Élquisson Soares elogia Herzem, “é sério, confio nele”, mas diz que proximidade com Geddel e Lúcio Vieira Lima é perigosa

Posted on quinta-feira, 9 fevereiro 2017

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whatsapp-image-2017-02-08-at-14-52-15Um dos parlamentares brasileiros mais destacados de sua geração, esse catingueiro orgulhoso de suas origens é até hoje lembrado por suas passagens da Assembleia Legislativa da Bahia e pela Câmara de Deputados. Élquisson Soares foi uma das vozes mais corajosas e mais ouvidas durante o período militar, na defesa da democracia e do direito de liberdade do cidadão brasileiro, com mandatos eletivos no parlamento de 1975 a 1987. O lema de campanha de Élquisson era “Contra a fome e a farsa”.

Afastado da disputa política por muitos anos, em 2012 ele foi candidato a prefeito de Vitória da Conquista, pelo PPS, sem sucesso. Mas, a aparição na TV e a campanha eleitoral proporcionaram uma reaproximação com a história política conquistense, relembrado pelos mais velhos e passando a ter sua trajetória conhecida pelos mais jovens. Tendo sido um dos nomes da esquerda nacional mais comentados nos anos 1970 e 1980, Élquisson, que travou uma longa batalha contra Antônio Carlos Magalhães, o ACM, entretanto, desencantou-se com a esquerda, e com o PT de forma mais profunda, mesmo tendo sido eleitor de Jaques Wagner em 2006, conforme registros da imprensa.

whatsapp-image-2017-02-08-at-14-52-12Em entrevista ao programa Informação e Análise, que eu apresento na Rádio Melodia FM, Élquisson afirmou que nunca teve qualquer elogio para ACM, mesmo hoje, quase dez anos depois da morte do ex-governador. Mas, quando é para comparar com “os tempos do PT”, ele não tem dúvida: Antônio Carlos Magalhães tinha um estilo violento e não foi o governador que dizem ter sido, “mas, é evidente que, ainda assim, na época dele, o estado estava melhor situação do que está hoje, bem melhor”.

Élquisson votou em Herzem e aposta que o governo do peemedebista vai dar certo, pois “ele é sério e tem muita responsabilidade”. No entanto, ele revela que no primeiro turno não votou no atual prefeito. Peço desculpas pela falha de não ter perguntado em quem o ex-deputado das Barrancas do Rio Gavião votou no primeiro turno da eleição passada, mas o fato é que ele não votou em Herzem, o que veio a fazer no segundo turno. Por quê? Por causa de Geddel Vieira Lima. “Eu conheço a ‘peça’ e não tenho porque esconder o jogo, disse: ‘Nesse eu não voto, no Herzem’, porque não quero ver Conquista, amanhã, entregue a quem já está na Lava Jato desde logo. Então, não vou votar em Herzem por esse apoio que ele está dando a Geddel, porque ele está dando um mau passo”.

Para Élquisson, Herzem não precisa de Geddel e de ninguém da família Vieira Lima, referindo-se ao irmão de Geddel, Lúcio, que é deputado federal e vive sendo citado pelo prefeito de Conquista como o seu representante em Brasília. Respondendo a pergunta feita pelo advogado Ronnie Peterson, Élquisson disse que a relação com os Vieira Lima não é perigosa apenas para Herzem. “Pode ser perigosa para todos nós. Essa é uma família que não tem o menor zelo com a coisa pública, uma família que a gente conhece de perto. Eu, pelo menos, conheço, do Afrísio Vieira Lima [pai de Geddel e Lúcio], que foi meu colega na Assembleia Legislativa, aos irmãos, que passaram também pela Assembleia e conheço os que passaram pela Câmara Federal, inclusive o próprio Afrísio. Mas, como Geddel não tem outro. Geddel é único e é o único que a gente não pode, sequer, cumprimentar, porque não merece respeito.”

whatsapp-image-2017-02-08-at-14-52-152Na entrevista Élquisson Soares fez várias menções elogiosas ao prefeito Herzem Gusmão, a quem disse dever muitos favores. “[Herzem] sempre me ajudou muito, sempre me apoiou”. Relembra que teve a ajuda do atual prefeito como radialista e que juntos fizeram campanhas políticas. “É um velho companheiro de campanhas políticas do passado, que é filho da terra e tem merecido o apoio da população. Devemos todos ajudá-lo a administrar. E que ele não incorra em comportamentos que possam quebrar a confiança que a população botou nele.”

