Biografia

Gosto mais de amizade do que de política

20170118_182805Estou no Maniff, um café no centro de Vitória da Conquista onde, por causa da gentileza dos trabalhadores e das delícias da casa, me acostumei a vir, dia sim dia não, sempre a partir de três da tarde, para, com a companhia ora de um bem tirado café espresso, ora de um whisky ou uma Heikenen geladíssima (o mais comum neste verão inclemente na outrora Cidade do Frio), atualizar meu blog, escrever textões no Facebook ou simplesmente para ler e-books e as notícias em sites locais e nacionais.

Esta tarde ainda não escrevi nada no blog nem li nenhum trecho dos dois livros que baixei em meu computador: “Como conversar com um fascista”, de Márcia Tiburi, e o excelente “O Voyeur: O grande jornalista americano em uma reportagem sobre obsessão e morte”, de Gay Talese, o grande mestre do jornalismo literário (este que eu, Fábio Sena, João Moreira Sales e Daniela Pinheiro, minha preferida, gostamos de fazer). Passei os olhos nos blogs locais e sites nacionais, respondi mensagens no WhatsApp e estou a escrever este textão para o Facebook.

Escrevo inspirado em uma resposta que dei a um conhecido que encontro com frequência aqui no Maniff, Cassiano Ribeiro Santos, a quem fui apresentado no ano 2000, pelo amigo Emmanuel Requião, de quem Cassiano é primo. Foi na campanha eleitoral de Itabuna e Cassiano foi formar na equipe de Geraldo Simões, candidato a prefeito pelo Partido dos Trabalhadores (PT), que Cassiano odeia. Não sei se ele odiava em 2000. Cassiano escreve bons contos, na minha modesta avaliação, e desenvolve textos filosóficos que, acho, são mesmo filosóficos. Há muito não os leio. Cassiano e eu não somos amigos no Facebook.

Ele tem dois perfis na rede social criada por Mark Zuckerberg. Em um ele é Cassiano Ribeiro Santos Dumont, O Mestre da Loucura Controlada, neste perfil temos 19 amigos em comum, dentre os quais Reno Viana, juiz da Vara Crime, um manifestante defensor da arte e da cultura, que empresta alma e voz à ideia de um mundo melhor a partir do conhecimento. No outro, ele é Cassiano Ribeiro Santos – sem o Dumont – e é A Voz da Maioria Silenciosa, com quem eu tenho 57 amigos em comum, incluindo Gustavo Felicíssimo, o poeta e editor lá de Itabuna, que abraça a causa da literatura, ainda mais em verso, e espalha sua fé na literatura Brasil afora.

O Cassiano físico, sentado na mesa ao lado, a todo momento tem um assunto para me falar (no ano 2000 ele falava menos porque ocupava a boca com cigarro). Ele me mostra as fotos de recente rapel que fez na serra da Pedra Afiada, em Itambé. E fala de política. Está comemorando a vitória do republicano Donald Trump e contando as horas que faltam para a posse do presidente americano. Comenta que é chegada a hora de os militares assumirem o governo brasileiro. Para ele, nada mudou com o impeachment da presidente Dilma Rousseff (que para ele não foi golpe). A economia não sai da crise, o desemprego só aumenta. Sua fala tem um certo tom de decepção com Temer, mas é mais enfático o discurso de fé na tomada do poder pelos militares, presente na queixa que faz de Temer e, claro, em intensidade desproporcional, de Lula, Dilma e PT.

Já ouvi dele vários planos. Cassiano sonha em esculpir na mesma serra onde ele fez rapel os rostos dos presidentes militares da ditadura de 1964 a 1985, como o Monte Rushmore, localizado na cidade americana de Keystone, Dakota do Sul, nos Estados Unidos. No Monte Ruhsmore estão esculpidos os rostos dos presidentes George Washington, Thomas Jefferson, Abraham Lincoln e Theodore Roosevelt, quatro. No Rushmore de Itambé, projetado por Cassiano, serão cinco. Outro projeto, que me empolgou mais que as esculturas na Pedra Afiada, era o da implantação de um cinema drive-in em um terreno localizado à margem direita da estrada Vitória da Conquista-Anagé. Memórias do cinema americano, como as cenas de Danny (John Travolta) e Sandy (Olivia Newton-John), em Grease (que eu adoro), ajudaram a que eu gostasse da ideia.

Cassiano fez uma pequena brochura com a defesa da ideia de repetir na serra da Pedra Afiada a obra do Monte Rushmore. Sobre o drive-in nunca mais falou.

Mas, certo de que o Congresso Nacional caminhava para aprovar a liberação dos cassinos no Brasil, em meados do ano passado ele me falou de um curso para crupiê e outros trabalhadores de casas de jogos. Seriam aulas gravadas, para serem acompanhadas pela internet, ante o pagamento de uma taxa nada módica. Cassiano não me disse se já acertou com os professores ou se já preparou as aulas. Sobre o projeto de legalização da exploração de jogos de azar no país, que autoriza cassinos a funcionarem em áreas específicas do Brasil, foi aprovado pela Comissão Especial do Desenvolvimento Nacional do Senado, mas ainda não passou pela votação em plenário. Se for aprovado vai para a Câmara dos Deputados.

