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Futebol conquistense: será que Sílvio salva?

O poeta Carlos Drummond de Andrade, foi eternizado em um banquinho. Há pelo menos duas estátuas do escritor sentado, a mais famosa fica no calçadão de Copacabana, e outra no Pico do Amor, na cidade de Itabira, terra onde ele nasceu. Em Porto Alegre há um Drummond em pé entregando um livro ao também grandioso poeta Mário Quintana. O nosso personagem não tem a fama do poeta itabirano, mas é mineiro como ele. Carlos Drummond torcia pelo Vasco, nosso personagem torce pelo ECPP Vitória da Conquista, se por mais algum não sabemos. Mas, nesta reportagem, vamos falar do banco em que ele poderá ser eternizado, se o projeto que ele toca chegar ao sucesso pleno, como alcançou a poesia de Drummond.

IMG_7646O jogo era Vitória da Conquista contra a Associação Desportiva Jequié. Tinha tudo para ser um clássico, a partir de uma rivalidade antiga entre as cidades, desde os anos 1930/1940. E tudo para ser uma vitória do time local. Uma revanche, pode se dizer, pois o Jequié havia vencido uma partida amistosa realizada menos de duas semanas antes, por 3 a 1. Mas, não deu. O time da chamada Cidade do Sol fez o único gol da partida, deixando os torcedores locais entre tristes e furiosos. Naquele sábado à tarde, dia 27 de janeiro, nosso personagem, que tem a fama de carrancudo, estava ainda mais fechado. E sozinho sob as árvores do Lomantão.

Barrado pelo delegado da Federação Baiana de Futebol, que não lhe deixou passar do portão para fazer fotos mais perto do campo, o repórter agradece, dá as costas para o simpático funcionário que trouxe o recado do delegado inflexível e se prepara para subir a ladeira, em direção à arquibancada, quando o vê sentado, pernas cruzadas, cotovelo no joelho e mão no queixo. A julgar pelo placar, um a zero para o time adversário, ele não estava nada feliz. Cumprimentos breves, mais resmungos que voz, o repórter se afasta e já pensa em escrever um texto baseado na cena, mais do que no jogo. Envia ao nosso personagem perguntas via Whatsapp. De longe, vê que ele olha o celular, aparecem os tiques azuis, talvez no intervalo ele responda porque vê o jogo dali, se é porque não é permitido a dirigente ficar ao lado do gramado ou se é um costume.

O Whatsapp permite saber que ele ainda viu mais três perguntas: Está angustiado com o jogo? Prevê a virada? Está satisfeito com o time? O juiz apita o fim do primeiro tempo. A torcida dá seus primeiros sussurros de impaciência. O técnico Washington Stecanela, chamado de Coração de Leão, é alvo dos primeiros impropérios. Caça Rato, William, Picachu… O pessoal da arquibancada quer reação. O nosso personagem se levanta do banco e se dirige ao vestiário. O repórter o interpela no caminho. Pode responder rapidinho? Não, ele não fala nada. Não tem nada para falar. Dá sinal de irritação, nada mais diz, atravessa o portão rapidamente e some.

Ex-jogador de futebol, tendo atuado em vários clubes brasileiros e no exterior, tem experiência suficiente para ver que a coisa não vai bem. O time que ele montou, contratando de acordo com a condição financeira do clube, não jogou bem contra o Vitória, quando perdeu a primeira em casa, e estava se dando mal no segundo jogo diante da torcida e logo contra… o Jequié. Deve ter feito uma explanação preocupado. Ou só olhou para os jogadores e para o técnico com cara de quem não gostava do que viu? Para o repórter proibido de passar do portão, o mistério seria eterno. Restava esperar pelas respostas às perguntas enviadas pelo Whatsapp.

O jogo acabou. Nos minutinhos finais (jeito de confessar que não estava prestando atenção ao relógio) o ECPP Vitória da Conquista deu dois ou três sustos no Jequié. Mas, como diziam antigamente, era a melhora da morte, os suspiros de quem já havia sucumbido na batalha. O dono da casa perdeu. O personagem saiu do banquinho um pouco antes de o juiz trilar o apito pela última vez naquele início de noite. O repórter preferiu não saber e nem adivinhar o que foi dito naquele vestiário.