Para não incorrer nos comportamentos que podem manchar seu governo, Élquisson diz que Herzem deve ouvir as ruas e se cercar de gente que tenha a coragem de lhe dizer as coisas diretamente e não apenas dos que aplaudem. “Que ele não escolha, simplesmente, as pessoas que vão pra lá para bater palmas para ele. Que chame pessoas que podem conversar com ele, olhando no olho, e possam dizer as coisas, com serenidade, não para agredir, mas discutir e colocar as coisas para ele. Ele é sério, eu acredito muito nele, acredito na administração dele, mas é preciso que ele ouça as ruas, ouça as ruas.”

Leia abaixo a entrevista completa. Também participou com perguntas o advogado Ronnie Peterson.

I&A – Foi notória a sua briga com o ex-prefeito, ex-governador, ex-ministro e ex-senador Antônio Carlos Magalhães, conhecido nacionalmente como ACM. Fale um pouco desse personagem.

ÉLQUISSON – O Antônio Carlos Magalhães foi um homem de importância muito grande no Brasil – e nesse Brasil depois do 64, esse Brasil que mergulhou nesse mundo escandaloso, na verdade esse estava nesse meio aí. Mas, é evidente que, ainda assim, na época dele, o estado estava melhor situação do que está hoje, bem melhor.

Fui adversário do Antônio Carlos, duro adversário, nunca gostei dele, mas, em verdade, eu reconheço o papel que ele desempenhou no estado. Ele passou pelo estado e marcou sua presença. Evidentemente que não vai marcar como marcou o J.J. Seabra, o próprio Roberto Santos, porque eram posturas diferentes, Roberto Santos, que tinha lhaneza e o respeito de todos, até dos adversários. Mas, o Antônio Carlos teve destaque nacional, como senador, como deputado federal, etc., embora o estilo fosse condenado por todo mundo. Não conheço ninguém que batesse palma para ele, a não ser os áulicos, os puxa-sacos, os que eram pagos por ele para fazer.

I&A – Élquisson, você conheceu – e brigou muito com ele o avô do prefeito de Salvador, conhecido nacionalmente como ACM Neto. É possível traçar um paralelo entre um e outro?

ÉLQUISSON – Dá. E eu até iniciaria pelo aspecto físico. O avô, gordão, fortão, violento, com a palavra solta, não media a palavra. Se tinha que xingar um juiz, ele dizia – e eu cansei de ouvir isso – que era um juiz de merda. Não tinha estilo, era a violência. E o neto, até pelo apelido, o apelido dele é muito carinhoso, “grampinho”; se o avô era o “grampão” ele é o “grampinho. Eu, inclusive, admirei ACM Neto como deputado federal. Ele teve um belo desempenho como deputado. Como o próprio filho de Antônio Carlos Magalhães, o Luís Eduardo, que tinha um estilo diferente e também teve destaque, a ponto de presidir a Câmara dos Deputados. Eu vou contar um episódio, para você como eu procedo nesses momentos. Nessa eleição que passou, agora, a reeleição do Neto, a minha filha que mora em Salvador me ligou, com uma certa preocupação: “Meu pai, eu estou muito preocupada aqui em Salvador, porque dentre os candidatos a prefeito daqui eu não tenho em quem votar, a não ser que eu vote no atual prefeito (era a reeleição do Neto), pois ele, pelo menos, está fazendo alguma coisa”. Eu falei: “Se você acha que ele está fazendo alguma coisa, que ele está sendo útil para a população de Salvador, vote”. Ela disse: “Mas meu pai, você foi adversário do avô dele”. Aí eu respondi: “Olha, não confunda as coisas. Fui adversário do governador Antônio Carlos Magalhães e até hoje não tenho nenhum elogio a fazer a ele, mesmo depois de morto. É muito comum na Bahia todo mundo passar a ser deus depois que morre, pra mim, não. Ele [ACM] continua sendo o homem violento que foi a vida e não foi esse governador que dizem que foi. Mas o neto, se está fazendo uma boa administração, por que não votar nele, sobretudo porque não tem outro? Vote. Eu não tenho nada contra ele”.

