feriados, até que caíram no final de semana bem verdade, mas com recessos, nós não tivemos mais que 20 dias para trabalhar, no entanto, houve uma compreensão por parte dos servidores e dos secretários o que facilitou, pelo menos, o acesso ao material. Não dá pra gente ter ainda uma análise completa.

A gente conversava em off, antes do nosso bate-papo que vai ao ar, que nós já pretendíamos apresentar um relatório, um escopo final de tudo, de todos os aspectos, financeiro, comercial, institucional, material e equipamentos, mas não conseguimos concluir ainda. Fizemos uma apresentação no dia 30 de dezembro, de caráter interno, para o prefeito, vice-prefeita, os secretários e alguns colaboradores do segundo escalão, para que a gente tente finalizar isso por esses dias, não posso precisar, não vou ser leviano em precisar uma data porque é muito grande. A despeito de o prefeito ter tomado a decisão de reduzir de 19 secretarias para 12, que é uma decisão que foi tomada por quase todos os gestores do Brasil inteiro, em função do momento do país e de parte dos estados e municípios,  a gente não conseguiu ainda condensar esses dados, inclusive temos o maior interesse em alguns dados pontuais. Eu tive acesso a um material – muito bem feito inclusive – que a prefeitura divulgou na saída, por ocasião da entrevista coletiva do prefeito Guilherme, onde ele apontava uma série de feitos etc., e nós guardamos aquilo ali para servir de espelho e para que possamos checar exatamente o que de fato está concluído, se não tiver tudo, boa parte daquelas obras e realizações estão feitas e certamente estarão, mas muitas haverão de ser concluídas ou complementadas, vamos dizer assim. Isso vale para o aspecto financeiro, aspecto das praças, da limpeza, da segurança. É um desafio enorme você conhece bem, pois é da cidade, sabe da complexidade da terceira maior cidade do estado, mas eu diria que nossa expectativa é muito grande de tentar realizar o melhor.

Eu queria usar aqui o veículo para traduzir a minha fala na reunião que nós tivemos, na primeira reunião oficial e interna na segunda-feira. Você vai me entender Giorlando, você que me conhece tão bem. Os secretários foram falando um a um como é que tinha sido aquele primeiro dia de trabalho, que providências haviam tomado, como encontraram as suas respectivas secretarias, e quando eu fui falar, eu falei o seguinte: eu queria que esta semana passasse ligeiro para que o medo, a expectativa, o temor e a apreensão saíssem da cabeça dos servidores, porque tem muita gente boa, eu sabia que ia encontrar muita gente boa aqui, e se você observou e você está circulando por aí livremente pela prefeitura e certamente pelas secretarias, estão todos aí trabalhando, as pessoas estão trabalhando normalmente e a nossa ideia é que continuem. A maioria dessas pessoas são efetivos, são pessoas concursadas, então o meu sentimento, esse é meu, pessoal, e que externei ao prefeito e aos colegas secretários, é que essa semana passasse logo para que as coisas voltassem a sua normalidade e, aí sim, a gente implementar nosso ritmo, nossa maneira de trabalhar e de posse desses dados – que em breve nós vamos publicizar – a gente possa traçar novos planos ou colocar em prática ou que já trouxemos desde quando fizemos o nosso Programa de Governo.

BLOG – O prefeito falou em auditoria. Essa ideia está mantida? Ela será uma auditoria geral, uma auditoria financeira, uma auditoria financeira? Existe uma definição de como e quando isso começa a ser feito?

MARCOS FERREIRA – A gente ainda está trabalhando essa semana com a sanção do orçamento que foi colocado pela Câmara. A ideia do prefeito é de aprová-lo tacitamente para discuti-lo no retorno da Câmara de Vereadores em fevereiro. É assim que a gente deve proceder: aprovado o orçamento, nós vamos começar a esmiuçá-lo. Eu separo dois momentos aí, é importante ter auditoria, mas a auditoria pra gente ter uma opinião técnica abalizada, externa, que nos ajude a enxergar o todo de uma forma isenta, de uma forma profissional, tem muita gente competente que vai nos ajudar e que vai ajudar a auditoria a fazer o seu trabalho. É que a palavra auditoria é uma palavra muito forte, eu diria que é um conhecimento mais estratégico e técnico do que há de realidade na prefeitura em todas os seus nuances, não é só do financeiro.

Nós recebemos – é uma informação importante – numa visita que fizemos ao prefeito ACM Neto, uma sugestão de contratar a mesma empresa que ele contratou há quatro anos, que não é de auditoria, mas sim de planejamento estratégico, a McKinsey. A McKinsey, que é uma empresa inglesa com sede em São Paulo e que se fixou em Salvador por conta do trabalho que implementou no primeiro ano [do governo de ACM Neto], tá um pouquinho fora da nossa realidade financeira, seria maravilhoso contar com ela. Eu fui lá, tivemos duas reuniões com as pessoas da McKinsey, inclusive o pessoal de São Paulo que veio a Salvador pra trabalhar com a gente, eles mostraram interesse, só que a gente tem que botar os pés no chão, temos outra prioridades. Acho que – eu vou evitar a palavra auditoria, investigação também não – há a necessidade do levantamento dentro dessas áreas estratégicas da prefeitura, com uma auditoria mais próxima da nossa realidade financeira, e esse é o primeiro momento, mas, depois, ou concomitantemente, na medida do possível,  a gente tem que fazer um planejamento estratégico bacana, moderno, aproveitar o que já tiver de bom, que a gente não conhece ainda e tocar o barco.

