CRÔNICA DAS MINHAS SAUDADES

Posted on sábado, 22 julho 2017

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Neste sábado, amanheci pensando em saudade. Ela tem sido minha companheira ao longo da vida. Saí da casa dos meus pais, pela primeira vez, há 36 anos. Ainda novo e sempre pensando que, por saber o caminho de volta e por presumir muita vida ainda pela frente, bastaria a vontade para voltar a qualquer momento. Fui engolido pelo tempo e pelo mundo. Logo, a saudade que apenas fazia cócegas se instalou como uma alergia. Quando perdi o meu pai, ela já havia virado dor.

Cada vez mais, nos tempos atuais, as famílias estão dispersas, espalhadas pelo mundo. Os desafios, as oportunidades e um certo charme contido na aventura de explorar outros lugares para conquistar o próprio espaço, nos esparramam para longe uns dos outros. E as circunstâncias nos amarram onde estamos. Ficamos a depender dos feriados, do décimo-terceiro salário, das promoções de passagens e, no fim, o que nos acode é a tecnologia. Do velho e obsoleto orelhão perto da pensão ao Facebook e Whatsapp.

A saudade é uma palavra única da nossa língua e condição inseparável da nossa vida. Quem não a tem não está vivo. Ela, às vezes, é uma lembrança doce, carregada de esperança, porque a gente sabe que vai voltar ou vai receber de volta quem para longe foi. Mas, muitas vezes é dor. E dor que faz chorar.

Enquanto meus filhos cresciam, por um erro de cálculo da minha vida e, ao mesmo tempo por sorte e bondade de Deus, eu tive que deixar Vitória da Conquista (ou Salvador, onde também moramos) para trabalhar em outras cidades, muitas delas em longínquos estados do Brasil. Foram cerca de dez anos em que eu vivia a minha família apenas em alguns finais de semana. Eu estive em Itabuna, Aracaju, Fortaleza, Belém, São Luís, Imperatriz, Macapá, Boa Vista… e meus filhos em Conquista ou Salvador. Era a saudade coceira. A lembrança doce deles me fazia sonhar com a volta. Ela sempre foi possível. A saudade alérgica era da minha casa materna. Se estavam longe os meus filhos, mais distante, na velha Jacobina, ficava D. Antônia. E era difícil voltar lá. Faltava tempo, dizia eu.

Hoje, tenho uma saudade suave do meu pai. A lembrança dele vem sorrindo, imagino que ele está em algum lugar melhor e isso é confortável. Tenho ido mais a Jacobina. Porque sei que agora é que o tempo é menor. Para mim, aos 55, e para minha mãe, aos 83. E uso o telefone para lhe sentir a vida, expressa nas mesmas histórias e nas gargalhadas que, nos anos mais moços dela, viravam choro sem ela saber o porquê.

Nestes dias, porque a perspectiva de uma dor insuportável me impele, eu faço o que posso e mais do que posso para estar com meus filhos. Meu amigo querido Daniel Thame um dia reparou que ao me agoniar a saudade de ver meus filhos eu pegava o avião como se pegasse o ônibus de Itabuna para Itajuípe. E ainda faço assim, ou os chamo para perto com as mais lamuriosas chantagens emocionais. Pois aquele tempo perdido “fazendo a vida” deixou um vácuo enorme formado pelo tanto de abraço que eu quis dar nos dois e as circunstâncias impediram.

Meu filho mora em Campinas, na companhia de sua adorável esposa. Já planejou morar no Japão e agora está tudo certo para que se mudem para os Estados Unidos. Sorrio, sinceramente, por eles, porque seus planos seguem exitosos, mas também não finjo que já choro de saudade.

Minha filha mora e estuda no Rio de Janeiro e isso já é longe o suficiente para a saudade ser das que apertam e tiram lágrimas, mas é mais cruciante saber que há japões e estados unidos para ela também. E então, temo que o ônibus Itabuna-Itajuípe já não seja o suficiente para eu reencontrá-los.

Hoje cedo pensei com grande saudade, esta com alegria, de uma amiga que conheci na infância. Me lembrei da amizade generosa de Débora demonstrada já na idade adulta. Ela está bem e eu comemoro a vida dela e de todas as amigas e amigos, incluindo a minha família, onde estão as minhas melhores amizades.

FB_IMG_1500753046347Hoje também pensei em procurar meu amigo Vivaldo Sabiá para falar de Paulo Mascena, um dos bons que nos deixaram. A mim com saudade dolorosa.

FB_IMG_1500738704715Foi então que eu soube que Moraiszinho se foi, hoje, no dia das minhas saudades. Conheci Morais em 1984 e dele tive sempre carinho. Fiquei triste. É mais uma saudade das que doem.

De saudade a gente não se livra enquanto viver. Saudade é condição do amor.

E ainda bem que Dulcy está aqui. Sem saudade, só amor e cuidado.

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