Eu não vou transferir o problema que eu tive com o avô dele pra ele, não faz sentido. Eu quero é que ele faça uma boa administração e que faça sucesso. E se seu receio é de que eu a recriminasse porque vai votar nele, que é o que você está pretendendo fazer, pode votar; eu não tenho nada contra, muito pelo contrário. Se ele está bem na prefeitura é bom que seja reconduzido.

I&A – Em 2012 você foi candidato a prefeito pelo PPS e não logrou êxito. No segundo turno você apoiou Herzem Gusmão. Na eleição passada você votou em Herzem nos dois turnos?

ÉLQUISSON – Não. No primeiro turno não. Porque houve uma entrevista do Herzem apoiando Geddel Vieira Lima e como eu conheço a “peça” e não tenho porque esconder o jogo, disse: “Nesse eu não voto, no Herzem”, porque não quero ver Conquista, amanhã, entregue a quem já está na Lava Jato desde logo. Então, não vou votar em Herzem por esse apoio que ele está dando a Geddel, porque ele está dando um mau passo. Mas, no segundo turno a gente tinha um grande adversário, que não era o Herzem, era o PT.

Uma pessoa, que vou guardar o nome porque não sei se ela vai gostar, que me chamou a atenção: “Você não pode deixar de votar agora no Herzem, porque a gente precisa tirar o PT daí. Então, se você não votar no Herzem termina ajudando o PT”. E essa contribuição eu não queria dar, não queria morrer levando essa mágoa, por isso votei no Herzem. Para tirar o PT.

Devo até a ele [Herzem Gusmão] muitos favores, porque sempre me ajudou muito, sempre me apoiou. As rádios, antigamente, transmitiam até os júris daqui e Herzem foi quem iniciou isso. Como foi o Herzem o primeiro a transmitir as sessões da Câmara de Vereadores, já no governo do Jadiel [Matos]. Talvez pela importância que a Câmara de Vereadores tinha na época. Eram 13 vereadores, que eram vereadores mesmo. Você tinha um homem do povo como Zé Góes, por exemplo, que era a grande figura aqui da Rio Bahia, do bairro Brasil, e era um grande vereador. Você tinha Valmir Santos Silva, Ney Ferreira e tantos outros. E havia aquelas que tinham maior destaque, digamos assim, Altamirando Novais, um homem da Arena, mas um homem sério, uma grande figura, meu conterrâneo das Barrancas do Rio Gavião, que eu admirava muito pela postura que tinha, pela seriedade com que encarava a vida pública. E assim por diante: Jeziel Norberto, Ilza Matos, Onildo Carvalho… eram muitos vereadores bons.

A gente tinha uma Câmara de Vereadores que a gente podia aplaudir. Eu não estou querendo fazer referência ao que a gente tem hoje, não corro o risco de fazer uma comparação, porque tenho medo da censura do povo, mas, na verdade, a Câmara de Vereadores de hoje não é a mesma que a gente teve aqui há 30, 40 anos.

I&A – O pessoal que apoia o prefeito Herzem Gusmão diz que, por serem apenas 39 dias de gestão, é cedo para criticar o governo, mas você, que votou nele e é uma pessoa atenta à cidade, diria que também é cedo para elogiar? Você teria algum elogio para Herzem?

