Com 878 assassinatos em 5 anos e meio Conquista está no ranking dos mais violentos, mas números deste ano dão bom sinal

Posted on quarta-feira, 5 julho 2017

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O leitor deve estar lembrado de que, no início deste ano, quase todos os meios de comunicação do país noticiaram – e os blogs locais destacaram com bastante ênfase – um ranking divulgado pela ONG mexicana Seguridad, Justicia y Paz com as 50 cidades acima de 300 mil habitantes consideradas mais violentas do mundo. O ranking era referente ao ano de 2016 e Vitória da Conquista apareceu na 16ª posição na lista, com 208 assassinatos (a Secretaria de Segurança Pública da Bahia registrou 209). Conquista já havia sido listada pela ONG no ano anterior, na 36ª posição, com 132 assassinatos (pelos registros da SSP foram 146). Se a instituição mexicana fizesse um ranking hoje, dia 5 de julho de 2017, com uma projeção baseada nos números do primeiro semestre do ano, Vitória da Conquista ainda estaria entre as 50 mais violentas, de acordo com os critérios da Seguridad, Justicia y Paz, mas bem próximo da posição que ocupava em 2016.

20151023_202222[1]O ranking elaborado pela ONG mexicana foi muito questionado pelo Governo do Estado, que não desconheceu os números apresentados que, como visto, estavam até abaixo dos dados oficiais, mas discordou da ordem do ranking. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, outros estados informam dados subestimados. São Paulo, por exemplo, registra como um único homicídio uma chacina. Mas, dois outros estudos, estes mais alentados, receberam de autoridades e especialistas melhor atenção – e preocupação. O Atlas da Violência, elaborado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, trouxe dados alarmantes sobre a violência no Brasil, com base em números do ano de 2015. E o Mapa da Violência, produzido pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) retrata o quadro nacional de violência focalizando as mortes por arma de fogo no período de 2012 a 2014.

16º da Bahia em 2015 – Segundo o Atlas da Violência, que inclui os municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes (a ONG mexicana inclui apenas os municípios com mais de 300 mil habitantes), Vitória da Conquista está entre aqueles com menor taxa e violência, na 241ª posição nacional e na segunda posição no estado, abaixo somente de Santo Antônio de Jesus. Para chegar a esse ranking o IPEA considerou os dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, e incluiu os números de MVCI (Mortes Violentas por Causa Indeterminada). Há uma grande diferença entre os dados do SIM e os números da Secretaria de Segurança Pública da Bahia. Pelo SIM, foram 171 homicídios em Vitória da Conquista em 2015. A SSP, no setor de estatísticas do portal oficial, informa 146. As mortes por causa indeterminada foram 23 no município naquele ano, segundo o IPEA.Considerando a soma das taxas de homicídios e de MVCI por 100 mil habitantes, Vitória da Conquista, segundo o Atlas da Violência, é o 16º mais violento, em uma lista de 17, encabeçada por Lauro de Freitas e Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador.

Gráfico Violência 1 IPEA

Tabela elaborada a partir do Atlas da Violência (IPEA)

Aqui, é obrigatório reproduzir esclarecimento feito pelos autores do Atlas em relação à inclusão de alguns municípios onde a ocorrência de homicídios é menor (ou muito baixa), mas os mesmos estão entre os mais violentos, como é o caso de Barreiras:

Todavia, a análise sobre a prevalência de violência nos municípios restrita apenas às taxas de homicídios pode levar a erros graves de interpretação. Isto porque, em muitos municípios o número de Mortes Violentas com Causa Indeterminada (MVCI) pode ocultar o verdadeiro nível de agressão letal por terceiros (homicídios). O melhor exemplo é o citado município de Barreiras. O registro oficial indica que lá, em 2015, ocorreu apenas uma morte por agressão (homicídio), o que o levaria ao topo dos municípios mais pacíficos. Entretanto, ocorreram nesse território, no mesmo ano, 119 MVCI, o que equivale a uma taxa de 77,3 MVCI por 100 mil habitantes. Se considerássemos a soma das taxas de homicídio mais as de MVCI, Barreiras passaria para a lista dos municípios mais violentos do país. Naturalmente, não estamos afirmando que toda MVCI seja decorrente de homicídio. Mas um alto índice de MVCI faz aumentar a margem de possibilidades da taxa de homicídio estar oficialmente subregistrada”.

Média de três anos – O Mapa da Violência 2016, apresentado este ano pela Flacso, considera as mortes por arma de fogo em três anos, 2012, 2013 e 2014, e o ranking é elaborado a partir da taxa média por 100 mil habitantes, considerando uma população média de 331.023 habitantes. De acordo com o estudo da Flacso Vitória da Conquista ocupa a 29ª posição no estado da Bahia e a 147ª no cenário nacional, com taxa de homicídio de 44,6 por 100 mil habitantes. O primeiro lugar nacional é Mata de São João, com 102,9 homicídios por 100 mil habitantes, seguido, na Bahia, por Simões Filho, o 8º no ranking nacional, com 91,4 mortes por arma de fogo por 100 mil habitantes.

Gráfico Violência 2 da Flacso

Tabela elaborada a partir dos dados do Mapa da Violência (Flacso)

Os registros obtidos com os estudos do IPEA, da Flacso e nas estatísticas da Secretaria de Segurança Pública da Bahia, mostram que 2016 foi mesmo um ano atípico, com o número de ocorrências quase 50% acima da média dos últimos cinco anos. Os próximos documentos sobre a violência no Brasil devem trazer nosso município em uma posição ainda mais crítica. A taxa de homicídios em 2016 chegou a incríveis 60,39 por 100 mil habitantes. Com esse número, Vitória da Conquista apareceria entre os dez mais violentos da Bahia e os cinquenta mais violentos do Brasil, pelos critérios do Atlas da Violência e do Mapa da Violência. Pelo critério da ONG mexicana Seguridad, Justicia y Paz, continuaria onde estava na lista divulgada no início do ano.

Os números deste ano, projetados à média de 13,33 homicídios por mês, colocariam Vitória da Conquista com uma taxa entre 45 e 47 assassinatos por 100 mil habitantes, bem acima da média nacional, mas há uma significativa redução comparada a 2016, o ano que fez medo. Há esperança. Os sinais são de que a ação dos organismos de segurança tem sido cada vez mais eficaz e as políticas públicas colocadas em prática podem estar surtindo efeitos. O tempo dirá.