Jaymilton Gusmão: No fundo do poço, cafeicultura agora só tem a crescer, com sustentabilidade e qualidade

Posted on quarta-feira, 8 março 2017

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Nem todo mundo que passa pelo parque de exposições de Vitória da Conquista, uma área de 165 mil m², sabe que ali dentro, depois das cercas e muros, funcionam, de janeiro a janeiro, algumas das multinacionais mais importantes do agronegócio e uma empresa conquistense, fundada (como sociedade rural) há 77 anos* e que tem sido uma das molas principais da economia regional, ao longo dos anos, sob crise ou em tempos de riqueza econômica. O parque abriga cinco das principais exportadoras internacionais, que levam o café de Vitória da Conquista e região para o Brasil e para o mundo. Como parceira de negócios elas têm a Coopmac (Cooperativa Mista Agropecuária de Conquista), dona do parque.

Parque de Exposições Conquista 1

Vista aérea do gigantesco parque de exposições da Coopmac

A Coopmac tem 275 associados. Já teve menos da metade e já teve dez vezes mais. Entretanto, é voz corrente de que a cooperativa atinge sua estabilidade agora, embora já tenha sido mais rica e até mais influente, capaz de ajudar a eleger de prefeito a governadores. A chegada ao ponto atual tem a condução do Engenheiro Agrônomo Jaymilton Gusmão Filho, o presidente que está lutando para que a Coopmac, o café conquistense e Vitória da Conquista, em si, ampliem sua força no mercado nacional, com ganhos para o município, a economia regional e, claro, o cooperado.

Tem gente que só ouve falar da Coopmac quando é tempo de exposição. É normal. A Exposição Agropecuária de Vitória da Conquista é uma das mais conhecidas por produtores rurais e empresários do ramo de todo o país, é a maior da Bahia e uma das mais importantes do Brasil. Atrai quem tem negócio a fazer no parque, com animais ou equipamentos que atendem à atividade agropecuária, e a população interessada na diversão, na boa comida e nos produtos que são comercializados em estandes que oferecem de produtos artesanais, roupas, carros, até avião.

No ano passado, a exposição agropecuária, que agrega uma grande feira de negócios, recebeu um público de mais de 140 mil pessoas, uma média de 14 mil por dia. O evento é uma das marcas do entretenimento na cidade, ao lado do Natal e do Festival de Inverno. Mas, custa caro. Segundo Jaymilton Gusmão, no ano passado o investimento foi de R$ 1 milhão, em parte custeado pelos ingressos pagos e que a cada ano geram uma grande chiadeira na cidade. O presidente da Coopmac diz que, por enquanto, não tem jeito. “Quem custeia a exposição é a soma da venda de ingressos, aluguel de área (estandes) e patrocínio e este diminui sensivelmente a cada ano. As instituições governamentais ligadas ao agronegócio não repassam nem 30% do que repassavam”, explica o presidente da Coopmac.

“Olha, não existe nenhuma exposição no estado da Bahia que se compara com a nossa, em quantidade de animais, em diversidades de raças, em quantidade de exemplares de animais. Se você me perguntar se já foi maior, já, mas, a realidade era outra. A gente vem atravessando uma crise e o setor que a gente chama do setor seletivo dos animais, a criação seletiva que são os animais de raça, foi o mais impactado com essa os altos custos dos insumos e isso você não consegue repassar para o preço dos animais [para comercialização], para os produtos. Mais da metade das exposições de 2017 no estado da Bahia já foi cancelada, a redução vai ser enorme. O nosso compromisso em fazer a exposição, acima de tudo, é fazer uma exposição eminentemente agropecuária, e a gente não pode fazer um evento desse e tomar prejuízo, isso é muito fácil de acontecer, isso é muito fácil”, diz Jaymilton.

A exposição, no entanto, não é o negócio da Coopmac. Sequer é fonte direta de renda. Funciona como uma vitrine, mantém a cidade em destaque e estimula o setor econômico a que está ligada a cooperativa. O que paga as contas da Coopmac é o café. Sobrevivendo a crises desde a sua implantação, a cafeicultura é o ponto forte da Coopmac, que conserva a confiança no potencial produtivo da região e acredita que muito mais ainda pode vir do café, em termos econômicos e ampliação da importância de Vitória da Conquista no Brasil e no mundo. Mesmo que a atividade tenha chegado, segundo Jaymilton, a um estágio de declínio muito grande.

“Eu acho que você só consegue crescer na crise. Nós estamos no fundo do poço, não pode acontecer uma tragédia maior do que a que estamos vivendo, atualmente, na nossa cafeicultura. Muita gente vai sair e, por outro lado, muita gente não consegue sair porque está endividado, mas a cafeicultura não vai acabar por isso, ao contrário, ela está se reinventando. Hoje, a qualidade do café é que é o preponderante. O café tem se “descomoditizado”, o café tem deixado de ser uma commodity. Um exemplo aqui é a Cafeteria Rigno. Se o produtor consegue produzir um café de qualidade e ele não consegue agregar valor para quem ele vende, ele vá vender o seu produto, ele vá conhecer o seu produto. Nesta edição, agora, da Exposição teremos palestras e dinâmicas nesse sentido da qualidade de café. Acabou o amadorismo, se o produtor não conhecer o produto, se ele não conhecer de vendas, se ele não tiver um plano de negócio, nenhum negócio dele vai dar certo.”