O projeto dos cursos de formação de profissionais de cassino eu não acompanhei. Cassiano até me convenceu que pode ser uma boa ideia, mas não vi condições práticas. E agora talvez nem mesmo ele veja. Será que os militares, que ele crê que assumirão o poder diante do desastre Michel Temer, acham uma boa ideia aprovar o jogo de azar no Brasil? Dizem que militares são muito conservadores. Como eu não acredito que os militares tomarão o poder – pelo menos por agora -, sou propenso a estimular Cassiano a não desistir do projeto.

Hoje, Cassiano me contou sobre outra proposta. Depois de mostrar as fotos em que ele desce de rapel a serra que simboliza Itambé e lhe empresta o nome (Itambé, em Tupi-guarani, significa pedra afiada), explicar que a posição em que se encontra na primeira tomada (“estou de joelhos, chorando e rezando”) e falar que é a descida de rapel mais longa da Bahia, o Mestre da Loucura Controlada me chama para sócio. E afirma que só me fala da ideia porque confia em mim. Acha que se dissesse a outra pessoa (fala um nome que não citarei) o projeto logo estaria na boca de todo mundo, o que não é bom porque é uma proposta inédita e que pode ser muito lucrativa. Por isso, nem vou dizer qual é o projeto.

Mas, eu só ouvi Cassiano e ele só pôde me contar dessa e de outras ideias porque eu não ideologizo a nossa relação. Cassiano é de direita, muito de direita. Como outros tantos com quem me encontro no Maniff, no Bar de Paulinho, no Goró Bar, na porta da prefeitura ou na sala de espera da rádio onde apresento um programa todos os dias, à uma da tarde. E esse pessoal pensa que eu sou de esquerda. Também tenho amigos de esquerda, consciente ou louca, que me acham de direita. Cassiano disse que eu sou neutro. Pelo menos ele falou diferente de uma outra pessoa – esquerdista, como ela se diz – que, hoje mesmo, disse esperar que eu fosse mais imparcial. Normalmente, quem pede que um jornalista seja imparcial está dizendo que quer ouvir ou ler dele opiniões contra os inimigos da pessoa. Eu não sou imparcial. Nem neutro. Disse a Cassiano que sou mediano. E intermediário. E do meio. Quero estar no meio das pessoas.

Falei ao filósofo sonhador de Itambé que, a sair bradando parcialidades ideológicas ou neutralidades políticas, prefiro estar entre pessoas, poder ouvir as coisas que uma pessoa de direita, como ele, tem a dizer que não sejam exatamente coisas de direita. Ou de aprender com gente de esquerda coisas que não são exatamente defesas das coisas da esquerda. Claro que detesto a violência de qualquer dos lados. Odiei Cassiano quando ele ameaçou, sem conhecer, meu amigo Ernesto Marques, em uma das explosões verbais que ele vituperou em uma rede social. Como não aceito quando dão de bandas ao meu sorriso os esquerdistas, mesmo gente da estirpe grandiosa de Ernesto, porque eu converso com Cassiano e outros. Isso eu também odeio.

Já disse isso aos meus conhecidos – gente que chamo de amiga – de direita e de esquerda: não devo à sua ideologia as minhas amizades.

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6 respostas »

  1. Quando a conversa politica é conduzida pelos princípios filosóficos que a própria palavra denota, nunca haverá o radicalismo exacerbado, seja de direita ou de esquerda, e sim ideias que até podem convergir para o essencial, o bem comum. Assim, as boas amizades conduzem a bons papos sobre política. Quando regada a cerveja, vinho ou whisky flui muito melhor…

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  2. Me diverti com o artigo…! Cassiano é um poço de criatividade e é daquelas pessoas únicas, seja pela timbragem da voz, das gesticulações, do vocabulário e claro, pelo humor ácido, a sátira o política e a facilidade de filosofar com as coisas do cotidiano. Hoje, infelizmente, não pude estar no Maniff com os meus amigos. Dr. Paulo Maurício, Dr. Carlos Eduardo, Rafael Nunes, Zé William, Nelson Oliveira, Ivan Cordeiro e Gideon (este se recuperando de uma cirurgia de retirada de um tumor no cérebro), são parte do que espirituosamente chamamos de “senadinho”, que, 3 vezes por semana se encontra no Maniff para um café com resenhas, de preferência, políticas. Abraços ao amigo Giorlando e Cassiano!