O repórter ficou no estádio por mais uma hora após o jogo, conversando com jogadores do Jequié. Eles elogiam o Vitória da Conquista e falam da importância de ganhar dele em jogo fora de casa. Acreditam que a vitória de 1 a 0 é um bom sinal de que o time jequieense vai se dar bem no Campeonato Baiano, mas, apostam que o time conquistense não ficará em situação tão ruim como a torcida começou a pensar que irá. O desastre do rebaixamento não virá, disse um gentil atleta do time dirigido pelo deputado Leur Lomanto Júnior, neto do ex-governador que construiu o estádio conquistense e lhe dá nome. Pelo menos uma voz, dos que estavam perto, emitiu um “quá”, diante da certeza do jogador do Jequié que vaticinou o sucesso do Vitória da Conquista.

E o emissor do “quá” não estava sozinho. O povo que estava na arquibancada saiu do estádio aborrecido. Como se diz, “gato escaldado…”, o que mais se ouvia eram previsões desastrosas, de que nada iria mudar, senão piorar, se ficassem o técnico e alguns jogadores. A julgar pela alternância de nomes, a cada manifestação individual da torcida zangada, não ficaria ninguém no time. Um dos poucos que se salvavam do azedume da arquibancada era o zagueiro Sílvio. Ele defendeu o ECPP em quase todos os campeonatos baianos, desde o primeiro. Joga sério. É levado a sério. Sílvio não estava mais no estádio quando o repórter conseguiu uma carona para subir de carro a ladeira até o portão de saída e depois até em casa.

“Sempre assisto ali os jogos”. O pop up no smartphone do repórter mostra a primeira resposta do nosso personagem. Não está escrito acima, mas, ele já havia dito que o banquinho sob as árvores, atrás do gol dos portões, era o lugar onde ele assistia aos jogos há mais de dez anos. Faltavam uma semana e dois jogos para a noite em que a torcida vaiou de verdade o time, pela primeira vez este ano, pedindo a cabeça do técnico Washington, e mais três dias para a vergonhosa noite na Arena Fonte Nova, quando o bode alviverde tomou seis gols e fez um, o quinto em cinco jogos. Restam quatro jogos e a esperança. Até lá, angústia. “Muito angustiado”, escreveu o nosso personagem. “Infelizmente, não veio a virada”, ele falou do jogo contra o Jequié.

“Não estamos satisfeitos com o time”, disse, acrescentando: “Acho que ninguém está”. E, além da angústia, afirmou, como se lhe restasse muito pouca esperança de chegar a uma boa posição no campeonato: “Mas, é seguir trabalhando. Não há outra alternativa”. O repórter, sem disfarçar a expressão de alegria pela resposta obtida, sinal de consideração e respeito, aproveitou a brecha e foi além, destacando a insatisfação da torcida com o técnico e perguntando se a situação do mesmo era tranquila ou o resultado do jogo da Copa do Brasil, marcado para o meio da semana, poderia mudar o quadro. A resposta continha, ao mesmo tempo, sinceridade e drible. “Torcedor é emoção [sinceridade]. Normal. Quando anunciado [o técnico] era um herói, quando não ganha ninguém presta. Nem técnico, nem jogadores e nem diretoria [sinceridade]. Não penso em mudanças [drible]. É continuar o trabalho. Terça-feira teremos uma final. Só vamos pensar nisso”.

Deu empate na final a que ele se referiu. O time parou, pela terceira vez, no primeiro jogo da Copa do Brasil. Desta vez, além da chance de avançar, o empate com o Boa Esporte, de Ituiutaba (MG), impediu de o clube conquistense embolsar R$ 600 mil pela classificação à segunda fase, com esse dinheiro, mais o patrocínio do local e os R$ 500 mil pagos pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), só pela presença no torneio, estaria cobrerta a folha até junho. Mas, quando se trata de futebol e da paixão que desperta, não perder, jogando até bem, poderia ser uma razão para voltar a ter esperança no desempenho do time no Baianão. Não foi.