ÉLQUISSON – Eu diria que é cedo pra gente fazer o que as pessoas muitas vezes querem fazer: endeusar. Eu acho ele sério e tem uma responsabilidade enorme, que é a de não pecar, de não fazer o que os outros fizeram, os outros do PT, por exemplo. O PT foi a pior coisa que ocorreu ao Brasil, evidentemente, como nós somos um pedaço do Brasil sofremos as consequências dessa presença do PT aqui, na administração.

Mas, Herzem teve uma votação muito expressiva e tem a responsabilidade, agora, de cumprir o que prometeu e de fazer uma gestão séria. Eu acredito, piamente, que isso vai ocorrer, e aposto até, só não faço é botar a mão no fogo, porque posso me queimar. Mas, acredito que ele vai fazer, realmente, uma bela administração. Torço por isso e, na medida do possível, o que eu puder fazer para ajudar, estou à disposição.

I&A – O que o prefeito tem que fazer para que o PT, que você considera uma ameaça, não volte e o governo dele entre para a história?

ÉLQUISSON – Olha, eu comecei dizendo o seguinte: ele precisa evitar o aproveitamento de petistas. A não ser que o petista que ele queira nomear – eu já ouvi muitas críticas aí, a pessoas que ele está nomeando – passe pelo crivo da opinião pública. Bota vereador para comentar sobre essas nomeações, etc., porque para o parlamentar é mais fácil do que o prefeito. Mas é preciso ter muito cuidado. Quem foi do PT, quem fez o que fez com essa cidade, mesmo apoiando [o atual governo], não deve estar merecendo destaque, não. Não deve participar da administração. Eu acho que é uma prevenção que o Herzem não pode abrir mão dela.

I&A – De todos os erros que você viu e a cidade, em algum momento, atribui ao PT nesses 20 anos, qual foi o maior, aquele que seria imperdoável, do ponto de vista da administração local?

ÉLQUISSON – Ô, Giorlando, é muito difícil você analisar 20 anos que o PT ficou na administração aqui, destacando esse ou aquele ponto. Mas, o fato, por exemplo, de Vitória da Conquista ficar mandando dinheiro para Santos, para o PT nacional. Porque o PT foi o maior assalto que o Brasil já sofreu até hoje. Então, as câmaras de vereadores tinham que mandar dinheiro para deputados, para fazer o patrimônio, para o PT governar com o dinheiro que era tirado da gente pobre do Brasil inteiro. Eu acho que administração do PT foi, sob todos os aspectos, condenável, corrupta, desde o início, sem o menor respeito ao dinheiro público.

Eu acho que o Herzem deve pesar todas essas coisas para que ele não sofra, amanhã, uma contaminação disso. É evitar o contato com essa gente que passou os últimos 20 anos pela prefeitura, é um dever. Senão, ele pode sofrer críticas violentas por isso. Mas, o que quero dizer, com toda franqueza, é que acredito nele, o conheço de perto, é um velho companheiro de campanhas políticas do passado, que é filho da terra e tem merecido o apoio da população. Devemos todos ajudá-lo a administrar. E que ele não incorra em comportamentos que possam quebrar a confiança que a população botou nele.

I&A (Ronnie) – Você falou que não votou em Herzem no primeiro turno, por conta da relação dele com Geddel, mas, mesmo após Geddel cair a gente vê que ele mantém uma relação estreita, nomeando o irmão de Geddel, o deputado federal Lúcio Vieira Lima, como seu representante em Brasília. E Lúcio também está envolvido com a Operação Lava Jato. Você não acha que essa relação de proximidade com a família Vieira Lima pode ser perigosa para o governo?

