“Confusotório” político: os papéis parecem estar invertidos na Câmara de Vereadores de Conquista

Posted on terça-feira, 14 março 2017

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Os líderes partidários têm explicação para tudo, mas a confusão sobre os papéis de oposição e situação na Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista começou cedo.  Já no dia 1º de janeiro, na eleição da Mesa Diretora, os parlamentares que foram eleitos fora da coligação do prefeito Herzem Gusmão (PMDB) decidiram votar no candidato a presidente da Câmara escolhido por Herzem e pelos partidos aliados do prefeito. Hermínio Oliveira (PPS) foi eleito com 20 dos 21 votos, com uma abstenção. Para muitos analistas, os vereadores da oposição, a deixarem de lançar chapa para concorrer à direção da Câmara indicavam que o prefeito não teria qualquer dificuldade.

Posicionamentos recentes confirmam os sinais de 1º de janeiro.  Três dos vereadores já estiveram com o prefeito, a quem entregaram pleitos que poderiam ser encaminhados por ofício e posaram para fotos: Coriolano Morais (PT), Nildma Ribeiro (PCdoB) e Adinilson Silva (PSB), este organizou a primeira reunião do prefeito fora do gabinete, no bairro Lagoa das Flores. A vereadora Nildma agradeceu em discurso no plenário a atenção que recebeu de Herzem. Cori e Adinilson disseram que seus posicionamentos em relação ao governo levarão em conta sempre o interesse público e que, neste sentido, o diálogo e a aproximação se justificam.

Rodrigo Moreira

Vereador Rodrigo Moreira (PP) autor da moção de aplauso.

Na semana passada Rodrigo Moreira (PP) que, em tese também é da bancada de oposição, apresentou uma moção de aplauso ao prefeito Herzem Gusmão, pasme, porque ele deu continuidade a uma obra que já estava planejada, financiada (por emenda parlamentar da senadora Lídice da Mata [PSB]) e em andamento desde a gestão do PT. Agora, pasmem de novo: todos os vereadores da “oposição” (quatro do PT, dois do PCdoB, um do PSB, um do PL e um dos PP), assim como fizeram na eleição da Mesa, assinaram a moção. Antes, a troca de amabilidades estranhas e inúteis se dera em sessão plenária em que Herzem Gusmão e secretários, na plateia, assistiam à orquestra de elogios dos vereadores, todos, mais uma vez, pela presença “inédita” do prefeito a uma sessão da Câmara, sem ser chamado e apenas como assistente, como “uma pessoa comum”.

E, assim, a oposição vai se acomodando à situação, deixando passar ou abordando de forma tímida (e muitas vezes simpática ao governo) importantes debates, como o aumento da passagem do transporte coletivo; o incompreensível termo de ajuste de conduta entre a administração municipal e uma empresa de ônibus; o corte de gratificações e vantagens históricas de servidores, até então não explicado ou restituído, ou, ainda, as açodadas intervenções no trânsito e em vias urbanas, que têm gerado grande polêmica e reação popular.

Cabe uma CPI

De sua parte, a situação, a bancada de apoio ao prefeito, toma uma iniciativa que tem todos os tons e formas de oposição: convoca uma audiência pública para discutir a situação da Empresa Municipal de Urbanização de Conquista – Emurc. Prestem atenção neste fato: um problema da administração municipal, que tem todas as condições de ser discutido no interior da administração, pelo prefeito, secretários, direção da Emurc e vereadores (por que não?), vai virar assunto público, sujeito a interferências diversas. Uma ação que se podia esperar da oposição. Na verdade, o recente histórico administrativo-financeiro da Emurc comporta tanta dúvida, dívida e equívocos que mereceria uma CEI – Comissão Especial de Inquérito, popularmente tratada por CPI.

Sede da EmurcAs críticas à administração passada da empresa e ao prefeito Guilherme Menezes, que teriam deixado a Emurc em situação pré-falimentar, mais o bloqueio de contas feito pela Justiça Federal para pagamento de débitos com a União não honrados pelos gestores anteriores, além do risco de interrupção de importantes obras como a da Avenida Perimetral, obrigando o Município a realizar licitação para contratação de empresa privada, cujo custo seria muito maior do que o cobrado pela Emurc, são mais que suficientes para uma CEI. Afinal, tendo realizado todas as obras importantes da prefeitura, sendo que só nos últimos 12 anos recebeu recursos que passam de R$ 100 milhões, segundo contas extraoficiais, por que a Emurc quebrou? Quem foi (ou é) responsável por isso?

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Audiência para discutir situação falimentar da Emurc foi requerida por Dudé, líder do prefeito

Quem provocou a realização da audiência pública foi o líder do prefeito Herzem Gusmão na Câmara, vereador Luís Carlos Dudé (PTB), que nos quatro anos do governo passado era do lado do prefeito, embora tenha ficado contra na eleição. Hoje situação, Dudé, quando for falar da Emurc no passado, no entanto, deverá ter comportamento de oposição, pelo menos é o que se infere da sua preocupação em tornar os problemas da empresa um assunto público, sujeito a debate. Alguém terá que ser apresentado como culpado e Dudé, com certeza, não vê culpa na atual gestão – no que parece estar certo.

Já os vereadores de oposição, que ainda não abriram a boca para falar da Emurc, terão que se lembrar de seu papel e responsabilidade de situação que foram, embora nos dias atuais não se veja muita diferença.

A Câmara de Vitória da Conquista está bastante homogênea, eu diria.

—— Tomei emprestado de Anderson Oliveira (editor do Blog do Anderson) o termo “confusotório”, um neologismo que ele colocou no lugar de “imbróglio”, que ele usava muito.