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Poucos torcedores no último jogo. Espera-se que a confiança os leve de volta ao Lomantão contra a Jacuipense

Desconfiados, apenas 726 torcedores pagaram para ver o Bode enfrentar o Juazeirense, no dia 4 de fevereiro. E perder por 2 a 1. Num jogo em que só se viu alguma manifestação do técnico Washington depois do gol, quando bateu palmas para os jogadores e deve ter dito: “Vamos que ainda dá”. Não deu. Torcedores que perceberam que o nosso personagem estava no mesmo lugar de onde, há dez anos, vê o ECPP jogar, gritavam, olhando em sua direção, que o técnico era o culpado. Ou era o time todo. Alguns achavam que era ele mesmo, que não estava sentado no banquinho quando o Juazeirense fez os dois gols, nem quando o bode diminuiu. Ficou mais tempo em pé e visivelmente mais angustiado. Tinha que decidir. A torcida, Criptonita, disse que não arredaria o pé da arquibancada até que saísse a notícia da defenestração do “culpado”. O Coração de Leão foi demitido logo após o jogo.

 

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Sílvio em campo contra o Juazeirense
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A Criptonita, torcida organizada que ajudou o ECPP a subir, não quer que ele caia.

Contra o Juazeirense foi outro jogo em que o repórter ouviu, muitas vezes, de muitos torcedores, gritos como “vai, Sílvio, vai. Só tem você”. Embora entenda de quase nada do futebol, o repórter concordou. Viu Sílvio sério como sempre. Gesticulando para os companheiros de time. Mostrando raça e empenho. Talvez, até confiança. Quem sabe com Sílvio empurrando o time dentro das quatro linhas (repórter querendo mostrar afinidade com o futebol) e Lima no lugar de Washington, orientando os atletas na beira do campo, o Vitória da Conquista não surpreenda o Bahia, o tricolor de aço, que, entre suas fantasias, tem uma que imita o Super Homem? Afinal, a torcida do Bode é a Criptonita.

O jogo em Salvador acabou 6 a 1. Todos os gols no segundo tempo. Nem Sílvio salvou a vergonha. Nas redes sociais o nome do clube virou meme: “Agora entendi porque o nome é Esporte Clube Primeiro Passo, é porque só deu o primeiro passo e tropeçou os restantes”, lia-se, de torcedores (ou não-torcedores) aborrecidos (ou maldosos), referindo-se ao fato de que o Vitória da Conquista venceu a primeira contra o fraco Atlântico e perdeu as demais no Baianão. O time volta a jogar em casa nesta quarta-feira, 14, contra a Jacuipense, que está abaixo do Bode na tabela, apenas um ponto, mas com um jogo a menos. A reação do alviverde depende totalmente dessa partida. O jogo contra a Jacuipense é quase tudo. Depois, são dois fora e só um em casa. No desespero e sem torcida.

Nunca um dia teve tamanha semelhança com o momento de um time, como a quarta-feira de cinzas para o ECPP Vitória da Conquista. A exemplo dos foliões que caem na folia durante o carnaval, o time chegará à quarta-feira esbagaçado, exaurido, com uma tremenda ressaca da goleada levada do Bahia, mas sabe que é o dia do recomeço, de encarar a realidade com a máxima força possível. Sentado no banquinho ou dando voltas em torno dele, taciturno, sem dar muita pinta de seus sentimentos, o nosso personagem estará martelando em sua cabeça uma reação para que, de sua trajetória como homem do futebol, o que se eternize não seja a queda para a segunda divisão do time que, em seus sonhos, nasceu para chegar a Dubai ou a Tóquio, na disputa do Mundial de Clubes, ainda que esta seja apenas uma meta metafórica.

Quem salva esse sonho? Ederlane Amorim, presidente do ECPP,  personagem que vê os jogos do banquinho sob as árvores? Há quem ache que em se tratando deste Baianão, a vaca já foi para o brejo, que nem Sílvio salva.

ATUALIZAÇÃO: Nesta quarta à noite, o ECPP Vitória da Conquista entra em campo comandado pelo técnico Estevam Soares, o mais experiente dentre todos os que já assumiram o time desde sua existência. Estevam já dirigiu, entre outros, Botafogo/RJ, Palmeiras/SP e Ceará/CE.

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4 comentários em “Futebol conquistense: será que Sílvio salva?

  1. …só queria saber que é esse personagem do banquinho….

  2. …afinal, quem é esse personagem do banquinho? o Ederlane?

  3. Pingback: Ufa! O Vitória da Conquista ganhou em casa, 2 a 1 | Blog de Giorlando Lima

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