ÉLQUISSON – Pode ser perigosa para todos nós. Essa é uma família que não tem o menor zelo com a coisa pública, uma família que a gente conhece de perto. Eu, pelo menos, conheço, do Afrísio Vieira Lima [pai de Geddel e Lúcio], que foi meu colega na Assembleia Legislativa, aos irmãos, que passaram também pela Assembleia e conheço os que passaram pela Câmara Federal, inclusive o próprio Afrísio.

Mas, como Geddel não tem outro. Geddel é único e é o único que a gente não pode, sequer, cumprimentar, porque não merece respeito.

I&A – Geddel deu uma entrevista na semana passada, comentando sobre o fato de a secretaria da qual ele era ministro chefe – quando caiu por causa do Le Vue – passar para o PSDB, e ter sido assumida por outro baiano, Antonio Imbassahy, que a gente conhece também. Foi quando Geddel disse, parodiando a belíssima música de Paulinho da Viola: “Política foi um rio que passou em minha vida”. Você acredita que ele desistiu mesmo da política, de tentar um mandato?

ÉLQUISSON – Eu acho que, talvez, ele esteja fazendo uma adivinhação. Quando ele diz que não vem mais [para a política] é porque o povo não quer. Não é por opção. Mas, não é mesmo. Ele não tem mais opção para nada na vida pública. Negativo. A presença de Geddel, em qualquer lugar, é sempre uma suspeita. Eu acho que a Bahia tem gente melhor. Precisa se relacionar melhor o pessoal, não pode votar em qualquer um. A Câmara Federal, eu passei por lá. E mesmo em plena ditadura tinha gente que merecia respeito. Eu, por exemplo, gostava muito de Sinval Guazzelli, que começou na Arena e depois foi para o MDB, mas, governador eleito pela Arena no Rio Grande do Sul, recebeu o respeito de quem quer que estivesse com mandato na Câmara Federal naquele momento. Também Paulo Brossard, um ícone brasileiro, também foi eleito pela Arena e depois foi para o PMDB, uma grande figura. E como eles ainda cito aquele que significa o símbolo do parlamentar brasileiro do nosso século, que é o Pedro Simon, figura extraordinária, de uma dignidade fora do comum; sob todos os aspectos elogiável. De modo que a gente não pode comparar a passagem de um Geddel com um Pedro Simon, com Sinval Guazzelli… E estou falando de gente da Arena, que é de onde ele veio, ele nunca foi oposição.

Eu acho que a gente tem uma dificuldade grande, quando eu ouço, hoje, o Temer, que é presidente da República dizer que é grande amigo de Geddel e o prestigiou mesmo sabendo que a população não estava aplaudindo o que ele estava fazendo. Mas, fez, fez. Ainda bem que Geddel não fez por merecer. E não foi o Temer que o tirou, não; foi a grita da população, que ele teve que ouvir e tirou Geddel. [A população] que o forçou a sair.

Depois não se pode comparar Geddel com o substituto dele nomeado pelo Temer. E olha que sou opositor a ele. E olha, fui opositor a ele, que chegou até ao governo do estado, nomeado por Antônio Carlos Magalhães, mas tem uma postura complemente diferente do Geddel. Não se pode comparar. Eu acho que o Antônio Imbassahy merece o apoio da gente, até o momento em que ele não ficar achando que o Temer é a grande solução do Brasil, porque não está sendo.

Eu não tenho essa esperança toda no Temer. É preciso que ele evite certas situações, porque o PMDB que ele prestigia, o PMDB de Jucá, de Sarney, de não sei o quê, ele precisa evitar, isso aí é o que o pessoal não quer. Na verdade, é o que assombra a população. O medo que a gente tem é de o Brasil, amanhã, ser governado por um Jucá ou por essa gente da mesma estirpe.

I&A – Se você fosse deputado federal, neste cenário da política brasileira, e fosse discursar, o que diria na tribuna?