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  3. Diferente do caríssimo Giorlando, autor dessa crônica encomiasta, eu não separo amizades de Política, apenas estabeleço os critérios políticos em um patamar tal que muitos amigos podem circular por baixo, ou, para usar uma metáfora mais apropriada, como um pescador que usa redes de malhas tão largas que pequenos peixes entram e saem livremente por elas! Giorlando é essa simpática piaba a nadar com muita desenvoltura pelos espaços políticos e vitais da nossa oceânica Bahia! Trabalhei com ele na campanha de um candidato do PT em Itabuna, nos emblemáticos anos 2000. Ele é testemunha do fiasco homérico que fora minha participação: nenhum slogan meu foi aprovado, nenhuma sugestão acatada, nenhum texto meu utilizado. Eu já era um anti-petista visceral e apenas não tinha consciência disso. Tão recalcitrante era minha ojeriza por essa camarata de chupangas que de lá voltei totalmente desorientado, como um pescador novato que tivesse em suas próprias redes se embaraçado! Passemos aos projetos de minha lavra que o caro cronista – de modo muito elegante e prosaico -, busca divulgar sob a pátina de uma crônica literária: O Projeto de um Mega Monumento na Montanha da Pedra Afiada, cordilheira do Marçal, será objeto de votação popular digital, quando as pessoas poderão escolher os vultos da Pátria que nela serão homenageados. Já estamos em fase de aquisição do espaço e contamos com um escultor oficial para coordenar a construção, o escultor e empresário conquistense Alan Kardec Cardoso Lessa. Mais informações poem ser consultadas na nossa página
    https://www.facebook.com/monumentodapedraafiada
    Sabemos todos que o Turismo é a quinta atividade mais lucrativa da civilização, atrás apenas, em ordem decrescente, de ENERGIA, ARMAS, ALIMENTAÇÃO e SAÚDE. Sentimos como a nossa região carece de um atrativo turístico que possa fixar por alguns dias o fluxo gigantesco de pessoas que por aqui passam, seja ao longo da Rio-Bahia, seja descendo rumo às praias do Sul da Bahia, via Ilhéus. Milhares de pessoas a cada ano que apenas abastecem seus automóveis, fazem uma rápida refeição e seguem viagem. Uma tremenda fonte de recursos que dispensamos por falta de uma política de turismo adequada. Que esse nosso projeto sirva, pelo menos, para fomentar novas propostas e projetos alternativos de atrações turísticas de larga proporção. Isto já nos recompensaria. Na página citada, vocês verão as fotos e vídeos de um grande Rapel que lá fizemos, com a orientação do Professor e Alpinista paranaense, Robson Felipe Alves, que nos guiou com profissionalismo impecável e aulas de inconteste eficiência. Na próxima, em março vindouro, levaremos nosso amigo Giorlando para uma experiência mais herética e selvagem, quem sabe assim ele não adota um ritmo mais dinâmico e emotivo ao seu estilo bebop e quase sonolento de escrever! Vamos por vibração e cadência nessa escrita, Gigi! O conteúdo é ótimo e exige feeling!
    O outro projeto, um Curso Profissionalizante para Trabalhadores de Cassinos, tem ressonâncias com o primeiro, se enquadrando no mesmo Cluster do Turismo de larga Escala. Envolve aulas de Gastronomia, Hotelaria, Línguas Estrangeiras, Teoria dos Jogos, Estatística, Segurança ( Módulos a serem formatados e coordenados pelo maior especialista em segurança pública do Nordeste Brasileiro, o querido conterrâneo Valdir Barbosa), Informática, Gestão de Estoques… Para tal curso – já devidamente registrado no Escritório de Direitos Autorais – ainda estamos em busca de parceiros, lembrando aos interessados que não existe absolutamente ninguém no Brasil preparando pessoas para uma atividade que, caso seja liberada, virá a empregar algo em torno de 50.000 pessoas em todo o Território Nacional! FAÇAM SUAS APOSTAS, SENHORES!
    Last, but don’t least, minha atividade como filósofo, no momento está concentrada em combater o monopólio intelectual do Pensamento da Direita brasileira que se encontra profundamente associada ao proselitismo do Sr. Olavo de Carvalho, um astucioso jornalista radicado nos EUA, e sua turma de fanáticos seguidores que produzem um nefasto engessamento e doutrinamento conceitual construído por um senhor muito profícuo e inteligente, mas que nunca foi filósofo, e cujas consequências para a vida política do país transcende o âmbito desse meu comentário já em si muito prolixo e enfadonho, suponho. Quem quiser conversar sobre esse específico tema de minha atividade como Filósofo, convido-os a visitar meus perfis no Facebook, já tão generosamente divulgados pelo Giorlando Lima! Avisando, porém, que, nos meus três perfis, estou bloqueado por uma semana. O Facebook agora, sob chuva de protestos de todo tipo de gentalha e escumalha, adotou uma nova tática: não bloqueia mais um perfil meu por trinta dias, mas bloqueia todos os três por uma semana. Acho que querem que eu faça uma Delação Premiada! Voilá! That’s All Folks, Pessoal!

    *Obrigado, Marcelo Guerra, pelo simpático comentário a meu respeito acima! Estamos com saudades de você, Gideon et Caterva! Deixarei um café pago na conta do Giorlando!

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