BLOG – Você falou em aprovação do orçamento, mas o orçamento já foi aprovado, o prefeito pode vetar emenda, mas ele não pode ser alterado do ponto de vista da mensagem original. Se a sanção demorar ou a Câmara não promulgar, você é obrigado a trabalhar com o orçamento passado e todas as secretarias ficam ansiosas pelo tal do QDD, sem isso você não sabe qual é sua capacidade de trabalhar. Você acha que vai levar quanto tempo até que o orçamento seja sancionado pelo prefeito? O que está sendo questionado, o valor do orçamento, está acima ou aquém da realidade?

MARCOS FERREIRA – Esse é o grande problema de sempre. Pra você ter ideia, o orçamento tá aí aprovado com uma previsão de receita de setecentos e tantos milhões, quando foi quinhentos e pouco esse ano, que dizer: quando todos os sinais econômicos, quando qualquer indicador financeiro do país para 2017 fala ao contrário. De novo: eu respeito muito as pessoas que o fizeram, eu não chamaria, jamais, de peça de ficção, mas o quadro não aponta pra isso [aqui Marcos se refere ao que o atual governo tem chamado de exagero no valor do orçamento, diante da realidade]. Já é uma dificuldade objetiva que a gente vai ter. Quanto aos trâmites burocráticos, está aqui na minha frente documento da procuradoria informando todo o trâmite, o passo a passo de como deve acontecer para que esse orçamento aprovado comece a entrar em vigor e a gente libere essas secretarias para fazer os seus empenhos etc, e comecem a trabalhar normalmente, embora haja muita coisa que tem que ser revista dentro desse mesmo orçamento e certamente será.

BLOG – Marcos, há valores anunciados pelo governo anterior e confirmados, na Caixa Econômica, para a Perimetral, para o recapeamento de algumas avenidas principais, para o Terminal da Lauro de Freitas, etc., mas o dinheiro que faz a máquina girar, que faz o governo rodar, para o custeio e manutenção é curto, porque a arrecadação caiu, incluindo os repasses como ICMS e o Fundo de Participação dos Municípios, todos esses valores caíram. Mas há risco de piorar, não apenas para Conquista, mas para todos os municípios, cujos prefeitos que já estão preocupados com a folha de fevereiro ou março, por exemplo. Aqui, Herzem anuncia alguns cortes em cargos de confiança, mas o número de funcionários efetivos não pode ser reduzido, pois só se pode demitir um servidor concursado a partir de um processo administrativo que prove que ele teve culpa, etc., etc. O governo está preocupado com a possibilidade de ter problemas para pagar a folha e fazer a manutenção das praças, das feiras, dos cemitérios, entre outros, com essa arrecadação? Foi um alivio o dinheiro da repatriação ter ficado para agora, um dinheiro que Guilherme contou e acabou não vindo, mas vai chegar até o dia 5 ou 6?

MARCOS FERREIRA – Vamos por parte. A preocupação tem que haver sempre, para você ter responsabilidade. E com a arrecadação diminuindo, como você citou muito bem, de FPM e outras, você tem que se preocupar, mas não numa preocupação de que não conseguir honrar, eu não diria isso, eu acho que a gente tá bem seguro. Mas essa verba que você se referiu aí especificamente [da repatriação], vai ajudar a cobrir restos a pagar. Então, essa história que ficou aí o caixa x e o número que a gente ouviu por aí de 11, 12 milhões, isso é o que tá se devendo, então vai se usar esse dinheiro, é evidente que é muito bom que ele esteja aí, ele vai ser usado pra cobrir pagamento de restos a pagar e nós não vamos ter nenhuma folga com esse dinheiro da repatriação por exemplo. No entanto, as verbas carimbadas, como a gente costuma dizer, que são para as avenidas, etc., etc., é uma questão técnica de encaminhamento de projetos. Esse é um dinheiro que tá aí na Caixa Econômica, esse sim, é verdadeiro, esse sim a gente precisa agilizar o máximo para que a cidade comece a ver [sendo aplicado] e ter uma noção da nossa chegada.

BLOG – A austeridade é a marca e não tem como fugir disso, se não economizar, não é uma questão de avareza, pode dar zebra…

MARCOS FERREIRA – [A situação econômica] É uma preocupação do país inteiro, de todas as prefeituras, de todos os prefeitos, de todos os gestores. Eu não me vestiria de gari [gesto do prefeito de São Paulo João Dória] pra ir para avenida, pra mostrar que a cidade precisa de um gestor até na área de limpeza, sendo prefeito, acho que isso é um exagero é um marketing que eu acho que beira o exagero. Mas austeridade, sim. O momento da crise nacional é extremamente sério, você como jornalista sabe bem disso, e sem dúvida, austeridade é e precisa ser a marca não apenas da prefeitura de Conquista, mas de qualquer prefeitura que se respeita e que tenha respeito pelo seu contribuinte.

BLOG – Considerando que a cidade ainda tem algumas expectativas, quem votou está achando que pode ser um grande governo, mas ainda está esperando; quem não votou, grande parte já não questiona, mas está esperando uma resposta, eu encerro perguntando qual a mensagem de otimismo, o que você diria, representando o conjunto do governo, para o cidadão que está ainda sem saber, embora com esperança, o que vem por aí?

MARCOS FERREIRA – Olhe, a gente ainda não definiu o slogan, então isso não é oficial, mas se eu pudesse sugerir, eu diria assim: ‘mais perto de você’, ‘a prefeitura mais perto de você’. Eu acho que essa é uma marca indelével que foi, esteve presente em todos os discursos da campanha do prefeito. Ele [o prefeito] sente necessidade disso, ele exige da gente também, é porta aberta aqui”. É evidente que no início tem um certo tumulto, porque as pessoas estão muito ansiosas para conhecer as pessoas [novas no governo] e fazer as visitas, mas eu diria que diálogo e porta aberta é o que as pessoas podem esperar da prefeitura.