ÉLQUISSON – Amigo, é um verdadeiro desafio. Talvez eu estaria fazendo uma prece a Deus para ter pena do Brasil, porque esse país ainda vai ser grande, cada vez vai ser maior, que ainda vai ser uma grande potência, etc., mas pelas mãos das gerações futuras. Eu me lembro que Brizola dizia: “Nós temos que brigar para salvar as crianças. Não as crianças que já nasceram, as que estão no ventre da mãe, porque as que já nasceram já estão contaminadas”. O Brizola era um sábio, foi uma das maiores figuras que este país já produziu e que vai deixar saudade sempre.

De modo que eu não sei, Giorlando, o que eu diria, nos cinco minutos do Pinga Fogo da Câmara Federal, sobre o atual quadro. Eu estaria, talvez, amedrontado, porque o que eu vejo lá no Congresso Nacional, hoje, é de assombrar.

Eu vejo o PT com aquelas três ou quatro figuras que estão todo dia falando que Lula é isso, Lula é aquilo. Eu li no jornal A Tarde o comentário de uma pessoa elogiando muito Lula e reclamando que o pessoal fica criticando Lula no velório da mulher dele. E Lula, então, lamentando que a mulher tenha sofrido esse aperto todo, em razão da perseguição que estão fazendo com ele. Não é verdade. Depois, no dia seguinte, no mesmo jornal, veio uma outra crítica, de alguém que disse: “Nada… Esse pessoal do PT roubou muito e fez e aconteceu, não tem que estar lamentando nada, nem no velório da mulher de Lula, porque ela apoiou esse negócio todo que o Brasil botou pra fora aí agora.” E é verdade, a gente não pode negar. Agora, o que não se deve é tripudiar, sobretudo num velório, sobre uma mulher que foi primeira-dama e que a gente não pode ter nada contra ela. Se a Lava Jato tem que apure. Eu sou um rigoroso defensor da Lava Jato por isso, porque ela está, realmente, cumprindo um papel que a gente vem reclamando há muito tempo: de passar o Brasil a limpo. Quando eu vejo uma crítica ao Moro, esse juiz que está se destacando – diante do mundo! O mundo todo tomou conhecimento dele e o elogia – é porque, às vezes, perderam a teta, perderam a comidela que tinha. Porque quem pensa no Brasil sério, quem deseja o Brasil limpo, quem quer passar o Brasil a limpo, não pode criticar quem está fazendo esforço nesse sentido.

I&A (Ronnie) – Considerando a grande quantidade de políticos envolvidos, há risco de a Lava Jato acabar como a Mãos Limpas, da Itália, onde o congresso local foi descaracterizando a operação até acabar, com o objetivo de salvar os políticos?

ÉLQUISSON – Olha, eu vou tomar um caso simples para dizer que a Lava Jato já está dando muitos frutos ao Brasil. A atual presidente do Supremo Tribunal Federal é uma moça daqui de Espinosa, uma cidade que fica ali depois de Urandi, na divisa da Bahia com Minas. Tinha um juiz aqui em Conquista que é de lá de Espinosa, Juracy Barbosa Lima, que é muito amigo da Carmen Lúcia, e com ele eu fui à cidade. Precisei da ajuda dele em um assunto que eu estava discutindo e fui lá.

E fui até a casa da Carmen Lúcia e ela não estava, mas conheci o pai e mãe dela e conversamos muito. E essa moça acaba de dar um grande exemplo: o pai está meio adoentado, ela precisou fazer uma visita ao pai e alugou um carro. Nem tomou o avião que podia tomar, da Presidência da República, e nem pegou o carro do Supremo, que poderia fazer a viagem, alugou um carro para vir visitar a família. Esse é o Brasil que a gente quer, esse Brasil dessa compostura, dessa seriedade, desse zelo com o dinheiro público. Que o nosso amigo que nos representa hoje, o Herzem, tome isso como exemplo. Coisa simples, é um ato muito simples, mas é emblemático. A presidente do Supremo Tribunal Federal, que podia pegar o carro que quisesse, mas não, alugou um carro para visitar a família em Espinosa. A gente tem que bater palma para uma postura dessa.

