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Crônica

Crônica de saudade e gratidão

Esta crônica foi escrita no dia 24 de novembro do ano passado, data de aniversário de nascimento do meu pai, José Ferreira da Silva. Hoje, 20 de janeiro, completam-se 20 anos que ele deixou este plano. Tenho memória do que foi aquele dia, mas não lembrava exatamente qual foi o dia, até ler uma crônica muito bonita escrita por meu irmão Gervásio em um blog de Juazeiro, em que ele lembra do nosso pai e lhe faz uma homenagem.

2015-11-24 19.47.10 (2017_05_14 01_16_18 UTC)Nesta data (24 de novembro), em 1935, nascia na localidade de Cobé de Mundo Novo o ser humano que se tornaria meu pai. Na foto do post ele tinha 31 anos, hoje completaria 82. Deixou-nos aos 62, não sem antes nos chamar a todos, os de longe e os de perto, para sua despedida. Fui avisado por uma de minhas irmãs de que ele tinha passado mal e nos chamava, os que moravam fora, para irmos encontrá-lo.

Sem saber qual era a gravidade do problema, cheguei a Jacobina cheio de esperança. Meu pai estava internado no Hospital Antônio Teixeira Sobrinho, onde não havia quase nada funcionando, nem mesmo o equipamento de Raios-X era confiável. Avisei-o de que, sendo possível, o traria para Conquista, lugar onde haveria melhores condições de atendimento. Depois, fui procurar na cidade uma clínica onde ele pudesse ser submetido a um ultrassom ou exame semelhante. Não logramos êxito, eu e meu irmão Gervásio. Também não tínhamos dinheiro e meu pai não tinha plano de saúde, precisávamos confiar no hospital e na sua equipe.

Eu estava preocupado, mas também estava alegre por tê-lo visto depois de uns cinco anos. A nossa conversa no dia da minha chegada foi a última. Eu não poderia saber, mas cheguei na véspera de morte do meu pai, em data que minha mente apagou.

Na manhã seguinte, depois de ter feito o périplo pela cidade em busca de uma ajuda melhor, voltei ao hospital, levando almoço, galinha preparada pela minha mãe, e o encontrei sentado numa cadeira de rodas, cercado por filhos e uma nora. Me pareceu sereno. Pensei que logo ele estaria em casa. Foi quando minha cunhada falou com ele e ele não respondeu, chamou seu nome, gritou e só obtivemos silêncio. Os médicos chegaram, tentaram trazê-lo de volta, mas não eram deuses e Deus já o havia retomado para Si.

Meu pai voltou para casa, mas não estava mais ali. No meio da sala da casa que ele ergueu com suas próprias mãos, havia um corpo, um rosto pacífico, com um semblante de missão cumprida, e um buraco aberto em nós, cuja saudade ecoava em prantos e lamentos pelo que não nos demos ou dissemos no passado e nem o faríamos, pessoalmente, no futuro.

Quando adoeceu e nos chamou, meu pai sabia para onde estava indo. Sinto que ele sabia o momento em que iria e, então, nos reuniu nas suas últimas horas. E nos deixou unidos. Distribui-se por nossos corações e neles ainda permanece. Cuidando, protegendo, ensinando, ligando-nos por sua memória e exemplo. O homem que construía casas deixou a colher de pedreiro num canto do puxadinho onde dormiu suas últimas noites terrenas, para transformar-se no eterno alicerce das vidas de seus filhos.

Tenho saudade. E orgulho rico do pai que tive. É uma honra ser filho de José Ferreira da Silva e de Antônia Almeida Lima. Hoje chorei, mas agradeço ser consequência da vida do menino do Cobé. Obrigado, papai.

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Jacobinense, conquistense, itabunense, baiano, brasileiro. Pai de Giorlando e Alice, minhas razões de viver; profunda e eternamente apaixonado pela vida. 56 anos de idade, 40 de labuta como jornalista, publicitário, marqueteiro, blogueiro. Minha ideologia é o respeito, minha religião é o amor.

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