Jaymilton Gusmão Fo.

Jaymilton Gusmão Filho, presidente da Coopmac

“Nós estamos promovendo para este ano de 2017 um curso de gestão de lavoura. Não é nada mais do que fazer conta de capacidade de investimento, o governo apoia isso, as entidades apoiam porque se um produtor sai, fica à margem da produção, quebra, é um prejuízo violentíssimo para a sociedade. É um prejuízo social, é prejuízo econômico, aquela terra vai ser improdutiva talvez para o resto da vida, talvez o cara não nunca mais volte a produzir nada. A gente está achando que vai dar certo essa ideia de se fazer essas dinâmicas voltadas para a nova realidade de seca, para essa nova realidade que é exigência da qualidade do café, incluindo gestão de propriedade. Acho que essa é a saída, não tem como a gente pedir mais dinheiro para o governo ou então pedir para que não pagar a nossa dívida, para tomar outro financiamento, para tornar a não pagar, vai virar uma bola de neve. A cafeicultura está sendo remapeada no Planalto Sudoeste, eu não tenho a menor dúvida disso.”

Café Arábica“Hoje se você não tiver essa pegada de sustentabilidade, não dá. O café pode ser maravilhoso, mas se ele vier de uma área que não respeita o direito do trabalhador, que não respeita o meio ambiente ninguém vai comprar, principalmente o europeu, principalmente o japonês. É uma nova realidade que a gente tem que se adaptar a ela, não tem como fugir, a exigência do consumidor é muito grande e se você não se adaptar, as empresas irão utilizar isso, para comprar o seu produto barato. A Starbucks, por exemplo, não comercializa o café se esse café não passar em alguma cooperativa. Esse café, em algum momento, ele tem que ser manufaturado, beneficiado numa cooperativa, porque a cooperativa é sinônimo de sustentabilidade, é sinônimo de garantia de direito do trabalhador, é sinônimo de coisa boa e a gente precisa disseminar isso, é oportunidade. A gente acredita que esse é o único caminho e a gente não tem como errar, a gente não tem mais bala, a gente não tem mais dinheiro sobrando para poder refinanciar a dívida que já não foi paga, isso não existe, isso acabou.”

“A gente tem que descobrir a nossa pegada: o passarinho que a gente protege aqui, é o Rio Catolé que a gente preserva, é a bacia do Rio Pardo que a gente toma conta, é essa pegada, é vender o frio, é Conquista, é essa sustentabilidade, é esse conjunto de fatores. A gente tem que escrever essa nossa história, essa nova realidade não tem como o agricultor sumir, isso vai ser em todos os segmentos e isso tem que ser do produtor, não adianta eu, como presidente da cooperativa, exigir isso do produtor, ele tem que saber se que se ele não fizer isso ele vai estar fora do mercado e isso é uma questão de tempo.”

“A gente acha que o médio produtor, o empresário, ele não pode ficar de fora dessa discussão dos rumos da cafeicultura. E a gente acredita que essa cafeicultura tem muitos frutos para dar ao município, a gente pode ser, sim, a Capital do Café, a gente pode ser, sim, o grande mote turístico da região e vender o frio de Conquista relacionado com o café. Podemos ter uma cafeicultura forte, vencendo as dificuldades, encontrando caminhos juntos.”

É isso o que Jaymilton tem dito a produtores locais, aos cooperados, aos empresários com quem conversa sobre produção agropecuária, economia e mercado. E foi sobre isso que ele conversou no Salão Internacional da Agricultura (Salon International de l´Agriculture), um dos mais importantes eventos do setor agropecuário do mundo, realizado em Paris, França, entre os dias 25 de fevereiro e 05 de março. A Coopmac foi a única cooperativa da área de café no Salão. “A Coopmac foi a única a representar a cafeicultura e mostrar Vitória da Conquista e o Planalto da Conquista para o investimento externo”, disse Jaymilton Gusmão na volta, considerando que a jornada obteve êxito, tanto é que, em maio, Conquista será a sede da primeira reunião do fórum formado pelas cooperativas baianas que participaram do Salon International de l´Agriculture, com o objetivo de discutir estratégias de crescimento do cooperativismo e das áreas produtivas que representam.

* A COOPMAC ganhou essa denominação em julho de 1968. Antes, foi Sociedade Rural do Sudoeste Bahiano, fundada em 12 de maio de 1940. Depois passou a se chamar Associação Rural de Vitória da Conquista, em 18 de janeiro de 1958, até finalmente tornar-se Cooperativa Mista Agropecuária Conquistense, há 49 anos.