I&A – Você falou que estivesse na Câmara hoje poderia estar amedrontado, mas no seu tempo você, Chico Pinto, Rubens Paiva e outros, se revezavam na tribuna e quando um estava lá os demais ficavam protegendo, porque havia risco real de refrega física.

ÉLQUISSON – É evidente que deputados sérios, que se dedicam à causa do povo, que vão para lá trabalhar pela causa comum, fazem falta. Um Jarbas Vasconcelos, está lá. Conheço de perto, bato palmas para ele. Você tem lá um senador, como Cristovão Buarque, da maior experiência, até do meu partido [PPS], foi candidato a presidente da República, grande figura, dedicado, sério, foi um grande reitor da Universidade de Brasília, um cientista dedicado à educação brasileira. A gente tem que bater palma pra essa gente. E claro, a falta de figuras como essas no Congresso Nacional é caso pra gente chorar. Você tem um Cristóvão, mas tem um Jucá, que é o contraste, o outro lado da moeda, um cara que está rico, bilionário, roubando. E a gente é obrigado a suportar?  O que é preciso, na verdade, é gente séria e comprometida com a seriedade da administração pública, para que esse país tome rumo. Enquanto a gente tiver um congresso como o que a gente tem hoje não vai para lugar nenhum. O país está no atoleiro, essa é que é a verdade.

Voltando para nossa terrinha aqui, é evidente que a gente tem que sentar com Herzem – ele, de vez em quando, tem que fazer uns saraus, a gente sabe que ele se reúne na casa de Ubirajara Brito, mas que ele não escolha, simplesmente, as pessoas que vão pra lá para bater palmas para ele.

Que chame pessoas que podem conversar com ele, olhando no olho, e possam dizer as coisas, com serenidade, não para agredir, mas discutir e colocar as coisas para ele. Ele é sério, eu acredito muito nele, acredito na administração dele, mas é preciso que ele ouça as ruas, ouça as ruas.

Eu já ouvi muita coisa aí, sobretudo sobre o aproveitamento de petistas. Uma pessoa chegou  até mim para dizer: “Olha, não vai ter muita diferença do governo do Herzem para o PT, não; ele está colocando todo mundo do PT lá dentro”. É bom que ele tenha cuidado com isso.

I&A – O prefeito, aliás, disse que uma das pessoas que ele aprendeu a admirar recentemente, Jorge Melguizo, ex-secretário na Colômbia (que conseguiu com políticas de cultura e de cidadania, transformar Medellin de cidade violenta em uma das cidades mais seguras do mundo), lhe disse que ele deve trazer para perto de si os críticos, os pensamentos críticos. E Herzem fala que formou um conselho consultivo que reúne o PIB da cidade. Mas, você não fala do PIB da cidade, mas da massa cinzenta da cidade, não é Élquisson?

ÉLQUISSON – Talvez a expressão que usou tenha sido infeliz. Porque o que interessa para ele, na verdade, não é ser cercado pelo PIB, mas pelos que pensam, que acham que a cidade deve ser assim ou assado. E que ele saiba ouvir isso, absorver isso. Eu sou amigo de muitos do conselho e participei de uma única reunião, quando eu disse: “Olha, eu tenho absoluta confiança nesse conselho, porque presidido por Onildo Oliveira”.

Eu confio muito nas pessoas que têm origem na política ideológica. Noutras palavras: não confio em político que não tem princípio, que não tem uma boa formação, que não sabe se assentar em ideias, sejam elas comunistas ou não – claro que não pode ser nazista. Os comunistas são pessoas preparadas. Nunca vi um comunista que não fosse preparado, tem que ler muito, tem que ter cultura, senão não pode ser. Agora, você pegar pessoas oportunistas e querer transformar… “Ah, porque tem origem”. Aí é onde entra a questão do exame, tem que examinar.

