Crise e mau exemplo em eleição para escolha de delegados do PT na Bahia

Posted on segunda-feira, 17 abril 2017

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Não saiu na imprensa, pelo menos não como aconteceu, mas o Partido dos Trabalhadores na Bahia passou (e ainda passa) por dias de intensa crise, com incidentes que poderiam fazer parte de um roteiro de pastelão. Foram horas em que o PT tomou as feições de um partido antigo, daqueles cujos dirigentes sumiam com as fichas de filiação para que o adversário não pudesse saber quem poderia ou não participar da votação do diretório. Uma história muito parecida com aquelas em que o coronel dava sumiço nos votos de uma eleição de prefeito. Coisas que o PT abomina(va). Mas, foi assim.

No último dia 9, um domingo, como em todo o Brasil, o PT baiano realizou eleições para seus diretórios municipais e para escolha dos 310 delegados ao congresso estadual, que está marcado para o período de 5 a 7 de maio. Na Bahia, segundo o Diretório Nacional, que é a instância eleitoral superior, responsável pela criação e manutenção das regras, foram válidos 7.631 votos, de 129 municípios, isso representa pouco mais de 10% do total de filiados regulares ao partido na Bahia. Os números ainda eram os mesmos ao meio-dia desta segunda-feira (17).

A apuração começou no mesmo dia da eleição, mas, diante da dificuldade de chegada dos votos do interior do estado, já que a computação se dava em Salvador, às 22 horas, segundo fontes internas, o secretário estadual de Organização do PT, Élio Santana, propôs que a apuração fosse suspensa e retomada na segunda-feira (10), às 8 horas, o que foi aceito pelos representantes de cada chapa. Naquele momento haviam sido computados pouco mais de 5.700 votos.

No dia seguinte, no entanto, a apuração não prosseguiu porque, simplesmente, segundo as fontes do BLOG, sumiram o secretário de Organização e o presidente estadual, Everaldo Anunciação. E sumidos permaneceram por 48 horas, levantando a maia natural das suspeições. Os dois só foram reaparecer na quarta-feira, 12, último dia para apuração oficial, pelo calendário traçado pelo diretório nacional, que só computaria os votos recebidos até as 14 horas. Foi quando a crise tomou corpo. Com o sumiço dos dois dirigentes a apuração estadual atrasou e, de acordo com petistas ouvidos pelo BLOG, dos mais de 20 mil votos dados às diversas chapas em todo o estado, pouco mais de sete mil foram computados até as 14 horas daquela quarta-feira.

Diante daquela realidade, que não foi considerada boa para nenhum dos lados, a comissão eleitoral estadual, responsável pela apuração na Bahia, consultou o diretório nacional sobre a possibilidade de continuar a apuração, já que quase dois terços dos votantes não tiveram os votos considerados dentro do prazo. Até o início da manhã desta segunda-feira, 17, uma semana depois do pedido, não houve resposta do diretório nacional ao pedido dos baianos.

Apesar disso, uma apuração acabou sendo feita, à revelia da comissão eleitoral, segundo consta, pela tendência EPS, liderada na Bahia pelo deputado federal Valmir Assunção. Apuração feita, o site do PT publicou na sexta-feira (14) o que seria o resultado da eleição, tendo à frente a chapa Muda PT (número 450), cujo candidato a presidente estadual é o deputado federal Waldenor Pereira, com 41%; O Partido que mudou a Bahia (400), encabeçada pelo atual presidente estadual, Everaldo Anunciação, com 28,8% dos votos, seguida pela Optei (430), liderada pelo deputado Valmir Assunção, com 26,8% dos votos; chapa Unidade pela Reconstrução do PT (410), com 2,44% e a Articulação de Esquerda (420), com 0,86%.

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Waldenor (Reencantar) da chapa “Muda PT” e Valmir Assunção (Esquerda Popular Socialista) da  “Optei” querem a presidência que tem Everaldo (CNB), da Partido que Mudou a Bahia, à frente. Mas, na eleição do imblóglio, Valmir e Everaldo querem barrar Waldenor.

O texto publicado no site com os números acima foi assinado pelo jornalista Marival Guedes, assessor de imprensa do PT, que distribuiu o release à imprensa, mas foi contestado pelo secretário de comunicação do partido Osmar Galdino. Galdino mandou apagar a matéria de Marival do site oficial e lá postou uma nota em que diz o site foi utilizado para divulgar resultado não oficial e pede desculpas aos “filiados/as e a sociedade petista pela prática condenável de aparelhamento que esta secretaria foi vítima a sua revelia”. O secretário de comunicação do PT estadual acusa duas tendências pela prática, mas não diz quais são essas tendências. Há, pelo menos dez tendências dentro do PT e estão na disputa cinco chapas.

O material enviado à imprensa pelo assessor Marival Guedes destaca que o deputado Valmir Assunção teria sido o grande vencedor da eleição. Nenhum dirigente ou candidato se manifestou oficialmente, mas petistas ouvidos consideraram o episódio “lamentável e vergonhoso”. Para uma liderança do partido com cargo importante no governo, a intenção da direção do PT na Bahia foi criar uma guerra psicológica, já que a apuração não poderia prosseguir sem a anuência da direção nacional e seriam desconhecidos os métodos para a computação dos votos anunciados pela assessoria de imprensa do diretório.

Pela apuração considerada oficial pelo Diretório Nacional e pela comissão eleitoral estadual, em nota oficial divulgada no fim de semana e que ainda valia até esta segunda-feira pela manhã, a chapa vencedora era a Muda PT, com 4.990 de um total de 7.631 votantes, em 129 municípios, 44% dos diretórios do partido no estado. Os demais números: Articulação de Esquerda 105 votos; O Partido que Mudou a Bahia 1.118 votos; Optei 850 votos; Unidade pela Reconstrução do PT 200 votos. Os representantes das chapas na COE (Comissão Organizadora Estadual) também emitiram nota contestando a atitude do secretário de Organização da Bahia (leia aqui).

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No site do PT da Bahia uma profusão de notas. Pouco esclarecimento

Atingido pela Lava Jato, alvo de reportagens e artigos na mídia que questionam a sua credibilidade e a moral histórica do partido, que passou de convicção ética nacional para uma dúvida quanto à sua semelhança com as demais agremiações, tão criticadas por ele mesmo, o PT da Bahia dá um exemplo muito triste de que não anda bem das pernas, em termos de sinceridade e correção, nem dentro de suas próprias paredes. A esses incidentes, imbróglios, brigas e crises, o PT chama de democracia interna, pois ao fim e ao cabo todos se entendem. Mas, se é para fazer uma avaliação honesta, o papel do partido no PED baiano foi muito feio. Um mau exemplo que só ajuda a aumentar a dúvida sobre o futuro do partido, se tem capacidade de fazer um mea culpa histórico e mudar, como anunciam algumas de suas lideranças mais importantes.