I&A – Você foi candidato a prefeito e teve um programa de governo, ideias para implantar no município, se Herzem se lhe pedir uma proposta das que você defendeu para desenvolver na cidade, qual seria?

ÉLQUISSON – Uma cidade como Vitória da Conquista, que já vai para 400 mil habitantes, que tem o clima e a conformação geográfica e topográfica que tem, precisa ter um grande parque. Quem conhece Londres, por exemplo, sabe que tem parques dentro da cidade de Londres que você tem a impressão que está dentro de uma fazenda – como aquelas fazendas boas de Jacobina, sua região -, tamanha é a beleza dos parques. E Vitória da Conquista não tem. Daqui a pouco só tem casa. Já desapareceu o “Aguão”, etc.

Eu, se fosse Herzem, faria uma visita a Maringá, no Paraná, se ele já não conhece, porque ele é viajado, para ver uma cidade toda arborizada, com árvores centenárias já. Ipê, muito Ipê, muito Pau d’Arco, etc. Uma cidade linda, linda. Eu acho que Conquista merece melhor sorte. A terra do Jequitibá, do Pau d’Arco, a terra do Jacarandá, não tem [essas árvores] na cidade.

I&A – Murilo Mármore plantou muitas árvores. Há Ipê plantado por ele, por exemplo, na Avenida Brasil, dentro de um grande projeto urbanístico que ele tentou desenvolver, pensando, como dizia, em fazer de Conquista a Curitiba do Nordeste, mas acabou não realizando pelas grandes dificuldades financeiras que teve no governo…

ÉLQUISSON – Mas, agora, ele está lá na administração, é o procurador jurídico da prefeitura e pode dizer: “Herzem vamos fazer isso”, e eu vou estar lá para bater palma e ajudar. Eu fui comprar uns ipês em Minas Gerais e plantei em uma fazendinha que eu tenho ali em Barra do Choça. E aqui também tem e ele [Herzem] poderia encher isso aqui de Pau d’Arco, de Ipê, de Pau Brasil, que tem na região à vontade, para embelezar essa cidade, para refrescar essa cidade. Conquista sempre foi uma cidade fria, mas está quente, porque já não tem mais árvore, não tem sombra, os arredores foram desmatados. Daí eu recomendo a Herzem: desaproprie aí algumas áreas ainda próximas a Vitória da Conquista, sem medo, e faça uns bons parques para os conquistenses passearem nos finais de semana, fazerem seus piqueniques, passeios com as crianças, etc. E ele terá realizado um grande feito.

I&A – Por fim, Élquisson, lembrando a sua atividade política, no parlamento em especial, há alguma coisa que você optou por esquecer e o que você destaca como boa lembrança?

ÉLQUISSON – Eu não tenho nada a esquecer da minha atividade política, muito pelo contrário, eu me vanglorio, até, da minha passagem política pelo Brasil, o fato de ter tido mandato, sobretudo, por Vitória da Conquista, que é uma cidade que sempre foi muito politizada e que eu sei sempre amei e amo muito, a Conquista do Padre Palmeira, de Everardo Públio de Castro, do próprio Pedral, no Nilton Gonçalves, Orlando Leite, figuras que adversários em dado momento, mas figuras de quem vale a pena relembrar – e relembrar com saudade. De modo que não há nada de arrependimento, de tristeza da vida pública, mas eu diria a você que eu gostaria de… não sei, quem sabe? Outro dia eu passei ali na rua e Nivaldo Torres, um velho amigo nosso me chamou e: “Juca, venha cá” – parecia até você me chamando -, aí eu me aproximei e ele disse: “Rapaz, eu ouvi uma conversa de que você vai ser candidato ao Senado”. Aí eu digo: “Nivaldo, eu nunca ouvi isso não; agora, se alguém tá dizendo você pode dizer que eu topo”.

Então, se há uma coisa de que eu tenho saudade, é exatamente da minha atuação política. De modo que, se tiver chance, estou voltando.

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